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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Para que saibam que sabemos

por Amato, em 28.05.16

Um dos mais raros e, também por isso mesmo, preciosos momentos — de autêntico prazer — que a imprensa escrita me oferece nos dias que correm apresenta-se nos espaços de opinião de José Pacheco Pereira. Irremediavelmente, espero até ao final da semana para poder ler as suas crónicas da Sábado ou o seu artigo de opinião no Público. O mesmo se passa, relativamente à televisão, a irmã mais nova da imprensa escrita, com A Quadratura do Círculo na SIC Notícias.

 

Desengane-se quem se atrever a induzir daqui que tal estima pelos textos e opiniões produzidos por Pacheco Pereira se deve a uma concordância de opiniões ou posições. Quem acompanha este blog percebe com relativa facilidade a dissonância entre opiniões, os distintos posicionamentos políticos e as diferenças marcantes na própria interpretação da História do Homem. Não obstante, reconheço em Pacheco Pereira aquilo que não reconheço em quase nenhum outro crónico comentador político: independência, honestidade intelectual e cultura. Qualquer uma destas características é rara por si só e a sua interseção resulta num conjunto de escassos elementos, no qual Pacheco Pereira pontifica. Acresce ainda a qualidade superior da sua escrita o que consiste numa espécie de bonificação, também ela rara e não desprezável, ao exercício de leitura dos seus textos.

 

Hoje, Pacheco Pereira escreve no Público sobre o Liceu Alexandre Herculano, no Porto. Escreve sobre o estado lamentável a que a estrutura chegou e sobre a importância que a memória dos edifícios, das suas paredes e dos seus tetos, tem na nossa identidade. Atrevo-me, nos parágrafos imediatos, a complementar o seu texto com relevante informação.

 

Ao mesmo tempo que o liceu Alexandre Herculano está a ser votado à degradação, o Estado financia os cursos vocacionais de um colégio privado mesmo ao lado. Basta contornar o quarteirão do lado oposto ao do edifício da Polícia de Segurança Pública e da Direção Regional de Educação do Norte.

 

Não sei se este colégio se insere no contexto de “contrato de associação” ou não, mas também não é muito relevante para o caso. Os cursos que lá são ministrados, chamemos-lhe assim, naquela secção específica do colégio, são financiados na totalidade por dinheiros públicos.

 

Faça-se o esforço: não é preciso caminhar muito. É um edifício antigo mas desinteressante, pintado e tratado com descuido, dotado de nenhum tipo de condições particulares para o ensino — uma espécie de casa grande adaptada à pressão. Penetre-se no seu interior para se poder ver melhor.

 

Não existe uma sala de convívio para os alunos, uma sala de professores ou espaços de trabalho. Não existe nada para além de umas divisórias de escritório onde se colocaram mesas, um quadro e um vídeo-projetor para que se possa fazer de conta que se está na vanguarda das novas tecnologias e, a estes espaços, chamaram-se de salas de aula. Nelas, comprimem-se mais alunos do que aqueles que seria aconselhável e procede-se a uma espécie de encenação que é um entretenimento que dura o número de horas requeridas para se passar o diploma prometido.

 

É para aqui, para instituições deste género, que são canalizados os dinheiros públicos da educação. É este o poder de escolha, é esta a defesa da escola, na ótica dos privados. O liceu Alexandre Herculano, com todas as condições físicas para fornecer uma educação de qualidade e digna aos alunos, é votado ao abandono e à degradação ao passo que a poucos metros de distância e literalmente nas suas costas subconcessiona-se a um colégio privado sem qualquer tipo de condições — e ninguém quer saber do assunto, com a DREN mesmo ali à beira, do outro lado do quarteirão — o ensino de alunos que poderia ser perfeitamente feito no espaço público com clara mais-valia financeira, para o estado, e educativa para os alunos.

 

Não me interessa quem tem a responsabilidade sobre o liceu, penso que será a Câmara Municipal do Porto. Não é relevante. A responsabilidade última é sempre do Estado, quer seja para cumprir, quer seja para fazer cumprir. Quer-me é parecer, de modo cristalino, que os “contratos de associação” serão apenas a ponta do iceberg na relação de promiscuidade entre estado e privados no domínio da educação.

 

Neste, como noutros casos, é preciso falar, é preciso denunciar, é preciso apontar o dedo, para não nos tomarem por parvos, para que saibam que sabemos.

Ainda sobre os colégios privados

por Amato, em 27.05.16
  1. Escrevo este post ainda sobre esta temática asquerosa porque a asquerosa temática persiste em inundar a ordem do dia, não obstante não possuir um pingo de sustentabilidade lógica ou de legitimidade.

 

  1. Noto, com sentimento de profunda repulsa, o facto que concorre para o anterior de que diversos pivots/jornalistas da televisão pública e privada se associarem de modo mais ou menos não declarado a tão absurda contenda usando blusas ou gravatas de cor amarela.

 

  1. O movimento dos colégios privados acha bem fazer uso de jovens e crianças nas suas manifestações.

 

  1. Alguns encarregados de educação já denunciaram que os seus filhos são obrigados a participar das encenações e que perdem aulas por causa da fantochada.

 

  1. Com o ponto (3.) e com o ponto (4.) ninguém parece verdadeiramente importar-se.

 

  1. Ao contrário do que se diz, é importante sublinhar que as condições materiais e estruturais dos colégios privados são, em regra, muitíssimo piores do que nos estabelecimentos públicos.

 

  1. Muita gente mostra-se preocupada com o futuro de professores e funcionários dos colégios privados.

 

  1. Coincidentemente, nunca se preocuparam com a legião de professores que foram afastados do ensino público no início desta crise.

 

  1. Uma nota: foram muitos, muitos mais, do que estes de que agora se fala.

 

  1. Também ninguém se preocupa com as condições laborais dos trabalhadores dos colégios privados.

 

  1. Na maior parte dos casos, os vencimentos são inferiores e os vínculos precários.

 

  1. Os colégios privados preparam agora uma enorme manifestação em frente ao parlamento.

 

  1. Diz-se que já estão a fretar camionetas.

 

  1. Parece que o ato de fretar camionetas, na cabeça de muita gente, só é indecente nas manifestações dos sindicatos.

 

  1. Esperemos para ver a atuação da polícia de intervenção nesta manifestação, sempre tão lesta para aplicar bastonadas em manifestações pacíficas e ordeiras de trabalhadores a lutarem pelos seus direitos.

 

  1. Esperemos — acima de tudo! — que o primeiro-ministro não vacile face ao lobby, face ao irracional, face ao disparate.

 

  1. Não ponho as mãos no fogo pelo número anterior (16.).

Uma espécie de proxenetismo democrático

por Amato, em 26.05.16

Se o sistema fosse justo, se o conceito de democracia fosse autêntico e se se refletisse com plenitude e com lisura na vida real, então hoje seria um dia em que apenas uma parte da população, a que não votou na PAF, aquela confluência sinistra entre PSD e CDS, usufruiria de dia feriado. Quanto aos outros, iriam trabalhar como se de um qualquer outro dia se tratasse por ser essa a sua genuína convicção. Agora, gozar o feriado tendo votado a favor da sua extinção... é baixo, é sórdido, é uma espécie de proxenetismo democrático e não devia de ser admitido.

 

Claro que não há nada a fazer relativamente ao problema, o qual resulta insolúvel devido à axiomatização democrática incluir o conceito de voto secreto, cujas virtudes para o sistema, aliás, ultrapassam em muito as infâmias. Serve simplesmente para observarmos a verdadeira natureza oportunista de uma boa parte dos votantes. Com este tipo de princípios será sempre muito difícil edificar uma sociedade melhor.

Ser “de esquerda”

por Amato, em 25.05.16

Hoje é um dia parlamentar particularmente importante pois discute-se a reposição das trinta e cinco horas de trabalho semanal na função pública, pelo menos. O PCP avançou, desde a primeira hora, com o alargamento desta redução do horário de trabalho a todos os trabalhadores, sejam eles abrangidos por contratação coletiva ou não e, ao que consta, terá o apoio do Bloco de Esquerda na pressão que está a ser exercida ao governo nesse sentido.

 

As trinta e cinco horas são uma excelente notícia. Traduzem, por si só e independentemente de quaisquer contrapartidas que poderão ser sorrateiramente concedidas ao patronato, uma mais justa distribuição da riqueza e são sinónimo de progresso social.

 

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Não é, todavia, uma medida de esquerda — não será a única — que fará deste governo um governo “de esquerda”. Ser um governo “de esquerda” é outra coisa. É, desde logo, tomar partido pelos trabalhadores, conhecer as suas angústias, envolver-se nas suas lutas e diferendos com o patronato. É fazer tudo isto de forma genuína. Porque o contrário está reservado para os governos “de direita”.

 

Ser “de esquerda” é interceder em favor dos estivadores, dos operários da Petrogal, e de tantos outros trabalhadores de tantas outras empresas que prolongam as suas justas lutas, que chegam até aos dias de hoje vindas desde o reinado do anterior governo, contra autênticas agressões e humilhações dos seus patrões contra os seus postos de trabalho, contra os seus direitos conquistados.

 

Este governo não só não intercede por eles, como — e isto é algo que simplesmente não passa na comunicação social — mantém exatamente a mesma conivência que o anterior executivo sustentava com o patronato, uma conivência corporizada em despachos ministeriais apontando serviços mínimos fora-da-lei, na canalização de ameaças subliminares de despedimentos coletivos, entre outros fretes lesa-Constituição concedidos à burguesia dominante, que permite ao patronato continuar a pisar a lei e a melhor coagir os seus trabalhadores a abdicarem dos seus direitos.

 

Visto deste prisma, este governo tem muito pouco “de esquerda”. O que tem, e o que permite criar a ilusão do contrário, são alguns compromissos que se vê forçado a cumprir por simples contingência parlamentar. Bendita coligação!

Será que um dia veremos Catarina Martins abraçada a Angela Merkel?

por Amato, em 23.05.16

É uma questão legítima entre muitas outras que envolvem o Bloco de Esquerda e a “sua” ideologia. E eu, por simples curiosidade, gostava de saber a resposta.

 

A legitimidade da pergunta advém com propriedade da indefinição ideológica que caracteriza o Bloco de Esquerda e de uma prática que surpreende a teoria sempre que a “razão” — a do apelo das massas — o justifica.

 

Por vezes, parece que julgamos saber, parece que se forma uma ideia concreta do que é o Bloco e do que o Bloco quer, para logo de seguida o caminho iludir-nos e, no interior de uma espécie de bruma ideológica, perdermo-nos irremediavelmente, por tão pouco vislumbrarmos os próprios passos sob tamanho denso nevoeiro. Esta é a noção que eu, cidadão, tenho do Bloco de Esquerda, mas por ventura o problema residirá em mim, por ser exigente em imprudente porção.

 

Repito, portanto, a pergunta inicial: será que corremos o risco de um dia podermos ver Catarina Martins abraçada a Angela Merkel num qualquer dia que há de vir e que o futuro nos reserva?

 

A pergunta, como qualquer outra que pudesse ser feita, aliás, adivinha respostas diferentes mediante o apoiante do Bloco que, honesta e francamente, se dignar a responder à questão. Dependerá, como está claro, da “tendência” em que se inserir no seio do seu partido assim como da sua sensibilidade particular.

 

A pergunta, volto a ela, parece impossível — concordo. Quando soletro devagar as letras que compõem a interrogação parece que formam palavras que soam a absurdo.

 

O absurdo, todavia, é de uma natureza drasticamente precipitada. O absurdo é um rótulo para um frasco de conteúdo simultaneamente impetuoso, apressado e imprudente. O absurdo é uma espécie de gás instável que rapidamente se dissolve na atmosfera das areias do tempo.

 

O que diríamos se há dois ou três anos nos colocassem a hipótese de Alexis Tsipras abraçar Angela Merkel? Absurdo?

 

E o que diríamos se nos dissessem que o Syriza iria aprovar o seu segundo pacote de austeridade — escrevi bem, segundo! — sobre o povo grego? Absurdo?

 

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A pergunta inicial começa agora a soar menos absurda? Talvez...

 

É que foi o Bloco de Esquerda, por sua decisão — ao que se sabe, não forçada —, a colar-se politicamente e em tempo útil ao Syriza. Foi o Bloco de Esquerda e foram os seus dirigentes que participaram nos congressos do Syriza, que usaram da palavra nos seus comícios, envolveram-se nas suas campanhas eleitorais, que nos trouxeram a “boa nova” daquela “nova esquerda” que começava a efervescer a “velha Europa” e a “velha política” — fomos todos, em certa medida, contaminados por essa ideia —, que rejubilaram, enfim, com as vitórias do partido e que apoiaram a coligação do Syriza com a extrema direita nacionalista ANEL. Então, veio aquela fase do berreiro protagonizado por Tsipras e o seu então ministro das finanças Varoufakis perante a União Europeia que, igualmente, levou ao delírio a esquerda em geral.

 

O problema veio depois... O problema veio com a capitulação absoluta do Syriza face a todas as exigências do diretório de potências europeias, face a toda e cada uma das políticas de austeridade debitadas pelo imperialismo raivoso. A cada uma delas o Syriza acolheu e adotou como sua.

 

A partir daqui a palavra Syriza foi como que varrida do léxico do Bloco de Esquerda: banida da sua retórica argumentativa, renegada dos seus discursos. Nem uma palavra mais, nem de apoio, nem de repúdio.

 

Entretanto estabeleceram-se também parcerias político-económicas relevantes entre a Grécia, a Turquia e Israel, que incluíram trocas de juras de admiração e de amor eterno. Também neste ponto, e porque a questão dos direitos humanos é tão cara — e bem! — ao Bloco, gostaria de poder aprender com a sua opinião.

 

O exercício de clarificação é um, todavia, ao qual o Bloco de Esquerda se mostra frequentemente avesso. As chamadas “causas fraturantes” ou simplesmente alegóricas, como a do “cartão de cidadania”, concorrem para este desígnio do Bloco se esquivar a qualquer concretização sobre o que pensa.

 

Do silêncio do Bloco de Esquerda relativamente à questão Syriza legitimamente se deduz um incómodo pungente que a realidade Syriza pesa sobre a sua ação e sobre a sua retórica, por um lado, e, por outro, uma conivência consciente com a prática do Syriza ao leme do governo da Grécia, pelo que podemos esperar da parte do Bloco, com um certo grau de segurança, uma réplica à escala portuguesa daquilo que o seu irmão helénico está a aprontar na Grécia se acaso tiver idêntica oportunidade. Quer pelo primeiro, quer pelo segundo, torna-se claro que a estratégia do silêncio é efetivamente a única alternativa do Bloco para não sair drasticamente melindrado com a questão Syriza.

 

Ainda assim, e voltando ao princípio, voltando à pergunta titular, confesso que não me importaria de viver para assistir à cena. Assistir ao abraço fraterno entre Catarina Martins e Angela Merkel seria sinal, pelo menos, de que teria ocorrido uma pequena mudança no quadro político português e de que os desgraçados do costume que nos desgovernam, aos quais se convencionou apelidar de partidos do arco da governação, estariam, ainda que momentaneamente, arredados da dita, quer dizer, do poder e isso já seria enormemente relevante.

São critérios!

por Amato, em 21.05.16

Muito se pode apontar com respeito aos critérios editoriais dos meios de comunicação. Muito merece constituir objeto de séria análise e discussão. O Diário de Notícias, por exemplo, tem uma opção curiosa.

 

Tanto não lhe basta estar munido de alguma da melhor massa opinativa nacional conservadora e, por que não dizê-lo, genuinamente reacionária, como ainda sente a necessidade de requisitar os serviços além fronteiras de um tal de Miguel Angel Belloso, que é um personagem que parece retirado de plena guerra civil espanhola do lado dos apoiantes de Franco, só que dotado de posições talvez ainda mais retrógradas.

 

O que se há de fazer? São critérios! São os lamentáveis critérios do Diário de Notícias.

O homem que não tinha noção

por Amato, em 20.05.16

Hoje deparei-me com uma capa do Jornal I que me deixou francamente admirado.

 

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“Como não há os livros que gostaria de ler, escrevo-os eu”.

 

Para melhor podermos analisar a profundidade desta sentença e sem tecer qualquer tipo de consideração sobre a mesma, proponho o exercício seguinte. Peço encarecidamente ao leitor que:

  1. leia O Código de Da Vinci, de Dan Brown;
  2. leia o Codex 632, de José Rodrigues dos Santos;
  3. leia A Conspiração, de Dan Brown;
  4. leia O Sétimo Selo, de José Rodrigues dos Santos;
  5. leia A Fortaleza Digital, de Dan Brown;
  6. leia A Fórmula de Deus, de José Rodrigues dos Santos;
  7. reflita, então, sobre a frase de José Rodrigues dos Santos “Como não há os livros que gostaria de ler, escrevo-os eu”.

 

Para que fique claro, não há aqui qualquer tipo de insinuação subliminar sobre plágio. Não se vá por aí. Ao invés, preste-se atenção às temáticas, à construção dos personagens e dos enredos, de um e de outro autor. Então, cada um que retire as suas próprias conclusões sobre a validade e sobre a substância da afirmação da capa do Jornal I.

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