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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Os radicais entre nós

por Amato, em 15.03.16

Para mim, o CDS está para Portugal como os partidos radicais islâmicos estão para os países do Médio-Oriente e de África. As diferenças que se percebem são produto na justa medida do contexto social europeu e não mais do que isso. Fossem as circunstâncias outras e o CDS defenderia abertamente a proibição do uso do preservativo, do divórcio, do aborto e da eutanásia, entre outros. Ah... os últimos dois são mesmo verdade... E, precisamente pelo facto do momento atual se presentear oportuno, porque não inquirir sobre a visão histórica que este partido tem sobre os direitos das mulheres e sobre o seu papel na sociedade?

Sociedade de classes

por Amato, em 14.03.16

O que é preciso para se ser nomeado conselheiro cultural do Presidente da República Portuguesa? Mais: o que é necessário para se ser subdiretor e diretor da Cinemateca Portuguesa? É melhor ficar por aqui. Podia continuar, tanto para norte como para oeste, mas não quero. Havia muito mais para escrever.

 

Ainda hoje, os meninos aprendem no sexto ano da sua escolaridade devida — e repetem — que os governos liberais do século XIX procuraram acabar com a sociedade de classes e colocar todos os homens iguais perante a lei. Que tamanha treta! Pois a única coisa que lograram foi a promoção de uma classe acima de todas as outras — a burguesia —, classe essa que via a sua ascensão amarrada por minudências como o sangue ou a tradição. Por outras palavras, estabeleceram as bases para que o poder do dinheiro pudesse substituir os poderes feudais instalados e cristalizados.

 

Agora... sociedade sem classes? Contem outra! E, já agora, reescrevam a História. É que, simplesmente, não tem lógica nenhuma.

Asco figadal

por Amato, em 11.03.16

Escrevo estas linhas imbuído de um sentimento de profundo nojo, não de luto, mas de figadal asco e repulsa.

 

Depois do espetáculo verdadeiramente lamentável da tomada de posse, um espetáculo próprio de um estado monárquico, despótico ou plutocrático, o Presidente veio ao Porto repetir a encenação, ladeado do pretensioso Presidente da Câmara.

 

Assinale-se que o povo do Porto conseguiu superar largamente a capital, dias antes, comparecendo em massa, aplaudindo e gritando. Não foi uma montagem: o repórter da televisão foi por ali fora, entrevistou-os um a um, aos indivíduos que pavimentavam as ruas, e todos repetiam os mesmos desvarios, o mais chocante dos quais, “(...) é o Professor Marcelo e o Papa Francisco!”. Que povo mais revoltante! Que povo mais nojento!

 

O Vinte e Cinco de Abril, o de 74, era mesmo utópico! Mesmo! Estas ocorrências provam-no cabalmente! O que o povo quer é paizinhos a governar. O que o povo quer é bater palminhas! Qual democracia, qual quê!? Pois a democracia é cada um de nós, em igualdade, sem castas ou classes. Não é isto. Isto não! Isto é nojento.

 

Quase ao mesmo nível do exposto vem a conversa bairrista pacóvia contra a capital cristalizada na boca de cada um dos portuenses e corporizada no discurso deste adorado Presidente da Câmara: “(...) Portugal não é só Lisboa, Portugal é o Alentejo e Trás-os-Montes e o Porto...”. Que pobreza de discurso! Que discurso patético! Que mediocridade!

 

O povo português parece retroceder assustadoramente. São os valores, são as ideias e os ideais. É a ignorância. Parece — escrevi bem —, porque na realidade este povo nunca evoluiu coisa nenhuma. A comprová-lo estão as suas escolhas democráticas: acabaram de eleger, levando-o em braços, uma personalidade sinistra e retrógrada, de cara sorridente e que carrega consigo na bagagem memórias e património do antigo regime. Aplaudem-no agora. “O senhor professor Marcelo é muito simpático! Gostava muito de o ouvir. Sou fã!”.

Paralelo com mil novecentos e dez

por Amato, em 09.03.16

Dizia-se da primeira República, a de Teófilo Braga, Manuel de Arriaga e Bernardino Machado, que dececionara o povo de tal forma que se constituíra como uma versão mais cara e corrupta da monarquia defunta. Tais razões, aliás, estão na base, segundo se crê, da ascensão aclamada ao poder da ditadura militar fascista.

 

É, todavia, paradoxal. A esta hora que escrevo, acompanho em direto a tomada de posse do quinto Presidente da República (a terceira República) desde o Vinte e Cinco de Abril, e a cerimónia assemelha-se mais à tomada de posse de um rei, rodeado de suas promíscuas cortes, do que de outra coisa qualquer. Está lá o chefe dos padres, estão lá os representantes nacionais e internacionais, está lá o povo, do lado de fora, a bater palminhas e a tirar fotografias. Não falta nada ao sinistro quadro.

 

Os níveis de despesismo não são diferentes daqueles que grassavam no ano de mil novecentos e dez e seguintes. Qualquer um facilmente percebe isto, basta tomar atenção nos números da despesa das várias presidências que se comparam com as mais faustosas monarquias europeias.

 

Por ventura, as razões que outrora, não há muito tempo, conduziram Portugal ao fascismo não serão tão simples de entender. Por ventura, serão mais profundas. Não será simplesmente o despesismo e a corrupção ou a indecência e a pompa, visto que estes, por ora, são entendidos e aceites como naturais. Será outra coisa qualquer.

 

Não há decoro. Simplesmente não há. Mas o povo parece gostar.

 

https://largodoscorreios.files.wordpress.com/2013/10/5-de-outubro-3.jpg

 

Virgínia Moura

por Amato, em 08.03.16

Virgínia Moura (1915-1998)

Não sei se por hoje ser o Dia Internacional da Mulher, mas lembrei-me de si. Lembro-me de estar a seu lado no banco de trás de um automóvel, já não sei se um fiat, se outro carro qualquer, numa viagem que se veio a revelar preciosa e, como tal, efémera. Acho que era outra marca, mas já não me recordo. Também não interessa. Mas recordo-me do seu sorriso. Adoro esta fotografia. Nela há o idealismo e o otimismo, a alegria e o crer. E há mais qualquer coisa, ainda. Há toda a esperança do mundo.

Uma questão de perspetiva

por Amato, em 07.03.16

O presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), António Saraiva, reconhece que em Portugal há muito trabalho precário, mas não hesita em dizer que, na atual conjuntura, “mais vale ter trabalho precário do que desemprego”.

— in Público

 

Dizer que mais vale ter trabalho precário do que desemprego não é dizer muito. Também mais vale trabalho escravo do que desemprego (Valerá? Voltarei a este tópico mais tarde). Ou, visto de outra forma, mais vale trabalho precário do que ter uma doença grave. Bem vistas as coisas, a saúde é o mais importante!

 

Juntamente, condicionar o discurso à “atual conjuntura” não é, em tese, muito meritório. Porque a única conjuntura a que se tem acesso plenamente é fatalmente esta, a atual. Não há outra. As conjunturas passadas são hoje interpretadas de forma desconforme com o distanciamento que hoje delas temos. As conjunturas futuras são impreterivelmente de natureza insondável. Por consequência, mais do que não meritório, usar de um condicionalismo argumentativo face à “atual conjuntura” é intelectualmente baixo, porque procura condicionar o pensamento alheio com coisa nenhuma.

 

Voltando um pouco atrás, à referência ao trabalho escravo, devo dizer, em abono da mais pura das verdades, que há circunstâncias várias em que mais vale (!) o trabalho escravo do que o trabalho precário. Reparem que não estou a comparar a escravatura com o desemprego, agora. Com efeito, o trabalho escravo propiciava casa, comida e vestes gratuitas, quando em muitos casos, no mundo ocidental contemporâneo, o vencimento oriundo do trabalho precário não possibilita tais “privilégios”.

 

Torna-se, deste modo, imperioso colocar as coisas em perspetiva. É melhor ganhar quinhentos euros do que duzentos, mas também é melhor ganhar cem do que dez e é melhor ganhar dez do que nada. Analogamente, é melhor trabalhar quarenta horas do que cinquenta e é melhor trabalhar de sol a sol do que não ter onde trabalhar e ganhar o sustento. De acordo: esta lógica é brilhante, mas não nos conduz a lado nenhum. Ou, por outro lado, sim, leva-nos precisamente onde os senhores que António Saraiva representa pretendem: à redução das condições de vida dos trabalhadores aos limites infra-humanos da sobrevivência.

 

Termino com uma palavra de incentivo a António Saraiva: é bom sabermos que em Portugal há sempre alguém suficientemente iluminado no meio de toda a bruma de ideias que não hesita em dizer o que deve ser dito. Obrigado! E muita saúde para continuar sempre a defender os bons valores no superior interesse do país e do povo!

O caso Reino Unido - União Europeia, ou o ciclo de vida da libelinha

por Amato, em 05.03.16

As recentes negociações da União Europeia com um seu estado membro não aderente ao euro, o Reino Unido, são de uma relevância extraordinária. Como todos os acontecimentos de extraordinária relevância, o resultado de tais negociações foi genericamente ignorado pela comunicação social.

 

Nem comentadores, nem ninguém. A notícia, dada como subestimada nota de rodapé de enfadonho jornal, mereceria outro tratamento, outra análise e aprofundada discussão.

 

Assume particular relevo, no contexto dos tratados assinados no seio da União, considerados ao extremo de suas literais interpretações para países de marginal importância como Portugal, que um estado membro possa garantir, por acordo, o incumprimentos desses contratos e reverter a lógica de poder que reina para todos os outros, isto é, que possa subjugar todas as decisões europeias ao crivo do seu próprio parlamento, da sua própria autonomia, da sua própria lei.

 

Resulta desde logo lúgubre que discutamos este ponto desta forma, quando deveria ser a norma e não a exceção que qualquer estado formalmente soberano pudesse discutir as decisões conjuntas europeias no seu parlamento através dos representantes do seu povo. Miseravelmente, assim nos encontramos a discutir o natural como se o natural fosse absurdo, visto a União Europeia ser este castelo de absurdos que é para não lhe chamar outra coisa pior, do género, império autoritário e despótico contemporâneo, ou uma versão de quarto Reich que se impõe e domina todos os outros não pelo poder das armas mas pelo poder do capital e da dívida.

 

A questão que se coloca, contrariamente ao que foi sendo timidamente suscitado, não é por que razão se obsequia aos Britânicos tais privilégios, mas antes pelo contrário, por que razão não usufruem todos os estados membros da União Europeia, formalmente pares iguais, de tais prerrogativas que deveriam ser naturais e ordinárias porque se constituem, afinal, como os eixos da soberania de qualquer estado.

 

As parcas vozes que tocaram com acanho no assunto esforçaram-se por esquadrinhar — imagine-se! — justificações desconexas em favor de tal tratamento desigual. Entre outros, referiram a situação dos refugiados, que hipoteticamente atinge com maior gravidade Inglaterra, e invocaram um certo estatuto singular do arquipélago britânico face ao continente europeu.

 

Acresce ainda em pertinência tal discussão pelo contexto económico atual de países como Portugal, verdadeiros escravos de tratados que, como grilhões e grilhetas, impedem o seu crescimento económico e os amarram a um serviço de dívida insustentável, indefensável, absurdo.

 

No final do dia, entende-se bem as razões porque tal discussão nunca teve lugar, de todo, ou por falta de lucidez, ou por falta de capacidade, ou até por falta de seriedade: convém ao poder burguês que governa a Europa a não discussão do assunto, convém que este passe despercebido.

 

Agora, volvidas uma ou duas semanas sobre o resultado das negociações, já ninguém fala sobre o assunto. A coisa aconteceu e morreu em pouco mais que um dia, qual fugaz ciclo de vida da libelinha, abafada já pela retórica capitalista de cumprimento do serviço da dívida que continua pujante, como sempre, jactante em cada jornal, em cada rádio, em cada televisão, megafones do sistema.

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