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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

O que não passa na televisão não acontece

por Amato, em 20.06.16

George Berkeley

 

Em meados do século XVIII o filósofo George Berkeley colocou a seguinte questão: “Se uma árvore cair no meio de uma floresta e não houver ninguém por perto para ouvir, ela fará barulho?”. Filosoficamente, a questão é interessantíssima. Porém, passo por cima da mesma e, em face do que ocorreu no último fim-de-semana, proponho a seguinte reformulação:

 

Se uma árvore cair no meio de uma floresta e o evento não passar na televisão, será que realmente aconteceu?

— Amato, séc. XXI

 

Reparem que agora a questão já não se coloca no indivíduo cuja presença se pressupõe como fundamental para se poder ouvir o som, para se poder provar que o som foi efetivamente produzido. Por outras palavras, se não existir um indivíduo para experienciar o evento, este não ocorre.

 

Com efeito, agora a questão está num exercitar de maiorias. Se a maioria não observar o evento, este não ocorre. Não interessa se cem mil pessoas foram a uma manifestação: se esta não passar na televisão e, desse modo, não chegar à maioria da população, é como se não tivesse acontecido.

 

No último sábado ocorreu uma manifestação gigantesca que mobilizou mais de uma centena de milhar de pessoas de todo o país. Praticamente não passou na televisão, tendo sido completamente abafada por comentários sobre futebol e sobre o jogo de mais logo da seleção portuguesa. Certos jornais começaram por falar em duas mil pessoas e depois “emendaram” para “alguns milhares”. No domingo ocorreu uma aglomeração de algumas centenas de pessoas — estarei a ser generoso — que foi amplamente difundida pelos media e teve direito a diretos vários. O resultado deste exercício nojento a que se convencionou chamar de “jornalismo” foi que os velhotes da minha rua só notaram e só falaram da segunda manifestação, tendo ignorado a primeira. Ah: resta dizer que a primeira manifestação era de apoio à escola pública e a segunda de apoio aos contratos de associação dos colégios privados.

 

“Se uma árvore cair no meio de uma floresta e o evento não passar na televisão, será que realmente aconteceu?”

 

As experiências sociais do último fim-de-semana sugerem que não, ou que, pelo menos, a árvore que caiu não era árvore, era assim uma espécie de erva aromática.

Uma espécie de úbere

por Amato, em 17.06.16

Antes de nos debruçarmos sobre as recentes revelações em torno dos mais de dois mil milhões de crédito mal parado da Caixa Geral de Depósitos (CGD), será, por ventura, mais interessante olhar para montante em direção aos propósitos do banco público português. Será aí, na sua razão de ser, nos seus desígnios, nos seus objetivos, que encontraremos todas as respostas para as interrogações que, por ora, nos assolam.

 

Importa, portanto, perguntar: para que serve a CGD? É mais fácil dizer para que não serve: não serve para conceder crédito às famílias ou às empresas; não serve, portanto, para incentivar a procura interna ou para fomentar a economia; também não serve para incentivar a poupança dos portugueses. Para que servirá a CGD, então? Podemos mesmo ir mais longe: para que nos serve dispormos de um banco público, se este claramente não satisfaz nenhuma das essenciais prerrogativas elencadas neste parágrafo?

 

Olhando para um passado não muito longínquo, não é muito difícil detetar o verdadeiro desígnio da CGD: servir como plataforma legal para o Estado poder intervir em favor da banca. A CGD não é, com efeito, nada mais que uma almofada paga e sustentada pelo povo para aparar todas as quedas da burguesia banqueira, fruto da sua imponderada atividade especulativa ou gestão gananciosa. Quando a banca está em dificuldades para se capitalizar porque investiu como louca no imobiliário, ou por outra razão qualquer, aí está o Estado, por intermédio da CGD, a sustentar fundos de recapitalização. Quando o Estado quer injetar dinheiro nalgum banco em risco de falência, não o faz diretamente, usa a CGD.

 

É sobre este ponto de vista, e apenas sobre este, que devemos analisar a recente notícia dos dois mil e trezentos milhões de euros de crédito duvidosamente concedido pela CGD que está em risco de ser recuperado. O caso configura-se, portanto, para lá de uma mera gestão danosa da coisa pública. Antes, trata-se do corolário natural da função com que se concebeu a Caixa Geral de Depósitos durante as últimas décadas.

 

A existência de um banco público afigura-se fundamental para qualquer país soberano que não esteja complemente manietado pelos interesses do capital. É fundamental como ferramenta de intervenção económica. O que o banco público faz hoje em dia é outra coisa: é uma espécie de úbere do dinheiro estatal, ao qual a burguesia acode em caso de necessidade.

De crise em crise...

por Amato, em 15.06.16

... a essência do capitalismo, da sua prática e da sua fundamentação teórica, seja ela qual for.

 

http://resistir.info/crise/imagens/final_tunel.jpg

 

Sobre a regra de ouro dos 3%

por Amato, em 14.06.16

On a imaginé ce chiffre de 3% en moins d'une heure, il est né sur un coin de table, sans aucune réflexion théorique.

 

Nós inventámos este número dos 3% em menos de uma hora, ele nasceu nas costas de um envelope, sem qualquer reflexão teórica.

 

— Guy Abeille, o Senhor 3%, in Le Parisien

 

Para saber mais sobre a anedota feita “regra de ouro da ciência económica” aceder aqui.

Brexit, Portexit e Eurexit

por Amato, em 13.06.16

Aos vinte e três do presente mês o Reino Unido submeterá a referendo a sua permanência na União Europeia sendo que o sim à saída do país da União segue na frente das sondagens até ao momento realizadas. O referendo é o corolário de uma promessa do Primeiro-ministro britânico David Cameron ao seu povo mas é mais do que isso: a ameaça de saída do Reino Unido da União Europeia — o chamado Brexit — é uma forma de pressão sobre o diretório de potências continentais europeias da moeda única para reclamar mais autonomia e alargados poderes ao Reino Unido no contexto da União.

 

https://grrrgraphics.files.wordpress.com/2016/06/brexit_ben_garrison.jpg?w=640&h=458

 

A questão do Brexit devia ser tratada na nossa sociedade com afincado detalhe, com obcecada minúcia, dada a sua acentuada pertinência. A questão — Por que razão o Reino Unido equaciona sair da União Europeia quando nem sequer faz parte da moeda única e quando é dos poucos países da União em franca prosperidade? — devia ser, pelo menos, levantada, colocada no ar, para que sobre ela fosse possível refletir seriamente.

 

Tão pouco a questão não é levantada, como nada se discute sobre o assunto. Nenhuma questão se coloca sobre a nossa própria posição enquanto país, sobre a nossa situação de estagnação ou contração económica ou sobre a nossa perda transversal e desmedida de autonomia ao longo do tempo de permanência na União Europeia. Mesmo ao nosso lado, acima, melhor dizendo, vemos os nossos vizinhos a discutir um assunto que nos atinge também e a nossa reação é fingir que nada se passa.

 

Chega a ser arrepiante constatar o sentimento de pensamento único que envolve Portugal no que à União Europeia diz respeito. Em boa verdade, tal não é assim tão admirável se pensarmos que, de todos os partidos com assento parlamentar, apenas um defende abertamente a saída do Euro e coloca reservas à continuidade na União Europeia — o PCP. Todos os outros partidos preferem fazer uma apologia perfeitamente idealista e utópica de uma certa ideia do que a União Europeia devia de ser, mas não é, nem nunca foi. Já uma vez escrevi sobre o assunto. Eles chamam a essa União Europeia a União Europeia “dos fundadores” mas estou convencido que não fazem ideia do que falam, nem a quem se referem.

 

Também neste assunto particular, torna-se muito claro como a chamada “opinião pública” é tão pouco permeável a vozes dissonantes que sejam capazes de introduzir uma visão diferente das coisas. Os meios de comunicação são, na prática, instrumentos totalmente vedados a qualquer voz que não siga a matriz de opiniões canónicas previamente escolhidas para serem difundidas.

 

O Brexit, contudo, vem aí. Seria melhor que fossemos capazes de o perceber bem, já que poderíamos lucrar muito com ele ou com algum dos seus primos diretos: o Portexit ou, pelo menos e mais importante, o Eurexit.

E, portanto, prosseguimos vendo futebol.

por Amato, em 12.06.16

Por vezes, parece que andamos todos coletivamente à procura de pretextos que nos distraiam da nossa vida, como se esta fosse — e seguramente será em muitos casos — verdadeiramente insuportável. Agora temos sensivelmente vinte dias de futebol, de seleção nacional, pela frente. Não se fala noutra coisa, nas televisões, nas rádios e nos jornais. Não há mais vida para além do futebol. Se não forem jogos em direto, são análises aos mesmos ou antevisões aos que se seguem. Ou, então, comentadores a comentarem-se a si próprios. Fala-se e escreve-se sobre literalmente nada.

 

Antes da seleção foram outras realidades, outros acontecimentos, que preencheram o espaço mediático. Depois do futebol virão outros pretextos, talvez mais futebol que parece ser de uma qualidade inesgotável. Em cada um deles despejamos todas as nossas angústias e cada uma das nossas esperanças.

 

Não é compreensível. É impossível explicar ou compreender este processo de transferência da nossa vida para uma realização artificial e completamente externa como é o futebol. Ainda se o futebol fosse uma manifestação coletiva desportiva da nação, então poder-se-ia compreender o fenómeno na ótica de um espírito nacionalista ferrenho. Mas o futebol é uma manifestação profundamente corrompida pelo sistema capitalista. Os jogadores são colocados sobretudo em função do potencial negócio que possam gerar mais do que por qualquer outra coisa. Nem a nacionalidade é hoje um obstáculo. Esqueçam a bandeira e o hino. Tudo revolve em torno do dinheiro. Todavia, o povo acompanha o fenómeno de uma forma muito pouco saudável, alimentado por uma comunicação social que, nestes momentos, revela a sua verdadeira face decadente.

 

Os resultados do futebol são vividos, portanto, em extremos, numa espécie de transtorno bipolar. As vitórias são festejadas com histeria e delírio. As derrotas são recebidas com depressão profunda. Nada disto parece fazer muito sentido. Mas no final do dia, configura-se muito mais fácil ir para a cama e adormecer a pensar nos golos da seleção ou nas opções do selecionador para o próximo jogo, do que pensar no que realmente é necessário enfrentar no dia seguinte, na vida real.

 

Por ventura, a explicação reside aqui: sentimo-nos tão amarrados, tão presos, tão condenados, à vida que levamos, sentimos que não temos poder para fazer o que quer que seja, que despejar a adrenalina em algo tão fútil quanto o futebol parece ser a única coisa razoável a fazer. Isto é o resultado de vivermos voltados para o nosso próprio umbigo, de sermos criados dessa forma, individualista, egoísta e seguidista, de não nos apoiarmos solidariamente, comunitariamente, uns nos outros. Porque o poder para fazermos algo acerca das nossas vidas reside em nós próprios tanto quanto está nos que nos rodeiam. Como estamos tão formatados desta forma individualista, esta realidade está vedada aos nossos olhos. E, portanto, prosseguimos vendo futebol.

As mães de hoje em dia são ridículas

por Amato, em 11.06.16

As mães de hoje em dia são ridículas. É uma generalização, bem o sei. É algo abundantemente injusto de se dizer, também tenho consciência disso. E, todavia, é preciso que se diga! É preciso que se diga a plenos pulmões!

 

Peço encarecidamente ao leitor, portanto, que não disperse já, que continue comigo, nestas linhas, um pouco mais.

 

Nem todas as mães são ridículas mas, hoje em dia, uma boa parte delas é. O que lhes atribui a classificação de ridículo é, com efeito, o que lhes atribui a condição de mãe. O ridículo nota-se na forma como tratam os filhos. Observem um pouco. Prestem atenção. Provavelmente uma grande parte de vós sabe perfeitamente ao que me refiro. As mães contemporâneas tratam os filhos como se eles fossem bonecos e como se, elas próprias, fossem meninas com idade para brincar com bonecos.

 

Para estas mães, os seus filhos são muito literalmente o centro do universo e estes crescem e desenvolvem-se a acreditar piamente nisso mesmo. Esta crença interfere decisivamente no desenvolvimento das amizades e do espírito de solidariedade e de camaradagem entre pares. Mais: esta crença afeta seriamente a construção de uma certa ideia de igualdade. Questionamo-nos frequentemente sobre a razão de ser do crescente individualismo das sociedades ocidentais. Questionamo-nos frequentemente sobre a razão de ser desta sociedade competitiva e desumana em que vivemos. Por ventura, a resposta achar-se-á aqui e não noutro lugar.

 

Quando estas crianças, enfim, descobrem não ser o centro do universo como lhes prometeram durante toda a sua infância, que não são uma espécie de diamentes que merecem constante polimento, ficam muito admiradas e deprimidas com o mundo. Todavia, este despertar para o mundo real será sempre parcial. Subsistirá sempre uma certa forma de ver a sociedade, individual, egoísta, uma forma de avaliar o outro e os outros por contraponto ao seu próprio interesse. Estas são as sementes nefastas que ficam para erigir a sociedade destas crianças feitas, inevitavelmente, homens. Este é o problema.

 

Há quem diga que esta forma de criar e de educar das mães contemporâneas advém do facto destas atingirem a maternidade muito mais tarde nas suas vidas. Quando no passado as mulheres eram mães antes dos vinte, agora são-no mais perto dos quarenta. É talvez um sentimento de singularidade que supera qualquer outro no nascimento do filho que faz com que a mãe adquira traços de superproteção. Pode ser que muitas das mães contemporâneas vejam nos seus filhos uma possibilidade de realização pessoal algo doentia que talvez não existisse no passado. Pode ser isso ou pode não ser nada disto.

 

Há uma outra possibilidade: podem ser os pais. Há uma passagem em A Leste do Paraíso que me pôs a pensar.

 

Adam aquiesceu e os dois rapazes saíram a correr. Samuel seguiu-os com o olhar.

— Parecem ter mais de onze anos — disse ele. — Se bem me recordo, os meus filhos, aos onze anos, eram mais traquinas. Estes dois parecem adultos.

— A sério? — perguntou Adam.

— Acho que sei porque é — disse Lee. — É que não há mulher nenhuma em casa para gostar das crianças. Não me parece que os homens apreciem muito as crianças, e por isso estes rapazes nunca perceberam que vantagem tinham em se portarem como tal, pois nada tinham a ganhar com isso. Gostava de saber se isto é bom ou mau.

in A Leste do Paraíso, John Steinbeck

 

 

Realmente, parece que os pais contemporâneos deixaram um pouco a sua condição de pais. Parece que faz falta às crianças de hoje em dia terem aquela figura de alguma severidade e intransigência nas suas vidas, para conhecerem limites, para respeitarem regras, para com elas formarem o seu caráter.

 

Acaso o problema não estará no facto das mães de hoje em dia serem ridículas. Se calhar sempre o foram em dosagem possivelmente diferente. Por ventura, o problema estará nos pais que, hoje em dia, não sabem qual o seu papel, desempenhando muitas vezes as funções de uma espécie de segunda mãe em vez das de um pai.

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