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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Evidência sobre insondabilidade do povo e a "nova esquerda"

por Amato, em 31.01.16

Em verdade, as razões que sustentam as escolhas democráticas do povo são insondáveis.

 

Quem imaginaria, no seu perfeito juízo, que após a canalhada de governação do Syriza na Grécia, subjugando-se totalmente ao diretório de potências europeu, adotando toda e ainda mais alguma da austeridade contra a qual erguia bandeiras antes de ser governo, o Bloco de Esquerda e o Podemos, partidos totalmente colados politicamente a essa “nova esquerda” encabeçada pelo Syriza, obtivessem os seus melhores resultados eleitorais?

 

Para mim, que me considero de esquerda e que me considero com um mínimo de racionalidade lógica é algo de verdadeiramente surreal. O que é que o povo pensa afinal? Mais importante: o que é que o povo de esquerda pensa? O povo olha a situação, observa os factos que são claros e decide-se deste modo, como que suportando um movimento que tem dado provas de não possuir uma verdadeira alternativa ao sistema. O que podemos esperar do Bloco de Esquerda e do Podemos se acaso chegarem ao poder, se não uma réplica local da ação do Syriza grego? De que evidências dispomos, que sinais esses partidos nos dão, para podermos pensar o contrário?

 

A “nova esquerda” não é, com efeito, revolucionária: é apenas reivindicativa. A “nova esquerda” não pretende a transformação do sistema e das suas estruturas: pretende apenas operar uma maquilhagem sobre a sua face. A “nova esquerda” não tem sequer teoria para aplicar na prática: fica-se apenas por um conjunto de boas e de justas intenções. Sobre como levá-las à prática... isso é outra história. E é por isso que a “nova esquerda” não é mais do que uma perda de tempo. Falta-lhe cultura e História. Falta-lhe ler os clássicos. E talvez não seja necessário procurar mais longe: talvez seja exatamente aqui que radiquem os seus mais recentes sucessos eleitorais, condenados, consequentemente, à efemeridade.

Cinco dias e cinco noites

por Amato, em 30.01.16

Deixei passar cinco dias e cinco noites sem escrever aqui no blog. De seguida, deixo algumas notas sobre o que tem acontecido nestes dias.

 

O Partido Comunista tem sido atacado de todos os lados e tem sido alvo de todo o género de argumentação muita dela espumada daquele preconceito secular que se sustenta na inveja e na ignorância. Todos procuram navegar na crista da onda que foi a derrota nas presidenciais. Todos procuram ser os primeiros a anunciar o ambicionado fim do PCP e do movimento comunista em Portugal. De notar, neste particular, a preponderância e o protagonismo de muitas partes que se dizem de esquerda.

 

É interessante notar que o Partido Comunista tem tido nestes dias o espaço mediático que nunca antes teve, ocupando espaço opinativo anteriormente vedado. Servem para este propósito todo e qualquer pretexto, inclusivamente a infeliz adjetivação de Jerónimo, “engraçadinha”, que rapidamente assumiu proporções surreais. Se o que disse Jerónimo não parece interessar a ninguém, muito menos interessará o que Jerónimo realmente terá procurado dizer e sobre isto poder-se-ia discorrer muitíssimo.

 

Mas a contradição reside aqui mesmo. O candidato apoiado pelo Partido Comunista Português obteve escassos quatro pontos percentuais de votação relativa mas, ainda assim, revolvem-se os espectros da comunicação social agoirando a morte do comunismo, apressam os comentários, remoem-se os preconceitos e as difamações fáceis, desmultiplicam-se os ataques. Creio que o Partido Comunista é o único partido português que, com escassos quatro pontos percentuais de votação, assusta e apoquenta tantas e tantas forças contra si.

 

Ao mesmo tempo assistimos serenamente ao processo autodestrutivo deste governo cuja atuação é desconcertante e desprovida de qualquer tipo de estratégia inteligível. A Europa tem um partido bem definido, toma partido e começa agora a falar mais grosso do alto da prepotência do capital que a criou.

 

O governo começa a deixar cair medidas orçamentais, uma atrás da outra, escudando-se na sua própria covardia, isolando-se cada vez mais, encurralado entre a Europa e a esquerda, ambas com acordos na mão. Mas mais relevante é este governo ver-se popularmente diminuído e deslegitimado, facto resultante das últimas eleições e que, ultimamente, traça o seu fim próximo.

 

Passo Coelho, por seu turno, continua a comportar-se como se ainda fosse Primeiro-ministro. O seu discurso é impermeável de realidade e de responsabilidade, de memória ou decência. Fala qual personalidade carregada de virtudes e credora da admiração de todos. Nota-se, contudo, que a atitude e o discurso não são por acaso. Ouvir o povo referir-se a Pedro Passos Coelho chega a ser embaraçoso. O povo prepara-se para empossar o seu próprio carrasco uma vez mais forçando-o a terminar o serviço encetado há mais de quatro anos.

 

O povo é soberano nas suas escolhas mas não é por isso que as suas escolhas deixam de refletir a sua própria natureza, nem o inibem das suas consequências e responsabilidades. E o tempo em que tanto umas como outras serão colhidas como feixes de trigo tenro está para chegar.

Presidenciais 2016: uma reflexão

por Amato, em 25.01.16

Em diversas ocasiões previ neste mesmo blog a vitória à primeira volta de Marcelo. O resultado não é, por isso mesmo, completamente inesperado. Também não é inesperado o resultado obtido por Sampaio da Nóvoa, o mais forte “candidato dos cidadãos”. Aliás, a votação nele vertida é equivalente à do seu antecessor, Manuel Alegre. O que é inesperado é a forma como os votos foram dispersos pelos outros candidatos; inesperado e seriamente grave para a esquerda em geral e para o momento concreto que vivemos hoje, particularmente para o governo atual.

 

Também isto já o escrevi nalgum post mas aproveito para o reafirmar em jeito de presságio: com este Presidente, o governo PS não chegará ao final da legislatura. Mas mais grave do que isso é a pressão que será exercida a partir de agora sobre a sua governação. O atual quadro de apoio popular aos partidos com assento na Assembleia transformou a correlação de forças e deslegitimou a coligação parlamentar.

 

Com efeito, toda a oratória da direita que resultou da derrota nas eleições legislativas, por muito infantil e medíocre que fosse, acaba por sair legitimada e reforçada com estas eleições que a dotaram de uma expressiva vitória por maioria absoluta. A democracia tem disto mesmo: os votos legitimam tanto o digno como o indigno, tanto o honesto como o corrupto, tanto o íntegro como o canalha.

 

Esta pressão popular far-se-á sentir (cá vem mais um presságio...) sobre cada aspeto da vida política e da vida corrente do país, sobre cada política adotada, sobre o caráter das medidas, sobre a escalada do patronato sobre os trabalhadores, sobre a influência dos sindicatos, sobre as decisões dos tribunais e sobre as interpretações que irão ser feitas das leis. Tudo isto se fará sentir, desde o salário real ao custo de vida, passando pelo intervalo de cinco minutos para ir ao quarto de banho durante o trabalho. Que ninguém tenha dúvidas: o povo português sentirá na pele, mais do que nunca, o poder do seu voto.

 

Medidas que iriam ser tomadas não o serão mais e, a pouco e pouco, a coligação parlamentar partir-se-á. A hipótese etérea de um tempo novo na política portuguesa com o PS a governar um pouco mais à esquerda esfumar-se-á rapidamente com o ajoelhar determinado de Costa à direita triunfante que o terá, seguro, debaixo de um pé, sob ameaça de uma dissolução parlamentar, até ao momento em que se decidir a fazê-lo desde o alto da cátedra do Professor Marcelo.

 

Um outro pormenor que concorrerá para este quadro desastroso é a pseudo-vitória do Bloco de Esquerda nestas eleições presidenciais e a derrota do Partido Comunista Português. Atribuo o prefixo pseudo pelo facto do Bloco de Esquerda ter efetivamente diminuído a sua votação em relação às legislativas e, portanto, resultar artificial a caracterização do resultado eleitoral como vitória, mas cada qual será livre de o entender como bem lhe aprouver.

 

A dinâmica da coligação parlamentar tripartida dependia de dois fatores essenciais: do peso combinado do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista Português e da influência deste último no que diz respeito à transmissão de uma certa dose de bom senso, de honestidade e de seriedade ao processo. O Partido Comunista Português é, por muito que custe entender, o fiel da balança neste acordo parlamentar. Não é somente a minha opinião, Pacheco Pereira disse qualquer coisa do género na Quadratura do Círculo. Por seu turno, o Bloco de Esquerda é o elo mais fraco desta coligação parlamentar, pelo seu aventureirismo, pela sua instabilidade e indefinição endémicas, pela sua sede de protagonismo, capazes de provocar o caos de um momento para o outro.

 

Os resultados eleitorais ditaram o fortalecimento do Bloco e da sua instabilidade e o enfraquecimento assinalável do Partido Comunista e da sua capacidade para segurar a coligação. Esta descida do Partido Comunista não era de todo em todo expectável sobretudo devido à ideia de um eleitorado fiel de sete ou oito pontos percentuais, ideia essa alimentada no histórico das eleições, mas não verificada desta vez.

 

O caldo está, enfim, preparado. O último ingrediente foi adicionado ontem e chama-se Marcelo. Teremos direita a influenciar o governo. Teremos austeridade. Teremos retrocesso. Teremos eleições para breve para reforçar a dose quando assim for necessário. O povo assim o quis.

“Conseguimos, Padrinho”

por Amato, em 25.01.16

Esta madrugada, antes de se deitar para dormitar aquelas duas a três horas que lhe são características, Marcelo terá olhado, emocionado, para o retrato que ainda hoje guarda carinhosamente emoldurado à cabeceira da cama e, de olhos semicerrados, vertendo uma singela lágrima de orgulho, terá dito:

 

— Conseguimos, Padrinho. Finalmente... conseguimos!

O problema é o povo

por Amato, em 25.01.16

O problema não são os políticos ou os governantes. O problema é o povo.

 

O problema não é a economia ou as teorias. O problema é o povo.

 

O problema não são as injustiças ou a desigualdade ou a miséria. O problema é o povo.

 

O problema não é a falta de liberdade, nem de democracia. O problema é o povo.

 

O problema não é a prepotência ou a opressão. O problema é o povo.

 

O problema não são os ditadores. O problema é o povo.

 

O problema não é a cabeça ou a ignorância. O problema é o coração e os sentimentos. O problema é a falta de solidariedade e o sentido de (in)justiça. O problema é o povo.

 

Problemáticas não são as consequências. Problemáticas são as causas. O problema é o povo.

 

O problema não são os políticos ou os governantes. O problema é o povo.

Sou como uma espécie de fermento aqui

por Amato, em 23.01.16

http://www.pco.org.br/biblioteca/bibli_digital/bibli_cultura/literatura/textos_literrarios/gorki/foto.jpg

— Está bem, meu caro — disse ela, sem o olhar e com um gesto significativo dos lábios. — Que fazes tu? Limitas-te a falar e a ler um livro, às vezes. Não dá muito proveito às pessoas que tu cochiches pelos cantos (...).

— Há muitos que me ouvem, minha amiga — replicou o camponês, vexado. — Sou como uma espécie de fermento aqui, fica sabendo. ”

in A Mãe, Máximo Gorki

O povo é soberano e sapiente

por Amato, em 22.01.16

Hoje é o último dia de campanha eleitoral. No próximo domingo o povo escolherá o seu representante na Presidência da República corporizando no seu voto a própria natureza essencial da democracia.

 

Não interessa tecer mais comentários sobre os candidatos, nem sobre o tratamento informativo da campanha, nem sobre nada. O povo é soberano e sapiente e votará de acordo com a sua sabedoria e com o seu interesse.

 

E se, dentro do povo, a classe que vive do seu trabalho prefere escolher quem a espezinha para depois, na hora da dificuldade, se agarrar às bandeiras vermelhas de quem sempre os acode... há que aceitar: é uma escolha legítima.

 

Seja feita a sua vontade.

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