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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Sobre a regra de ouro dos 3%

On a imaginé ce chiffre de 3% en moins d'une heure, il est né sur un coin de table, sans aucune réflexion théorique.

 

Nós inventámos este número dos 3% em menos de uma hora, ele nasceu nas costas de um envelope, sem qualquer reflexão teórica.

 

— Guy Abeille, o Senhor 3%, in Le Parisien

 

Para saber mais sobre a anedota feita “regra de ouro da ciência económica” aceder aqui.

publicado às 12:19

Brexit, Portexit e Eurexit

Aos vinte e três do presente mês o Reino Unido submeterá a referendo a sua permanência na União Europeia sendo que o sim à saída do país da União segue na frente das sondagens até ao momento realizadas. O referendo é o corolário de uma promessa do Primeiro-ministro britânico David Cameron ao seu povo mas é mais do que isso: a ameaça de saída do Reino Unido da União Europeia — o chamado Brexit — é uma forma de pressão sobre o diretório de potências continentais europeias da moeda única para reclamar mais autonomia e alargados poderes ao Reino Unido no contexto da União.

 

https://grrrgraphics.files.wordpress.com/2016/06/brexit_ben_garrison.jpg?w=640&h=458

 

A questão do Brexit devia ser tratada na nossa sociedade com afincado detalhe, com obcecada minúcia, dada a sua acentuada pertinência. A questão — Por que razão o Reino Unido equaciona sair da União Europeia quando nem sequer faz parte da moeda única e quando é dos poucos países da União em franca prosperidade? — devia ser, pelo menos, levantada, colocada no ar, para que sobre ela fosse possível refletir seriamente.

 

Tão pouco a questão não é levantada, como nada se discute sobre o assunto. Nenhuma questão se coloca sobre a nossa própria posição enquanto país, sobre a nossa situação de estagnação ou contração económica ou sobre a nossa perda transversal e desmedida de autonomia ao longo do tempo de permanência na União Europeia. Mesmo ao nosso lado, acima, melhor dizendo, vemos os nossos vizinhos a discutir um assunto que nos atinge também e a nossa reação é fingir que nada se passa.

 

Chega a ser arrepiante constatar o sentimento de pensamento único que envolve Portugal no que à União Europeia diz respeito. Em boa verdade, tal não é assim tão admirável se pensarmos que, de todos os partidos com assento parlamentar, apenas um defende abertamente a saída do Euro e coloca reservas à continuidade na União Europeia — o PCP. Todos os outros partidos preferem fazer uma apologia perfeitamente idealista e utópica de uma certa ideia do que a União Europeia devia de ser, mas não é, nem nunca foi. Já uma vez escrevi sobre o assunto. Eles chamam a essa União Europeia a União Europeia “dos fundadores” mas estou convencido que não fazem ideia do que falam, nem a quem se referem.

 

Também neste assunto particular, torna-se muito claro como a chamada “opinião pública” é tão pouco permeável a vozes dissonantes que sejam capazes de introduzir uma visão diferente das coisas. Os meios de comunicação são, na prática, instrumentos totalmente vedados a qualquer voz que não siga a matriz de opiniões canónicas previamente escolhidas para serem difundidas.

 

O Brexit, contudo, vem aí. Seria melhor que fossemos capazes de o perceber bem, já que poderíamos lucrar muito com ele ou com algum dos seus primos diretos: o Portexit ou, pelo menos e mais importante, o Eurexit.

publicado às 23:00

E, portanto, prosseguimos vendo futebol.

Por vezes, parece que andamos todos coletivamente à procura de pretextos que nos distraiam da nossa vida, como se esta fosse — e seguramente será em muitos casos — verdadeiramente insuportável. Agora temos sensivelmente vinte dias de futebol, de seleção nacional, pela frente. Não se fala noutra coisa, nas televisões, nas rádios e nos jornais. Não há mais vida para além do futebol. Se não forem jogos em direto, são análises aos mesmos ou antevisões aos que se seguem. Ou, então, comentadores a comentarem-se a si próprios. Fala-se e escreve-se sobre literalmente nada.

 

Antes da seleção foram outras realidades, outros acontecimentos, que preencheram o espaço mediático. Depois do futebol virão outros pretextos, talvez mais futebol que parece ser de uma qualidade inesgotável. Em cada um deles despejamos todas as nossas angústias e cada uma das nossas esperanças.

 

Não é compreensível. É impossível explicar ou compreender este processo de transferência da nossa vida para uma realização artificial e completamente externa como é o futebol. Ainda se o futebol fosse uma manifestação coletiva desportiva da nação, então poder-se-ia compreender o fenómeno na ótica de um espírito nacionalista ferrenho. Mas o futebol é uma manifestação profundamente corrompida pelo sistema capitalista. Os jogadores são colocados sobretudo em função do potencial negócio que possam gerar mais do que por qualquer outra coisa. Nem a nacionalidade é hoje um obstáculo. Esqueçam a bandeira e o hino. Tudo revolve em torno do dinheiro. Todavia, o povo acompanha o fenómeno de uma forma muito pouco saudável, alimentado por uma comunicação social que, nestes momentos, revela a sua verdadeira face decadente.

 

Os resultados do futebol são vividos, portanto, em extremos, numa espécie de transtorno bipolar. As vitórias são festejadas com histeria e delírio. As derrotas são recebidas com depressão profunda. Nada disto parece fazer muito sentido. Mas no final do dia, configura-se muito mais fácil ir para a cama e adormecer a pensar nos golos da seleção ou nas opções do selecionador para o próximo jogo, do que pensar no que realmente é necessário enfrentar no dia seguinte, na vida real.

 

Por ventura, a explicação reside aqui: sentimo-nos tão amarrados, tão presos, tão condenados, à vida que levamos, sentimos que não temos poder para fazer o que quer que seja, que despejar a adrenalina em algo tão fútil quanto o futebol parece ser a única coisa razoável a fazer. Isto é o resultado de vivermos voltados para o nosso próprio umbigo, de sermos criados dessa forma, individualista, egoísta e seguidista, de não nos apoiarmos solidariamente, comunitariamente, uns nos outros. Porque o poder para fazermos algo acerca das nossas vidas reside em nós próprios tanto quanto está nos que nos rodeiam. Como estamos tão formatados desta forma individualista, esta realidade está vedada aos nossos olhos. E, portanto, prosseguimos vendo futebol.

publicado às 20:23

As mães de hoje em dia são ridículas

As mães de hoje em dia são ridículas. É uma generalização, bem o sei. É algo abundantemente injusto de se dizer, também tenho consciência disso. E, todavia, é preciso que se diga! É preciso que se diga a plenos pulmões!

 

Peço encarecidamente ao leitor, portanto, que não disperse já, que continue comigo, nestas linhas, um pouco mais.

 

Nem todas as mães são ridículas mas, hoje em dia, uma boa parte delas é. O que lhes atribui a classificação de ridículo é, com efeito, o que lhes atribui a condição de mãe. O ridículo nota-se na forma como tratam os filhos. Observem um pouco. Prestem atenção. Provavelmente uma grande parte de vós sabe perfeitamente ao que me refiro. As mães contemporâneas tratam os filhos como se eles fossem bonecos e como se, elas próprias, fossem meninas com idade para brincar com bonecos.

 

Para estas mães, os seus filhos são muito literalmente o centro do universo e estes crescem e desenvolvem-se a acreditar piamente nisso mesmo. Esta crença interfere decisivamente no desenvolvimento das amizades e do espírito de solidariedade e de camaradagem entre pares. Mais: esta crença afeta seriamente a construção de uma certa ideia de igualdade. Questionamo-nos frequentemente sobre a razão de ser do crescente individualismo das sociedades ocidentais. Questionamo-nos frequentemente sobre a razão de ser desta sociedade competitiva e desumana em que vivemos. Por ventura, a resposta achar-se-á aqui e não noutro lugar.

 

Quando estas crianças, enfim, descobrem não ser o centro do universo como lhes prometeram durante toda a sua infância, que não são uma espécie de diamentes que merecem constante polimento, ficam muito admiradas e deprimidas com o mundo. Todavia, este despertar para o mundo real será sempre parcial. Subsistirá sempre uma certa forma de ver a sociedade, individual, egoísta, uma forma de avaliar o outro e os outros por contraponto ao seu próprio interesse. Estas são as sementes nefastas que ficam para erigir a sociedade destas crianças feitas, inevitavelmente, homens. Este é o problema.

 

Há quem diga que esta forma de criar e de educar das mães contemporâneas advém do facto destas atingirem a maternidade muito mais tarde nas suas vidas. Quando no passado as mulheres eram mães antes dos vinte, agora são-no mais perto dos quarenta. É talvez um sentimento de singularidade que supera qualquer outro no nascimento do filho que faz com que a mãe adquira traços de superproteção. Pode ser que muitas das mães contemporâneas vejam nos seus filhos uma possibilidade de realização pessoal algo doentia que talvez não existisse no passado. Pode ser isso ou pode não ser nada disto.

 

Há uma outra possibilidade: podem ser os pais. Há uma passagem em A Leste do Paraíso que me pôs a pensar.

 

Adam aquiesceu e os dois rapazes saíram a correr. Samuel seguiu-os com o olhar.

— Parecem ter mais de onze anos — disse ele. — Se bem me recordo, os meus filhos, aos onze anos, eram mais traquinas. Estes dois parecem adultos.

— A sério? — perguntou Adam.

— Acho que sei porque é — disse Lee. — É que não há mulher nenhuma em casa para gostar das crianças. Não me parece que os homens apreciem muito as crianças, e por isso estes rapazes nunca perceberam que vantagem tinham em se portarem como tal, pois nada tinham a ganhar com isso. Gostava de saber se isto é bom ou mau.

in A Leste do Paraíso, John Steinbeck

 

 

Realmente, parece que os pais contemporâneos deixaram um pouco a sua condição de pais. Parece que faz falta às crianças de hoje em dia terem aquela figura de alguma severidade e intransigência nas suas vidas, para conhecerem limites, para respeitarem regras, para com elas formarem o seu caráter.

 

Acaso o problema não estará no facto das mães de hoje em dia serem ridículas. Se calhar sempre o foram em dosagem possivelmente diferente. Por ventura, o problema estará nos pais que, hoje em dia, não sabem qual o seu papel, desempenhando muitas vezes as funções de uma espécie de segunda mãe em vez das de um pai.

publicado às 11:45

Governos Vichy e colaboracionistas contemporâneos

Quando o Terceiro Reich conquistou a França, foi dissolvida a terceira república francesa e instaurado o chamado État Français. O governo fantoche, então criado, passou a ser conhecido como o governo Vichy, por ser sediado nessa cidade francesa que fica a sudeste de Paris, próximo de Clermont-Ferrand.

 

http://i.telegraph.co.uk/multimedia/archive/03072/vichy_3072505b.jpg

 

Hoje, a História é recontada simplesmente em jeito de vitimização do povo francês. A realidade, contudo, está longe, bem longe, desse processo oportuno de vitimização.

 

O governo Vichy não era simplesmente um governo resignado às contingências da sua realidade: era um governo ativo, bem mandado, colaboracionista. E não era, não foi, um governo isolado popularmente — longe disso! Há quem diga que o povo está sempre com quem ganha, seja no futebol, seja na política. Seja por isso ou por outra razão qualquer, o governo Vichy tinha num despertar massivo de franceses fascistas e anticomunistas um suporte que era concreto, que era substancial e não vestigial como a História recontada nos diz. Mesmo muitos daqueles que pudessem não ser nem uma coisa nem outra — o que frequentemente resulta em sê-lo por omissão — apoiavam declaradamente o governo Vichy e a sua natureza antidemocrática e fascista. Diziam, então, que era algo necessário para que a França conservasse alguma da sua autonomia.

 

Para os franceses perder a sua liberdade era algo necessário para que a França conservasse alguma da sua autonomia. Não me enganei no que escrevi. É curioso que exatamente a mesma argumentação surge na boca dos defensores da austeridade alemã/europeia nos dias que correm: a austeridade é algo necessário para conservarmos alguma da nossa autonomia. Muito curioso...

 

O que pretendo com esta entrada é desmontar aquela ideia, frequentemente associada à História capitalista da Segunda Grande Guerra, de que uma boa parte do conflito se deveu a dois ou três desequilibrados que enganaram a maioria do povo. Não foi assim. A Segunda Grande Guerra foi feita pelas pessoas, as mesmas a que chamamos de “normais”. E os governos colaboracionistas foram muito reais. A Alemanha Nazi teve o apoio de inúmeros países europeus que literalmente lhe estendeu passadeiras vermelhas para que marchassem Europa fora.

 

Apenas com uma visão lúcida sobre a História poderemos ser capazes de evitar que a mesma se repita. E ela aí está, a repetir-se, mesmo diante dos nossos olhos!

 

Hoje a ideologia Nazi não se manifesta abertamente, declaradamente, mas está aí: a xenofobia, a ideia de superioridade física e moral dos povos nórdicos perante todos os outros. Vemo-lo na questão da dívida. Vemo-lo na questão dos refugiados. A Alemanha não conquista hoje pelo poder das armas, não usa tanques de guerra, blimps ou motos com sidecar: conquista pelo poder da banca e das dívidas soberanas. E os governos Vichy... aí estão eles, completamente vergados à vontade alemã, completamente entregues, com os seus políticos colaboracionistas, cegamente a defender a austeridade, cegamente a defender a vontade alemã/europeia.

 

Nesta semana, soubemos que Manfred Weber, o líder do PPE, o Partido Popular Europeu, partido com assento no Parlamento Europeu que agrega os partidos da social democracia e da democracia cristã, e do qual fazem parte o PSD e o CDS, enviou uma carta a Jean-Claude Juncker, o Presidente da Comissão Europeia, a solicitar a aplicação de sanções aos países da zona euro que não tenham cumprido o défice de 3% em 2016, Portugal incluído.

 

Que papel é este a que os eurodeputados portugueses do PPE, os do CDS e do PSD, se prestam se não o de contemporâneos colaboracionistas? Que papel é este?! Por que não se demarcam? Por que não abandonam o PPE imediatamente? Noutros tempos, tais atitudes seriam tratadas de uma forma bem diferente e bem “definitiva” por configurarem conspiração e traição à Pátria. Hoje, contudo, parece que é normal...

 

Aí temos, diante de nós, a História a repetir-se, a voltar ao ponto de partida, como um satélite na sua órbita elítica. Aí temos, diante de nós, o contemporâneo Terceiro Reich a ocupar toda a Europa sem que uma bala sequer seja disparada. E, com ele, os contemporâneos governos Vichy, a gerir os territórios de acordo com os ditames alemães, e os colaboracionistas que — democraticamente — os suportam e os justificam hoje como ontem.

publicado às 21:14

Charlatões

Hoje, Manuel Carvalho escreve no Público os maiores impropérios relativamente às 35 horas de trabalho na função pública. Diz que é um “benefício” e, face à intenção da esquerda em alargar essa medida a todos os trabalhadores, públicos ou privados, independentemente do vínculo, diz que “essa visão e esse desejo trariam problemas à economia”.

 

Para tecer tais categóricas sentenças sobre assuntos económicos — dei comigo a pensar —, Manuel Carvalho tem seguramente que ser um lente na área. Ser um lente em economia não é o suficiente, bem entendido, para que o que quer que saia da sua cabeça seja considerado lei, mas, pelo menos, transmite alguma propriedade, alguma credibilidade, à sua opinião. Então, fui procurar pelo currículo de Manuel Carvalho para confirmar a minha suspeita.

 

Confesso que fiquei um pouco confuso. Torna-se, aliás, um hábito muito comum não se ser claro quanto à formação de base, quando a não se tem, camuflando-a numa multiplicidade de “feitos” profissionais. Parece que agora está a estudar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto — anda há quinze anos ou mais para completar o curso —, estudou Direito nos anos noventa, mas não concluiu, depois mudou-se para História... Ah: deve ser essa História que está para concluir há quinze anos! Não é claro, mas percebe-se a ideia...

 

O que conferirá, então, a Manuel Carvalho a propriedade para dizer que “essa visão [das 35 horas] e esse desejo trariam problemas à economia”? Os seus conhecimentos em Direito? Ou os seus conhecimentos em História? Ah: já sei! Diz aqui que “trabalhou durante uma década na área da economia”, como jornalista! Está explicado! Manuel Carvalho faz-me lembrar aquelas pessoas que no Facebook referem que frequentaram a “Universidade da Vida”.

 

O que se chama a uma pessoa que fala do que não sabe? O que se chama a uma pessoa que não tem estudos mas fala como se os tivesse? O que se chama a uma pessoa que tenta impingir nos outros uma ideia que é, potencialmente, tão válida como qualquer outra, afirmando-a como se de uma verdade insofismável se tratasse? Como se chama a uma pessoa que se faz passar por aquilo que não é? Como se chama a uma pessoa que quer mostrar qualidades que não tem?

 

Gosto muito da priberam. É um utensílio prático, fiável e acessível. Procurei lá pelo conceito. Descobri a palavra charlatão.

 

https://1.bp.blogspot.com/-5tyZ-MjZWvk/VnwxIwJ6Z7I/AAAAAAAAUME/vZboIwDSCRs/s1600/snake-oil-salesman.jpg

O que é realmente dramático não é a existência de charlatões, é eles andarem por todo o lado e não constituírem um grupo mais ou menos controlado. Na minha juventude eles vinham para as feiras e arraiais populares em grandes furgonetas. Abriam a parte de trás de porta em porta, saltavam lá para cima e começavam a apregoar de microfone em punho. Era um verdadeiro espetáculo! Havia pomadas que prometiam eliminar todos os odores corporais, mesmo os mais difíceis; havia loções que faziam de carecas frondosos cabeludos; e havia toda uma panóplia de unjentos, chás e tizanas que tinham o condão de operar os mais inesperados milagres.

 

Quando eu era jovem os charlatões operavam dessa maneira e sabíamos bem onde os encontrar. Hoje em dia, podemos dizê-lo, deixaram definitivamente as trazeiras das suas furgonetas, e ascenderam às direções de jornais onde vomitam os seus idênticos pregões.

 

Importa sublinhar que muitos percursores de Manuel Carvalho diziam precisamente as mesmas barbaridades aquando das sucessivas reduções do horário de trabalho que aconteceram ao longo da História. Para todos eles, a redução do horário de trabalho iria resultar na ruína das economias. Tal nunca se verificou, antes pelo contrário.

publicado às 13:56

Obituário: Panama Papers (abril de 2016 a junho de 2016)

Serve a presente entrada deste blog para assinalar o falecimento do Panama Papers. Tão cruel é a vida, capaz de ceifar tão tenra existência que nem dois meses completos perfazia!

http://img01.deviantart.net/12e8/i/2007/055/7/0/drawing_from_the_grave_by_kyohazard.jpg

O que apareceu nos meios de comunicação, do dia para a noite, com promessa de não deixar pedra sobre pedra e de revolver as entranhas da própria terra, afinal, pereceu, também, do dia para a noite, sem darmos por isso. Assinale-se o facto. Não é necessário nenhum minuto de silêncio. Só é necessário que reflitamos.

 

Reconheço também que este blog começa a adquirir os predicados de premonitório e de divinatório, mas asseguro, enquanto seu único autor, não ser esse o seu desígnio. Simplesmente, com o peso da minha idade, parece que nada que seja social ou cultural possui a capacidade de me surpreender. Parece que nada é genuinamente novo e a existência se desenha até ao infinito em círculos concêntricos.

publicado às 15:01

Post scriptum para a entrada anterior

Ontem à tarde foi votada a lei da reposição das trinta e cinco horas de trabalho para a função publíca. Note-se que o PCP apresentou uma proposta para que o horário de trabalho de trinta e cinco horas fosse estendido a todos os trabalhadores, públicos ou privados, independentemente do tipo de vínculo laboral. Esta proposta foi rejeitada pelo PS. Realço esta nota para calar aquelas vozes que gostam de acusar a esquerda de só querer proteger a função pública.

 

Em jeito de post scriptum para o post anterior, importa sublinhar o voto contra do CDS, o partido da família, da natalidade e dos idosos. Assunção Cristas teve um dia em cheio: de manhã na SIC Notícias a propagandear as cinquenta e tal medidas para salvaguardar os idosos e, de tarde, a votar contra a redução do horário de trabalho semanal.

 

Para o CDS tratar bem dos idosos não é uma questão de tempo, nem de dinheiro. Tratar bem dos idosos é uma questão de heranças...

publicado às 11:33

Sobre a desonestidade intelectual que, como um espesso nevoeiro, envolve a sociedade

Palavra de honra que não entendo esta sociedade! E que a não aceito e que a não reconheço e que a não suporto!

 

Um partido que teve responsabilidades governamentais repartidas nos últimos quatro anos, que inclusivamente teve a seu cargo a pasta da segurança social e do trabalho, entre outras, vem agora com pacotes de medidas para proteger os idosos e para promover o envelhecimento ativo, isto depois de, há menos de dois meses, ter apresentado também um conjunto de medidas para promover a natalidade. Refiro-me ao CDS, como é óbvio.

 

Não há vergonha na cara — simplesmente não há!

 

Em simultâneo, volvidos seis meses de governação deste governo, o CDS apresentou-se contra toda e qualquer medida de reposição salarial ou de alívio da austeridade. Para o CDS a natalidade é uma questão de humor, de incentivo motivacional, não de dinheiro. Por ventura, é como a sua visão económica: não interessa se o governo anterior quintuplicou a dívida, o que interessa é a confiança dos mercados! Do mesmo modo, não interessa o poder económico das famílias, o que interessa é a sua confiança para procriar e para parir.

 

Quanto aos idosos — é interessante verificar, neste ponto, que o partido dos idosos está de volta depois de lhes ter cortado as reformas — a questão é muito parecida. Neste particular, o CDS persiste em empurrar o problema social para um problema conflitual geracional, colocando o ónus da questão nos “filhos que não tratam bem os pais”. Estes, no entender do CDS, deviam ser privados de receber as heranças a que têm direito, caso o idoso fosse mal tratado em algum sentido. Esta visão da problemática é tão decadente, tão desumana, tão intelectualmente reles, que me vou abster de prosseguir na sua desconstrução, quedando-me no sublinhar do seu caráter absolutamente bizarro.

 

Mas o CDS é exatamente isto. É um partido que, enquanto oposição, alimenta-se dos medos e das revoltas mais primárias que afligem as populações. Não é por acaso que o CDS se diz da democracia cristã. Os seus porta-vozes fazem uso daquelas mesmas cartilhas retrógradas que os padres mais antigos usavam para assustar as populações. É a “extrema esquerda”, são “os comunistas” que “vos vão ao bolso”, quando — a realidade demonstra-o tão bem! — são eles próprios que vão ao bolso do povo para o entregar de mão beijada à banca e à burguesia em geral.

 

Mas a discussão particular é de todo em todo inútil. O CDS não apresentou pacotes de medidas: apresentou pacotes de fogo-de-artifício e foguetes. Se não é assim, então porque razão o seu ministro Mota Soares — o ministro que inicialmente ia de lambreta para o trabalho mas que depois passou a ir de Audi A7 — não tomou em tempo oportuno estas mesmas medidas?

 

Por que não?!

 

Para assinar protocolos e acordos à pressa no último ano de mandato com entidades privadas — incluindo os famigerados contratos de associação com os colégios, mas também todas as privatizações que se fizeram em cima do joelho — houve todo o tempo do mundo, mas pelos vistos, para a natalidade e para a velhice não sobrou tempo nenhum para se legislar.

 

Relativamente a esta situação de contrassenso, que é muito clara para a compreensão de todos, existe toda a cobertura dos jornais e da televisão. Nem há contraditório, nem ética profissional, nem formação especial na BBC ou noutro lado qualquer. Nem uma pergunta! Pelo contrário: Assunção Cristas passeia-se pelos meios de comunicação, concede entrevistas, faz a sua propaganda, com altivez, boa disposição e sentido de propriedade! Ela, afinal, parece que até tem quatro filhos e que cuida muito bem dos seus velhos e tudo! Fazer perguntas para quê?

 

Está na altura de alterarmos o dito popular: “à mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta” está perfeitamente ultrapassado. Devemos passar a dizer: “à mulher de César não é necessário que seja honesta, basta parecer honesta” — do ponto de vista intelectual, bem entendido.

 

É a comunicação social que temos e, inerentemente, é a democracia que temos!

publicado às 16:23

Porque lhes convém que não ousemos imaginar

Para todo aquele que possui alguma clarividência sobre o assunto ou alguma cultura histórica, a discussão em torno das palavras de José Rodrigues dos Santos não seriam, em momento algum, dignas de maior valorização do que, digamos, o ladrar irritado de um cão confinado à varanda de um apartamento ou do que a buzina persistente de um automóvel bloqueado no trânsito.

 

Dizer que o fascismo tem origem marxista é tão idiota, tão intelectualmente baixo, que não merece discussão. É procurar forçar conexões onde elas não existem para além do que é natural e do que ocorre, em boa verdade, entre qualquer par de conceitos humanos, sejam eles quais forem, sociais ou culturais. Porque este blog despreza o que é ignorante e o que é vestigial em bom-senso, passamos à frente, ignoramos o conteúdo da frase.

 

Mais grave do que o conteúdo da frase e que em boa verdade não é genuinamente novo — lembro que Miguel Sousa Tavares ensaiou uma tese análoga no seu medíocre segundo romance —, mais grave é a subliminar intenção que sustenta a frase. Essa intenção consiste em operar uma colagem do fascismo ao comunismo, quase como que por decalque, com intento claro de menorização do segundo, ao mesmo tempo que se procura limpar a memória histórica de íntima ligação, e de admiração dos métodos e do conceito, da burguesia e da igreja relativamente aos regimes fascistas onde quer que estes tenham medrado.

 

Comparar os regimes fascistas aos regimes comunistas é comparar o incomparável, é observar a realidade sob uma condição de miopia política aguda. Tal tentativa de comparação ganha fôlego apenas quando olhamos superficialmente para a natureza autoritária dos regimes. As similitudes, todavia, ficam-se apenas por aqui.

 

Comparar os regimes fascistas, regimes que oprimiam os seus povos, que os votavam às trevas da ignorância, à exploração burguesa declarada de um capitalismo de estado evidente — de uma burguesia que prosperava lado a lado com o poder, que era o poder verdadeiramente —, que mergulhavam as sociedades a um retrocesso generalizado em todas as áreas do saber e da cultura, com os regimes comunistas que, quer se queira, quer não, com maior ou menor sucesso, faziam precisamente o contrário, democratizando a educação, a cultura, o acesso à saúde, fazendo uma distribuição mais justa da riqueza produzida e dos recursos, só pode ser qualificado como desonesto e embusteiro.

 

O regime soviético, porque é este que se pretende atingir, não obstante os seus pecados que justamente devem ser apontados, pegou numa sociedade extremamente atrasada, quase que medieval — a sociedade russa czarista — e projetou-a para o topo do mundo em termos económicos, industriais e sociais, numa ascensão sem precedentes pelo curto espaço de tempo em que ocorreu — menos de meio século e tendo atravessado duas guerras mundiais!

 

A sociedade soviética foi pioneira em diversos domínios. Evidências disto mesmo podemos observar ainda hoje no nosso estado social europeu fortemente influenciado pelos ideais marxistas corporizadas a leste. Após a queda da União Soviética a esperança média de vida de um russo recuou quase vinte anos e apenas há poucos anos a Rússia contemporânea conseguiu recuperar essa esperança perdida.

 

Mesmo relativamente à natureza política do sistema, colar o fascismo ao comunismo soviético pelo facto de serem formalmente ditaduras é extraordinariamente redutor. No regime soviético ocorriam frequentemente eleições. Elegiam-se delegados e representantes que, por sua vez, elegiam os membros do comité central do partido único que, ultimamente, elegiam o líder. É verdade: não era uma democracia como a nossa e chamar-lhe democracia não deixa de ser forçado. Mas também não era uma monarquia absolutista. Teoricamente qualquer um poderia fazer parte do sistema eletivo. Aliás, por haver um certo grau de democracia no sistema soviético é que este foi capaz de ruir, isto é, foram capazes de penetrar no sistema e ascender ao topo gente cujo objetivo, revelou-se, era dinamitar a coisa.

 

Comparar regimes com objetivos e resultados tão distintos no que ao bem-estar da pessoa humana diz respeito é pouco profundo e pouco sério. É querer pintar tudo com as mesmas cores para esconder as diferenças relevantes entre eles. É por isso mesmo, no meu ponto de vista, que a sociedade alimenta a discussão sobre estas patetices sem pés nem cabeça. Interessa ofuscar a História. Interessa difamar e interessa impedir que se saiba. Interessa prevenir a todo o custo que se ouse imaginar que é possível um outro tipo de sociedade.

publicado às 09:19

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