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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Democracia: o direito à diferença

por Amato, em 27.03.16

Na semana passada teve lugar uma reunião da Assembleia Municipal da Câmara do Porto onde se discutiu sobre os destinos das recolhas e tratamento de resíduos no município.

 

Todas as forças políticas, exceto a CDU, apoiaram uma generalização a toda a cidade de um sistema de prestação de serviços (que exclui os recicláveis) secundado pela criação de mais uma empresa municipal para supervisionar e gerir o processo.

 

Perante tal decisão da CDU, democraticamente válida e inatacável, decidiu o Presidente da Câmara espalhar comentários irados e sarcásticos pela sua conta do Facebook e pelos jornais onde escreve, ao mesmo tempo que, juntamente, difundiu um vídeo cuidadosamente editado no qual o vereador da CDU mal se consegue explicar, ao passo que o Presidente, ele próprio, aparece imponente a despejar acusações despropositadas, infundadas e baseadas no seu próprio preconceito.

 

Antes de prosseguir, importa sublinhar este modo de agir avesso à democracia, intolerante à diferença, incapaz de conceber outras opiniões.

 

A posição da CDU até podia ser meramente oposicionista. Podia: ou será que esse papel apenas é lícito nas mãos de PSD e CDS atuais? A posição da CDU podia ser meramente oposicionista, mas não é. A saber.

 

A maioria das pessoas não sabe, mas esta solução de privatização da recolha de resíduos no município do Porto não caiu do céu. Houve um período, que vem já desde 2009, no qual a limpeza de 50% do município foi concessionada a entidades privadas. Este foi, portanto, um período extraordinariamente rico para se poder aferir das vantagens e desvantagens do sistema privado face ao sistema público.

 

O resultado destes oito anos de experiência foi assustador. Ao invés de um valor inicial previsto de 45,6 milhões de euros pelos oito anos de serviço em metade do município, a Câmara do Porto acabou por pagar 72 milhões de euros! Este valor de 9 milhões de euros por ano representa uma inflação gigantesca (quase uma duplicação de valores) face ao valor pago quando os serviços estavam totalmente centralizados na Câmara.

 

Perante a factualidade descrita dos eventos, é deveras surpreendente que o Presidente da Câmara do Porto tenha apresentado uma proposta, aprovada na passada semana, que concessiona a limpeza na totalidade da cidade por um valor de 10 milhões de euros por ano. Repare-se bem: quando antes se pagava em média 9 milhões por ano por metade da cidade, agora propõe-se pagar 10 milhões por ano pela totalidade da cidade!

 

Adicionalmente, decide-se criar mais uma empresa municipal para gerir os prestadores de serviços, ou seja, mais gestores para gerir os gestores. Esta parece constituir uma costumeira solução para retirar da esfera política o controlo e a supervisão que, realmente, lhe compete.

 

Em boa verdade, nada disto que escrevi interessa de muito. Nada do que foi escrito, por muito pertinente que seja, e é, tem muito interesse para a generalidade das pessoas. O processo difamatório é tão poderoso e tão eficaz que nada mais é necessário dizer sobre o assunto. Ao Presidente da Câmara basta começar as frases por “Os comunistas isto...” ou “Os comunistas aquilo...” que já venceu por KO a argumentação. Tão pouco precisava de ter apresentado um vídeo truncado a embelezar o seu elegante post no Facebook.

 

O ponto do meu post foi apenas um: mostrar que, pelo menos, existem razões concretas para se poder ter uma opinião divergente nesta matéria em particular.

 

Muito mais poderia ser escrito e, contudo, tudo o que foi escrito já foi demais. Vou terminar, também eu, com um vídeo, já antigo, que me traz memórias sobre uma certa personalidade que, na altura, comentava num programa sobre futebol. Este vídeo não é manipulado e traduz bem da capacidade dessa personalidade em aceitar as opiniões dos outros e a forma como as rebate.

 

 

Pertinente tópico de discussão

por Amato, em 26.03.16

O que se passa com a Caixa Geral de Depósitos devia merecer uma atenção muito dedicada de toda a sociedade. Mais geralmente, o que se passa com a banca portuguesa também. Concretamente, dever-se-ia discutir aberta e aprofundadamente os planos que a União Europeia tem para as nossas instituições bancárias, a forma como pressiona o nosso país para seguir o seu caminho e as sérias repercussões que isso terá no nosso quadro autonómico e a nível da nossa soberania.

 

Quando as decisões acontecerem, serão, como sempre, acolhidas com naturalidade acrítica. Será apenas quando nos virmos de mãos e pés atados perante os acordos e decisões do passado que seremos capazes de produzir reflexões sobre o assunto, mas aí, perante uma hegemonia absoluta estrangeira e sem um banco nacional forte... será já demasiado tarde.

 

Por alguma razão, afinal, o “debate” futebolístico inunda e imunda todos os canais televisivos.

Sentimento de mágoa pelos povos do mundo

por Amato, em 25.03.16

Sinto-me magoado. Falo de verdade: sinto-me magoado. Existe uma dor dentro de mim, que vive dentro de mim, dentro do meu corpo, que sinto como uma presença fria entre os pulmões, o coração e o estômago. Desliza por ali, fria, por vezes gelada, e eu sei que é tristeza em forma de desespero.

 

É um sentimento que, todavia, não é genuinamente meu, vem de fora, é-me impingido, injetado, de todos os lados, por toda a parte, aonde quer que eu vá, por todos com quem troco duas palavras. Explicar-me-ei melhor: esta tristeza é reação ao mundano que me agride.

 

Por muito que os acontecimentos se repitam, por muito que essa repetição seja recorrente e que essa recorrência seja mais e mais acelerada, parece que o mundo persiste num conjunto de reações acéfalas, incapaz delas evoluir. Parece que não há aprendizagem qualquer sobre a semelhança dos acontecimentos, sobre as suas causas, e persiste-se no abraço da ignorância plena, da cultura do medo, do estímulo ao racismo, à xenofobia, à intolerância. Para qualquer lado que nos viremos é isto que podemos observar, é disto que inspiramos, doses massivas disto, ferindo os pulmões como lâminas finas e afiadas.

 

É natural que assim seja, porque não querendo tratar das razões dos problemas, restam apenas o racismo, a xenofobia e a intolerância como armas derradeiras de conservação do poder. É apenas disso que se trata, bem entendido: perpetuar o mais possível os mecanismos de exploração dos povos, de escravização da mão de obra, continuando para isso a destruir socialmente sociedades inteiras, incitando e alimentando conflitos e guerras sempre que tal seja necessário.

 

O que não deveria ser natural perante a repetição de factos e de acontecimentos, não obstante, era esta aceitação popular generalizada, este acolher tenebroso da dialética do medo. Se pensarmos bem, todavia, também isto é compreensível. O povo está cada vez mais identificado com a cultura da posse, inspirado na avareza mais pura, educado a preceito e formado com honras na teologia do capital. A palavra solidariedade foi apagada do dicionário dos povos. E quão importante é esta palavra, não apenas para o remedeio dos problemas, mas sobretudo para a sua prevenção!

 

Não há nada de mais irónico do que constatar, para além de qualquer dúvida, que em nenhum momento da História como hoje o povo foi tão eficazmente manietado agindo em perfeito acordo com os mais íntimos interesses do poder vigente e contra os seus próprios interesses. Nem na idade média, a das trevas, nem nos negros tempos da inquisição ou da escravatura — o poder descobriu a forma perfeita e, sublinhe-se, inatacável de escravizar os povos do mundo: dar-lhes a liberdade de escolha sob o véu ilusório da igualdade.

Café antropológico

por Amato, em 22.03.16

Hoje tomava o café no sítio do costume e falava com o empregado que me atendia, um tipo simpático que trabalha uma obscenidade de horas consecutivas todos os dias. O tema era o terrorismo e os ataques recentes na Bélgica. O tema era esse mas até podia ser outro qualquer, em boa verdade.

 

“A solução para isto era fazer grandes muros em redor dos países e correr com os muçulmanos daqui para fora”, dizia ele. Eu disse-lhe: “o problema está nas gerações e gerações de emigrantes desenraizados, arrumados em guetos, a ganhar metade pelo seu trabalho do que um belga ganha”. Mas ele não concordou com o que eu disse e retorquiu com uma meia-dúzia de disparates aos quais nem me dei ao trabalho de responder.

 

Enquanto terminava o café, via o ser impaciente em que se tornara. A impaciência nascia da minha concessão do duelo. Ele sentiu que estava a ser desconsiderado. Enrubesceu e prosseguiu, acabrunhado, mudo, com a sua labuta.

 

Da minha parte não havia muito mais a fazer. Quando discuto com alguém não carrego preconceitos ou pré-julgamentos sobre o meu interlocutor para o debate. Apraz-me trocar ideias com todos sobre o que quer que seja e a todos trato por igual. Mas ali não havia mesmo mais nada a fazer. Não havia nada mais a retorquir. O meu interlocutor já sabia tudo sobre o assunto e não estava muito interessado na minha opinião. Se ele pudesse, ele mesmo sairia do seu posto de trabalho e erigiria com os seus próprios braços os muros de que me falava, tal era a sua convicção.

 

Porque é que são normalmente as pessoas que mais trabalham, as que mais são exploradas pelo seu próprio trabalho, as mesmas que nutrem os sentimentos mais invejosos para com o próximo? Porquê? E, acrescento, porque são também os mais resignados, os mais conformados e os menos sonhadores? Porque razão são estes usualmente os menos camaradas e solidários para com os colegas e os mais bajuladores dos seus patrões?

 

Estas questões deveras intrigam-me e, acredito, nelas radica o sucesso e a aceitação do sistema capitalista entre os povos do mundo, em geral. Na resposta a estas perguntas figurará a chave para uma inversão de mentalidades e de sistema.

A voz do dono aqui e além fronteiras

por Amato, em 19.03.16

No seguimento do post de ontem, exige-se que, uma vez mais, se aponte o dedo à atitude parcial vergonhosa da generalidade dos media portugueses. Enquanto que ontem as manifestações contra o PT e o governo Dilma do dia anterior tiveram honras de primeira página, ocupando mais de metade das mesmas e, muitas vezes, com títulos insultuosos e opinativos, as manifestações de ontem a favor do PT passam praticamente despercebidas quando todavia assumiram proporções pelo menos semelhantes, enchendo as avenidas das principais cidades.

 

Esta diferença de tratamento noticioso é asquerosa e, por isso, merece ser assinalada. A que papel os media se prestam! Comportam-se como a voz do dono... aqui e além fronteiras.

A situação brasileira vista sob o contexto da histeria da direita

por Amato, em 18.03.16

O Brasil vive um momento difícil mas que não lhe é particular. Aquilo que o Brasil vive é o mesmo que vive a Venezuela e outros estados sul-americanos em escalas diferentes. Também é algo aparentado ao que se passa agora na Síria e que também se passou na Líbia. Sob um certo ponto de vista, também encontramos semelhanças com o processo recente de formação do governo português. Chama-se terrorismo político, perpetrado pelas forças reacionárias e conservadoras.

 

A resposta que a direita capitalista encontra para fazer face a derrotas eleitorais-democráticas é a histeria sob pretextos artificialmente criados e amplificados pelos meios de comunicação social a soldo do poder económico. Não há qualquer tipo de dúvida de que membros do PT estarão envolvidos em processos de corrupção, mas casos piores verificam-se com os membros da oposição, nomeadamente com o PSDB, cujos membros se encontram enterrados até ao pescoço em cada um dos casos que vieram a público. O caso “mensalão” é, para mim, bastante paradigmático, porque todos tinham conhecimento das malas de dinheiro que serviam para comprar congressistas, mas o mundo apenas acordou para a situação e ficou chocado quando o PT fez uso do mesmo esquema. Adicionalmente, as forças de direita unem-se e compram apoios em toda a parte, juntando-se ao sistema de justiça para levar a cabo golpes de estado.

 

A direita, as forças conservadoras e retrógradas protetoras dos interesses dos poderosos, daqueles 5% que detêm 95% da riqueza do mundo, está histérica e cheia de medo. A direita está histérica não por estar a perder particular influência no mundo, mas porque não se pode dar ao luxo de perder qualquer tipo de influência no mundo contemporâneo que lhe escorrega por entre as mãos a olhos vistos. A ascensão da China e da Índia concorrem para uma diminuição substancial da área de exploração potencial do diretório de potências capitalistas ocidental e atribuem a mercados como o sul-americano uma condição de imprescindível para a sua sobrevivência.

 

A razão de ser da crise brasileira é esta. O contexto para a crise brasileira é este. Não é a corrupção, nem a crise económica. É este.

Regresso a uma espécie de normalidade

por Amato, em 17.03.16

Parece que amanhã o Presidente da República recém eleito promulgará o retorno dos dois feriados nacionais de caráter de Estado, a saber: o Cinco de Outubro, dia da Implantação da República, e o Um de Dezembro, dia da Restauração da Independência. Para além destes, também os dois feriados religiosos, o Corpo de Deus e o dia de Todos os Santos, voltam, como que a reboque dos primeiros.

 

O ato não é mais do que simbólico, mas dizer-se simbólico não é dizer algo de somenos. Parece que se respira uma certa retoma de normalidade.

 

Parece que com a retirada dos feriados, flagelávamos um pouco da nossa identidade coletiva e fazíamo-lo em nome de interesses externos. A retirada dos feriados era como um castigo que se aplica a um menino da escola primária, servindo apenas para nos fazer ver que a culpa da situação era somente nossa e que a partir daí teríamos de melhorar o comportamento.

 

Com a reintrodução dos feriados, dá impressão de que este paternalismo político de natureza profundamente hipócrita e mentecapta aliviou um pouco. Dá a impressão de um retomar, ainda que tímido, do caminho, enquanto povo com identidade própria que é aquilo que é e não aquilo que os outros querem que seja. Dá impressão que retornámos a uma espécie de normalidade.

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