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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Cultura de mortos-vivos

por Amato, em 31.07.16

http://hypebeast.com/image/2016/07/pawel-kuczynski-pokemon-go-0101.jpg

 

O Pokemon Go não é o problema, é meramente um pretexto. Não fosse o Pokemon Go e seria um outro jogo, o Facebook, o Twitter, o Messenger ou outra desculpa qualquer para a alienação, para a fuga da realidade. Parece que a população acedeu a um estádio do seu desenvolvimento que é uma espécie de depressão coletiva, permanente, com a valência de ejeção massiva dos homens da sua condição social, cultural e... humana. Os homens são cada vez menos homens: são mortos-vivos despojados de livre autodeterminação.

O político que vira as costas e “faz queixinhas” pelos jornais

por Amato, em 30.07.16

A propósito de um post que escrevi, não fiquei muito admirado quando o Presidente da Câmara do Porto veio escrever um artigo no JN onde procura defender-se das acusações de que é alvo no caso da Imobiliária Selminho. Como é seu apanágio, Rui Moreira faz uma descrição parcial da sucessão dos eventos, apresentando-os como insofismáveis ou indiscutíveis, ao mesmo tempo que se esquiva às questões mais pertinentes. Isto é feito com um tom arrogante que lhe é característico, que o leva a adjetivação imprópria que é marca, aliás, de quem se sente encurralado e de quem não tem argumentos.

 

Devo sublinhar que a atitude que Rui Moreira teima em repetir, que se traduz em abandonar o debate — literalmente virar as costas aos seus interlocutores — quando é confrontado com o que não deseja ouvir, para depois vir para os jornais confortavelmente “fazer queixinhas” e contar a história como bem entende, causa-me um profundo asco. É sintoma de falta de cultura democrática. Reconhecer que alguém com este tipo de estrutura ou de qualidade de caráter possa ser Presidente da Câmara do Porto é, para mim, simplesmente lamentável.

 

Fica aqui a resposta ao Presidente da Câmara do Porto pelo vereador da CDU no mesmo jornal, uma vez que não é permitido que os assuntos sejam discutidos em sede própria, ou seja, em sede da Assembleia Municipal. Ficam, sobretudo, as questões às quais Rui Moreira se recusa a responder ao longo do seu enternecedor exercício de vitimização, mas que faço questão de as transcrever.

 

1) “Este acordo, apesar de ter sido assinado em 2014, não foi levado a reunião de Câmara.”

Porquê?

 

2) “O acordo compromete a Câmara a tomar diligências para alterar o PDM de acordo com as pretensões da empresa Selminho, o que entra em contradição com as posições que esta tomou no passado (rejeitando essas pretensões na revisão do PDM de 2006 e na alteração do PDM de 2012, com pareceres negativos dos serviços camarários do ambiente e urbanismo)”.

Porquê?

 

3) “[A Câmara] acaba por reconhecer de facto direitos construtivos a esta empresa que até então não os tinha. Com a possibilidade, caso as pretensões da empresa não sejam satisfeitas na revisão do PDM em curso, de esta poder recorrer a um tribunal arbitral (onde cada parte elege um representante e as duas partes elegem um terceiro para presidir), para reclamar uma indemnização.”

Quem se responsabiliza por isto?

 

4) “Tudo à revelia do vereador do Urbanismo, que afirmou desconhecer completamente o assunto! Quem tomou, então, esta decisão e quais as razões da mesma?”

 

5) “Diz Moreira que as probabilidades de sucesso da Câmara em tribunal eram pequenas? Quem apurou essas probabilidades?”

 

6) “Diz, também, que a Câmara se atrasou a entregar as suas alegações em tribunal favorecendo a Selminho: já apurou responsabilidades?”

 

Fica uma questão mais, colocada por mim: no fim de contas, depois de todos os preceitos jurídicos e legais cumpridos, dando de barato todas as justificações processuais oportunas, quem vai beneficiar com este negócio? Os portuenses, o Porto, ou a Imobiliária Selminho?

                                                                                           

Seja como for, este caso tem o condão de nos permitir ouvir slogans como “O Porto primeiro” ou “O Porto somos nós” sob uma luz muito mais esclarecedora.

Condição para medir a felicidade nos homens

por Amato, em 29.07.16

“Heródoto descreve, nas Guerras Pérsicas, a maneira como Creso [último rei da Lídia, reino antigo que ocupava uma porção da Ásia Menor], o rei mais rico e mais privilegiado do seu tempo, fez a Sólon de Atenas [um dos sete sábios da Grécia antiga] uma pergunta capital. Ele não teria feito a pergunta, se a respostas não o preocupasse: «Quem», perguntou, «é o homem mais feliz do mundo?» Ele devia estar sequioso de obter uma certeza. Sólon citou-lhe os nomes de três homens que tinham sido felizes no passado. É mais do que certo que Creso nem sequer o escutou, pois o único nome que ansiava por ouvir era o seu. Por isso, quando viu que Sólon não o mencionava, Creso sentiu-se obrigado a perguntar: «Então não me consideras um dos afortunados?»

 

Sólon respondeu sem hesitar: «Como te posso responder se ainda não morreste?»

 

Tal resposta deve ter obcecado Creso quando viu desaparecer a felicidade, as riquezas e o seu reino. E ao subir à fogueira, evocou o nome de Sólon, compreendendo a verdade da resposta e a inutilidade da pergunta feita.

 

Na nossa era, se morre um homem que possuía fortuna, influência, poderio e todos os demais atributos que despertam a inveja, se os vivos fazem o inventário da vida desse homem, logo surge naturalmente a pergunta: «A sua vida foi boa ou foi má?», o que consiste em dar outra fórmula à pergunta de Creso. Morta a inveja, o padrão usado é o seguinte: «Foi amado ou odiado? A sua morte for uma perda, ou só é motivo de júbilo?»”

 

— John Steinbeck, A Leste do Paraíso

O vendedor de ilusões

por Amato, em 28.07.16

Ouvir o discurso de Barack Obama na convenção do Partido Democrata americano é a cereja no topo do bolo. Suponho que a democracia americana tem tanto valor quanto o valor que a sociedade atribui a este tipo de espetáculo demagógico, a este fogo de artifício vazio de política propriamente dita. Pergunto-me o que teria aquela gente toda a dizer se, do outro lado, não pontificasse a sinistra figura de Donald Trump. Nada? Provavelmente.

 

Algumas conclusões:

 

1) A política norte-americana está reduzida a espetáculo mediático puro, completamente desapossada de qualquer discussão efetivamente política, sendo certo que o cargo de Presidente dos Estados Unidos da América já foi engenhosamente formatado para ter o seu real poder muito limitado.

 

2) Os políticos norte-americanos são menos importantes que atores ou cantores pop. Este facto não deixa de ser irónico.

 

3) A resposta do Partido Democrata ao Partido Republicano de Trump é combater palhaçada com palhaçada.

 

4) Barack Obama, com o seu discurso de apoio a Hillary Clinton — enterrada até ao pescoço nas mais fétidas promiscuidades com os lobbies e os interesses que governam os americanos —, mostra aquilo que é e aquilo que sempre foi: um vendedor bem-falante de ilusões que, para o fazer, é capaz de nos mentir descaradamente.

 

http://www.harpweek.com/Images/SourceImages/CartoonOfTheDay/August/083161m.jpg

O trabalhador é apenas uma peça

por Amato, em 27.07.16

Hoje proponho uma reflexão sobre o efeito do capitalismo sobre o trabalho em geral.

 

Noto que o sistema capitalista induz nos seus trabalhadores um grande distanciamento das suas funções. Por norma, os trabalhadores não aguentam muito tempo num mesmo trabalho, estando constantemente a mudar de emprego. Isto é consequência direta da instabilidade/flexibilidade de que o sistema capitalista é feito, por um lado, e, por outro, da promoção junto de cada pessoa de uma ideia de competitividade e de procura por algo que possa ser melhor.

 

Este distanciamento bem patente entre trabalhador e trabalho resulta numa grande ineficácia dos serviços. Não quer isto dizer que não haja — nem sempre há — um sorriso na cara ou uma aparente boa vontade por parte do trabalhador em cumprir a sua tarefa. Não é disso que se trata. No que este distanciamento se traduz efetivamente é numa falta de sensibilidade para com as particularidades do trabalho, sensibilidade essa que decorre de uma experiência que, no contexto do sistema, nunca é adquirida. É aquilo a que se chama o “saber fazer”.

 

É fácil comprovar o que escrevo: quantas vezes encontramos as mesmas caras quando recorremos a um serviço qualquer? Quantas? E por quanto tempo?

 

E há ainda uma outra coisa que se perde ou, talvez, nunca se ganha: um respeito pelo trabalho que se tem, um certo tipo de amor que tem o condão de fazer de cada trabalhador um defensor intransigente da sua fábrica ou da sua empresa. Ao contrário do que pensam os psicólogos motivacionais do capitalismo, isto não se adquire com jantaradas ou festas onde se forçam camaradagens artificiais. O amor pelo trabalho adquire-se com anos de serviço, com o conferir ao trabalhador de estabilidade, de responsabilidade e de importância perante a sua função.

 

O capitalismo tudo isto renega, observando o trabalhador como uma peça na sua engrenagem de produção de lucro. O lucro fácil é, aliás, a razão de ser de tudo o que acontece na sociedade capitalista. Para disfarçá-lo, a ideologia capitalista carrega no botão da propaganda, dos anúncios, da imagética, produzindo uma mensagem hipócrita por ser tão contraditória. Esconde-se atrás das novas tecnologias e em pseudo-novos-avanços-tecnológicos, que na maior parte dos casos se revelam absolutamente redundantes, na prestação de serviços que sempre serão essencialmente os mesmos. O povo normalmente vai atrás dessa imagem de contínua novidade quando aquilo que procura normalmente é de uma natureza perene como a folhagem de certas árvores.

 

Simultaneamente, a vertigem pelo lucro fácil induz a seleção daqueles trabalhadores que se resignam a vender o seu trabalho pelo menor preço, o que, por sua vez, conduz a uma real deterioração da qualidade humana/técnica dos trabalhos, ao contrário do que a propaganda capitalista afirma.

 

Neste processo, o que realmente se perde é uma filosofia de constante melhoria individual, de aprimoramento infinito das várias funções laborais. Dessa filosofia já nem uma ténue ideia resta na sociedade concreta que experimentamos. Como escrevi há dois parágrafos atrás, o trabalhador é apenas uma peça e uma peça não pensa, nem tem sentimentos.

 

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/1/1b/The_protectors_of_our_industries.jpg

Aura de santidade política

por Amato, em 24.07.16

Existe uma aura de seriedade e, até, de superioridade moral que envolve a personalidade de Rui Moreira, aquele que, por ora, ocupa o cargo de Presidente da Câmara do Porto. Essa aura é-lhe conferida pela generalidade da população. Para quem vive em redor da região do Porto isso é muito claro. A população da região do Grande Porto adora o seu Presidente e dedica-lhe os comentários mais abonatórios. Basta calcorrear as ruas, frequentar os cafés da cidade. Nas celebrações da eucaristia, os clérigos, imagino, dedicar-lhe-ão parte das homilias, e o povo, em geral, entoará cânticos em seu louvor.

 

Todavia, tal impressão não é exclusiva das gentes do Porto. Se bem notarmos, ela estende-se um pouco a todo o país, quase como se a personalidade estivesse a ser preparada a preceito para outros voos políticos. De onde vem tal aura de santidade política não se percebe verdadeiramente. Bem entendido, não existe nada que à partida o justifique. O concorre para o facto será, eventualmente, o que sempre concorre para casos similares ao de Rui Moreira: 1) Uma ascensão profissional “meteórica” mas discreta; 2) Estar sempre de mão dada com os poderes capitalistas da sociedade; 3) Assumir permanentemente um discurso anti-sistema e anti-políticos; 4) Vestir sempre fato e gravata; 5) Assumir sempre uma postura mediática hirta, de “cara feia”, aos olhos do povo, sinónimo de seriedade; 6) Ser relativamente “virgem” na vida política propriamente dita; 7) Corresponder aos anseios infantis do povo por uma liderança considerada “forte”. Estes sete condimentos, quando combinados, formam uma mistura a que chamarei de “sebastiânica” e que envolve excelente aceitação popular, excelentes críticas na comunicação social e, em suma, “carta branca” na sua ação política.

 

Algumas consequências dessa “carta branca” começam a eclodir no seio do Porto e na sua governação. O último desabrochamento de que se tem conhecimento veio no Expresso deste fim-de-semana, uma peça interessantíssima sobre uma tal de Imobiliária Selminho, o PDM e construção em terreno rústico sobre proteção ambiental no Porto, na zona da Arrábida. Estaremos cá para observar este e todo o tipo de frutos que irão ser deixados no Porto após os mandatos deste executivo.

 

O povo parece prolongar perpetuamente uma busca em torno de um líder que por ele faça e que por ele pense, quando essa é precisamente a condição sine qua non para se ser o mais rapidamente enganado. Enquanto continuarmos a aceitar frases como “o nosso partido é o Porto” ou outros logros intelectuais que tais, então continuaremos a ter lideranças do mesmo tipo. Lideranças superiores requerem eleitorados intelectualmente superiores.

O plural de pokemon é pokemon

por Amato, em 22.07.16

A febre de Pokemon Go, que atinge momentaneamente o nosso país, é o sintoma da decadência cultural das sociedades. Decadência é a palavra mais acertada para descrever o fenómeno.

 

O jogo em si é uma palermice, mas não é apenas uma palermice, é uma palermice perigosa, um braço do sistema de vigilância em que nos metemos — cidadãos, sociedades e nações — voluntariamente, e que se vai tornando cada vez mais sofisticado. Desta vez, assume a forma de um jogo palerma. Através deste jogo, pode-se aceder às rotinas diárias dos jogadores, passo por passo, à conta de e-mail e sim, até ao interior das casas onde vivem, assim, inocentemente.

 

Sublinho aqui a palermice do jogo: quem já jogou algum jogo da saga percebe facilmente que este Pokemon Go tem muito pouco que ver com os seus parentes afastados da Nintendo. É tão somente uma simplificação pateta com condimentos para viciar as massas.

 

Que o mundo, e o nosso país em particular, está repleto de palermas, não constitui propriamente uma novidade de assinalar. Estes — os que andam para trás e para diante a palmilhar as ruas e os recantos do país com os olhos vidrados no telemóvel sem pestanejar — são os mesmos jovens da geração de “os políticos são todos iguais” e outras pérolas que tais, mas que votam sempre nos mesmos. Também são as audiências dos big brothers e das casas dos segredos. Reparem que não interessa que tenham ou não um curso superior: são todos iguais, unidos nesta mediocridade cultural sem precedentes, porque esta cultura reality-TV, que também não conhece precedentes, alimenta-os e cria-os. O Pokemon Go é simplesmente a última face desta miséria cultural a que chegámos.

 

Mas se se impõe que se fale e que se escreva sobre o fenómeno, pelo menos que se tenha a derradeira decência de se falar e de se escrever com correção. O plural de pokemon não é pokemons, é pokemon. Não se acrescente à palermice incorreção linguística. Pelo menos isso, se não outra coisa qualquer, pode ser que ajude a disfarçar a decadência cultural em que nos metemos.

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