Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Como a população forma a sua opinião

por Amato, em 11.10.16

O facto mais interessante que podemos retirar deste diferendo entre táxis e Uber é constatar que a esmagadora maioria da população forma a sua opinião com respeito ao assunto unicamente com base na sua opinião pessoal relativamente à classe profissional dos taxistas.

 

Num assunto de todo em todo técnico, que só tem que ver com a noção de equidade perante a lei ou, eventualmente, com o tipo de sociedade que mais apraz a cada um, seja mais socialista, seja mais liberal, o povo emite a sua sentença, diz de sua justiça, negligenciando tudo isto, e tomando em consideração, simplesmente, a impressão empírica que tem sobre o serviço prestado pelos táxis e a simpatia dos taxistas.

 

Se bem que estas constituem-se como informações da maior relevância para a discussão do serviço em si, apesar da sua natureza empírica, nada têm que ver com a discussão em causa. Isto diz muito, todavia, sobre a psicologia das sociedades. Isto explica muita coisa sobre o funcionamento da democracia.

Já é tempo de virar de pernas para o ar a lista das prioridades do país

por Amato, em 09.10.16

Ao longo desta semana que terminou, os parceiros de coligação de suporte parlamentar ao governo PS têm discutido, cada um para seu lado, um aumento de dez euros para as pensões. PS e Bloco de Esquerda parecem entender-se melhor no sentido de apenas conceder um tal aumento às reformas até seiscentos euros, enquanto o PCP pretende que o aumento abranja todas as reformas, criticando — com razão, do meu ponto de vista — a divisão artificial e injusta que PS e Bloco tendem a promover no universo dos pensionistas.

 

Colocando de lado a discussão da medida em si, interessa-me refletir sobre o contexto em que a medida é lançada.

 

Desde o estabelecimento do acordo parlamentar que permitiu ao PS formar governo próprio, o PCP tem pautado a sua ação por uma sobriedade assinalável que deve ser objeto de elogio. Ao contrário do Bloco de Esquerda que exige novas medidas todos os dias, desde as mais sensatas às mais inapropriadas, colocando com isso pressão sobre o executivo não tanto pelas medidas em si, mas por colocar o governo numa posição defensiva face à oposição interna e externa, dentro e fora do PS, dentro e fora de Portugal, o PCP não afina pelo mesmo diapasão. Bem entendido, o PCP não se tem coibido de apresentar as suas próprias propostas, mas, simultaneamente, tem assumido uma posição sensata e equilibrada, evitando o a adoção de posições que possam ser interpretadas como linhas vermelhas, ou posições de xeque ao governo.

 

É, por isso, com alguma surpresa e, até mesmo, perplexidade, que tomei conhecimento desta proposta do PCP. Por que razão escolheu o PCP esta medida, de entre todas as que podia ter escolhido como bandeira, como ponto de partida para a negociação com o PS da aprovação do orçamento de estado de 2017?

 

É evidente que todos os comunistas concordam com o aumento das pensões e dez euros será um aumento seguramente insuficiente face à perda de poder de compra operada nos últimos anos. Mas não é isso que está verdadeiramente em causa. O que está em causa é que o PCP não é o partido dos reformados e pensionistas. Também os defende, como é evidente e histórico, enquanto elementos desprotegidos da sociedade, mas não são eles o objeto do partido.

 

O PCP pretende ser o partido do operariado, dos trabalhadores explorados pela burguesia reinante, de todos aqueles — e são tantos — que mesmo trabalhando, e trabalhando cada vez mais, empobrecem! Estes, sim, são o verdadeiro objeto da ação revolucionária do PCP e é através da intervenção direta no mundo do trabalho que todos os outros setores, incluindo os reformados, serão igualmente beneficiados.

 

No contexto atual, no qual o desemprego grassa entre os mais jovens e aqueles que conseguem trabalho se vêm forçados a trabalhar à hora, privados de qualquer tipo de direito, cada vez mais trabalhando mais horas por uma menor retribuição salarial, creio que uma medida mais justa, mais difícil e arriscada, por certo, mas mais acertada, seria uma que visasse o combate frontal ao falso recibo-verde e promovesse o contrato de trabalho e a contratação coletiva. Tal medida erguer-se-ia como uma apropriada bandeira para o PCP, o partido do operariado, pela sua relevância, pela urgência da sua implementação. Enquanto tal transformação não for operada no tecido laboral, aumentos de dez euros nas pensões serão sempre nada mais que terapêuticas pueris sobre uma enfermidade em acelerada propagação.

 

A reposição de rendimentos é muito bonita e toda a gente de esquerda concorda, mas há uma outra reposição que urge, que tem que ver com a total desregulação do mercado laboral, do desequilibrar da balança em favor do capital, e, essa sim, deve ser encarada como prioritária, porque sem ela não há o resto, sem ela não há futuro para a juventude nem para o país.

 

E, por último, deixem-me que diga, em jeito de desabafo: começa a ser revoltante ver a juventude ser colocada sempre, inexoravelmente, em último lugar na lista das prioridades do país. Quanto a isto, é preciso dizer basta! Desculpem-me, velhotes, desculpem-me, reformados e pensionistas, mas já é tempo de virar de pernas para o ar a lista das prioridades do país ao qual nos habituámos a chamar de Portugal.

 

https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/564x/63/5e/63/635e633652fd5427b8e83cdebe134633.jpg

 

Uma triste figura

por Amato, em 08.10.16

A primeira vez que ouvi o nome de Mário Vargas Llosa foi a propósito da atribuição do prémio Nobel da literatura a este escritor. O ano de 2010 precipitava-se para o seu términos. Na altura não percebi a razão de ser da atribuição deste prémio. Continuo a não perceber. Talvez um dia, quando a força das circunstâncias assim o exigir, pegarei um livro seu em mãos e, então, serei capaz de ajuizar sobre a justeza de tal atribuição.

 

A verdade é que o prémio Nobel não significa muito. Sejamos honestos e não dispersemos com a rudeza das palavras escritas: quantos prémios Nobel da literatura ficaram para a história? Quantos? Conseguem nomeá-los? Até vos faço um favor: percorram a lista da wikipedia e digam-me, honestamente, quantos dos laureados consideram que serão imortalizados acima do escorrer das areias do tempo? Admirados? São poucos?

 

Tal facto apenas vem concorrer para aquilo a que o prémio se tornou ao longo dos anos: um prémio totalmente politizado — no mau sentido —, travestido de qualquer sentido de arte, a leste de qualquer conceito de literatura, com o objetivo único de premiar não o escritor, mas aquilo que o escritor representa, isto é, de usar o escritor como uma bandeira para influenciar politicamente os povos.

 

Claro que, pelo meio, há Steinbeck, há Neruda, há Saramago, há Russel, Sartre e Shaw e ainda Hemingway e García Márquez e existirão outros, com certeza, mas estes acabam por ser exceções a uma regra vil e pérfida que se vem tornando mais carregada, mais descarada, a cada ano que passa.

 

Voltando a Llosa, devo confessar que “comecei” mal com o personagem. Ter como ponto alto do seu currículo uma altercação com Gabriel García Márquez, pareceu-me sempre pouco abonatório com respeito à sua pessoa. Dizem que se tratou de uma “questiúncula de saias”. Nunca consegui interiorizar bem a coisa, todavia. Como é que alguém poderia se chatear com um dos mais queridos, com um dos mais admirados, escritores latino-americanos, o mestre criador do realismo mágico que nos presenteou com algumas das mais preciosas obras literárias? Claro que as coisas não são bem assim, claro que o escritor e o homem não se constituem como entidades indissociáveis com propriedades transferíveis.

 

Hoje percebo melhor a questão. Vargas Llosa poderá ser um excelente escritor, mas é um indivíduo de uma pobreza intelectual assustadora. As recentes declarações sobre o Podemos espanhol e o que realmente pensa sobre o mapa geopolítico na América Latina, na qual se inclui o seu posicionamento sobre as FARC e o processo de paz na Colômbia, são um bom exemplo disso. Qualquer ignorante diria o mesmo. Qualquer ignorante talvez o dissesse melhor, descontados quaisquer assombros de pseudo-intelectualidade.

 

Na verdade, não sei se terá sido a tal “questiúncula de saias” a responsável pelo afastamento de Márquez e Llosa. Talvez sim. Para mim, contudo, a razão essencial terá sido, antes, o facto de Márquez ter visto a vivas cores a natureza medíocre de Llosa. De todas as atoardas que Llosa lançou nos últimos dias, a que para mim se reveste de maior dramatismo é a seguinte: “As utopias não trazem o paraíso à terra. Criam o inferno.”

 

Com esta tirada não sobra mais nada para se dizer. Para Llosa, contentem-se com o que temos: não vale a pena ambicionar mais nada. Ficamos por aqui. Para mim, é extraordinariamente triste ouvir tais palavras.

 

Acima, escrevi que Llosa talvez fosse um excelente escritor. Esqueçam. Quem diz uma coisa destas não pode ser um excelente escritor, tão pouco um razoável escritor. Tão pouco um razoável ser humano. Esqueçam a diferença que existe entre o escritor e o ser humano. Não se aplica. Llosa apenas poderá ser um medíocre, um triste escritor, um triste homem... uma triste figura.

Amanhã será um bom dia para se ver...

por Amato, em 04.10.16

Amanhã seria um bom dia para se “fazer” democracia, para se deixar o domínio da palavra, desse conceito tão pouco concreto, e abraçar o ato, despudoradamente, descomplexadamente.

 

Amanhã, todos os que votaram na pérfida PaF — PSD ou CDS — deviam levantar-se à hora do costume, fazer a higiene pessoal, tomar o pequeno-almoço e ir trabalhar.

 

Amanhã seria um bom dia para se ser o que se defende, verdadeiramente, para se defender o que se acredita, para dar o corpo aos ideais.

 

Amanhã seria um bom dia para isso, em vez de se aproveitar, oportunisticamente, o feriado pelo qual se votou contra.

 

Amanhã será um bom dia para se mostrar de que é feito e como é feito o caráter que se tem.

 

Amanhã será, seguramente, um bom dia para se ver a cara dos oportunistas e dos hipócritas.

Os anjos da morte

por Amato, em 03.10.16

Às vezes a diferença entre um “homem bom” e um “homem mau” não é nenhuma. Por vezes, a distância entre um louco e um visionário existe apenas na imaginação dos homens. Não é mais que uma ilusão.

 

Hitler, o responsável pelo holocausto dos judeus, é hoje pintado como um louco, quando durante a maior parte da sua vida política foi erguido em braços e aclamado como um visionário. É fácil pintar as coisas a preto e branco, gritar “louco” ou berrar “visionário”, para que no fim não se perceba nada nem se aprenda nada com a história. Hoje, os judeus de Israel que lavram qui ça a mais prolongada limpeza étnica, o mais sangrento e continuado genocídio, sobre o povo palestiniano, de que subsiste memória, não são qualificados de igual modo que os seus predecessores. Pelo contrário, quando morrem, são sepultados como se de verdadeiros anjos se tratassem. Isto da propaganda é algo de extraordinário!

 

Assim é o caso de Shimon Peres. O unanimismo em torno do personagem chega a ser confrangedor. Fica aqui um artigo muito bem documentado com as notas biográficas mais relevantes sobre Shimon Peres. Vem n' ODiario.info, uma das melhores fontes de informação lógica, coerente e humanista que está na rede. Vale a pena ler para aprender alguma coisa sobre os “anjos da morte” de Israel.

Selminho, quo vadis?

por Amato, em 02.10.16

Lembram-se do caso Rui Moreira e da imobiliária Selminho? Não? Pois claro que não, é uma história que não tem muito interesse e, por conseguinte, não tem honras de primeiras páginas. Não interessa muito que a imobiliária da família do atual presidente da Câmara do Porto tenha lucrado num acordo com a Câmara que envolve alterações ao Plano Diretor Municipal e a construção em terreno rústico sobre proteção ambiental. Não, não interessa nada.

 

Trata-se, sem mais nem menos, da tal aura de santidade política sobre a qual escrevi há uns meses. Também não há problema porque Rui Moreira veio logo para os jornais indignado, como aliás é timbre de um homem sério, dizer que era tudo uma infâmia e uma conspiração dos comunistas, dos três que fazem questão de o arreliar na Assembleia Municipal — isto da democracia é um tédio! —, referindo que nada tinha tido que ver com o processo e que até passou uma procuração para que fossem os advogados da Câmara a tratar do assunto.

 

Para memória futura fica este registo. Tal procuração desapareceu dos processos e, à hora a que escrevo, parece que se encontra em parte incerta.

Subconcessionando

por Amato, em 01.10.16

“Hoje, eu e a esposa tomámos uma decisão. Isto de criar um filho, de lhe dar sustento e educação, é muito dispendioso. É mesmo o que se poderá chamar um investimento a fundo perdido. Retorno, nem vê-lo! Quando o magano tiver idade suficiente nunca mais lhe pomos a vista em cima e, ainda bem, porque a alternativa seria pior e eu não nasci para sustentar mandriões. Bem vistas as coisas, gasta-se uma pipa de massa durante dezoito anos, pelo menos, da qual não vemos um tostão de volta.

 

Dizia eu que tomámos uma decisão. Esta brincadeira já dura há tempo demais. A decisão é de, em face do exposto, subconcessionar a criação do nosso filho a uma empresa privada que se nos apareceu com bom preço de oferta.

 

Não o fizemos, todavia, de modo a despachar o problema de qualquer jeito. Não. Primeiro fizemos o nosso trabalho de casa, a prospeção do mercado. Solicitámos vários orçamentos, enviámos diversos e-mails, e o que mais barato resultou foi esta empresa que acabámos por escolher. Em boa verdade, a empresa oferece ainda alguns extras bem interessantes, como atividades de lazer e extracurriculares e outras coisas que tais para o catraio se entreter.

 

Adoro o sistema capitalista. Faz do inimaginável realidade. Quem é que poderia pensar que isto poderia ser possível? Delegar as nossas responsabilidades num terceiro é mais eficaz e sai mais barato na carteira. Afinal, a empresa é profissional e está melhor preparada do que nós para a criação do nosso filho. Agora, substituem-nos nas aborrecidíssimas reuniões de encarregados de educação na escola, são eles que ouvem o que nos custava tanto dantes ouvir, tomam nota das asneiras que o miúdo faz ao longo do ano e disciplinam-no da melhor maneira. Funciona melhor assim: como não há uma relação de proximidade, o miúdo ouve e aceita as reprimendas melhor do que se fossemos nós a ter que o fazer. Todos ficam a ganhar.

 

E não se pense, por um minuto que seja, que as vantagens não se ficam por aqui. Se o miúdo não comer e passar fome, a culpa não é nossa. Se o miúdo andar sujo, a culpa não é nossa. Se o miúdo fizer alguma asneira, a culpa não é nossa. Essencialmente, a culpa nunca é nossa. A subconcessão a uma empresa reputada e que presta todas as garantias prévias salvaguarda-nos de qualquer problema. Se a empresa presta o serviço em condições, isso é outro problema que não é, seguramente, nosso.

 

Que ideia brilhante! Amanhã à noite, vamos jantar à conta do que já poupámos com esta ideia. Quem nos dera ter-nos lembrado de fazer isto mais cedo. Devíamos ter prestado mais atenção quando as empresas começaram a fazê-lo mundo fora, ainda na década de noventa, desmantelando os seus serviços e subconcessionando-os a outras empresas satélite. Hoje, não há quem assuma responsabilidade seja pelo que for e o serviço que custava dez, agora custa cinco. Não interessa se tem ou não tem qualidade. No subconcessionar é que está o ganho!”

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pág. 2/2

Amato

foto do autor

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

Mensagens