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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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A proposta de referendo do Bloco

por Amato, em 30.06.16

A ânsia pelo mediatismo, por preencher as primeiras páginas dos jornais, pelo populismo, do Bloco de Esquerda são demasiado evidentes para que não se deixe de apontar o dedo, para que, pessoas decentes, intelectualmente honestas e com alguma cultura não deixem de tomar posição e exigir que o Bloco não seja mais um agente que, à esquerda, descredibiliza e desacredita os movimentos progressistas.

 

Já aqui havia escrito sob mais uma simultaneamente patética e bombástica proposta do Bloco de Esquerda: o referendo ao tratado orçamental ou à própria permanência na União Europeia — não se percebe bem sobre o que realmente seria o referendo, pois nas palavras de Catarina Martins seria “um referendo para tomar posição contra a chantagem”.

 

Desde logo, o que atribui a condição de patética à proposta é o facto de ser inconstitucional: “a Constituição não admite referendos revogatórios de decisões já tomadas”, nas palavras de António Filipe.

 

Mas quando vamos ao concreto, qual seria a posição do Bloco sobre a matéria? Mariana Mortágua, ao Sol, diz que o Bloco é pela permanência de Portugal na União Europeia — o que, em abono da verdade, é coerente com todas as posições do Bloco sobre a questão europeia. Ah, então já percebi: esta proposta de referendo é mesmo apenas e só uma farsa, uma palhaçada digamos assim, para o Bloco pontificar nos grandes títulos dos jornais, uma brincadeira irresponsável com o povo e com o país. O Bloco pretende um referendo sobre uma coisa para apelar a que fique tudo na mesma!

 

Para terminar, fica ainda este vídeo que encontrei na rede. É sobre a inconsistência do Bloco de Esquerda. É sobre aquela febre de que o Bloco permanentemente padece em cavalgar a onda do mediatismo e do populismo.

 

 

A vaia do Bloco ao Syriza

por Amato, em 29.06.16

Escrevo este post porque compreendi que o que escrevi ontem não foi o suficiente para expurgar tudo o que em mim havia para expurgar sobre o assunto. Uma vaia é simplesmente uma vaia, assim como um aperto-de-mão ou um abraço são, simplesmente, um aperto-de-mão e um abraço. Mas cada um destes atos pode conter dentro de si muito mais do que o simples gesto, denunciando as características da personalidade, as arestas de caráter, o mais íntimo ser, do sujeito da ação.

 

É neste sentido que a vaia do Bloco de Esquerda ao Syriza merece ser novamente objeto de análise e esta deve ser estendida em minúcia.

 

Como escrevi no oitavo parágrafo do post anterior, o Bloco de Esquerda vivia com uma necessidade premente de se distanciar do Syriza. O Syriza era como que uma pedra no seu sapato que se fazia sentir a cada passo político que o Bloco quisesse dar, que limitava os seus movimentos. O Syriza era aquele derradeiro argumento que se podia jogar na cara do Bloco, fosse qual fosse a discussão que tivesse em cima da mesa, pela simples razão de que o impotente Bloco se sentia incapaz de se distanciar do Syriza.

 

Porque não era um argumento em nenhuma medida baixo: o Bloco — repito — colou-se ao Syriza de forma tão perfeita quanto possível, participando nos seus congressos, nas suas reuniões, campanhas eleitorais e partilhando com o Syriza exatamente a mesma oratória política. A fina intelectualidade obreira do Syriza era trazida com pompa e aparato às convenções e campanhas eleitorais do Bloco onde era escutada com atenção e cuidado, aplaudida de pé e transportada em ombros.

 

A realidade, porém, mostrou um Syriza que traiu todas as promessas feitas ao seu povo, em primeiro lugar, mas também à Europa que observava, curiosa, a aurora daquela “nova esquerda” que se anunciava. A realidade destapou um Syriza que se entregou de pés descalços à austeridade europeia/alemã. A realidade fez do Syriza um pigarro permanente na garganta do Bloco, um transtorno argumentativo infindável ou aquela filosofal pedra no sapato de que falava no início.

 

Para o Bloco de Esquerda a necessidade mantinha-se, portanto. Havia que sacudir a pedra no sapato, havia que passar o pano húmido na ardósia negra e recomeçar de novo ou, pior, prosseguir como se nada tivesse acontecido. O “divórcio” com o Syriza é operado não como um adulto, expressando olhos nos olhos as discordâncias e incompatibilidades em matérias consideradas como fundamentais, mas como um adolescente imaturo, fazendo uma “cena” deprimente.

 

Convenhamos que convidar uma delegação de um outro partido, ainda por cima estrangeiro, para o seu próprio congresso para brindá-la com uma miscelânea de apupos e assobios é de muito mau gosto, é feio, é baixo. É falta de educação.

 

Escrevo estas palavras totalmente à vontade. Não me tenho como um opositor político do Bloco de Esquerda e, com esse partido, partilho de uma boa parte daquelas que aparentam ser as suas ideias. Mas não é de política que estamos a falar verdadeiramente: é de organização, é de educação, é de espinha dorsal e de caráter. Do que estamos a falar é de consciência e de consistência política. É com tristeza que reconheço que estes predicados escasseiam no Bloco de Esquerda.

 

Mas a vaia não nos esclarece somente relativamente a questões formais. É muito mais fácil operar cambalhotas políticas, passando da paixão ao ódio num fugaz ápice, quando se tem pouca segurança no que se acredita, quando o nosso pecúlio ideológico é pouco sólido e pouco consistente. Há que ter alguma segurança e confiança no que acreditamos para sermos capazes de não nos atirarmos de cabeça, cegamente, apaixonadamente, à primeira oportunidade, nem tão pouco para colocarmos tudo em causa à primeira contrariedade. Mas essa sabedoria não está ao alcance de qualquer um e o Bloco de Esquerda produz evidências de que está muito longe de a adquirir. Daí a “cena”, quer dizer, a vaia.

Os eventos do fim-de-semana

por Amato, em 28.06.16

Depois de um auspicioso princípio — com a vitória do Brexit —, este fim-de-semana que passou acabou de uma forma que deixou um travo amargo na minha boca. Deitei-me tarde no domingo e adormeci com a forte convicção de que, em Espanha, o Unidos Podemos cresceria para se tornar na segunda força política.

 

Havia uma esperança consubstanciada de que a coligação entre Podemos e Esquerda Unida seria capaz de coletar pequenas percentagens por toda a Espanha e transformá-las em lugares no parlamento. A realidade, todavia, não deixou de ser cruel, nem que por um dia apenas, e acordei para ela, na segunda-feira.

 

Em Espanha, podemos dizê-lo para abreviar, ficou tudo mais ou menos na mesma, que é o mesmo que dizer que ficou tudo péssimo. Nenhuma consequência minimamente visível foi trazida a qualquer uma das forças partidárias, talvez excetuando aquela abjeção a que chamam de Ciudadanos que levou uma forte machadada em votos. No mais, tudo sensivelmente igual.

 

O problema está não no que aconteceu mas no que não aconteceu: o PSOE não foi severamente penalizado e o Unidos Podemos não cresceu. Este singular facto demonstra cabalmente que o povo espanhol, pelo menos o que está mais à esquerda no espectro político, não está virado para grandes mudanças de paradigma. Quer as coisas como estão e como sempre estiveram. Neste particular, é risível quando nos chamam, a nós, portugueses, o povo dos “brandos costumes”.

 

Pelo contrário, e a concorrer com o anterior, o PP, com seu mentecapto líder, viu a sua votação reforçada. Isto não é algo de somenos sobretudo após toda a panóplia dos recentes escândalos envolvendo os ministros do governo espanhol de gestão.

 

Esta sequência de eventos faz-me pensar que o que aquilo que o povo realmente quer é o Bloco Central. Aqui, em Portugal, também o queriam e ficaram muito revoltados quando tal não aconteceu. Chamaram Geringonça e outros nomes feios ao que veio a acontecer. Mas reforço: se a Geringonça fosse uma perspetiva clara e viável antes das eleições, acredito que o povo ter-se-ia expressado de forma muito diferente.

 

Observação: ainda sobre o Brexit, gostava de perceber o que leva um português a defender a União Europeia quando, há dias, ouviu o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, colocar de lado sanções à França dizendo “A França é a França”, ao mesmo tempo que Portugal é diariamente ameaçado com essas mesmas sanções.

 

Por cá, ocorreu a convenção do Bloco de Esquerda. A vaia que dedicaram à delegação do Syriza é triste mas expectável, em certa medida. Começando pelo fim, é expectável porque traduz a reação mais natural do Bloco à camisa de forças em que se meteu quando apoiou cegamente aquele partido grego e a ele se colou enquanto foi politicamente interessante. Agora, perante a evidência da realidade política, o Bloco sentiu necessidade de se descolar do Syriza e, diga-se, fê-lo da pior das formas. E é por isso mesmo que é triste: o Bloco mostrou aqui a sua completa e endémica imaturidade política, não obstante os anos que já leva enquanto partido.

 

Destaco ainda mais uma bomba mediática que, como não poderia deixar de ser — estamos a falar do Bloco de Esquerda —, tinha que ser lançada: a questão do referendo à União Europeia ou ao Tratado Orçamental. Esta bomba, completamente infundada do ponto de vista constitucional e desmontada por António Filipe, deputado comunista, para além de visar o mediatismo, como é timbre característico do Bloco, é mais um absurdo ideológico. Falamos de um partido que nunca colocou em causa a permanência de Portugal no Euro, quanto mais na União Europeia! Não há muito mais a dizer sobre o assunto: o Bloco cavalga a onda do mediatismo, seja ela qual for. Neste momento, essa onda chama-se Brexit.

Devaneios matinais de sábado

por Amato, em 25.06.16

A esta hora que escrevo estende-se uma manhã de verão cálida e luminosa. Sábado não poderia ser antecipado de uma melhor e mais auspiciosa forma. Acordei, portanto, com recarregada energia e redobrada confiança na humanidade.

 

Penso que, demasiadas vezes, temos pouca fé na humanidade. Concedemos-lhe escasso crédito. E a humanidade é uma coisa extraordinária em geral, mas também em particular.

 

Veja-se o caso de David Dinis. David Dinis é uma individualidade extraordinária. Devíamos ter orgulho em termos tão ilustres portugueses como ele. Reparem no seu percurso: durante seis anos estudou jornalismo na Católica — terminou em 1999 — e, desde logo, devido ao seu extraordinário brilhantismo, claro está, assumiu em setembro desse ano o cargo de Editor Político no defunto Diário Económico! Seguiram-se Jornal de Notícias, Diário de Notícias e Jornal Sol, em idênticas funções. Depois, mais um salto de canguru: diretor no Observador, diretor da rádio TSF e, agora, ao que parece, do jornal Público! Que brilhantismo!

 

David Dinis é uma personalidade admirável! Gostava de conhecer o seu currículo em detalhe, mas também não é preciso: tenho a certeza que David Dinis terá rebentado a escala em todas as cadeiras que frequentou na universidade. Só desse modo é que é possível, penso eu, replicar tal percurso profissional. Aos milhares de jovens licenciados do jornalismo em Portugal que não conseguem arranjar emprego ou que andam a estagiar de graça e a tirar fotocópias nas redações dos jornais: ponham os olhos em David Dinis, concedam-lhe uma vénia e sintam-se inspirados pelo seu exemplo!

 

Num outro assunto, completamente não relacionado com o anterior, fascinam-me as histórias do folclore afro-americano daquela zona do Louisiana, Mississippi, onde um pobre coitado, sem nenhum particular encanto ou qualidade, vende a alma ao diabo a troco de um qualquer dom especial — não interessa qual. Contam-se essas histórias a propósito dos grandes músicos de Blues para tentar justificar a sua arte extraordinária que, por ser tão extraordinária, só poderia ter uma origem sobrenatural. Normalmente, o Diabo aparece em forma de mulher atraente num cruzamento de estradas poeirentas após ter sido feita uma oferenda apropriada. Concedido o dom, ao homem é também dado um prazo para dele usufruir, findo o qual, a sua alma será resgatada pelos cães do inferno.

 

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Estas histórias fazem parte de um folclore local que inspira a cultura da região, incluindo a toada melancólica característica dos Blues. Como todas as histórias deste género, não valem pela sua autenticidade. O seu valor reside na moral subjacente que pretendem transmitir, na ligação metafórica que existe entre fábula e realidade.

 

Não raras vezes, parece-me que muitas pessoas do mundo real operam uma espécie de venda da sua alma. O que é a alma se não aquilo que de mais íntimo temos? O que é a alma se não aquilo que pensamos? E o entendimento deste processo revela-se útil para a compreensão, por sua vez, daqueles casos extraordinários que conhecemos na sociedade e que muito dificilmente conseguimos explicar se não com recurso ao sobrenatural.

 

Se observarmos com atenção estas individualidades de percurso extraordinário, verificamos que, muitas vezes, trata-se de pessoas de pensamento único, de discurso cristalizado, sem vestígio de bom senso, que fazem tudo por tudo para transmitir e fazer valer uma certa ordem de pensamento. Quando prestamos atenção, verificamos que aquele pensamento e aquele discurso não são verdadeiramente delas, são de outras pessoas. Os “diabos” ditam o que deve ser feito, o que deve ser escrito e difundido. Em troco, conferem-lhes as mais altas posições. Isto, claro, até ao momento de cobrar a alma devida, quer dizer, de proceder à sua substituição por alguém que seja mais jovem e mais inocente. Os “diabos” procuram sempre a carne mais fresca.

Sobre os contrassensos da propaganda de medo

por Amato, em 24.06.16

Por que é que é tão difícil explicar a uma pessoa inteligente e letrada que a saída do Reino Unido da União Europeia em nada tem que ver com liberdade de circulação para esse país?

 

Há exemplos de países europeus que, não pertencendo à União Europeia, não necessitam de vistos especiais para serem visitados. A isso chama-se Espaço Schengen e, não sendo esse Espaço um exclusivo dos membros da União Europeia, não há nada que obrigue o Reino Unido a não manter acordos bilaterais relativamente a comércio e livre circulação com os seus parceiros europeus. O problema é que o Reino Unido, juntamente com a República da Irlanda, nunca tinha assinado esse acordo. Então, qual é verdadeiramente o problema? Quem se coloca contra o Brexit usa argumentos — a livre circulação e o livre comércio — que não têm, como facilmente se constata, qualquer sentido.

 

Todavia, é muito difícil fazer compreender que tudo aquilo que identificamos como União Europeia não é, de facto, União Europeia. Quanto muito, a União Europeia, enquanto construção, tê-lo-á tomado de emprestado. A ideia que temos não corresponde à realidade: a União Europeia é controlo, é subtração de autonomia, de liberdade e de democracia. A solidariedade entre os povos terá sempre lugar, assim os povos o queiram, pois não teve o seu princípio, nem terá o seu fim, na União Europeia.

 

A propaganda faz com que seja difícil de entender. É uma propaganda de medo que começou ainda antes dos resultados do referendo. A sua razão de ser radica no facto do poder europeu não querer ver a experiência democrática britânica replicada em mais nenhum país.

Viva o Brexit!

por Amato, em 24.06.16

Acordar com a notícia da vitória do Brexit é algo de excecional. Escrevo estas palavras sob um espírito de júbilo e de esperança. Não sei se o Reino Unido o fez pelas melhores razões, mas isso tão pouco interessa. O povo votou e escolheu sair e isso é excelente. É excelente por diversos motivos, principalmente porque coloca em causa o caminho seguido pela União Europeia desde sempre, ou seja, uma espécie de federalização não declarada governada pela Alemanha e orientada por políticas neofascistas.

 

Quem diria que iria ser a democracia o calcanhar de Aquiles desta União Europeia? Quem diria? A União Europeia, que tudo fez para se esquivar ao crivo democrático dos seus povos, com a criação de abjeções não eleitas como o Eurogrupo, ao mesmo tempo que despe o Parlamento Europeu de todo e qualquer poder significativo, vem a ser colocada em causa por um referendo nacional interno!

 

Excelente! Excelente! Viva! Ainda não escrevi tudo o que queria ter escrito, mas agora não consigo! Tenho demasiada adrenalina! Viva o Brexit!

Há mais beleza na verdade

por Amato, em 21.06.16

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Há mais beleza na verdade, mesmo que seja uma verdade medonha. Os mendigos que contam histórias às portas da cidade mascaram tão bem a vida que ela acaba por parecer boa e fácil aos preguiçosos, aos teimosos e aos covardes, o que só pode concorrer para lhes agravar as enfermidades. Por esse processo nada se aprende, nada se cura, e o coração nunca se abre.

 

— John Steinbeck, A Leste do Paraíso

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