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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

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Que uma fraca gente faz fraco o forte líder

Hoje dei comigo, numa monótona viagem de automóvel, a remoer num verso dos Lusíadas de Camões:

 

Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.

 

Este verso finaliza a estrofe cento e trinta e oito do terceiro canto da epopeia. Nele, Camões alude a D. Fernando I, o Inconsciente ou Inconstante, filho de D. Pedro I e que pela sua fraqueza enquanto líder fez de Portugal um país fraco e submisso, mergulhado em frívolas guerras com Castela.

 

Do justo e duro Pedro nasce o brando,

(Vede da natureza o desconcerto!)

Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,

Que todo o Reino pôs em muito aperto:

Que, vindo o Castelhano devastando

As terras sem defesa, esteve perto

De destruir-se o Reino totalmente;

Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.

 

É evidente que Camões tem a sua razão mas, não obstante, dei comigo a elaborar mentalmente uma espécie de afirmação contrarrecíproca da dele. Saiu mais ou menos assim:

 

Que uma fraca gente faz fraco o forte líder.

 

Não será exatamente como escrevo. Afinal, como podemos avaliar a qualidade de ambos, sendo certo que existe uma relação entre uma e outra? E como podemos avaliar com segurança quem influencia quem de forma mais determinante?

 

Contudo, a democracia expõe muito mais situações que verificam mais facilmente a segunda afirmação do que a primeira.

 

Os governantes corruptos são suportados democraticamente por massas corruptas. O processo eletivo, o financiamento eleitoral, demonstra-o bem. Mas também os chefes incapazes que dominam e ocupam os trabalhos e as empresas, são suportados e rodeados, em regra geral, de trabalhadores incapazes que fomentam tal incapacidade. Quero dizer: massas laborais conscientes e competentes são também mais exigentes com as suas lideranças, enquanto que massas laborais incompetentes ou incapazes são o adubo necessário para nutrir lideranças incompetentes e incapazes. Tudo isto parece-me claro.

 

Quer se queira, quer não se queira, a democracia tem esta característica insofismável: para o bem ou para o mal a responsabilidade das opções passa para as mãos do povo. E, por isso mesmo, os líderes que resultam do processo democrático são o reflexo mais perfeito do povo que os elegeram.

 

Quando nos deparamos com uma injustiça vinda de cima devemos pensar um pouco antes de atacar quem segura a vara do poder. Antes, devemos olhar para o lado na direção daqueles que, sendo nossos semelhantes de classe, conferem ativamente o poder a quem o tem e, com a sua ação, estabelecem também os limites desse mesmo poder.

publicado às 19:43

Notas sobre a nova configuração parlamentar

Por estes dias há um novo governo em Portugal que se apresenta na Assembleia da República com capacidade efetiva de legislação e de governação. É um governo minoritário do Partido Socialista que terá que ter, pela sua condição minoritária, uma capacidade permanente e genuinamente generosa de negociação a nível parlamentar. Faço votos para que, ao contrário do passado, essa negociação se proceda pela primeira vez muito mais à esquerda do que à direita e que isso se traduza em políticas concretas que concorram para o equilibrar da sociedade, tão economicamente desequilibrada nas últimas décadas.

 

Para já existem sinais muito animadores mas nada de concreto pelo que resultaria prematuro um qualquer juízo de valor. No tempo preciso a análise será feita.

 

O que é importante notar, em minha opinião, é o comportamento das bancadas de direita no quadro desta nova configuração parlamentar. Já sabíamos que a enfastiante repetição de mentiras e de disparates sobre o processo de formação deste governo veio para ficar, pois não existe ninguém, nem ao menos o próprio Presidente da Assembleia da República, segundo representante máximo do país, que os faça calar ou que os expulse do hemiciclo por reiteradamente insistirem na mentira descarada, na calúnia reles e no disparate simplório que atingem transversalmente todas as instituições da República. Devia existir uma disciplina nalgum ciclo de aprendizagens básicas que ensinasse aos nossos jovens a letra da Constituição para que este tipo de situação não passasse em claro e para que houvesse um outro tipo de exigência social. Mas para tudo isto já estávamos bem avisados.

 

Para o que não estávamos avisados era para a falta de educação e de respeito que agora existe. Sem querer generalizar, porque seria incorreto da minha parte, mas apontando o dedo a toda a bancada que se situa à direita do Presidente da Assembleia, por pelo menos cumplicidade para com os atos, deve-se classificar como inadmissíveis os comportamentos adotados por uma boa franja de deputados de psd e de cds. Refiro-me aos insultos descarados, aos zurros, às sonoras gargalhadas, ao gozo permanente que irrompe daqueles lados do hemiciclo, qual aldeia dos macacos do jardim zoológico, sempre que algum deputado do outro lado usa da palavra. Para quem, como eu, acompanha as atividades parlamentares, estas atitudes, não sendo genuinamente novas, atingiram o patamar mais baixo, mais escandaloso, de sempre e prometem não ficar por aqui. Os deputados em causa tão pouco se importam com o facto de estarem a passar em direto na televisão.

 

Uma vez mais noto a incapacidade ou inação, talvez por impossibilidade, do Presidente da Assembleia da República em impor a ordem, o respeito e o decoro durante os trabalhos. Seja por incapacidade ou por impossibilidade, a situação é uma vergonha e ameaça seriamente a estabilidade do sistema democrático.

publicado às 11:13

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