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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Com gente desta, como podemos evoluir?

por Amato, em 30.08.17

Para a comunicação social portuguesa e opinion makers em peso, desde que uma empresa invista no país e “crie” emprego, pode fazer o que bem lhe apetecer com os seus trabalhadores, inclusivamente forçá-los a trabalhar aos sábados por menos retribuição salarial e a proibir que desfrutem dessa autêntica benesse que é ter dois dias de descanso consecutivos.

 

Esta é a lógica. Os fins das empresas justificam todos os meios. Não existem quaisquer normas de tratamento das pessoas que trabalham. As pessoas, a sua saúde, devem ser colocadas indiscriminadamente ao dispor e subjugadas à obtenção dos lucros da burguesia.

 

Como podemos evoluir enquanto povo, enquanto sociedade, com gente desta a opinar e a inundar os ecrãs das televisões e as páginas dos jornais? Como poderemos ter um mundo mais justo, mais equilibrado, com melhor qualidade de vida e mais pacífico?

 

Não podemos.

 

O que fazemos é, pelo contrário, regredir a largos passos para os tempos do século XIX.

Uma pergunta é suficiente

por Amato, em 28.08.17

Por vezes, uma pergunta é suficiente. Não é preciso acrescentar mais nada. Uma pergunta diz muito sobre o calibre intelectual do interpelador e é capaz de esboçar um retrato pormenorizado do mesmo.

 

Hoje o noticiário das nove da manhã da SIC Notícias abriu com uma entrevista a um representante sindical dos trabalhadores da Autoeuropa, em Palmela. No decorrer da entrevista, o jornalista, de seu nome Joaquim Franco, fez a seguinte pergunta:

 

“E entende que é possível manter a produção que se pretende (...) deste novo modelo com essas restrições que vocês querem impor ao alargamento dos turnos?”

 

Recorde-se que os trabalhadores da Autoeuropa estão em luta contra o facto da empresa querer impor-lhes trabalho aos sábados sem que seja pago como trabalho extraordinário, mas para Joaquim Franco são os trabalhadores — “vocês” — que querem impor restrições à Autoeuropa. Mais, Joaquim Franco considera importante, neste contexto, questionar o representante sindical sobre a viabilidade da produção da empresa, induzindo o ouvinte no sentido de que essa viabilidade está a ser posta em causa com a ação dos trabalhadores.

 

Se esta pergunta já dizia tudo o que era preciso dizer sobre a mediocridade intelectual do indivíduo, ao qual se aconselha vivamente que leia mais, muito mais, sobre os movimentos sociais de finais do século passado que, entre outras coisas, lhe permitem fazer as perguntas imbecis que hoje faz de microfone na mão, a verdade é que esta pergunta também é reveladora da cândida “imparcialidade” com que é revestida boa parte da mui nobre comunidade jornalística portuguesa.

 

Uma nota para salientar algo que merece ser salientado. Esta situação que aflige os trabalhadores da Autoeuropa é o corolário esperado das ações de um movimento sindical muito elogiado por toda a sociedade — patronato incluído —, uma comissão de trabalhadores moderna e virada para o futuro, cujo líder inicial, entretanto reformado, até se tornou num símbolo pop da nova esquerda, para a qual a luta de classes é um conceito ultrapassado. Refiro-me a António Chora e ao Bloco de Esquerda, como é evidente. Convém que coloquemos os nomes nas pessoas e nos partidos para que se saiba a quem é devida a responsabilidade das coisas.

 

De acordo em acordo, de cedência em cedência, muitas vezes a troco de umas efémeras esmolas, este movimento sindical foi permitindo ativamente que um quadro de direitos laborais minimais fosse instituído naquela empresa e a situação foi perdurando até recentemente quando os trabalhadores se uniram e disseram basta! Os trabalhadores sentiram que não podiam continuar mais a ceder, vergados a ameaças constantes de encerramento e deslocalização e à ladainha vazia e hipócrita do costume por parte da empresa e que faz parte da cartilha que é sempre recitada pela burguesia nestas ocasiões. Parabéns aos trabalhadores da Autoeuropa pela sua coragem. Perderam, todavia, muito tempo. Sobre isto o Bloco de Esquerda não diz uma palavra. António Chora também não. A estes, nem uma pergunta. Passam pelos eventos como que saltitando por entre os pingos da chuva. António Chora nunca foi alguém verdadeiramente importante. Foi simplesmente alguém a quem o capital recorreu para levar os seus interesses avante. A burguesia tem inúmeros recursos para minar e dividir a luta dos trabalhadores. Chora foi apenas mais um.

A Caixa está a morrer e ninguém quer saber disso

por Amato, em 25.08.17

O que está a acontecer à Caixa Geral de Depósitos é assustador mas também é revelador de uma assustadora fragilidade dos alicerces que sustentam a nossa sociedade.

 

Outrora o banco mais sólido e mais confiável do país, com uma credibilidade incrementada pelo estado que somos todos nós, a Caixa está a ser desmantelada peça por peça e no final deste mesmo ano civil já não restará nada a fazer sobre o caso.

 

Sobre este assunto escrevi no início deste mês um artigo algo inflamado que pouco ou nenhum eco teve.

 

A Caixa está a morrer, matam-na com plena consciência, e ninguém quer saber. Por ventura a Caixa teria para mim um significado que para os outros não tem ou nunca teve. Mas independentemente de sentimentalismos que, objetivamente, não têm lugar nesta economia de mercado de bestas selvagens, a morte da Caixa é o estado a dizer categoricamente e de uma vez por todas que a economia do país está entregue nas mãos da alta finança burguesa. Não é que informalmente isso já não fosse assim, mas agora não é mais informal, é formal mesmo, de papel passado e assinado por todos.

 

A Caixa está a morrer e ninguém quer saber disso. Espanta-me, em particular, o conjunto dos funcionários da Caixa e os seus movimentos sindicais. Vivendo o seu dia-a-dia sob o cutelo do encerramento dos seus postos de trabalho, da mobilidade e do despedimento, vendo claramente o que se está a passar in loco e melhor do que ninguém, todos eles com graus universitários em economia e finanças, encontram-se perfeitamente paralisados de movimentos. Todos eles percebem bem o que se está a passar. Alguns ensaiam justificações mais ou menos patéticas quando se lhes dirige alguma pergunta. Outros encolhem os ombros. Quando a Caixa fechar fechará para todos, independentemente das patetices das justificações. O tempo de agir foi ontem e é agora. Se calhar ainda vão a tempo.

 

Mas não me parece.

 

O que me parece é que só ensinam imbecilidades e patetices nestas faculdades de economia e finanças. E ensinam este pensamento único deste capitalismo obsoleto que apenas serve a concentração da riqueza e a exploração dos povos.

 

A Caixa está a morrer mas antes de darmos plenamente por isso ainda vamos conviver com ela em modo de cadáver por alguns anos. O cadáver da Caixa vai continuar, minimal, com número reduzido de balcões, a atender os reformados e os pensionistas pobres aos quais não são cobradas taxas de manutenção de conta. Depois, mesmo esses, tal como os outros, serão também corridos da Caixa e far-se-á o enterro do cadáver.

 

Custa-me muito descrever por palavras isto que a direita — da qual o governo é ator principal — está a fazer à Caixa. Custa-me muito que ninguém queira saber disto, nem povo, nem Partido Comunista Português, nem Bloco de Esquerda, nem sindicatos, nem ninguém. Todos assistem à morte da Caixa e ninguém diz nada, ninguém faz nada. Que tenham a dignidade de não verter uma única lágrima hipócrita quando a Caixa morrer.

 

PCP e Bloco apoiam o governo e, por inerência, o que o governo faz. Não há meio termo. Assumam-se! E, já agora, poupem o país às inúteis comissões de inquérito parlamentares do costume e à procura de bodes expiatórios para o assunto quando o assunto estiver concluído. Paulo Macedo está a matar a Caixa agora tal como o governo lhe pediu. É tirá-lo de lá agora enquanto é tempo. Amanhã será tarde. Preocupem-se com isto em vez desta ou daquela migalha no IRS na negociação do orçamento de estado. Preocupem-se não em garantir migalhas mas em obrigar o governo a não governar à direita em tudo o que realmente interessa.

Não percebo estas homenagens de palmas

por Amato, em 19.08.17

Não percebo estas homenagens de palmas. Não percebo, de verdade. Não é por mal.

 

Os outrora “minutos de silêncio”, minutos de pesar, de introspeção, de consternação e de respeito, têm vindo a ser substituídos gradualmente por minutos de palmas. Se no caso de um artista do teatro ou do desporto consigo entender a ideia como uma última salva de palmas terrena depois de tantas outras dadas em vida — vidas de palco, vidas de espetáculo —, no caso de atentados terroristas, de catástrofes naturais ou acidentes, de verdadeiras tragédias, não consigo perceber qual é o alcance de se brindar as vítimas com uma salva de palmas.

 

Um terrorista atropela treze pessoas nas ramblas em Barcelona; homenageia-se as vítimas com uma salva de palmas. Desculpem mas não entendo nem me parece apropriado. São os novos tempos e os seus novos conceitos.

Consequências lógicas do sistema

por Amato, em 16.08.17

As pessoas não entendem que isto não é por mais esta ou aquela lei, não é por mais polícia na rua, por mais guichets de serviços, pessoal a atender ou papéis para preencher. O que está mal é o sistema. O que está errado é esta filosofia que preside às sociedades humanas e que nos está tão entranhada desde o momento em que vemos a luz do dia e que somos formatados para sermos peões sobre este tabuleiro de xadrez.

 

As pessoas não percebem isto. Porque a lei não existe para sermos tratados por igual. Porque a polícia não existe para nos proteger por igual. Porque os serviços não existem para sermos servidos por igual. Porque os papéis não servem uma organização social que nos trata por igual. A lei, a polícia, os serviços e os papéis servem para proteger o dinheiro e quem o tem. Este é o seu singular propósito.

 

O problema está no sistema, na filosofia, no capitalismo. Nunca nos poderemos tornar melhores sob um sistema que nos trata como cães em disputa constante por uma mesma côdea de pão. Tudo o que vamos assistindo — crime, corrupção, injustiça, iniquidade — são meras consequências lógicas, expectáveis, do sistema.

 

As pessoas não entendem isto. É difícil de entender.

 

Mude-se o sistema, destrua-se o capitalismo e, então, poderemos ambicionar atingir um outro nível mais equilibrado, mais justo, mais democrático, moralmente mais elevado, mais avançado.

Retratos da democracia moderna

por Amato, em 15.08.17

Será que sou só eu que considera os pontos de situação diários sobre os fogos um espetáculo deprimente, algo ultrajante e, também, vexatório?

 

A política portuguesa, em linha com a internacional, terá ingressado em definitivo num género de espetáculo mediático com tanto de entretenimento, quanto de putrescência.

 

O importante não é a ação governativa. Não. O importante é o espetáculo que se monta. Ninguém assume responsabilidade de nada desde que o plano televisivo seja favorável e os comentários — por muito imbecis que sejam — abonatórios.

 

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Porque aquela senhora da proteção civil vem todos os dias pelas nove horas matinais à televisão descrever-nos como é que o país ardeu no dia anterior, como vai arder nesse dia e como se perspetiva que arda nos dias seguintes, porque se presta todos os dias a esse desonroso papel de nos informar de algo — o trabalho do governo, dos bombeiros e da proteção civil — sobre o qual não teremos qualquer responsabilidade, parece que o seu dever — prevenir e solucionar o problema dos fogos — fica cumprido e que larga um fardo sobre os nossos ombros, aliviando os seus próprios ombros do peso do seu dever. É como se o dever primordial das autoridades fosse aquele briefing e não o que está a montante do briefing. Com o passar do tempo, acreditamos que sim.

 

Neste país até as coisas mais rudimentares parecem estar a funcionar ao contrário. O exercício da responsabilidade assume hoje uma sinuosa natureza. Hoje em dia é mais importante um briefing sobre o dever do que o dever propriamente dito. Será isto parte do conceito de democracia moderna? Lamentavelmente, esta democracia moderna tem muito pouco de avançada.

Silly season — a façanha

por Amato, em 14.08.17

Em 1998 Donald Trump terá dito, a propósito de uma possível candidatura à Casa Branca, que se se candidatasse, fá-lo-ia pelos republicanos. É que, segundo ele, constituíam o grupo mais estúpido de votantes, que se acreditavam em tudo o que a cadeia de notícias Fox News dizia, mentiras incluídas.

 

If I were to run, I'd run as a Republican. They're the dumbest group of voters in the country. They believe anything on Fox News. I could lie and they'd still eat it up. I bet my numbers would be terrific.

— Donald Trump, 1998, People Magazine

 

Quando sou literalmente assaltado pelas sempre extensivas e pormenorizadas coberturas mediáticas da Festa do Pontal, pergunto-me se Pedro Passos Coelho e o PSD não estarão em proporção para Donald Trump e para o Partido Republicano. É como se não existisse memória. É como se fossemos todos peixinhos de aquário para os quais quase tudo é novo a cada instante.

 

Entretanto mudei rapidamente de canal e perdi o paralelismo sem interesse.

 

Todavia, gostava de ver as televisões, os jornais, os comentadores, tentarem a inédita façanha de colocar um burro, um asno mesmo, uma besta sobre quatro patas, na posição de primeiro-ministro deste país. É que eu acho que conseguiam! E o povo aplaudia! A sucessão histórica no cargo também concorre para o meu otimismo. É só mais um pequeno passo! Coragem e perseverança!

 

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