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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

A revolução educativa que é mais necessária

por Amato, em 05.01.16

Cada vez me convenço mais da imbecilidade superlativa dos indivíduos apologistas da superioridade das ciências exatas face às demais ciências ou áreas do saber.

 

Cada vez percebo mais claramente da importância do domínio da língua e da dialética para o saber pensar e para o saber imaginar.

 

Cada vez mais observo claramente como grandezas diretamente relacionadas e diretamente proporcionais: a Filosofia e a Sociedade. O declínio da primeira relaciona-se diretamente com o declínio da segunda, nos seus princípios, na sua estrutura e nos seus valores.

 

Antes de começarmos a espingardar com o método científico convinha sabermos expor argumentos, pensar sobre o que expomos, saber falar, saber escrever, saber... pensar. E, resulta para mim muito claro, esta sociedade parece usar com destreza de gráficos e de ferramentas estatísticas, de testes de hipóteses e de grupos de controlo para provar isto e aquilo e não pensa, muitas vezes não sabendo o que faz. O que devia vir primeiro não vem nunca. Não existe a reflexão sobre o que se faz ou sobre o que se pretende fazer e essa reflexão quando existe é reprimida porque ameaça colocar em causa mais um batalhão de testes. Mais vale fazer os testes, então.

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Pensa-se pouco, raciocina-se pouco, reflete-se pouco. Faz-nos falta. Estuda-se Matemática, Física, Biologia e Química a mais e estuda-se Português e Filosofia a menos. As ciências exatas têm feito de nós, direta ou indiretamente, robôs, macacos treinados, animais de circo amestrados.

 

Esta é a revolução educativa que é mais necessária: uma revolução sobre o objeto de ensino. O que é determinante é “letrar” os cidadãos, isto é, dotá-los das ferramentas da leitura e escrita com destreza, do saber pensar e refletir. O resto também é importante mas não é o mais importante. O resto, para quem sabe ler, escrever e pensar... encontra-se ao alcance de uma mão.

Divide et impera

por Amato, em 03.01.16

No seguimento do meu último post, é preciso sublinhar que a estratégia aplicada pelo poder para assegurar a sua manutenção nas próximas eleições presidenciais não tem nada de novo.

 

Chama-se “dividir para reinar”, do latim divide et impera, e tem sido aplicado ao longo dos séculos por diversos dos mais famosos líderes mundiais, como César ou Napoleão. Não é tão pouco necessário reler por entre os volumes d' A Arte da Guerra. Também não é necessário recordar de que forma o império romano, ao fim de muitos anos, conseguiu derrotar os Lusitanos de Viriato.

 

Morte de Viriato, Rei da Lusitânia (José de Madrazo)

 

A única diferença que se realça é que, nos dias correntes, esta estratégia não é utilizada em cenário de guerra declarada mas, antes, numa guerra mediática e comunicacional.

 

Não obstante, os mesmos princípios são válidos: dividir as forças adversárias, fazer com que se digladiem e se enfraqueçam, para, então, recolher facilmente os despojos da vitória, numa marcha triunfal.

 

Nos nossos dias, divide et impera poderia ser traduzido como “na impossibilidade de bipolarizar, divide-se a oposição”.

A parcialidade da comunicação social

por Amato, em 02.01.16

Ontem entretive-me a assistir aos debates promovidos pelos canais informativos. Fiquei admirado com o tempo de antena concedido por tais meios de informação a tantos candidatos desconhecidos e, apenas por um curto momento, senti um calorzinho no estômago, daqueles do mais puro contentamento, por aquela aparente transformação operada nos critérios editoriais respetivos no que respeita à cobertura informativa nestas eleições. Foi apenas por um efémero momento efervescido talvez pelo contraponto, ainda fresco na memória, da cobertura jornalística desses mesmos meios nas eleições legislativas de outubro passado. Nessa altura, a opção foi claramente a bipolarização, com as duas forças políticas mais votadas a dividir entre si todo o tempo de antena.

 

Então, caí de novo em mim, na plenitude das minhas faculdades, e entendi a diferença de tratamento. A diferença está no facto de não haver candidato evidente da área do PS para se poder bipolarizar o debate. Nesse sentido, a opção (de todo em todo esperada) foi a de confundir o eleitorado, chamando para a mesa de debate todos os candidatos, os mais e os menos sérios, inquinar as intervenções com questões menores e irrelevantes e criar um ambiente promotor da concentração dos votos em Marcelo.

 

Pode parecer demagógico falar em seriedade de candidatos quando cada um deles é tão legítimo como o que se lhe segue. Não é, contudo, demagogia: legitimidade e seriedade são conceitos distintos. Revejam os debates de ontem. Foram momentos deprimentes para a política em Portugal, não pelos intervenientes em si, mas pelo seu nível de preparação e por aquilo que (não) trouxeram para o debate. O que trouxeram resumiu-se aos chavões do costume, os chavões que eu pensava já estarem gastos, aqueles usados ad nauseam por candidatos presidenciais sem apoio partidário desde os últimos dez anos: “partidocracia”, “sociedade civil”, “cidadãos”, “luta contra a corrupção”, “pela seriedade das instituições”, “meritocracia”, ... É confrangedor, medíocre do ponto de vista intelectual, revelando total desconhecimento relativamente às funções do Presidente. É o populismo baratucho no seu esplendor.

 

Para se ser alternativa, para se ser transformação, para se corporizar a mudança, são necessárias mais do que palavras: são precisas ações, estrutura e caráter e, o mais importante, ideais. Porque quando esprememos cada um destes “candidatos da sociedade civil” o sumo que sai tem aquele amargo e familiar sabor que é deste sistema, que é deste modo de se entender o mundo que nos rodeia. É por isso que o discurso resulta oco. É por isso que tantos candidatos deste tipo resultam em nada uma vez adquirida a vara do poder e todos os chavões e todas as frases feitas evaporam-se instantaneamente, qual gás nobre. São candidatos que julgam que a transformação da sociedade é uma questão de competência. Não é. A sociedade apenas se transformará quando for operada uma transformação filosófica que abranja diametralmente todos os seus setores, incluindo as noções de justiça e de igualdade e que, por isso mesmo, altere os mecanismos de distribuição de riqueza, incluindo a cultura, a educação e a saúde. Tudo o resto são operações cosméticas sobre um velho sistema a que se convencionou chamar de capitalismo.

 

No meio de tudo isto, Marcelo, sem dizer absolutamente nada de remotamente relevante, faz uso da sua imagem mediática e passeia-se até ao dia das eleições as quais, acredito, vencerá à primeira volta.

 

Mas retorno ao meu ponto central: o exposto apenas demonstra a natureza claramente parcial da comunicação social. Caso contrário, porque razão os pequenos partidos não tiveram igual tratamento na campanha eleitoral para as eleições de outubro passado? Porque razão, volvidos apenas três meses, se justifica agora que se ouçam os candidatos mais desconhecidos? O plano é diferente mas o objetivo é o mesmo: a concentração dos votos na área política de estimação. Desta vez os sapientes e autónomos critérios editoriais dos meios de comunicação social elegeram esta estratégia de polarização controlada do espaço mediático para poderem construir uma imagem de “seriedade” em redor de Marcelo e promover a concentração dos votos na sua cabeça.

Sobre as conexões mentais coletivas

por Amato, em 01.01.16

Se a sociedade, o conjunto de pessoas que inclui cada um de nós, fosse um corpo de uma pessoa apenas, é seguro afirmar que seria o corpo de um débil mental.

 

Os acontecimentos sucedem-se com grande celeridade, cada um dos quais lidado com um nível de histerismo próprio de uma criança cara a cara com um presente na véspera de Natal. É claro, portanto, que o corpo tem olhos e nariz, ouvidos e mãos para muito bem reconhecer o acontecimento com plenas capacidades sensoriais. Também dispõe de pernas em forma para correr e saltar e armar o circo que é comum ser armado nos primeiros dias após o reconhecimento sensorial. Acontece que, depois, qualquer tipo de conexão mental se revela infrutífera, não sendo estabelecido qualquer tipo de relação entre o que é observado ou uma aprendizagem consistente.

 

Nos últimos dias do ano vimos mais um banco ser intervencionado pelo Estado, com quantias avultadas a serem avançadas para cobrir buracos, justificando a aprovação de um orçamento retificativo na Assembleia da República. Quase de seguida, tivemos o anúncio de acordos de patrocínio a clubes de futebol, por parte de empresas de telecomunicações, que ascendem aos milhares de milhões de euros. Perante a sucessão dos eventos não vi ninguém questionar a moralidade da coisa que se assume particularmente grotesca no contexto de carestia em que o nosso país vive. Ao mesmo tempo que as classes trabalhadoras veem os seus magros rendimentos ainda mais emagrecidos, existem grandes empresas que engordam os seus lucros e que têm a possibilidade de oferecer estes escandalosos patrocínios. Mais: não exibem tão pouco qualquer vestígio de pudor em fazê-lo. O pior é que as duas coisas estão relacionadas. Ainda pior, como dizia no início, é a sociedade observar os acontecimentos e para além de não sentir revolta ainda bater palmas.

 

O melhor que descobri nos media foi uma tira de cartoon no DN que chamava a atenção para o assunto, ainda que timidamente e, diga-se, de forma intelectualmente pouco nutrida. De resto, não li nenhum comentário de nenhum comentador que conseguisse sequer apontar o óbvio.

 

Esta sociedade, se acaso fosse uma pessoa, seria efetivamente um perfeito débil mental.

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