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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Sobre a mediocridade à venda nos CTT

por Amato, em 19.07.16

Hoje aconteceu ver a minha rotina quebrada com uma visita a um posto dos correios. Fiquei deveras espantado: é incrível a mediocridade em forma de livro que lá é vendida. Há de tudo: romances de cordel, biografias patéticas e autobajulantes, manuais de autoajuda... escolha-se o que seja de melhor agrado.

 

https://silverbirchpress.files.wordpress.com/2013/08/mick-stevens-i-m-looking-for-a-book-by-t-what-s-his-face-boyle-new-yorker-cartoon.jpg

Assim, é fácil perceber como certos autores são tão bem sucedidos nas vendas: até nos CTT estão lá, arreganhados com a tag “sugestão da semana” em cima. Já não chegava os continentes e os pingo doces a colocá-los junto às promoções do dia, já não bastava que as livrarias comerciais também não tivessem um pouco de ética nas suas escolhas de montras e expositores, já não bastava, enfim, a fossa em que a qualidade literária média caiu na sociedade contemporânea. É assim que se constrói o unanimismo. É assim que se constroem os falsos ídolos no que à literatura diz respeito.

 

Estes autores — não interessa estar aqui a discriminar — são literalmente enfiados pela goela abaixo dos leitores menos avisados culturalmente, que, por não lhes ser dado a conhecer nada de melhor, confundem o que leem com qualquer coisa parecida com destreza artística. A História, porém, como crivo de mediocridade que é e que nunca deixará de ser, não deixará registo de um único exemplar daqueles que pontificam nas prateleiras dos CTT. É pena é que ninguém seja responsabilizado por isso.

Uma vaia é apenas uma vaia

por Amato, em 18.07.16

Manuel Valls é o primeiro-ministro francês. Perante os atentados terroristas disse “vai haver outros atentados em grande escala” e “haverá sem dúvida mais vítimas inocentes”. Hoje, Manuel Valls foi vaiado pela população durante o minuto de silêncio às vítimas do atentado de Nice.

 

Manuel Valls é o símbolo de uma forma de fazer política. Por momentos, parece que não é o primeiro-ministro de França mas apenas um mero comentador de café. Por vezes, parece que não tem a seu cargo a gestão e a organização de um país inteiro, parece um qualquer irresponsável a dizer baboseiras, resguardado na sua própria noção de “verdade” que trata de impor ao mundo inteiro. Esta forma de fazer política é asquerosa.

 

No limite, se Manuel Valls for realmente o incompetente que as suas palavras denotam, não tem mais que fazer se não apresentar a sua demissão e ceder o lugar a quem se proponha fazer melhor, a quem se proponha evitar “outros atentados em grande escala” assim como “mais vítimas inocentes”. Mas ele não arreda pé: declara por antecipação o seu fracasso, mas não abdica do seu lugar, quase como dizendo, sobranceiramente, que ninguém faria melhor do que ele, o iluminado Valls. Perante as circunstâncias, vaiar Manuel Valls foi pouco. Uma vaia é apenas uma vaia.

 

Em Portugal também temos muitos políticos da mesma massa pútrida de Manuel Valls. Nos últimos anos não faltaram os que diziam não haver alternativa ao país a não ser empobrecer, empobrecer e empobrecer. Também diziam trazer a “verdade” e não cederam o seu lugar a quem pudesse ambicionar fazer melhor. Também foram vaiados. Também as vaias de que foram alvo foram insuficientes. A maior parte dos portugueses continua a preferi-los. Somente nas urnas se pode dar o tratamento merecido aos políticos do género de Manuel Valls. Uma vaia, repito, é apenas uma vaia.

O terceiro erro ou o que o simbolismo dissimula

por Amato, em 17.07.16

cada encruzilhada da estrada governativa, o governo PS vai tomando as suas opções. Com cada uma, define também o conjunto dos seus aliados e o conjunto dos seus opositores políticos.

 

http://images.clipartpanda.com/crossroads-clipart-crossroad-sign-blank-md.png

 

 

A decisão de não incluir o PCP na escolha dos juízes para o Tribunal Constitucional é meramente simbólica, carece de substância política propriamente dita. O simbolismo, todavia, dissimula em si um conteúdo de natureza primordial. Chamemos-lhe confiança política. Chamemos-lhe sinceridade, respeito ou lisura. Mais do que qualquer coisa diversa, os acordos políticos com partidos coerentes, dirigidos por pessoas de palavra — como o é o PCP —, assentam neste tipo de valores.

 

Produz-se, deste modo, prova acabada de como o acordo de suporte parlamentar ao governo PS é visto por este último como circunstancial, como uma contingência dos tempos, e não como algo de sério e potencialmente transformador para o país que deve ser nutrido tanto como alargado. O PCP é claramente visto não como um parceiro parlamentar mas como uma pedra no sapato na governação socialista. Não existisse o PCP e lá estaria o PS a fazer todas as vontades à Alemanha e a voltar com a palavra atrás nas promessas de campanha eleitoral. A sua governação não seria mais que um redesenhar do plano de austeridade.

 

Neste contexto, com o governo sob constante pressão europeia e ansioso por produzir oferendas políticas para Wolfgang Schäuble, espera-se com curiosidade o que trará o orçamento de estado do próximo ano. Este tipo de indelicadezas apenas contribuirão, contudo, para que os visados se encontrem mais livres — se é que alguma vez se sentiram condicionados — para decidir o seu voto em conformidade e coerência com os compromissos assumidos com o seu eleitorado.

Uniformização de pensamento

por Amato, em 16.07.16

É exatamente isto:

https://www.publico.pt/mundo/noticia/flores-para-algernon-1738439?page=-1.

 

Que bem que Pacheco Pereira o resume! Vivemos a era do soundbite e da profusão de soundbites, a era dos escândalos efémeros. Se formos inundados com escândalos, um diferente em cada dia, então, constantemente escandalizados, não discutimos nada verdadeiramente. É esta a estratégia. É esta a razão de ser desta era em que vivemos.

 

Salvador Dali - A Persistência da Memória

 

Já não nos conseguimos lembrar do que aconteceu na semana passada. Mas temos uma noção do que é certo ou errado, do que é seguro e do que é perigoso. De onde vem? Não sabemos.

 

Uniformização de pensamento. Pensamento único.

 

Dá vontade de não fazer parte disto, de não contribuir para a estratégia deles.

Basta um pequeno distúrbio e tudo muda

por Amato, em 15.07.16

Um dia, um Professor disse-me algo a que recorro sempre que me sinto triste com esta inércia que governa o mundo e as sociedades humanas. Refiro-me ao que parecem ser as inevitabilidades do mundo. Refiro-me àquelas regras não demonstráveis inspiradas numa espécie de empirismo prático, ditadas pelos professores medíocres e copiadas pelos estudantes-ovelha, sem suscitarem uma pergunta que seja.

 

Muitas vezes, parece que nada transformará esta velha engrenagem, parece que os povos estão tão identificados com esta estratificação social que ela valerá para sempre. Não faz sentido pensar assim, há exemplos suficientes que mostram que é possível pensar as relações sociais de forma diferente, não interessa a difamação de que ainda hoje são alvo.

 

Mas, apesar de tudo, há dias que me apanham triste, deprimido com esta inércia. Então lembro-me do Professor de quem falava logo na primeira linha deste texto. Ele dizia: “As relações sociais são como uma bomba atómica. A bomba atómica é estruturalmente muito estável. Só que um pequeno distúrbio na sua estrutura gera uma explosão gigantesca. As relações sociais são iguais. Tudo parece ser de natureza perene e imutável. Todavia, de um momento para o outro, dá-se uma explosão, basta um pequeno distúrbio, que depressa se desmultiplica de modo exponencial, e tudo muda.”

 

É a esta ideia que me agarro. É esta ideia que me dá esperança no amanhã que virá.

 

http://tjen-folket.no/tmp_images/719-770.jpg

Um dia mais que passa

por Amato, em 12.07.16

Hoje viveu-se mais um episódio da novela de terceira categoria que roda em torno das sanções da União Europeia aos estados soberanos da Península Ibérica. O fim da novela parece estar longe, cada vez mais longe, à medida que esta se desenrola. O propósito da novela é eternizar-se para se eternizar, assim, deste modo, a ingerência declarada do eixo franco-alemão sobre a política e a gestão de todos e de cada um dos estados membros da União Europeia.

 

Desmonta-se, portanto, a charada. Cai a máscara a esta União de estados canalhas que, de um lado e de outro, se escudam por detrás de tratados, escondem dos seus povos a verdadeira batalha que está a ser travada, não em campo aberto, não segundo o ponto de vista dos vértices das lâminas desembainhadas ou do cheiro a pólvora explodida, mas dentro de gabinetes de imprensa sob declarações encharcadas em hipocrisia.

 

Nada disto é novo. Este processo de submissão dos povos pela dívida é uma réplica, talvez mais sofisticada, do que se passou na América latina no século XIX na sequência dos respetivos processos independentistas. Então, como agora, os países tomados na sua autodeterminação e na sua soberania pelos credores só puderam quebrar as suas grilhetas confrontando diretamente, frente a frente, olhos nos olhos, os seus credores, munidos de inabalável convicção. Aconselho a leitura deste artigo de Eric Toussaint para se saber o que não vem, nem nos livros de História, nem nos meios de comunicação do capitalismo ocidental.

 

Cada dia que passa em que Portugal permanece na União Europeia e no Euro é um dia mais que se perde para o país tomar nas suas mãos o seu próprio futuro, é um dia mais que passa de submissão aos poderes que nos espezinham.

O problema da sociedade, segundo Stephen Hawking

por Amato, em 10.07.16

No dia oito de agosto de dois mil e quinze o cientista Stephen Hawking deu uma entrevista ao site reddit.com onde respondeu a várias perguntas que lhe foram colocadas. Numa delas, Hawking é confrontado com a possibilidade de a crescente automatização dos meios de produção poder colocar em causa o lugar do ser humano na sociedade dando lugar a um desemprego massivo. A sua resposta é simplesmente brilhante:

 

Se as máquinas produzirem tudo de que precisamos, o resultado vai depender de como as coisas são distribuídas. Todos podem desfrutar de uma vida de luxuoso lazer se a riqueza produzida pelas máquinas for compartilhada. Ou a maioria das pessoas pode acabar miseravelmente pobre se os donos das máquinas se se posicionarem com sucesso contra a redistribuição da riqueza. Até agora, a tendência parece apontar para a segunda opção, com a tecnologia conduzindo para uma desigualdade cada vez maior.

 

Para Hawking o problema não são as máquinas, o problema é o sistema de redistribuição de riqueza. O problema, se lhe quisermos dar um nome, chama-se capitalismo.

 

Já tinha escrito algo do género aqui no blog: se pensarmos na evolução industrial, na história dos meios de produção, nunca como hoje os custos foram tão baixos e os proveitos tão elevados. Isto é algo de indesmentível. Não obstante alguns ganhos significativos para os povos, sobretudo os do ocidente, é igualmente claro que esses ganhos são irrisórios se comparados com os ganhos da burguesia em todo o processo.

 

O problema está aqui, na distribuição da riqueza.  Hawking não foi o primeiro cientista a dizê-lo. Todavia, acho que não é necessário um cientista para o perceber.

 

http://www.newstatesman.com/sites/default/files/styles/nodeimage/public/blogs_2015/01/shcrop1.jpg?itok=gm7KSYFY

 

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