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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Sobre o PEC, o mundo real e as abstrações idílicas

por Amato, em 29.01.17

Coloco-me, uma vez mais, contra este governo e contra este estado de coisas e colocar-me-ei as vezes que forem precisas para acalmar a fúria que sinto dentro de mim, para poder, enfim, dormir um sono pesado à noite, em paz comigo mesmo.

 

Em tudo o que é estrutural neste país, não houve nenhuma reversão. Vieira da Silva diz que “mexer no Código de Trabalho não é prioritário”, como não poderia deixar de dizer, pois claro. Esta novela em torno do aumento do salário mínimo, então, é absolutamente dramática, pois desmascara as verdadeiras intenções do governo: fingir que dá ao povo, para o roubar pelas costas.

 

Nunca se viu um governo subsidiar os patrões deste país para que se aumente o salário mínimo. Nunca! É nojento. Derrotada a benesse da TSU no Parlamento, por intermédio de inesperados protagonistas, é certo, já se prepara uma diminuição do Pagamento Especial por Conta e comunistas e bloquistas aplaudem, desta feita, a medida!

 

Comunistas e bloquistas acham bem que uma porção considerável das empresas deste país subsistam ano após ano apresentando prejuízos e consideram que o PEC é injusto. É nestas coisas que apetece gritar aos ouvidos de PCP e Bloco, sobretudo aos do PCP por ser mais coerente e politicamente experiente, «Caiam na real! Este não é o mundo perfeito que imaginam e estas pessoas que aqui vivem não são as virgens impolutas que vocês imaginam que são!».

 

As leis têm também que ir ao encontro do mundo real e não apenas de uma qualquer abstração idílica. Devemos caminhar em direção à utopia, é certo, mas com os pés bem assentes na terra. Não devemos legislar por desconfiança, mas devemos encarar o mundo de frente, observar com sabedoria, e não fingir que não se vê.

 

Quanto menos estas empresas tiverem de pagar, menos pagarão, não porque não podem ou porque não é justo, mas porque faz parte da sua natureza e está ao seu alcance a evasão a essa responsabilidade. Não querer ver isso apoiando a diminuição ao PEC é uma estupidez e seguramente sairá muito caro ao país, não apenas em termos de receita fiscal, mas sobretudo a nível de equilíbrio social.

É de ironia que este género de muros é feito

por Amato, em 29.01.17

Esta construção anunciada e já iniciada do muro entre os Estados Unidos da América e o México é muito irónica. Acho mesmo que, mais que argamassa e tijolos, mais que rede e arame farpado, é de ironia que este género de muros é feito.

 

No vídeo que se segue, o filósofo brasileiro Mário Sérgio Cortella expõe superiormente o ridículo da questão.

 

Que falta nos faz a Filosofia! Que falta nos faz saber pensar!

 

 

Sublinhe-se também que a taxa anunciada sobre os produtos mexicanos para financiar a construção do muro incidirá, não sobre o México, mas sobre o povo americano que, desse modo, pagará mais pelos mesmos. Para lá da propaganda, quem pagará a construção do muro será, de modo inexorável, o povo americano.

Até fazer ferida

por Amato, em 22.01.17

Ontem dei-me conta de que o estado anda a pagar principescamente a um tal de Sérgio Monteiro — trinta mil euros brutos por mês — para que este venda o Novo Banco. É verdade: é esta a única missão de Sérgio Monteiro enquanto assalariado do governo português.

 

A produtividade de Sérgio Monteiro tem sido, todavia, miserável: em mais de um ano de atividade, catorze meses a auferir trinta mil euros, mais de quatrocentos mil euros depois — para ser mais preciso —, Sérgio Monteiro não só não logrou cumprir a sua única missão, como as propostas que angaria são cada vez mais insatisfatórias. Dizia José de Pina no Irritações, e com toda a argúcia, que pelo andar da carruagem Sérgio Monteiro poderá comprar a breve trecho, ele próprio, o Novo Banco com o dinheiro que o Estado lhe está a pagar. Irónico? Repugnante?

 

A este respeito, duas notas breves.

 

A primeira é, uma vez mais, a simbologia repulsiva da coisa. O Estado emprega e paga a uma figura de proa da austeridade e do executivo anterior, um indivíduo responsável pelo vilipendiar da coisa pública, do dar ao desbarato de empresas como a REN, a EDP, os CTT ou a TAP. Até parece, tal como no caso de Paulo Macedo, que não existe mais ninguém capaz de levar a cabo a tarefa. Mas não é verdade. A verdade é que este governo é farinha do mesmíssimo saco que o anterior. Deixemo-nos de coisas, portanto.

 

A segunda nota é a seguinte. As pessoas que tanto gostam de apregoar a equiparação do público ao privado, mesmo quando o que é público não tem termo de comparação no setor privado, deviam defender para Sérgio Monteiro um estatuto precisamente igual aos vendedores de imóveis do setor privado, como os da RE/MAX ou da ERA, que apenas ganham as comissões daquilo que vendem. Também aqui se vê a falta de coerência, particularmente dos setores mais à direita. Quando estão em questão trabalhadores comuns, a opinião é uma. Quando estão em causa gestores de topo, o referencial é outro. Neste último caso, a lei é chupar a teta estatal até fazer ferida.

 

http://www.transportesemrevista.com/Portals/6/Entrevistas/SET_sergioMonteiro/SERGIO-MONTEIRO-3.jpg

 

Uma outra educação

por Amato, em 21.01.17

Se amanhã acontecer uma catástrofe à escala global, uma espécie de Apocalipse bíblico, e sobrarem apenas umas parcas dezenas de exemplares da nossa espécie, o que seríamos capazes de recuperar da nossa civilização? O que seríamos capazes de reconstruir?

 

Quando pensei pela primeira vez nesta questão fiquei um pouco assustado. A resposta é: muitíssimo pouco. A perspetiva seria a de nos reduzirmos a pouco mais que homens das cavernas. É assustador, mas é a verdade.

 

Na realidade, o cidadão médio vive o seu dia-a-dia envolto numa estrutura social e tecnológica que o transcende de tal forma que, nem que se dedicasse ao estudo até ao final da sua vida, conseguiria compreender minimamente o seu modo de funcionamento. Mesmo o cidadão letrado acima da média não mais é que um especialista numa determinada área, num determinado segmento de uma área, pelo que sozinho não seria capaz de reproduzir sequer o processo em que se insere laboralmente.

 

A via de especialização dos saberes pode ser considerada como natural com o progresso da humanidade, pois decorre da impossibilidade potencial de um indivíduo conseguir dominar todo o conhecimento acumulado ao longo dos séculos. Todavia, há mais do que isto.

 

Há toda uma filosofia inspiradora no ocidente que tem conduzido à especialização do indivíduo não por ser uma inevitabilidade mas por ser uma conveniência. Podemos recuperar os passos dessa tendência desde os primórdios da revolução industrial, ainda antes da “linha de montagem”.

 

Com efeito, é conveniente que os peões da sociedade, os que constituem a força do trabalho, não saibam tudo e não saibam de tudo, porque, se soubessem, poderiam emitir opinião e poderiam influenciar o processo. Se fossem dotados de alguma cultura geral, poderiam emitir juízos de valor sobre o poder que os governa e convém que o proletariado não tenha poder. Daí a especialização. Daí o privilegiar de uma formação específica relativamente a uma formação geral, abrangente. A ideia é: especializar para limitar.

 

Entretanto, é mais fácil usar um automóvel, um eletrodoméstico, um telemóvel, e não fazer ideia de como funciona. Sentimo-nos importantes simplesmente pelo ato de usar e por possuir. Se avaria, compra-se outro. Nem vale a pena tentar arranjar. As sociedades humanas abraçaram o projeto de serem conjuntos de ignorantes. Ignorantes com uma formação, ignorantes diferentes dos ignorantes do passado, é certo, mas, não obstante, ignorantes, totalmente incapazes de sobreviverem sozinhos, sem que alguém lhes diga o que fazer, como fazer.

 

Não acreditam no que vos escrevo? Experimentem fazer a um recém licenciado alguma pergunta sobre uma área diferente da sua. Perguntem-lhe alguma coisa básica sobre animais ou plantas, ou sobre astronomia. Perguntem-lhe sobre a história do país, sobre o 25 de abril de 74. Perguntem-lhe sobre a história da localidade de onde vêm. Vão ficar espantados com as respostas. Ainda noutro dia, um jovem licenciado em Economia com quem falei estava convencidíssimo que a revolução dos cravos tinha sido o fim da monarquia em Portugal.

 

Por ventura, o mais modesto cidadão do século XIX saberia responder a estas perguntas. Hoje, todavia, os que mais estudos têm não o conseguem fazer.

 

Resulta, portanto, claro que uma outra educação é a única alternativa para os povos do mundo serem livres, isto é, para deterem os seus destinos nas suas mãos e não passarem pelas suas vidas guiados como animais de carga. Sim, é verdade: não basta viver no ocidente para se ser livre. Não basta haver eleições para se ser livre.

A maior crise de sempre do jornalismo

por Amato, em 15.01.17

Abri hoje o Público para dar de caras com um editorial, assinado pelo diretor do jornal, no qual se ensaia um muito pouco convincente contraponto àquela tese que tem vindo a ser veiculada de que o jornalismo viverá atualmente a sua maior crise de sempre. Pode parecer estranho chamar-se de tese a uma afirmação que aparenta não carecer de demonstração, mas mantem-se a terminologia por respeito a uma abordagem minimamente científica.

 

Se o jornalismo vive ou não a sua maior crise de sempre, não é realmente muito relevante. O que interessa mesmo é constatar que a maior parte do jornalismo atual é uma espécie de escória, uma amálgama de sujidade desprovida de princípios ou de caráter. Veja-se o sucesso que a página do Facebook Os Truques da Imprensa Portuguesa tem tido, denunciando a forma como as notícias são criadas, a parcialidade com que a realidade é descrita, clarificando, no fundo, o papel de lavagem cerebral ao qual a generalidade dos media se devota no seu dia-a-dia. Questionar se é pior agora do que há cinquenta anos, se agora fede mais a mediocridade intelectual do que antes, até pode constituir uma discussão interessante, mas não será, seguramente, a mais relevante das discussões.

 

É que a realidade é esta e é indesmentível. A realidade é que os jornalistas fazem o papel, mais ou menos voluntário, de escrever o que lhes é ditado superiormente e aquela ideia inocente do jornalismo enquanto sinónimo de informação não é mais que uma ilusão, uma quimera que nos é semeada no subconsciente desde tenra idade. E é aqui que é importante que se diga que o problema do jornalismo é justamente a existência de diretores de jornais, de diretores editoriais, de chefes de redação sem competência, sem currículo para ocuparem os lugares que ocupam e que só os ocupam por serem excelentes yes man's, excelentes vozes do dono. O parco currículo que detêm, construído precisamente do modo descrito, denuncia o seu papel em todo este processo que resulta neste tipo de jornalismo e no seu estado atual.

 

Poupem-nos, portanto, à habitual linha argumentativa dos Velhos do Restelo. Não cola.

 

http://brutalgamer.com/wp-content/uploads/2014/09/175862-header.jpg

 

Já chega de travestismo político

por Amato, em 14.01.17

Eis que a burguesia entrou num alvoroço sem fim, uma arreliação que não permite de que disponha de uma noite de sono sereno. Não, não me refiro à exploração milenar que exerce sobre o povo, sempre se reinventando nos métodos, sempre criando novos instrumentos, mas sempre explorando, sempre pagando o mínimo que pode e exigindo/coagindo o máximo que lhe for permitido. Não. O que se passa é que poderá estar em causa a prometida descida da Taxa Social Única para o patronato.

 

É uma evidência que o salário mínimo português é uma miséria que nos devia envergonhar enquanto povo. Nem se trata de o comparar além fronteiras com os países “irmãos” europeus. Basta olhar para ele. Basta verificar que não permite uma sobrevivência digna a quem dele aufere. Todavia, para que seja aumentado, o patronato exigiu benesses. Faz isto algum sentido? Não, não faz nenhum sentido, a não ser num país totalmente lacaio dos interesses da burguesia.

 

Com a prometida descida da TSU, o patronato não dispõe de um único cêntimo dos seus gordos proveitos para o aumento do miserável e embaraçoso valor do salário mínimo. Pelo contrário, ainda fica a ganhar com o negócio, ao mesmo tempo que crava mais um prego no caixão para o anunciado funeral da Segurança Social deste país. É tão simples quanto isto: por detrás de uma imagética de bondade social, este acordo efetivamente coloca ainda mais desnivelada a balança entre ricos e pobres, entre patrões e trabalhadores, e traduz-se num ataque que poderá revelar-se fatal ao nosso sistema de Segurança Social, pois reduz as suas fontes de financiamento e desequilibra a sua lógica solidária.

 

Mas eis que, de um dia para o outro, a burguesia apanhou um susto e prossegue assustada. É que o PSD anunciou, aparentemente por razões meramente táticas, que não votará a favor da descida da TSU. Com Bloco e PCP também contra esta medida, este cenário resultará num chumbo da descida da TSU e, no imediato, tem resultado em muitas noites em claro para a maioria da burguesia que, de repente, viu que pode perder este negócio da China.

 

De acordo com as circunstâncias, as vozes da burguesia têm-se manifestado agressivas para com o PSD, e as críticas mais ferozes têm sido veiculadas por todos os jornais, rádios e televisões. Por mim, esboço aqui uma improvável defesa desta posição do PSD:

 

  1. O PSD está no seu direito de assumir as posições parlamentares que bem entende.

 

  1. É tão intelectualmente desonesto o PSD votar contra a descida da TSU — porque a defendeu no passado —, como o é este governo a defender agora — porque a criticou no passado.

 

  1. É tempo de clarificação. É tempo de este governo perceber claramente com quem governa. Já chega de travestismo político, creio, que é o que tem acontecido até aqui. Até agora, este governo tem governado, ora mais à esquerda, ora mais à direita, consoante as vontades. Em questões internas, dá um rebuçado à sua esquerda ao mesmo tempo que nunca vai tão longe quanto podia. Em questões externas, europeias, esquece a sua esquerda e apela sobranceiramente ao apoio da direita que o tem dado. Acho que já chega.

 

Seria interessante que este governo se definisse de uma vez por outras e, então, aceitasse as consequências disso mesmo. E, se para tal é necessária uma atitude desta estirpe por parte do PSD, então que seja! Não vejo absolutamente nada de errado nisso.

Uma nota sobre a Quadratura do Círculo passada

por Amato, em 13.01.17

José Pacheco Pereira, secundado por outras imbecis vozes da sociedade — refira-se —, disse que Mário Soares foi o percursor da Geringonça. Baseia-se no facto de, já perfeitamente senil e completamente a leste da vida política ativa, Soares ter promovido um destes encontros pueris de “esquerdas” que resultam num punhado de boas intenções e de frases que mais não são que futilidades impactantes.

 

Toda a gente sabe que aquilo que um homem faz ou diz às portas da morte não deve ser muito valorizado. Que o diga Nietzsche. Que o digam tantos outros. Pacheco Pereira, pelos vistos, não adotou semelhante bom senso no seu raciocínio.

 

Dizer uma coisa destas, bem entendido, é realmente uma forma de auto-desconsideração intelectual. Com efeito, falamos de Mário Soares, o fundador do Partido Socialista que “meteu o socialismo na gaveta”; o Primeiro-ministro que escolheu governar com o CDS (1978) — isto quando o CDS era uma encapotada manifestação fascista no novo regime democrático e não a agência de advogados relativamente inofensiva que é hoje —; o mentor da UGT que promoveu a divisão do movimento sindical em Portugal e cujas repercussões ainda vemos claras nos dias de hoje; entre outras, muitas outras ações totalmente reacionárias.

 

Soares, percursor da Geringonça? Com o CDS ali à mão de semear para uma coligaçãozita? Nunca na vida!

 

Eu, que até gosto de ler e de ouvir Pacheco Pereira, fiquei admirado com tamanha alarvidade. Compreende-se, no fundo: sendo um pária na sua área política, necessita sempre de, aqui e ali, semear simpatias noutras áreas. É uma pena que o tenha feito abdicando das suas usuais seriedade e reverência para com a História.

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