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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Sampaio da Nóvoa ou o paraquedista inocente e virgem

por Amato, em 21.01.16

As gentes perspiram sempre (!) duma “lógica” a preto e branco que aplicam a tudo o que veem e a tudo o que mexe. É necessário que se combata e que se desconstrua tal forma de interpretar o mundo.

 

Um exemplo pertinente do que acabo de referir é a seguinte implicação de predicados: se estamos contra Marcelo Rebelo de Sousa, e eu estou e reafirmo-o para quem possa ter dúvidas, então devemos apoiar Sampaio da Nóvoa. Não há nada de mais errado.

 

As mesmas razões que me fazem rejeitar Marcelo, servem também para rejeitar Sampaio. Essas razões podem não obstante ser muito mais claras no caso de Marcelo o que até se traduz, bem refletido, num ponto a seu favor. Depois existe um paralelismo formal evidente entre os candidatos: percursos profissionais similares, uma certa forma artificial e distante de sentir o mundo que é própria de muitos académicos, assim como uma certa comodidade na movimentação e na ascensão nesses meios. Há muito de superioridade, há muito de arrogância disfarçada ora de excentricidade, ora de distanciamento, quer num, quer noutro. Serve este parágrafo, portanto, para sublinhar o que une os dois candidatos para lá do que os sustenta nesta campanha.

 

Particularmente, Sampaio da Nóvoa, o candidato, é um oportuno nome mais ou menos desconhecido: aparece na cena política inocente e virgem do que quer que seja, parece que nada do que aconteceu terá tido alguma coisa que ver com a sua pessoa, nenhuma decisão política teve o seu aval ou apoio e, portanto, daqui se conclui, erradamente, que Sampaio mantem a sua integridade intacta. A conclusão resulta errada porque, em democracia, toda a inação deve ser interpretada como uma ação de apoio indireto à posição vencedora e porque, no mais, existe a ação concreta de Sampaio da Nóvoa. Essa ação distingue-se sobretudo por ter tido na sua pessoa o carrasco que levou a cabo o processo de fusão das universidades da capital, a clássica e a técnica, algo que não devia ser muito impressionante para a generalidade da esquerda. Para quem não tem memória, tal processo foi executado no tempo de Sócrates e é motivo de regozijo para o candidato.

 

Para além disso, menos relevantes são as interrogações que se erguem sobre a sua ascensão na carreira, sobre o seu currículo e sobre o facto de ser um dissidente comunista. É que normalmente ser ex-militante comunista não abona muito em favor de quem o é, nomeadamente no que concerne aos valores da coerência e do caráter políticos.

 

Sampaio da Nóvoa apenas tem uma vantagem relativamente a Marcelo para efeitos de segunda volta: a sua vitória poderá (?) significar um prazo de validade um pouco mais alargado para este governo e essa perspetiva já é o bastante. Será o bastante no que à segunda volta diz respeito, porque relativamente à primeira... não existem males menores, nem paraquedistas inocentes e virgens.

Um passo para o fim das “cunhas” na contratação de professores

por Amato, em 20.01.16

Num momento em que o novo ministro da educação é atacado de todos os lados e de todas as formas argumentativas, é importante sublinhar a sua intenção em restringir a contratação de professores para a escola pública à sua graduação profissional, isto é, média de curso e experiência profissional.

 

Este passo envolve a implosão da aberração conhecida como a bolsa de contratação de escolas e o fim dos privilégios das “autonomias” e dos “territórios educativos de intervenção prioritária”, aos quais era permitido a contratação de amiguinhos e familiares, muitas vezes desqualificados para a docência, através de entrevistas de conveniência e de turvos critérios.

 

Para além de sublinhar esta intenção governativa que, a concretizar-se, materializará uma concreta e importante machadada na corrupção em Portugal tornando o processo de contratação pública de professores transparente e justo, deve-se assinalar a hipocrisia da sociedade em geral que, tendo sempre o tema da corrupção ao pé da boca para justificar a sua apatia crónica relativamente ao sistema político, deixa passar em claro esta medida, desvalorizando-a.

Isto é o capitalismo

por Amato, em 19.01.16

Pela primeira vez na história, a do Homem moderno pelo menos, apenas um ponto percentual da população do planeta detém tanta riqueza como os restantes noventa e nove por cento. Esta é a principal conclusão de um estudo de uma organização não-governamental britânica, Oxfam, que se baseia em dados do banco Credit Suisse relativos a outubro do ano passado.

http://www.taghribnews.com/images/docs/000066/n00066586-b.jpg

Aqui não interessa se a razão que reflete a distribuição da riqueza é exatamente esta ou é ligeiramente diferente. O que interessa é o caminho que estamos a percorrer, para onde nos dirigimos enquanto humanidade e se concordamos com o caminho. E não importa ficar muito chocado com a natureza dramática dos dados e simultaneamente manter a mesma fé cega no sistema que nos trouxe até este ponto.

 

Isto é o capitalismo. Isto é o capitalismo num estado avançado e, portanto, decadente. Porque o capitalismo não converge para nenhum equilíbrio são: o capitalismo tende apenas para o extremar da concentração da riqueza, das desigualdades e da condição das classes sociais.

 

Por vezes parece que não é assim, parece que o capitalismo cresce crescimento e melhoria das condições de vida. A ilusão resulta apenas das barreiras físicas entre as populações que não se veem, que não se cheiram, que não têm sensibilidade para notar que, a quilómetros de distância, outros sofrem e definham para que eles possam viver melhor.

 

Mas mesmo esse efeito, essa sensação de crescimento, é sempre passageiro porque o capitalismo trata de continuar a concentrar a riqueza nos bolsos de cada vez menos pessoas, como uma praga que se move de um sítio para o outro, continuamente, até extinguir todos os recursos.

Democracia ou plutocracia?

por Amato, em 18.01.16

Será, por ventura, avisado revermos a nomenclatura empregada para nos referirmos ao nosso sistema político.

 

A plutocracia (do grego ploutos: riqueza; kratos: poder) é um sistema político no qual o poder é exercido pelo grupo mais rico. Do ponto de vista social, esta concentração de poder nas mãos de uma classe é acompanhada de uma grande desigualdade e de uma pequena mobilidade.

 — in wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Plutocracia)

 

Com efeito, o poder (kratos) é exercido sobretudo em favor da riqueza (ploutos) e não do povo (demos). Porém, se assim parece evidente, isso é o resultado de sucessivas escolhas universais.

 

Está em ordem a criação de uma nova palavra para um novo conceito que seja mais fiel na caracterização do nosso sistema político. A minha sugestão: demoplutocracia!

Marcelo ou o último exemplo de controlo social

por Amato, em 17.01.16

Marcelo Rebelo de Sousa é o último exemplo de como esta sociedade Big Brother exerce controlo ou, pelo menos, como influencia o pensamento de cada um dos seus elementos, de cada cidadão que pisa este solo retangular e que, todos os dias, procura sobreviver debaixo deste sol.

 

Marcelo Rebelo de Sousa é exatamente aquilo que é, nem mais, nem menos, mas isto é algo de diverso do que é apresentado na generalidade dos media. Hoje, Marcelo Rebelo de Sousa aparece-nos, televisão adentro, como um grande sábio, uma excelente pessoa, muito culta e muito capaz. Esta imagem levou mais de uma década a ser construída e juntou esforços de jornais, canais de rádio e de televisão. A verdade é que, quer quiséssemos, quer não, lá estava o Professor na TV a horas certas, a mandar bitaites sobre tudo e a recomendar livros. O Professor Marcelo substituiu o Vitinho e os Patinhos ao domingo à noite e a juventude habituou-se a ir dormir a seguir às suas palavras antes de acordar para uma nova semana de trabalho.

 

Não interessa que na vida política Marcelo tenha sido uma nódoa, incapaz de segurar a liderança do seu partido e de unir as suas vontades. E não interessa que Marcelo tenha sido uma nódoa de lavagem rápida rapidamente substituído por outros de menor currículo mas, todavia, capazes de fazer o que o Professor não soube ou não conseguiu. Nem interessa que Marcelo tenha virtualmente perdido todas as eleições a que concorreu. Nada da sua efetiva participação política interessa verdadeiramente.

 

Não interessa a ascendência de Marcelo e a sua íntima relação com o antigo regime. Diz-se que o último dos ditadores do Estado Novo, Marcelo Caetano, esteve para ser seu padrinho de batismo e diz-se que se batizou o menino de Marcelo em sua honra. Mas nada disso interessa porque Marcelo, o de 2016, sempre foi um democrata dos sete costados e nem sabia nada sobre o assunto. Nada do património histórico de Marcelo interessa verdadeiramente.

 

Não interessam as suas posições políticas. Não interessa que eventualmente seja um retrógrado conservador que preferiria os tempos simples do “antigamente” em que todos fossem à missinha ao domingo e em que as mulheres fossem umas parideiras de trazer por casa e a cuidar a casa enquanto os maridos trabalhavam de sol a sol para colocar comida na mesa. Não sei se é isso que o Professor pensa porque nada do que aquilo que o Professor Marcelo realmente pensa parece interessar aos meios de comunicação social, nem os sinais que foram sendo dados, nem os lados em que o Professor se foi colocando ao longo da passagem dos tempos.

 

Nada disto interessa porque o Professor Marcelo é afável e divertido, é simpático e bonacheirão e, por isso mesmo, dará um excelente Presidente da República que será muito próximo do povo.

 

O Professor Marcelo Rebelo de Sousa é, com efeito, apenas a face visível do controlo e da influência a que estamos sujeitos. Antes, há dez anos, tivemos já a cavalgada sebastiânica de Cavaco, imaculada de nódoas políticas passadas, até à presidência da República.

 

Não é que a maioria do povo não queira Marcelo. Provavelmente quer, estou seguro disso. Essa escolha, contudo, deveria ser limpa e transparente e não sob esta permanente capa de hipocrisia, este faz-de-conta com o qual se entretêm as crianças e se obtêm os comportamentos desejáveis.

 

Quando se fala em democracia avançada é exatamente o contrário disto que temos: esta democracia infantil feita de fantoches e de falsos ídolos, feita para ignorantes.

"Exames" são sinónimo de exigência?

por Amato, em 16.01.16

A propósito das alterações operadas pelo novo governo no sistema de avaliação dos alunos no ensino básico, tenho lido artigos de opinião tremendos em termos vacuidade. São contribuições absurdas para o debate, sem um pingo de lógica ou de bom senso e parecem estar a ser vertidas descontroladamente por uma torneira reacionária qualquer.

 

Por ser tão fácil encontrar os artigos aos quais me refiro, vou-me abstrair de colocar nomes neste texto. A tónica geral do discurso é colocada na questão da “exigência”. O novo sistema sem exames não é exigente e a afirmação é apresentada assim mesmo como uma verdade evidente, como uma noção comum dos Elementos de Euclides. Leiam-se os artigos que têm vindo a poluir as entranhas dos jornais ao longo das últimas semanas. Ouçam-se as opiniões emitidas nos debates televisivos.

 

No último artigo que li, o qual creio não ser o único a advogar tal posição, ensaiava-se uma espécie de argumento segundo o qual a existência de exames torna-se fundamental para impedir a ociosidade e a preguiça dos professores que, segundo a autora, apenas trabalham e preparam os seus alunos se tiverem exames em vista. E é isto! A argumentação sobre a existência ou não de exames, sobre o modelo mais geral para avaliação dos alunos resume-se, no máximo, a argumentos desta natureza que ofendem o brio e o profissionalismo da classe dos professores. Está tudo dito.

 

Nada disto é anormal, todavia. A nossa sociedade (sobre)vive num clima de permanente suspeita e desconfiança e a classe profissional dos professores, que devia ser entendida como um verdadeiro farol de cultura, pela sua formação e relevância, não é exceção sendo constantemente humilhada com opiniões deste tipo.

 

Por outro lado, é também normal ver nos outros os defeitos próprios. É normal que a jornalista que escreveu o artigo em causa veja nos professores o laxismo que, eventualmente, reconhece em si própria quando não é controlada. Por ventura, é essa jornalista que, eventualmente, precisa de ser constantemente avaliada e ter os seus chefes sempre à sua perna para desenvolver o seu melhor trabalho e, por isso, julga que os professores devem ser avaliados pelo mesmo referencial.

 

Existe, contudo, uma questão basilar: em geral, os professores têm cursos superiores e mestrados, formações científicas e pedagógicas sólidas. E mais, a maioria dos professores não está a trabalhar pelo sobrenome ou pela cor dos seus olhos. A maioria dos professores está a trabalhar onde está a trabalhar pelo seu mérito profissional, nota de curso e experiência. Isto que refiro pode parecer uma alucinação nos dias que correm e no país em causa mas é a realidade. E esta realidade faz toda a diferença.

 

"Exames" são sinónimo de exigência? Os nórdicos são pouco exigentes por estarem a abolir os exames? Os seus professores são preguiçosos? Será que temos que criar exames para os médicos, para os engenheiros e demais profissões para evitarmos a preguiça?

 

Seria urgente elevar o nível do debate. Seria, se não fosse esta uma estratégia costumeira para não se discutir nada com seriedade e para alimentar mentalidades obscuras.

Baixa política

por Amato, em 14.01.16

Em política o mais baixo acontece não quando se assume uma posição distinta da nossa mas quando não se assume posição alguma. O não assumir de posição não resulta de incapacidade ou de ignorância mas de taticismo político, numa tentativa humanamente medíocre de conquistar o apoio de todos.

 

Quando perguntaram a Maria de Belém o que achava ela da redução do horário de trabalho na função pública para trinta e cinco horas, a candidata respondeu que ninguém, muito menos o Presidente da República (!), se deve imiscuir nas decisões parlamentares. Para ela, ao que parece, é indiferente que sejam trinta e cinco ou quarenta ou cinquenta as horas de trabalho semanais. Tanto faz!

 

Isto é um bom exemplo da mais baixa política. O que está na moda é isto: não dizer nada sobre nada, não assumir posição, não concretizar o que quer que seja, ser-se um falso espelho de virtudes, cobrir-se de uma manta de chavões e de lugares comum. Também Marcelo e os outros, os “independentes” e os “da cidadania”, fazem o mesmo com maior ou menor distinção.

 

Outra questão, diversa da anterior, é tentar perceber por que razão a baixa política é valorizada pela esmagadora maioria dos votantes, sendo que o edifício democrático que sustenta a sociedade derrama lágrimas de sangue a cada escrutínio.

http://clas.berkeley.edu/sites/default/files/shared/images/eventimages/2015-10-21-Vote%20Buying-%20Matador-4x3-750p.jpg

 

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