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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Não há Páscoa que nos valha

por Amato, em 14.04.17

Há uns anos largos, quando as agressões dos Estados Unidos da América sobre o Iraque e Afeganistão já se prolongavam no tempo, mas ainda antes do início da invasão da Líbia — deve ter sido na viragem da primeira década deste milénio, creio —, conversava eu com dois altos quadros do país sobre temas vários e caí no erro de tocar neste assunto, na questão da política externa norte americana.

 

O primeiro, um médico destacado, disse-me isto que reproduzo textualmente: “Os americanos deviam lançar bombas em todas as zonas muçulmanas e terraplanar aquilo tudo”. E acrescentou: “Só assim se resolvia o problema”. A segunda, uma promissora cientista investigadora na área da microbiologia, concordou de forma efervescente com o seu par e acrescentou, de olhinhos brilhantes a espreitar por detrás de umas lentes grossas, uma outra imbecilidade qualquer da qual, com sinceridade, não me recordo. Como é óbvio, não prossegui com o tema.

 

Reparem que não estou a falar de duas pessoas quaisquer, não estou a falar de duas pessoas comuns, com pouca educação ou parca formação intelectual e cultural. À partida, tratavam-se de duas personalidades de relevo, com condições para maturar uma opinião equilibrada, contextualizada e com bom-senso. Mas não, notei com admiração: a opinião deste médico e desta cientista eram iguais à de tantos outros. Não precisavam eles, o médico e a cientista, de terem tido tanta formação, de se terem dedicado tanto aos estudos, para, com efeito, emitir uma tal opinião. Essa mesma opinião encontra-se em qualquer tasca ou café, em qualquer estádio de futebol, em qualquer canto mais esquecido e menos iluminado pela cultura neste país.

 

Mais não seria preciso para colocar a nu a evidência de que estas questões puramente políticas, a forma como vemos o nosso semelhante, a forma como encaramos os conflitos das sociedades e dos povos, pouco ou nada têm que ver com a educação do indivíduo. Nascem connosco. São parte de nós, como uma força que se manifesta no momento certo, quando devemos tomar partido. Acreditem, isto é mais genético do que de outra natureza.

 

Recordo-me muitas vezes desta história chocante. Lembrei-me hoje, particularmente, a propósito do lançamento da já famosa bomba americana sobre o Afeganistão, uma bomba capaz de destruir uma zona com um diâmetro de 1,4 km. Espanto-me por assistir às reações do mundo ocidental, o “mundo católico e cristão”, o “mundo da paz”. É vê-los a descrever em detalhe, regalados, as 8,4 toneladas de explosivos que compõem o engenho, o seu alcance e a sua profundidade. Pergunto-me: «Onde estão as reações de choque e de reprovação? Onde vivem as memórias de Hiroshima e Nagasaki?».

 

Mas o meu espanto é uma reação automática, não muito justificada, devo admitir. O mundo está repleto de gente como o médico e a cientista de que falava no princípio. Eles acham que isto resolve-se desta forma, lembram-se? Tivessem eles o poder, a motivação e a coragem, e seriam simetrias perfeitas dos mais abjetos terroristas que possamos encontrar do outro lado do mundo e que hoje abominamos em uníssono.

 

É uma época triste para a humanidade. Para alguns de nós, não há cordeiro expiatório, nem um qualquer homem na cruz, não há Páscoa, nem outro ritual diverso que nos possa valer. Estamos condenados, pela nossa própria natureza, a uma existência de mesquinhez, de desconfiança e de inimizade.

Sem esquerda verdadeira, resta a direita, PS incluído

por Amato, em 13.04.17

Catarina Martins bem pede a António Costa, “Vá lá, Sr. Primeiro-ministro”, só para ouvir “Não pode ser, Sra. deputada”. Jerónimo de Sousa confessa-se muito desiludido com as propostas do governo, “Não se pode dar um passo maior que a perna”, diz Costa, e Jerónimo quase que chora. E toda esta charada prossegue a cada sessão parlamentar.

 

Bloco de Esquerda e, sobretudo, Partido Comunista Português mostram-se disfarçadamente envergonhados, como dois partidos emasculados ideologicamente. É a venda do Novo Banco, é o processo de recapitalização da CGD, é o sucumbir na questão das SWAPS com o Banco Santander, é a obsessão com os défices e as metas artificiais europeias — únicos objetivos governativos —, é a ausência de nenhuma transformação efetiva na sociedade, é o contribuir para uma solução governativa indubitavelmente preponente do caminho da direita para as sociedades e para os povos.

 

António Costa ainda se dá ao descaramento de vir dizer que quer repetir os acordos na próxima legislatura, ainda que venha a conseguir maioria absoluta. Pois como não quererá ele isso?! Tivesse tido Costa maioria absoluta e PCP e Bloco nunca votariam a favor destes orçamentos de estado e destas soluções para a banca e para a economia. E esta realidade apenas concorre para o enxovalho a que estes partidos estão visivelmente votados e ao qual o eleitorado — já avisei por mais que uma vez — não é alheio.

 

É preciso dizê-lo e nunca é demais repeti-lo. Este governo é idêntico ao governo anterior: tem um estilo diferente, mas a sua proposta para o país é a mesma, o seu modelo é o mesmo, a sua ideologia é a mesma.

 

Agora, PCP e Bloco de Esquerda preparam-se para se agarrar à questão europeia como desculpa esfarrapada para o que não foi feito. O Bloco de Esquerda, particularmente, até já inverteu o que vinha dizendo sobre a Europa, propondo já a saída do Euro, como se isso se tivesse tornado numa evidência agora e já não o fosse antes. A isto se chama um partido invertebrado ideologicamente, alterando de rumo de acordo com os ventos como se de um barco à vela se tratasse.

 

O futuro avizinha-se tenebroso. Sem esquerda verdadeira, resta a direita, PS incluído, para prosseguir a destruição ou, quanto muito, o adiamento do país que poderíamos ser.

A direita precisa de ser derrotada no seu próprio jogo

por Amato, em 12.04.17

O economista Octávio Teixeira escreveu um artigo no passado dia 6 de abril que considero precioso. Nele, são desmontados, um por um, todos os argumentos que, como bichos papão, a direita burguesa atira para os olhos do povo quando se fala em Portugal sair da moeda única.

 

Acho que faz muita falta derrotar a direita no seu próprio jogo. A esquerda perde-se muitas vezes numa dicotomia ideológica com a direita que sempre considerei não ter qualquer razão de ser. Aliás, pergunte-se a um português médio e ele vos dirá que a direita é mais confiável com as “contas” e com as “finanças” e que a esquerda preocupa-se mais com as “desigualdades” e com os “aspetos sociais”. Esta ideia geral é um disparate e quem a alimenta ou é um ignorante ou quer fazer dos outros burros. Como duas faces da mesma moeda, a parte social e a parte económica de uma sociedade são indissociáveis. Alterações numa implicam alterações na outra, nem se pode governar um país a pensar apenas numa destas facetas.

 

O artigo original encontra-se aqui, hospedado no jornal online AbrilAbril, um espaço alternativo que merece um lugar nos favoritos do browser da internet. Realço, todavia, a parte que considero importante ser veiculada.

 

  1. «A moeda desvalorizava-se brutalmente, a inflação aumentava bastante, ocorreria uma forte desvalorização dos salários.»

 

A verdade é que a moeda se desvalorizará tanto quanto o exige a necessária reposição dos equilíbrios macro na economia portuguesa. Nem mais nem menos «brutal» do que isso, pois será dirigida pelo Banco de Portugal e não deixada à livre flutuação nos mercados financeiros. E é falsa a sugestão implícita dos Euro-terroristas da igualdade entre taxa de desvalorização, taxa de inflação e redução dos salários.

 

Quanto à inflação importada, será muito menor que a taxa de desvalorização (cerca de um quarto) pois o peso das importações no consumo privado é cerca de 26%. E o choque será apenas inicial, rapidamente regressando ao nível da inflação «estrutural» (veja-se o exemplo recente da Islândia). Isto no máximo, porque existem estudos mostrando que a evolução da taxa de câmbio se transmite de forma parcial e diferida no tempo e nem sempre na sua totalidade.

 

No que respeita aos salários, nada obriga a que tenham de ser reduzidos em termos reais por efeito do aumento da inflação e muito menos ao nível desta. É possível indexar os salários e as pensões de reforma à taxa de inflação, de forma a manter intacto o seu poder de compra e, simultaneamente, reforçar a legislação laboral e o nível de emprego que tenderão ao aumento dos salários.

 

  1. «Ocorreria um forte agravamento das dívidas do Estado, dos bancos e das empresas, porque temos a nossa dívida expressa em euros.»

 

Pelo contrário, em termos reais as dívidas ao exterior seriam reduzidas por efeito da desvalorização da nova moeda. Desde logo porque a desvalorização permite tornar sustentável a trajectória da dívida, com o crescimento temporário da inflação e com o retorno do crescimento económico.

 

Mas também porque a maioria dessas dívidas foi emitida segundo a jurisdição nacional, pelo que pode e deve ser redenominada em escudos. Depois porque existe legislação da própria UE (Regulamento (CE) N.º 1103/97 do Conselho de 17 de Junho de 1997), relativa precisamente à passagem das dívidas denominadas em moedas nacionais para e denominação em euros, assumindo expressamente «que o reconhecimento da legislação monetária dos Estados é um princípio universalmente aceite», «que a confirmação expressa do princípio da estabilidade implicará o reconhecimento da estabilidade dos contratos e outros instrumentos jurídicos nas ordens jurídicas de países terceiros», e que «o termo "contrato", utilizado na definição do conceito de instrumentos jurídicos, deve incluir todos os tipos de contratos, independentemente do modo por que foram celebrados».

 

Acresce que, no que respeita às contas com o exterior, quer os bancos quer as grandes empresas têm débitos e créditos, havendo um efeito de compensação, ao menos parcial. Ou seja, as dívidas ao exterior não redenomináveis em escudos atingirão valores substancialmente menores que os nominais, sendo geriveis.

 

  1. «Verificar-se-ia uma fuga massiva de capitais, lançando o país na bancarrota.»

 

O risco existe, devendo-se sobretudo à desvalorização, que é necessária, e não à troca da moeda. Trata-se de uma questão tão velha quanto a respectiva solução: um rigoroso controlo dos movimentos de capitais. O Estado e o Banco de Portugal terão ao seu dispor os instrumentos necessários para o efeito. Aliás, temos um exemplo concreto e recente da sua aplicação: em Chipre, em 2013, o livre movimento de capitais foi bloqueado, e de forma eficaz. Este controlo foi pedido pela zona Euro, em nome dos «sagrados» interesses da banca. Foram os próprios «patrões» da moeda única que mostraram a possibilidade técnica do controlo de capitais e a aceitabilidade de o fazer dentro da UE.

 

Tenderá a implicar uma reforma do sistema financeiro interno e um aumento do controlo directo e indirecto do Estado sobre o sistema, o que também será positivo para combater a economia de casino.

 

  1. «Ficaríamos sujeitos a uma forte especulação cambial.»

 

Quanto mais a taxa de câmbio de uma moeda refectir os fundamentos económicos do país, menor é o risco da especulação dos mercados financeiros. E a própria integração no mecanismo de taxas de câmbio (que considero desejável) é um factor de redução do risco e dos custos de eventuais especulações. Para além do mais, olhe-se para a própria UE: há países que têm moeda própria porque apesar de cumprirem os critérios nominais necessários para integrar o Euro não querem fazê-lo. Nomeadamente, para além do RU de saída, a Suécia, a Dinamarca e a Polónia. Para além destes países terem resistido à crise melhor que os da moeda única, não consta que tenham estado sujeitos a grandes especulações cambiais.

 

  1. «O financiamento externo despareceria, o que paralisaria a economia.»

 

Há cinco anos consecutivos o País regista uma capacidade líquida de financiamento, o que significa que não necessita de financiamento externo.

 

Isto resultou quer do aumento da balança de serviços quer da redução do défice da balança de mercadorias, sendo certo que em parte esta decorreu do regime de austeridade. Mas com a desvalorização cambial é expectável que o saldo da balança de bens e serviços aumente ainda mais (que não pela via da redução do consumo), o que conduzirá a um maior e sustentado saldo positivo da balança corrente e ao aumento da capacidade líquida de financiamento da economia portuguesa.

 

Donde resulta que o problema do financiamento externo se coloca fundamentalmente em relação à dívida externa actualmente existente, a amortizar ao longo de anos, e que deverá ser reduzida no âmbito de uma reestruturação da dívida. Mas a perspectiva de aumento da solvabilidade do País, e consequente capacidade de reembolso, por efeito do forte crescimento, tende a reduzir o risco de dificuldades no financiamento externo, antes pelo contrário.

 

 

O caráter que é construído com base em desculpas

por Amato, em 10.04.17

O que considero mais relevante em todo este vergonhoso caso dos “estudantes” — vamos colocar aspas nesta palavra, a bem da correção linguística — expulsos de Espanha em viagem de finalistas e que acho importante sublinhar é a cada vez maior ausência de responsabilização quer do sentido dos próprios quer da exigência de terceiros, dos mais próximos, pelos atos cometidos.

 

A juventude de hoje em dia aprende cedo a dizer coisas como “não fui eu”, ou “foi ele” ou ainda “não sou o único a fazer isto”. Quase todos têm estas frases debaixo da língua. Com elas aprenderam a subir os degraus da vida sem assumirem uma responsabilidade que seja e com os pais a desculparem-nos e a defenderem-nos perante os outros. É todo um caráter construído assim, desculpa após desculpa, na família, na escola e na vida.

 

Há aqui um exercício de paternidade que é medíocre, mal formado, sem estrutura, sem regras e sem fronteiras. Já aflorei esta temática por mais que uma vez neste blog. Mas neste tipo de paternidade contemporânea que será motivada por um desejo bacoco de superproteção das crianças, e que se estende até à idade adulta rompendo todos os limites do ridículo, também existe uma ideia subjacente da nossa posição perante os outros, perante a comunidade. Esta ideia, que é muito própria do sistema capitalista, sugere que tudo vale para vingar, que os fins justificam os meios e que é lícita toda e qualquer ação que permita o lucro máximo seja em que contexto for. Isto implica, naturalmente, uma ausência de consciência de que nos devemos responsabilizar pelos nossos atos e, mais, se outro vier a assumir a culpa por nós, tanto melhor.

 

Este é o quadro de valores com que formatamos as gerações que se avizinham. Não é de estranhar que apareça tanta gente a desculpá-los. Os atos de vandalismo ocorreram efetivamente. Todavia, há que desculpar os meninos. Desconfio que o Hotel ainda vai ter que os indemnizar. Observemos com atenção as cenas dos próximos capítulos deste vergonhoso caso.

Notas sobre os últimos desenvolvimentos na Síria

por Amato, em 07.04.17

A comunicação social continua na sua demanda de fabricação de factos sobre a guerra na Síria. Não interessa que já se tenha descoberto dezenas de fotografias manipuladas no Photoshop, normalmente de meninos em estado de choque com a guerra. Não, não interessa. Há sempre um facto novo a imputar sempre ao mesmo lado, ao lado que convém denegrir, que é o lado do governo Sírio.

 

Desta feita, foi o suposto ataque com armas químicas. De imediato, o rumor foi suportado por uma enxurrada de fotografias e de relatos totalmente parciais e sem qualquer tipo de fiabilidade ou credibilidade. Novamente, se isso não interessou no passado, também não interessa agora que não haja qualquer tipo de credibilidade. As pessoas acreditam-se e pronto.

 

Desta vez, o facto criado foi suficiente para o governo americano ordenar um ataque sobre uma base aérea da Síria onde supostamente terá sido ordenado o suposto ataque químico. Parece mais uma daquelas histórias idiotas dos mesmos que nos trouxeram o famoso arsenal de armas de destruição maciça do Iraque? É verdade, parece mesmo. Falo em governo americano porque só um analfabeto poderá dizer que isto saiu da cabecinha pensadora de Trump. A própria Killary Clinton já veio a público dizer que este ataque só peca por tardio. Quem pensa que com Clinton seria diferente devia dedicar-se a outra coisa qualquer, como trabalhos manuais, e estar calado. O governo americano tem vida própria e move-se independentemente do débil mental que ocupa a Casa Branca e a questão Síria nada tem a ver com direitos humanos ou com outras razões igualmente inocentes. A questão Síria é uma questão económica estratégica. É uma questão política. É uma questão de defender os interesses da burguesia americana e o seu domínio sobre os recursos na região.

 

Este ataque americano, todavia, poderá originar repercussões muito graves para o governo dos Estados Unidos. Descontando a Austrália e o Reino Unido — e Israel, eventualmente —, ou seja, dos apêndices imbecis da América, o mundo em geral está a ver com muito maus olhos esta intervenção. É que é mais do que uma evidente agressão a um país soberano, de governo democraticamente eleito — sublinhe-se, porque nunca é demais sublinhar —, que está a lutar praticamente sozinho contra um grupo de radicais islâmicos que aterroriza o mundo. É também uma certa transformação da correlação de poderes no mundo. Rússia e China, juntos, poderão fazer os Estados Unidos começar a pagar pelos crimes que têm vindo a cometer mundo fora. Os Estados Unidos criaram e armaram Bin Laden e a sua Al-qaeda. Agora fizeram o mesmo com o Estado Islâmico. Não é de estranhar que, ao mesmo tempo, no preciso momento em que a América lançava os cinquenta e nove mísseis sobre a base aérea Síria, o Estado Islâmico lançava um ataque sobre posições do exército sírio na estrada Homs-Palmira. O Estado Islâmico é uma criação dos Estados Unidos e cumprem por ora um papel bem definido naquela zona.

 

Por cá, também não faltam os idiotas úteis do costume, sempre céleres na sua apologia ao politicamente correto, a tomar posição sobre o que lhes é soprado precisamente pelos órgãos de comunicação social fieis ao regime americano. Neste particular, ouvia esta tarde o Bruno Nogueira, um comediante que gosta de tomar posição sempre que diz umas piadas, a dizer uns disparates disfarçados de insultos sobre o Assad a quem atribuía a culpa definitiva sobre os supostos ataques químicos, dos quais, evidentemente, não tem qualquer dúvida sobre a sua ocorrência ou responsabilidade. Este é precisamente o tipo de idiota útil ao sistema capitalista. Fala sem saber, acredita-se em informação enviesada, e emite opinião rápida, sensacionalista, baseada em falsas evidências e numa estrutura de princípios tão pueril quão manipulável. O problema é que este tipo de idiota útil tem a capacidade de formar uma grande falange de pessoas distraídas que se ficam pela espuma do sensacionalismo mediático e se escudam nos seus altos conceitos ocidentalizados de direitos humanos, democracia e liberdade. Não têm contexto, nem cultura, nem história. Opinam sem sabedoria. Não têm paciência para mais. Só querem é jogos de computador, séries e filmes, sexo e sentimentalismo barato, tudo o que seja gratificação instantânea. Mas são muito boa gente, lá isso são.

http://images.huffingtonpost.com/2016-05-14-1463254278-5592062-spiritualpollutiontv.gif

O partido desta boa gente, lamento dizê-lo, é o Bloco de Esquerda, sempre tão rápido a votar ao lado da direita votos de condenação e outros que tais sobre os supostos ataques químicos do governo Sírio e legitimando os bombardeamentos americanos sobre a Síria. Em termos de política internacional, o Bloco de Esquerda é de uma ignorância que não cessa nunca de me espantar. Quando penso que já estou a contar com tudo o que de lá possa vir, lá aparece algo de novo. É assustador, deveras, se pensarmos que tanto do que é política e estratégia nacional deve ser entendido como parte de um processo global, que nos devemos saber posicionar internacionalmente e que, para o fazermos com inteligência, temos que saber interpretar com sabedoria os caminhos da história política do planeta. O Bloco de Esquerda assume um discurso que é muitas vezes de rutura com o sistema mas, ao mesmo tempo, aceita cegamente tudo o que é dito nos livros de história desse mesmo sistema. De duas uma: ou é um partido de imbecis do ponto de vista intelectual, ou as suas verdadeiras intenções não coincidem com aquilo ao que realmente vêm.

Os Pobrezinhos

por Amato, em 06.04.17

“Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

 

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:

 

— Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.

 

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

 

— Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

 

Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto

 

(— Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)

 

de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

 

— Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

 

o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

 

— Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

 

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros

 

— O que é que o menino quer, esta gente é assim

 

e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

 

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

 

— Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar

 

e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

 

Na minha ideia o padre Cruz e a Sãozinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

 

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis".

 

— António Lobo Antunes, in Livro de Crónicas

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