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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Panamá quê?

por Amato, em 06.04.16

Já não tenho paciência para estes casos. Lamento, mas já não tenho. Nem para os nomes apelativos que os promotores encontram para os apelidar. Panama Papers dará, decerto, um excelente título para uma meia dúzia de livros de auto nomeada investigação, bem como pelo menos uma longa metragem no “bom” estilo de Hollywood.

 

As sociedades ocidentais entretêm-se, por ora, com o escândalo, envolvidas num já visto e recorrente estado de surpresa histérica e de alarme. Os jornais e as televisões carecem de outro assunto e doseiam, como tão bem sabem, as novidades, dia após dia, comentando e espremendo o não-assunto ao máximo. O que se seguirá será a também habitual súbita amnésia coletiva.

 

O povo participa, como sempre, desta dança macabra. Quando se lhes pergunta, a uns ou a outros, o que fazer, então, com tamanho escândalo, encolhem os ombros. Segue-se um silêncio tumular apenas quebrado por frases tão ocas quanto “isto é a ganância e a falta de ética de alguns”, o que, em boa verdade, não responde à questão. Antes, desculpa a situação, querendo efetivamente dizer que deve ficar tudo na mesma.

 

É exatamente disto que já não tenho paciência. Quando alguém ousa propor um maior controlo das economias pelos estados democráticos, uma maior transparência que inclui uma quebra de relações económicas com todo e qualquer paraíso fiscal, uma distinta responsabilidade social por parte desta burguesia acumuladora de capital e, por fim, uma distinta distribuição de riqueza, quer em forma, quer em conteúdo, esse alguém é imediatamente enxovalhado com uma série de preconceitos e votado ao ostracismo.

 

Este tipo de medidas, que efetivamente contêm em si o potencial de erradicar casos como o Panama Papers, não colam, não medram, entre o povo. O povo recita frases imbecis como “Se se fizesse isso, havia fuga de capitais” ou “Os capitalistas é que criam trabalhos e riqueza”, entre outras, recitam-nas melhor do que as passagens mais batidas da eucaristia, e empurram com a barriga para a frente, aceitam de bom grado a recorrência destes incidentes. Porquê?

 

A razão é simples. Faça-se esta pergunta a uma pessoa qualquer que encontremos na rua, no autocarro, no café ou no trabalho: “O que faria se estivesse no lugar destes que foram apanhados a lavar dinheiro?”. A resposta não é surpreendente e é provável que você mesmo, você que está a ler neste preciso momento as palavras que escrevo, esteja a dá-la mentalmente: “Faria exatamente o mesmo ou pior. Procuraria era não ser apanhado.” Acertei?

 

A resposta não é surpreendente mas é elucidativa. Elucida-nos sobre o sucesso generalizado, em termos de aceitação, do sistema capitalista entre os povos do mundo. É exatamente esta ilusão de liberdade, esta ilusão de podermos ganhar muito dinheiro com pouco trabalho, sem produzirmos o que quer que seja, e podermos acumulá-lo em algum cofre de algum lugar recôndito, sem darmos sequer um tostão a ninguém, que apela ao mais íntimo e selvagem do Homem e o seduz.

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Amato

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