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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Já chega de ruído

por Amato, em 28.02.17

Já não há paciência para estas novelas tipo offshores. Não há. Para que foram criados os dito cujos senão para isto mesmo? Estavam à espera de quê? De que não fossem usados?!

 

http://davegranlund.com/cartoons/wp-content/uploads/color-offshore-tax-cht.jpg

 

Todos querem capitalismo, todos querem o poder económico nas mãos de privados, todos querem esta sociedade de salve-se quem puder, de sobrevivência do mais forte, mas depois parece que todos esperam um superlativo sentido de altruísmo, um superior sentido de moralidade inerente a cada um destes indivíduos, não obstante o seu único objetivo, a sua íntima natureza, ser o ampliar e magnificar dos seus lucros.

 

Falta honestidade a esta sociedade. Falta franqueza e lealdade e genuinidade. Falta verdade. Assumamos o que somos e o que queremos ser. Já chega de ruído.

CGD: sinopse de uma novela

por Amato, em 26.02.17

O caso Caixa Geral de Depósitos (CGD) tem que forçosamente ser contemplado desde longe. De perto, com o nariz colado ao plasma ou ao LCD, as notícias que se sucedem afogam-nos num enredo burlesco, de conteúdo pouco relevante, que nos afasta do essencial, não nos permitindo obter um entendimento claro sobre os acontecimentos. A sequência dos eventos impinge-nos uma opinião genérica de genuína repulsa por todos os intervenientes sem distinção. Na verdade, não conseguimos distinguir este, daquele ou daqueloutro e a todos condenamos segundo os mesmos genéricos princípios e isso é, na realidade, não condenar ninguém, é deixar tudo na mesma.

 

Se dermos uns passos atrás, todavia, o caso CGD reveste-se todo ele de um simbolismo sinistro relativamente a um retrato mais apurado da sociedade em que vivemos, daquilo que coletivamente somos, como que um diagnóstico cabal do estado doente em que nos encontramos.

 

Damos, portanto, dois passos atrás sobre a sucessão dos episódios da novela para produzirmos um melhor entendimento.

 

Vamos ao princípio: o caso começa com o anterior governo, o qual se empenhou em liquidar o banco público. PSD e CDS tudo fizeram em termos de influência em gestão danosa para depauperar a Caixa — em tempo oportuno, alertei para este facto — num misto de ações injustificáveis de suporte à banca privada e a outros intervenientes do setor. O objetivo era claro: deixar a Caixa num tal lastimável estado que não pudesse subsistir hipótese alguma para além de a entregar de mão beijada nas mãos do capital privado. O objetivo da privatização da CGD era tão claro que o guião seguido pelo governo anterior foi precisamente o mesmo que foi aplicado a outras empresas entretanto privatizadas, das quais a transportadora aérea TAP é exemplo último.

 

Quando o atual executivo assume funções vê-se confrontado com esta situação de quase não retorno. Podemos especular que, acaso o governo não tivesse que responder perante os partidos que, à sua esquerda, o suportam parlamentarmente e para os quais a banca pública assume capital importância, talvez não tivesse sido tão enérgico e profícuo em resolver o imbróglio e, por esta altura, já a CGD não seria mais um banco público.

 

Foi neste contexto que o atual governo chamou António Domingues para desenhar um plano de recapitalização da CGD e recuperar o banco. António Domingues, vindo da banca privada — sempre esta relação suja de promiscuidade entre o estado e o setor privado —, exigiu — qual eleito pelos deuses —, contrapartidas muito curiosas para assumir funções, as quais incluíam um estatuto diferente dos demais gestores públicos que lhe permitisse, a si e à sua equipa, evitar uma declaração pública de rendimentos. Ao que tudo indica, o Ministro das Finanças terá concordado com tais exigências sob o pressuposto de conseguir aprovar no parlamento essa alteração à lei, facto que não veio a suceder.

 

Neste ponto, observe-se a moralidade decadente dos intervenientes, ainda que agindo dentro das fronteiras da lei.

 

Todavia, PSD e CDS, os mesmos partidos responsáveis pelo criminoso processo que conduziu a este lamentável estado contemporâneo da banca pública, têm alimentado uma ordinária ofensiva ao Ministro das Finanças com base numa interpretação de que este terá mentido numa comissão de inquérito. O festival protagonizado inclui a falta de respeito ao parlamento e ao Presidente da Assembleia da República, segunda figura do Estado, o obstar aos trabalhos da comissão de inquérito e a inusitada demissão do presidente da referida comissão.

 

Observe-se — palavra que isto nunca me deixa de espantar — o tempo de antena, a voz, que é dada pela comunicação social tanto a PSD como a CDS em todo este processo. É o mesmo que uma igreja fazer de um criminoso o seu novo pastor para pregar moralidade aos demais.

 

Ao mesmo tempo, António Domingues vai fornecendo informações avulsas sobre as comunicações que terá trocado com o Ministro das Finanças. Por que razão não as forneceu à comissão de inquérito em que foi ouvido, ninguém percebe.

 

O que para mim resulta de mais extraordinário depois de tudo isto é o facto de que nenhuma estrutura do país parecer estar preocupada com o facto de António Domingues não querer revelar a extensão do seu património. Não há vivalma que se interesse por isso. O que será que os bens de Domingues poderão revelar? Que “benfeitores” estará Domingues a proteger? Que sórdidas relações com os poderes do mercado de capitais poderão ser reveladas com a sua declaração de bens?

 

Uma coisa é certa: se acaso se tratasse de um cidadão comum a exibir um padrão comportamental deste tipo seguramente que a sua vida estaria já completamente escalpelizada na praça pública.

Quando o roto fala do janota

por Amato, em 26.02.17

Este último vómito de João Miguel Tavares é precioso.

 

Não sendo eu o maior fã do Dr. Francisco Louçã, reconheço como necessário que se diga isto: como é que alguém que é um verdadeiro incapaz, sem nenhuma qualidade particular que não seja o expelir de comentários imbecis, semana após semana, sem nenhum vestígio de carreira e de mérito ou até de formação académica que o sustente, se atreve a apontar o dedo a Francisco Louçã, um dos mais destacados e brilhantes parlamentares das últimas décadas e alguém com uma carreira na área económica académica absolutamente invejável?

 

Note-se bem: não estou a defender que a nomeação de Francisco Louçã para o Banco de Portugal não possa ser posta em causa. O que eu acho é que há um limite para a falta de decência no debate. E também acho que há matérias em que uma certa ideia de moralidade devia coibir certas pessoas em emitir opinião. Em Portugal, todavia, parece que quanto mais razões temos para nos abster, mais tendência temos para não o fazermos e para sermos mais deselegantes e ruidosos no processo.

 

Em circunstâncias deste género, é costume fazer-se uso daquele dito popular, o roto está a falar do esfarrapado, mas neste caso tão pouco se aplica. O roto está mesmo a falar do janota.

 

Mas leiam o artigo todo, não tomem as minhas palavras como definitivas: são dois minutos preciosos para se poder penetrar no mundo demente de João Miguel Tavares.

 

"i" de imbecil

por Amato, em 24.02.17

Ontem, no dia do aniversário da morte de Zeca Afonso, o jornal i decidiu colocar em letras gordas de primeira página o título: “30 anos sem Zeca Afonso, o cantor revolucionário que nunca quis ser comunista”.

 

Este título corporiza uma certa linha argumentativa que tenho ouvido repetida amiúde — normalmente vinda de malta de direita que descobriu que é cool ouvir Zeca Afonso mas que não quer ser conotada com cenas esquerdalhas — de que Zeca Afonso era revolucionário mas não tinha nada a ver com comunismos.

 

Até é capaz de ser verdade: o Grândola Vila Morena será mesmo, em verdade, uma canção sobre o sucesso do modelo capitalista no governo de uma vila do litoral alentejano...

 

É verdade que Zeca Afonso nunca foi um militante comunista, mas será que isso faz dele um não comunista? Para um i(mbecil), claramente, faz.

CGD: uma pergunta

por Amato, em 22.02.17

Aos excelentíssimos administradores da Caixa Geral de Depósitos:

 

Todos nós sabemos que cada um de vós possui uma capacidade intelectual absolutamente extraordinária, capaz das mais aguçadas e perspicazes análises e previsões económicas.

 

Todos nós sabemos que cada um de vós é um cidadão ímpar, um raro espécime dentro e fora do contexto do que a Ocidental Praia Lusitana consegue produzir.

 

Todos nós sabemos que o que o País vos retribui não é mais que uma gota no oceano de serviços vitais que Vossas Excelências prestam e, sem os quais, o País parava, o País deixava de respirar e todos nós ficaríamos à deriva, sem saber o que fazer às nossas vidas.

 

Por tão bem saber tudo isto, gostava de vos perguntar:

 

Porque é que a CGD, tão necessitada que está de se capitalizar, oferece taxas de juro ao dinheiro que recebe dos seus clientes de míseros 0,1 pontos percentuais ou menos (refiro-me às opções que não envolvem jogo em ações)? Não seria interessante para a CGD oferecer algo um bocadinho menos indecente de modo a atrair as poupanças dos portugueses?

 

Às sumidades que gerem a CGD, peço desde já desculpas por esta pergunta que apenas é fruto da minha mais que óbvia ignorância na matéria.

Cavaco Silva e Carolina Salgado, dois mundos distintos, uma mesma educação

por Amato, em 16.02.17

Hoje à tardinha, o nosso ex-Presidente da República e ex-Primeiro-Ministro, Aníbal Cavaco Silva, apresenta um novo livro no Centro Cultural de Belém. “Quinta-feira e outros dias”, é o título da obra que, curiosamente, é apresentada numa quinta-feira, o que é deveras engraçado, sublinhe-se. Nas palavras dos promotores da obra, trata-se de um “completar a prestação de contas aos portugueses”. Com base no que tem vindo a público com vista ao aguçar da curiosidade dos portugueses, acrescentaria que esta obra tem como objetivo completar também o programa da máquina de lavar roupa da antiga presidência, uma máquina que mistura todo o tipo de roupas sujas, os brancos com os pretos e os pretos com os coloridos, numa mixórdia que, normalmente, a boa educação desaconselha, já que acaba por estragar as peças de roupa.

 

Mas o que a obra faz de mais relevante é provar, para além de qualquer dúvida — e, por isso, fico eternamente grato ao autor da mesma —, que a diferença entre o antigo Presidente da República e Primeiro-Ministro de Portugal e uma qualquer ex-companheira de Pinto da Costa não é nenhuma: findo o cargo, cessam quaisquer putativas obrigações deontológicas ou simplesmente éticas e revelam-se os pormenores mais íntimos da atividade.

 

Não se pode considerar, por isso, a escrita deste livro de um modo distinto do da escrita do livro de Carolina Salgado sobre Pinto da Costa, nem se podem qualificar Cavaco Silva e Carolina Salgado, os autores, de um modo diverso. O que se diz de um, deve dizer-se do outro. O que se chama a um, deve-se chamar ao outro. Note-se, neste sentido, a feliz coincidência das iniciais idênticas no nome de ambos.

 

http://images-cdn.impresa.pt/expresso/2015-09-17-Cavaco_Carantonha.jpg?v=w620h395

 

Termino com uma expectativa. Espero que a Universidade Católica de Manuel Braga da Cruz, o reitor, que fará a apresentação do livro logo à tarde, abra uma nova cadeira, um dia destes, num dos próximos anos letivos, num desses pseudo-cursos sobre política que tem, para discutir esta mesma temática. Imagino e antecipo com entusiasmo a quantidade de teses de mestrado e de doutoramento interessantíssimas que daqui brotarão. Que tal este excelente título: Cavaco Silva e Carolina Salgado, dois mundos distintos, uma mesma educação? Aproveitem, mestrandos e doutorandos! Bom trabalho!

O BPI e o papel da banca nas economias

por Amato, em 12.02.17

Durante esta semana, o Banco Português de Investimento (BPI) sofreu uma transformação na correlação de forças do seu quadro de acionistas. Resultou tal transformação numa concentração de quase 85% do capital social do banco nas mãos de um outro banco, espanhol, catalão, chamado CaixaBank.

 

Serviu também esta bem sucedida oferta pública de aquisição (opa) para refletir sobre o papel dos bancos na economia dos países onde desenvolvem a sua atividade.

 

Começo por reconhecer que, a partir deste momento, o epíteto “português” do BPI passa a ser tão qualificativo para o banco quanto um adereço de roupa o é com respeito à pessoa que o usa. Não quer isto dizer que o esvaziamento da palavra não tivesse ocorrido já anteriormente, quando o banco passava por diferentes mãos. Trata-se, simplesmente, de um reconhecimento cabal, um reconhecimento ao qual não é mais possível virar a cara, desviar o olhar. Um banco espanhol detém 85% de um banco português. É isto. Não há qualquer recurso estilístico que suavize a sentença. Aguenta, Dom Afonso Henriques! É isto que fazem à tua pátria.

 

Em resultado do que aconteceu, observamos que o quadro da banca a operar em Portugal mantém um rumo bem traçado, não necessariamente por nós, portugueses, mas ainda assim, bem traçado. Na sequência lógica da recente entrega do Banif ao Banco Santander, resulta desta opa ao BPI que sensivelmente dois terços da banca privada portuguesa está em mãos espanholas. Não se entende muito bem como as autoridades portuguesas permitem que tal tenha acontecido. Não se percebe muito bem como assistem a tudo isto impávidas e serenas. Também não se percebe como o português médio aceita isto tudo. Será apenas ignorância? Incapacidade?

 

Será que sou apenas eu e uma meia dúzia de pessoas que vê estas operações como formas de guerra contemporânea, de conquista das nações através do poder económico?

 

Procuremos a resposta à seguinte questão: para que serve um banco “nacional”, exatamente?

 

Comecemos por entender o que é que a banca faz, como opera no país e a que se dedica.

 

O que um banco faz é captar o capital do país onde opera. Tenta captar o máximo possível. O que o banco faz com esse dinheiro, depois, é fazer mais dinheiro. Faz dinheiro de dinheiro por duas vias.

 

A primeira, primordial na atividade bancária, é através dos empréstimos. A troco de um juro, o banco empresta a terceiros o dinheiro que recolheu na sociedade. Esta atividade bancária é potencialmente muito importante para o fomento e dinamização das economias. Potencialmente, repito, a banca consegue pôr o capital, de outro modo estagnado, em circulação na sociedade. Repare-se, todavia, que não há nenhuma obrigação legal para que isto seja feito ou para que as coisas aconteçam dessa forma. Voltaremos a este ponto mais tarde.

 

A segunda via de geração de dinheiro é através das políticas de investimento. A banca usa o capital que recolheu para comprar terrenos, edifícios ou imobiliário, ou outros produtos bancários especulativos, com o objetivo de gerar retorno.

 

Muitos economistas defendem, neste sentido, uma diferenciação entre banca de fomento e banca de investimento. A primeira teria uma utilidade concreta na economia que deveria ser protegida. A segunda devia ser mantida sob cuidado controlo, se não erradicada de uma só vez.

 

Na realidade portuguesa, não há qualquer tipo de distinção. A banca absorve o capital em Portugal e a utilidade que lhe dá é prerrogativa que é sua e sua apenas. Se cobra juros desproporcionados, se exige garantias desadequadas, se obsta mais do que facilita a dinamização da economia portuguesa, se pega no capital todo e o investe num outro país ou num negócio especulativo qualquer, ninguém tem nada que ver com isso. Neste particular, saliente-se o papel totalmente anedótico a que Banco de Portugal e demais instituições de supervisão bancária se prestam, totalmente incapazes — até ao presente dia — de prevenir a bancarrota, leia-se a atividade moralmente criminosa, de qualquer banco.

 

Hoje, em mãos espanholas, não subsistem quaisquer vestígios de responsabilidade social ao BPI, se é que eles ainda existiam. Os espanhóis do CaixaBank podem fazer do dinheiro “português” o que bem lhes apetecer, inclusive financiar os projetos além fronteiras que considerem mais lucrativos para si. Mas o que pretende o presente texto não é apontar o óbvio, é afirmar que o resto da banca procede de modo exatamente idêntico independentemente das mãos a que pertence.

 

A banca é o instrumento primordial da burguesia para sugar o capital às sociedades e aos povos. Não tem nacionalidade. Não tem língua. Não tem princípios. Não tem moral.

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