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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Entrada enciclopédica: Esperança

por Amato, em 30.10.16

O que é a esperança? O que é?

 

A esperança é, assim, como tantos conceitos codificados em palavras das quais fazemos uso corriqueiro e abusivo. Mas será que, verdadeiramente, percebemos o que quer dizer? Será que entendemos o nosso lugar enquanto seres utilitários do conceito, enquanto seres esperançosos?

 

De seguida, deixo um vídeo que considero muito elucidativo. Nele, o filósofo brasileiro Clóvis de Barros explica em detalhe afinal o que é isto de esperança.

 

 

Uma reflexão sobre como isto vai acabar

por Amato, em 29.10.16

No final do dia, contas feitas, fechada a loja, o que resultará da participação, ainda que indireta, das forças parlamentares de esquerda nesta solução governativa? Mais do que nos escondermos em argumentação mais ou menos hábil, convém que reflitamos com seriedade sobre esta questão.

 

Este governo PS representa, no máximo dos máximos, na melhor das melhores hipóteses, não mais que um pé no travão nas políticas de austeridade. “Apenas” isso ou “pelo menos” isso, escolham o advérbio que melhor vos aprouver.

 

Objetivamente, a única coisa que este governo está muito lentamente a lograr é a parar a austeridade sobre aqueles que o governo anterior havia elegido como os bodes expiatórios essenciais da crise e dos desequilíbrios da economia portuguesa: os trabalhadores por conta de outrem, em geral, e os funcionários públicos, em particular.

 

Repito a minha pergunta: é isto suficiente?

 

Adicionalmente, serão estas reversões sustentáveis, se todo o restante quadro do país permanece inalterado, se continuam a ser os mesmos a pagar a crise, se continuam a ser os mesmos a acumular o capital produzido no país sem que o seu “negócio” seja minimamente beliscado, se o aparelho produtivo continua sob resgate do diretório de potências europeias?

 

O código de trabalho permanece desregulado, as relações laborais desequilibradas em favor do patronato, os recibos-verdes veem a sua presença nauseabunda na sociedade cristalizada e enraizada, a segurança social vê o seu papel de biberão de dinheiros públicos para engordar lucros burgueses reforçado e alargado, tudo o que é estrutural na distribuição da riqueza mantem-se intacto ou, em alguns casos, deteriorado.

 

Face ao exposto, aumentar pensões em dez euros e atribuir descontos em passes de transportes públicos a estudantes do superior é suficiente? Acabar com a sobretaxa é suficiente?

 

Para as forças de esquerda parece que é e é pena que seja.

 

Quando este governo cair, as forças de esquerda que o suportam ficarão feridas de morte. Serão culpabilizadas, justa ou injustamente, por todos os pecados do executivo, por cada um dos objetivos falhados, por cada uma das desilusões e ficarão estereotipadas com uma governação que não foi a sua. Nunca mais poderão falar ao povo como se não tivessem nada a ver com o assunto. Nunca mais. E nunca mais a palavra esquerda será pronunciada do mesmo modo, esvaziada de substância e de ideal. E tudo isto a troco de quê? De uma reorganização fiscal e de um aumento de pensões?

 

Visto de longe, não me parece uma jogada muito interessante. Pode ser que esteja enganado. O futuro o dirá.

Antecâmara para uma cambalhota na história

por Amato, em 19.10.16

Os tempos políticos que correm são de um grande surrealismo e, passado o tempo conveniente para o podermos apreciar com uma certa distância, a sua natureza surreal, perplexa, é já indisfarçável, quer dizer, injustificável.

 

A direita teve razão quando se indignou com a solução parlamentar oferecida pela esquerda à governação PS. A direita, dentro e fora do PS, nunca pôde conceber tal solução e, portanto, nunca a conseguiu compreender e interiorizar, razão pela qual não lhe consegue oferecer uma resposta minimamente inteligível enquanto oposição. O máximo que Assunção Cristas e Passos Coelho conseguem é ensaiar uma débil posição de contraponto ao governo, criticando tudo o que acontece, com muito dramatismo, mas sem qualquer decalque com o real. E, depois, a memória ainda está bem fresca no povo. Ouvi-los criticar aumentos de impostos descredibiliza-os de uma forma tão definitiva que se torna num embaraço lamentável.

 

Não obstante, a direita tinha razão para se sentir como se sentiu. As razões são históricas e de prática política. O PS, tendo tido oportunidade para o fazer, sempre escolheu aliar-se à direita para formar soluções governativas de... direita. É factual. A exceção foi este governo.

 

Mas a situação é surreal não só pela história e pela coerência política, mas também pela prática concreta atual. Vejamos se me consigo explicar.

 

Olhamos para a proposta de orçamento de estado para 2017 e o que vemos? Melhor, o que vemos de esquerda? Concretamente, nada!

 

O aumento das pensões e o fim da sobretaxa são medidas que qualquer governo com uma certa razoabilidade e sentido de justiça poderiam tomar. Embora positiva, a reorganização fiscal operada, que coleta em potência exatamente os mesmos, também não. No que é o universo da esquerda, no que é a regulamentação do mercado de trabalho, a segurança dos trabalhadores, a distribuição da riqueza do país pelos portugueses... há apenas uma ténue medida de taxação aos imóveis de mais de seiscentos mil euros. É isso. Acabou. Tudo o resto, todo o lastro de desregulamentação, de destruição, do país nos anos de austeridade mantém-se perfeitamente intocado.

 

Honestamente, de que estamos nós concretamente a falar? É realmente surreal vermos a direita a criticar este governo quando, em bom rigor, o devia aplaudir de pé por ter conseguido o mais baixo défice da história democrática do país e, por seu turno, vermos a esquerda a apoiar e a constantemente argumentar desculpas para proteger este executivo, quando o devia estar a criticar ferozmente por, essencialmente, manter-se fiel à austeridade.

 

É evidente que a coisa política chegou a um ponto tão dramático, de clivagens tão profundas, em que a direita se extremou tão radicalmente, que obrigou a esquerda a aceitar um mal menor chamado governo PS. Entendo isso. Não deixo, contudo, de ter consciência dos conceitos em jogo. Esses não se alteraram. O vermelho não deixou de ser vermelho, nem o azul passou a ser cor-de-rosa. E a esquerda não está a apoiar um governo de esquerda. A esquerda está a apoiar um governo de direita e devia dizê-lo mais claramente e assumir um sentimento de alguma vergonha por isso mesmo. Ao meter-se em bicos de pés e ao não conseguir disfarçar um certo orgulho em medidas absolutamente frívolas como um aumento de dez euros nas pensões ou um desconto nos passes escolares dos estudantes do superior, está a colar-se a esta governação e a cada uma das suas consequências, boas ou más.

 

Vivem-se tempos políticos surreais, de facto. Veremos se todo este processo não conduzirá a transformações dramáticas dentro e fora destes partidos. Veremos se estes tempos não servirão como antecâmara para uma cambalhota na história.

O significado de belas artes

por Amato, em 15.10.16

Creio seriamente que este sistema que nos governa procura fazer de cada um de nós um atrasado mental. Agora querem fazer com que concordemos com a atribuição do Nobel da literatura a Bob Dylan usando argumentação variada: porque Dylan é um poeta dos melhores, porque não devemos ser puristas ou preconceituosos relativamente ao formato “canção”, porque Dylan escreveu um — um! — livro no século passado — e porque — esta é a minha preferida — escreve muito bem! Não aceitem esta linha argumentativa, por favor! Digam “Não!” a quem tenta fazer de vós atrasados mentais.

 

Deixo aqui algumas reflexões.

 

  1. Se existisse um prémio para galardoar a melhor peça musical, seria possível o género pop competir com o género operático?

 

  1. Se existisse um prémio para galardoar a melhor obra na área das belas artes, poderia uma caricatura ou um cartoon ser considerado para o prémio?

 

  1. Não é suposto o Prémio Nobel ser concedido a quem produziu uma grande obra no ano que finda à qual se junta uma carreira assinalável na área?

 

As respostas são não, não e... sim. Isto não quer dizer que estejamos a ser preconceituosos ou puristas relativamente ao formato da obra. O que significa é que há um significado para o conceito de beleza na Literatura, como em qualquer outra manifestação artística, aquilo que é tão bem definido na Pintura ou na Escultura através do conceito de “belas artes”. Tudo é virtualmente passível de ser considerado como arte. Belas artes, todavia, é outra coisa. Cada formato tem o seu significado e a sua importância, é verdade, mas isso é uma outra história. O que fizeram com o Prémio Nobel da Literatura deste ano foi procurar aniquilar qualquer vestígio deste conceito.

Um azar nunca vem só

por Amato, em 14.10.16

Estou um pouco chateado. É que estive à procura do meu CD Best of AC/DC e não há forma de o encontrar. Não faço ideia onde o terei guardado... As músicas são excelentes, mas as letras... sublime poesia.

 

Entretanto, fontes próximas confirmam-me que os AC/DC estão na pole position para o Nobel da Literatura do próximo ano. É caso para dizer que um azar nunca vem só: perder o CD de uma excecional banda de rock e uma peça literária ímpar imortalizada em áudio e potencialmente premiada com o Nobel no próximo ano...

 

For those about to Nobel, we salute you!

 

 

Pop Nobel

por Amato, em 13.10.16

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan deve ser entendida no estrito contexto de pronunciado declínio da Literatura no mundo contemporâneo. Esse declínio está intimamente conectado com o esbatimento das formas, dos conceitos, em particular no que diz respeito à forma romance e ao próprio conceito de arte.

 

O capitalismo tem destas coisas. Como na nossa sociedade há apenas uma entidade, um valor, que se sobrepõe a todas as outras — o capital —, então é apenas uma questão de tempo até que todas as outras se moldem e se esbatam em função dessa.

 

O romance dos tempos modernos saiu de moda. É um produto que quase que não se fabrica mais. A sociedade da competição, a vida a mil à hora, não se coaduna com a leitura de um escrito substancial, massivo, que necessita de tempo para ser entendido, de horas consecutivas para ser apreendido, interiorizado. Esta sociedade prefere, com efeito, o parente pobre do romance, o chamado romance de cordel. Não interessa se o desenrolar do mesmo seja uma meia dúzia de lugares-comum que se repetem ad nauseam. Com efeito, é melhor deste modo: assim poupa-se no pensar. Por outro lado, o que interessa mesmo é o número de cópias vendidas — lembram-se? —, não é a arte que é vertida em tinta nas páginas brancas.

 

Por seu turno, o conceito de arte tornou-se numa entidade mais abstrata do que qualquer outra, do que jamais foi. Chegamos ao ponto de medir a arte de uma obra pela publicidade gerada, pelo número de likes e de partilhas, para além do número de vendas. Podemos dizer que não, mas na prática é exatamente assim. Se existisse um mínimo de brio profissional na edição livreira, se existisse um mínimo de consideração, de amor, pela arte, se houvesse um conceito concreto qualquer que fosse, então uma boa parte dos livros à venda atualmente nas estantes das livrarias não seria sequer publicada, simplesmente. Não é possível perceber como é que se pode produzir tanto lixo em forma de livro se não se imaginar que possam existir outros objetivos afluentes que se pretendem atingir junto das massas.

 

A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan, já o tinha escrito neste blog a propósito de Vargas Llosa — nem de propósito! —, não é muito relevante, mas deve ser entendida sob este ponto de vista. Há quem diga, e com toda a razão, ser incrível que Portugal, historicamente um país de excelentes escritores, ter apenas um laureado comparativamente com outros países como a Suécia que tem sete vencedores. Isto também diz muito sobre a qualidade das escolhas. Contudo, pela forma como a carruagem Nobel está a fazer o seu caminho, tenho muito receio que o próximo português vencedor do Nobel da Literatura, ou desta nova versão do Pop Nobel, venha a ser algum escritor da espécie de José Rodrigues dos Santos. Tenho receio porque, acima de tudo, se está a tornar provável e porque ainda me sobra alguma noção do ridículo e, por isso, também alguma vergonha.

Se conduzir, não ouça mentecaptos

por Amato, em 13.10.16

https://1.bp.blogspot.com/-NjVYtmL6srU/Tf6wfWs9c9I/AAAAAAAAAc0/_0xLJFswB5c/s1600/BrandonDrives.jpg

 

Hoje estava a ouvir uma senhora na rádio que dizia que os desafios de Guterres enquanto Secretário Geral das Nações Unidas eram enormes por, segundo ela, ter que lidar com uma política expansionista da Rússia na Crimeia e na Síria. Realmente, de quando em vez, muito mais frequentemente do que seria desejável, apanha-se com cada mentecapta nos media que chega a ser aterrador. Talvez radique aqui a razão de ser de muitos acidentes de viação. Confesso que, eu próprio, dei um pronunciado ziguezague na via não tendo chocado com outra viatura por uma unha negra.

 

Para a mentecapta senhora, que refira-se, a talhe de foice, é professora de faculdade!, o problema do mundo é a Rússia ter uma política expansionista particularmente na Síria! Não, a política externa dos Estados Unidos nem é expansionista nem tem qualquer problema. As guerras criadas ao longo deste novo milénio pelos americanos não têm qualquer problema. O problema é a intervenção russa.

 

Sem a intervenção russa, a Síria estaria seguramente dominada por esta altura pelo Estado Islâmico. A intervenção russa permitiu libertar, aliás, muitas cidades importantes e estratégicas do controlo dos terroristas. Relembro aqui a libertação da cidade de Palmyra.

 

Mas para a mentecapta senhora, o problema de António Guterres é a Rússia... É preciso ter cuidado: se conduzir, não ouça mentecaptos. Pode originar sinistros.

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