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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Sobre o caminho a seguir

por Amato, em 28.09.17

https://oss.adm.ntu.edu.sg/xtan060/wp-content/uploads/sites/1805/2017/08/2108-cheshire-cat-alice-in-wonderland.jpg

 

— Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
— Isso depende muito de para onde queres ir — respondeu o gato.
— Preocupa-me pouco aonde ir... — disse Alice.
— Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas — replicou o gato.

 

Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas

Alemanha e Europa, extrema direita e história recente

por Amato, em 26.09.17

A Alemanha e a Europa estão chocadas — e bem! — com a ascensão da extrema direita de inspiração nazi (AFD) ao bundestag, o parlamento alemão.

 

Há três anos, em fevereiro de 2014, a mesma Alemanha e a mesma Europa — falar de uma é falar da outra, não é? — apoiaram o golpe de estado na Ucrânia que colocou os nazi-fascistas no poder, derrubando um presidente e um governo democraticamente eleitos.

 

Devemos, portanto, duvidar destes políticos que dizem detestar a extrema direita. Se calhar não detestam. Se calhar são farinha do mesmo grão, mas muito processada em hipocrisia.

 

http://cdns.yournewswire.com/wp-content/uploads/2017/04/Germany-censor-alternative-media.jpg

 

Alemanha, capitalismo, realidade

por Amato, em 24.09.17

Decorrem hoje as eleições para o parlamento alemão e para a posição de chanceler. Os alemães vão, uma vez mais, escolher a direção e o sentido das políticas do seu país. Sobre este propósito, tive a oportunidade, ontem, de assistir a uma grande reportagem que passou na RTP3, sob o título Alemanha: O Reverso da Medalha, assinada por António Louçã, jornalista.

 

Fiquei chocado.

 

A reportagem atravessa os vários planos da sociedade alemã contemporânea, diretamente erigida após a queda do muro de Berlim. De longe, a maior e mais poderosa economia europeia, “o motor da Europa”, uma das mais fortes economias mundiais que todos os anos acumula excedentes de produção, a Alemanha real, a Alemanha das pessoas, não reflete, nem de perto nem de longe, essa pujança e sucesso avassalador da sua economia. Pelo contrário, a pobreza extrema alastra, o abismo entre ricos e pobres aprofunda-se e a facilidade com que um indivíduo da classe média pode cair na indigência é inacreditavelmente assustadora.

 

O que me choca nesta história não é o conhecimento dos contornos da história em si. Isto é capitalismo no seu esplendor. Isto é o que qualquer economista que tenha um mínimo de decência intelectual e de respeito pelos seus estudos dirá que acontece, inevitavelmente, em qualquer sociedade capitalista. Isto é o caminho, é a meta inexorável do sistema capitalista. O que me choca é que estamos a falar da Alemanha. Se há país que tem todas as condições para distribuir mais rendimentos pelos seus cidadãos, ainda que favorecendo a burguesia, ainda que concentrando riqueza sobre os mesmos, é a Alemanha. É o país mais rico europeu.

 

E, todavia, promove um sistema de aluguer de trabalhadores. Disse bem: os trabalhadores não são mais contratados, mas alugados! A razão é que as pobres das multinacionais não podem condicionar os seus lucros a alterações inesperadas do mercado... Os trabalhadores, cujos vencimentos diminuem ano após ano, tão pouco exigem que as empresas lhes paguem quando ficam impedidos de trabalhar devido a doença. Estamos a falar de salários que rondam os doze euros à hora e em que o salário mínimo não chega aos nove euros por hora. Esta é a realidade alemã.

 

E, todavia, o sistema de segurança social alemão obriga a uma expropriação compulsiva dos trabalhadores que caem no desemprego para que possam usufruir de um subsídio! Vejam bem: não é comunismo, é capitalismo! Os desempregados têm que vender todos os seus bens e gastar todo o dinheiro para poderem usufruir de um subsídio! E, depois, para poderem continuar a usufruir desse mesmo subsídio, são obrigados a trabalhar por um euro à hora! O mais grave é que, ainda assim, há relatos de que esta situação consegue ser mais vantajosa do que o que o mercado de trabalho alemão oferece!

 

Repito: estamos a falar da Alemanha! Não é Portugal, não é a Grécia. É a Alemanha!

 

A reportagem finaliza ainda com um retrato negro dos serviços públicos da saúde e da educação. É que, depois de tanto imposto e de tanto saque a quem trabalha, tão pouco sobeja dinheiro para investir nos hospitais e escolas, onde enfermeiros, médicos e professores trabalham sem as mínimas condições e oferecendo serviços de saúde e educativos de baixa qualidade ao povo.

 

Há também uma alusão muito curiosa aos tempos da Alemanha de leste, a RDA: “Seria de esperar que, pelo menos na RDA, o salário tivesse aumentado”. Não tenho a frase literal, mas foi qualquer coisa do género. Sendo o suficiente para despertar a curiosidade, é pena que o jornalista não tenha explorado este ponto. Se puxasse por este fio, creio que desmontaria muita da ladainha anticomunista tricotada no ocidente a propósito da RDA. Fala do destino dos têxteis e de tantas fábricas no leste que, após a queda do muro, foram imediatamente fechadas e deslocalizadas, já nos anos noventa, para outras paragens de mão-de-obra barata.

 

Em França, Macron pretende copiar este “virtuoso” modelo alemão. Ninguém poderá chamar Macron de mentiroso porque apresentou-se a votos com este mesmo propósito e os franceses nele votaram. Em abono da verdade, muitas destas políticas vão sendo replicadas desde há algum tempo, com esta ou aquela nuance, em Portugal e no resto da Europa. É o pensamento único europeu. É o pensamento único do capitalismo.

 

Na Alemanha, os alemães votam também a esta hora que escrevo. Eles é que são os donos do seu destino. Eles é que moldam com as suas próprias mãos o país que têm, o país que querem e o país que merecem.

Guterres, o homem com h minúsculo

por Amato, em 22.09.17

Terça-feira, 19 de setembro de 2017. Donald Trump discursava perante uma assembleia repleta das Nações Unidas. Do alto da sua boçalidade, entre insultos variados e gratuitos à Coreia do Norte, aos seus dirigentes e ao seu povo, disse que, se a oportunidade se se apresentasse, destruiria completamente aquele país. A seu lado, o presidente das nações unidas, impávido e sereno. Disse bem: o presidente das Nações Unidas, aquela instituição que foi criada para promover a paz, a concórdia e o diálogo entre os povos após duas grandes guerras mundiais, após um senhor chamado de Adolph Hitler, chanceler alemão, ter procurado subjugar meio mundo e depois de um senhor chamado Franklin Roosevelt, presidente Americano, ter autorizado o lançamento de duas bombas atómicas sobre o Japão, numa das mais obscenas chacinas perpetradas a coberto da guerra, o presidente das Nações Unidas manteve-se impávido perante um presidente de uma nação que afirmava que destruiria completamente um outro país.

 

É importante que coloquemos nomes, que relembremos a história, porque se não o fizermos corremos o risco de crermos nestas fábulas contemporâneas que nos são servidas pelos media do capitalismo.

 

Mas voltando ao que escrevia, Trump foi às Nações Unidas e disse que dizimaria um povo. Não houve ninguém que o chamasse de genocida. Houve um burburinho, apenas isso. Os amigos genocidas de Israel bateram palmas, claro. Mas ninguém apontou a gravidade da afirmação. O presidente das Nações Unidas manteve-se sereno. Não foi capaz de dizer, “Sr. Trump, modere a linguagem, vamos procurar respeitar-nos. Vamos falar de paz e não de guerra. O senhor está na casa das Nações Unidas, não num reality show qualquer”. Ao que consta, ele acha muito bem tudo aquilo. Ele acha que as Nações Unidas devem ser precisamente isto, um púlpito pomposo onde os países poderosos humilham os demais, uma espécie de canal mundial do serventualismo.

http://lachachara.org/chachawp/wp-content/uploads/2017/03/Turcios-Antonio-Guterres-ONU.jpg

 

Guterres não me surpreende em nada, na verdade. O seu percurso fala por si. É um homem muito pequeno, baixo, um homem de h minúsculo, que se assemelha na forma intelectual mais a um rastejante do que a um mamífero. Sempre foi um serventuário do poder no plano nacional e internacional e, agora, exerce a sua vocação ao mais alto nível.

 

Olhamos para trás, para a poeira da história e ficamos sempre muito espantados. Espantamo-nos com o modo como chegaram ditadores exploradores de povos ao poder. Espantamo-nos com as guerras e com a violência gratuita. O espanto, também ele, é gratuito. As razões estão aqui, bem claras, no presente. As razões estão nos homens com h minúsculo que, como Guterres, servem os mais odiosos poderes sem vestígio de princípios ou valores ou espinal medula.

Sobre a maravilhosa coincidência

por Amato, em 18.09.17

A questão que veio cair como fétida nódoa na imaculada reputação política de Fernando Medina é de um assinalável interesse.

 

Desde logo, porque a alvura da reputação política de Medina a que me referia na oração anterior tem tanto de falso, quanto de artificial, pois não é fruto de nenhuma particular evidência mas, pelo contrário, de empenhado labor de há muitos anos a esta parte dos media nacionais. Casos como este são, aliás, assaz frequentes. De entre a panóplia de malfeitorias que lhes são características, os media adoram o tricotar miudinho de santos políticos de pau oco, falsos ídolos impolutos, ao mesmo tempo que ocultam habilmente os respetivos rabos de palha que só se vêm a revelar muito mais tarde numa mistura de incredibilidade, de espanto e de histeria.

 

Mas o que é mais interessante não é a questão em si, isto é e fazendo fé nas notícias que têm vindo a público, a maravilhosa habilidade de Medina para a venda e compra de imóveis com margens de lucro absurdas ao mesmo tempo que adjudica diretamente obras na autarquia de milhões de euros à mesma parte envolvida nos negócios. Não, o que é mais interessante não é esta maravilhosa coincidência que só acontece aos eleitos para governar no meio dos homens. Antes, é a faculdade que o caso nos confere para identificar serventuários do sistema, jagunços da panela de que Medina é a face, agora e por ora, visível. Isto, sim, é deveras interessante.

 

E são tantos, são tantos..., nas televisões e nos jornais, por toda a parte, de tantos e diferentes quadrantes da sociedade lisboeta. Não é por acaso que Medina leva uma tão abundante vantagem nas intenções de voto. Quem defende o indefensável seguramente terá algum interesse concreto na sua eleição.

Transmissão de valores

por Amato, em 17.09.17

Hoje tomei conhecimento de que Fernando Medina, a maior esperança política do PS, é filho de Edgar Correia e de Helena Medina, dois destacadíssimos comunistas e intelectuais do final do século XX.

 

Não deixa nunca de me espantar como é possível que dois comunistas sejam capazes de educar um não comunista.

 

Bem entendido, é certo que o filho pensará pela sua própria cabeça e também é certo que deterá o seu próprio património genético. Neste particular, é possível que “ser comunista” esteja codificado num gene recessivo. Também há a possibilidade — ainda mais provável devido à clandestinidade e cárcere dos pais em tempos de ditadura — de que o filho tenha sido educado pela ama e não pelos progenitores como seria devido. Tudo é especulação neste ponto.

 

A questão é que ser comunista é uma questão de princípio, é uma questão moral mesmo. Ser comunista é ver o mundo de forma diametralmente diferente e é algo que, uma vez adquirido, faz parte do ser. É indissociável. Nunca me deixa de espantar, por conseguinte, quando vejo que tal tarefa de transmissão de valores tão singulares, digamos, de pais para filhos falha tão redondamente. E é aquela sensação recorrente de se ver alguém que podia ser melhor do que o que é não ser mais do que o que é comum, do que é vulgar, no contexto do pensamento dominante. Para Fernando Medina ser aquilo que é do ponto de vista dos valores, bem que podia ser filho de outro casal qualquer, não precisava de ser filho de Edgar Correia e de Helena Medina. É um sentimento de desperdício.

 

Depois continuei a ler sobre o resto da vida de Medina, o casamento e os sogros. Aqui a história começou a tornar-se mais interessante, porque é sempre tão interessante conhecer os passos e os degraus que levam, um após outro, os poderosos ao poder. Os requintes do processo assemelham-se aos requintes com que uma aranha tece a sua teia e aguarda pelo momento oportuno para colher os seus frutos. Não privarei, todavia, os meus leitores do gozo de descobrirem esta parte da história por eles próprios. A história está aí, na rede. É só pesquisar.

O ministro cara-de-pau

por Amato, em 09.09.17

Deixem-me ver se consigo descrever em poucas palavras o que se passa com os nossos enfermeiros especializados.

 

Há uma diferença, estabelecida na lei e lavrada nas tabelas remuneratórias, entre o salário de um enfermeiro sem especialização e um com especialização. Essa diferença anda à volta de mil euros, pelo que é substancial e deve ter motivado muitos enfermeiros a investir na sua formação para obter uma especialização. É claro que um enfermeiro especializado pode ser contratado para tarefas de enfermagem que não requeiram especialização e, nesse caso, será pago como um enfermeiro não especializado. O que tem acontecido, todavia, é de uma baixeza moral que quebra todas as barreiras.

 

Há vários anos a esta parte, os hospitais públicos e privados têm vindo a contratar enfermeiros com especialização, colocando-os em tarefas que requerem essa mesma especialização, mas oferecendo-lhes um contrato de enfermeiro sem especialização. Esta infame forma de se fazer as coisas tem-se prolongado no tempo alicerçada em promessas de alteração que nunca se cumprem, no elevado desemprego que afeta a profissão e numa ordem e sindicatos que, sinceramente, não sei o que estiveram a fazer até agora. É evidente que esta inadmissível situação teria que chegar a um ponto de saturação. Numa ação sobretudo simbólica, os enfermeiros têm entregado as suas cédulas de especialização e ameaçam com greve a toda e qualquer tarefa que requeira essa mesma especialização.

 

Face ao descrito, é preciso ter muita cara-de-pau para vir para as televisões apelidar o protesto dos enfermeiros de “ilegítimo”, “ilegal” e “imoral”. E mais: é preciso não ter um pingo de vergonha na cara.

 

http://www.iol.pt/multimedia/oratvi/multimedia/imagem/id/565609280cf2edd812797100/

 

Vivemos numa era engraçada, que disto não restem dúvidas. Vivemos numa era onde o indivíduo que nos rouba ou que, para todos os efeitos lidera a quadrilha dos que nos roubam, dos que diariamente nos ultrajam, ainda vem para a televisão e para os jornais insultar-nos na cara.

 

Volto a repetir esta ideia muito batida neste blog. Aqui estão as negociações do orçamento do estado. É aqui que elas estão, PCP e Bloco. A troco de umas esmolas a alguns reformados e a alguns funcionários públicos, está-se a apoiar um governo que consegue ser tão ou mais canalha para com quem trabalha (para com quem efetivamente trabalha neste país) do que o governo anterior. Pensem nisso. Para o vosso bem.

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