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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Uma reflexão matutina sobre arte e cultura

por Amato, em 12.12.15

Aos sábados de manhã dá-me para pensar em coisas que me surgem do nada. Hoje pus-me a pensar em cinema e em livros.

 

No que ao cinema diz respeito assalta-me a atenção o número crescente de filmes europeus que se intrometem nos cartazes semanais de Hollywood. Gosto de acreditar que esse facto deve-se a um certo enjoo geracional, desta geração mais velha, relativamente a um formato gasto, sem ideias e vazio de conteúdo, vazio de história, que o cinema americano oferece e não parece conseguir oferecer nada mais do que isso, com exceção dos filmes de autor que fogem ao mainstream. Veja-se a quantidade de patéticos remakes e de reruns de sucessos antigos e que atestam o que acabei de dizer.

 

O cinema europeu, sobretudo o francês, também tem um formato cristalizado mas traz consigo algo que será sempre novo: procura contar histórias, foca-se na história e fá-lo numa economia de meios que até tem o condão de se tornar pitoresca. Depois, o processo narrativo é menos presunçoso e mais sensato que o americano, coisa que, segundo julgo, a minha geração agradece e acolhe com satisfação. Estamos um pouco fartos que nos tentem impingir o que pensar. Só nos interessa a viagem.

 

Relativamente a livros, o momento é de contraposição aos pessimistas. Não embarco na corrente que diz que as novas gerações leem menos. Não tenho dados objetivos e, em verdade, ninguém os terá para tecer afirmações categóricas numa ou noutra direção. Como em tudo o resto apoio-me na minha própria experiência e num ou noutro dado objetivo palpável. A minha experiência diz-me que nunca li tanto como hoje. Nunca o acesso a todos os tipos de literatura esteve tão fácil, tão célere e tão barato. Mais: nunca, como hoje, o ato de ler foi tão necessário à vida quotidiana. Claro que podemos argumentar com a qualidade da escrita, com a qualidade da leitura e com a qualidade da oferta literário, argumentos que acolho e reconheço. Mas esses argumentos pertencem a uma discussão distinta desta.

 

A verdade, resulta para mim clara, é que nunca se leu tanto como na atualidade. Nunca se editaram e venderam tantos livros como nos dias correntes. E quando pensamos, quais velhos do restelo, nos dias passados, temos a tendência para valorizar certas minorias que nos são caras nesses tempos idos sem sermos capazes de reter uma imagem global de época mais fidedigna. Se fossemos capazes de o fazer, isto é, se fossemos capazes de comparar fotografias de época com rigor, facilmente constataríamos o óbvio: hoje em dia há muitíssimo mais gente a ler, em muitíssimos mais formatos, de variadíssimas formas diferentes, mas ainda assim a ler. E se quisermos comparar a literatura de qualidade e a leitura de qualidade, seja qual for o nosso referencial nessa matéria, a verdade é que também aí os tempos modernos batem os tempos antigos por goleada. É pelo menos essa a minha convicção.

Uma premonição

por Amato, em 11.12.15

O primeiro erro de António Costa enquanto líder do governo não é óbvio nem tem sido apontado por aí. Aliás, nem poderia ser. Quem costuma ter o ónus de emitir análises fica-se pelo que lhe foi encomendado de véspera e, está claro, também pelo óbvio. O primeiro erro de António Costa está na estratégia ou falta dela para as presidenciais.

 

Costa é um adepto da inação no que ao confronto político diz respeito, isto é, deixa que os outros falem por ele e que a sua prática política fale por si. Evita o confronto direto e usa-o apenas quando a vitória parece mais que garantida, quando basta um leve sopro para derrubar o adversário. Foi assim nas internas socialistas e, em grande medida, nas legislativas. Nas eleições presidenciais que se avizinham a estratégia parece ser a mesma.

 

Costa deixou que as diferentes vontades dentro do seu partido se manifestassem a seu bel-prazer fazendo fé que o resultado disso mesmo pudesse ser capitalizado politicamente de uma ou de outra forma. Ora, o crasso erro reside aqui mesmo e quero dizê-lo com todas as letras em jeito de premonição: se Marcelo Rebelo de Sousa vencer as eleições presidenciais, o governo minoritário do PS tem os seus dias contados.

 

Marcelo apresenta-se com uma estratégia inteligente propagandeando uma ideia de si plena de moderação e de bom senso. Com isto ganha a aderência do centro político e, sobretudo por não haver nenhum contraponto minimamente sério da parte do PS, caminha para uma vitória confortável à primeira volta. A questão é que Marcelo não deixa de estar intimamente ligado ao seu partido e, assim que vencer, terá que alinhar, pelo menos em parte e ainda que não seja essa a sua vontade (o que não acredito), na estratégia delineada e fielmente seguida à direita, por muito estapafúrdia que legal e moralmente esta seja. Mais: a PaF tem nesta altura uma forte máquina de fazedores de opinião capazes de pressionar vários setores da sociedade e a generalidade dos media. Não será difícil imaginar que Marcelo possa ceder a tais pressões no momento preciso em que Costa cometer o primeiro erro no decurso da governação.

 

Não tendo percebido esta problemática, Costa dirige-se para a armadilha preparada pela PaF e, agora, não parece ter possibilidade de nela evitar cair. A única contraposição a tal cenário seria a apresentação de um candidato minimamente carismático que fosse capaz de assumir um discurso anti-PaF e incorporasse os valores que residem na base da formação da coligação parlamentar de esquerda. Seria necessário um discurso coerente e sólido; um discurso que fizesse a defesa evidente mas clara e resoluta dos acordos firmados para a legislatura que viabilizam o governo minoritário do PS; um discurso em clara oposição à inadmissível lengalenga da PaF; e que fosse capaz de levar a decisão a uma segunda volta. Aí, com a união de toda a esquerda, a conversa seria outra.

A razão de ser

por Amato, em 09.12.15

Talvez a razão de ser das coisas esteja aqui: o que revolta as pessoas não é a desigualdade exercida sobre si mesmas; o que as revolta é antes o sentimento de inferioridade ou, melhor, a consciência de um estado de não superioridade relativamente ao próximo. A ideia de igualdade será, com efeito, tão repugnante quanto a ideia de inferioridade.

 

Talvez a razão esteja aqui. Foi neste ser grosseiro, competitivo e selvagem em que nos tornámos. Os alicerces sociais têm efetivamente fortes raízes antropológicas. Posto isto, a única ideia a que nos podemos agarrar, qual derradeiro farol de esperança, é que a humanidade nem sempre foi assim. Temos que recuar bastantes anos, milénios até, mas lá atrás, nas primeiras comunidades recoletoras, a humanidade não era feita desta massa. Podia não saber ler nem escrever mais do que a emissão de primitivos sons ou a manipulação de primitivos símbolos, mas sabia o mais importante: sabia que só poderia sobreviver apoiando-se mutuamente, solidariamente.

 

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Que uma fraca gente faz fraco o forte líder

por Amato, em 07.12.15

Hoje dei comigo, numa monótona viagem de automóvel, a remoer num verso dos Lusíadas de Camões:

 

Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.

 

Este verso finaliza a estrofe cento e trinta e oito do terceiro canto da epopeia. Nele, Camões alude a D. Fernando I, o Inconsciente ou Inconstante, filho de D. Pedro I e que pela sua fraqueza enquanto líder fez de Portugal um país fraco e submisso, mergulhado em frívolas guerras com Castela.

 

Do justo e duro Pedro nasce o brando,

(Vede da natureza o desconcerto!)

Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,

Que todo o Reino pôs em muito aperto:

Que, vindo o Castelhano devastando

As terras sem defesa, esteve perto

De destruir-se o Reino totalmente;

Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.

 

É evidente que Camões tem a sua razão mas, não obstante, dei comigo a elaborar mentalmente uma espécie de afirmação contrarrecíproca da dele. Saiu mais ou menos assim:

 

Que uma fraca gente faz fraco o forte líder.

 

Não será exatamente como escrevo. Afinal, como podemos avaliar a qualidade de ambos, sendo certo que existe uma relação entre uma e outra? E como podemos avaliar com segurança quem influencia quem de forma mais determinante?

 

Contudo, a democracia expõe muito mais situações que verificam mais facilmente a segunda afirmação do que a primeira.

 

Os governantes corruptos são suportados democraticamente por massas corruptas. O processo eletivo, o financiamento eleitoral, demonstra-o bem. Mas também os chefes incapazes que dominam e ocupam os trabalhos e as empresas, são suportados e rodeados, em regra geral, de trabalhadores incapazes que fomentam tal incapacidade. Quero dizer: massas laborais conscientes e competentes são também mais exigentes com as suas lideranças, enquanto que massas laborais incompetentes ou incapazes são o adubo necessário para nutrir lideranças incompetentes e incapazes. Tudo isto parece-me claro.

 

Quer se queira, quer não se queira, a democracia tem esta característica insofismável: para o bem ou para o mal a responsabilidade das opções passa para as mãos do povo. E, por isso mesmo, os líderes que resultam do processo democrático são o reflexo mais perfeito do povo que os elegeram.

 

Quando nos deparamos com uma injustiça vinda de cima devemos pensar um pouco antes de atacar quem segura a vara do poder. Antes, devemos olhar para o lado na direção daqueles que, sendo nossos semelhantes de classe, conferem ativamente o poder a quem o tem e, com a sua ação, estabelecem também os limites desse mesmo poder.

Notas sobre a nova configuração parlamentar

por Amato, em 03.12.15

Por estes dias há um novo governo em Portugal que se apresenta na Assembleia da República com capacidade efetiva de legislação e de governação. É um governo minoritário do Partido Socialista que terá que ter, pela sua condição minoritária, uma capacidade permanente e genuinamente generosa de negociação a nível parlamentar. Faço votos para que, ao contrário do passado, essa negociação se proceda pela primeira vez muito mais à esquerda do que à direita e que isso se traduza em políticas concretas que concorram para o equilibrar da sociedade, tão economicamente desequilibrada nas últimas décadas.

 

Para já existem sinais muito animadores mas nada de concreto pelo que resultaria prematuro um qualquer juízo de valor. No tempo preciso a análise será feita.

 

O que é importante notar, em minha opinião, é o comportamento das bancadas de direita no quadro desta nova configuração parlamentar. Já sabíamos que a enfastiante repetição de mentiras e de disparates sobre o processo de formação deste governo veio para ficar, pois não existe ninguém, nem ao menos o próprio Presidente da Assembleia da República, segundo representante máximo do país, que os faça calar ou que os expulse do hemiciclo por reiteradamente insistirem na mentira descarada, na calúnia reles e no disparate simplório que atingem transversalmente todas as instituições da República. Devia existir uma disciplina nalgum ciclo de aprendizagens básicas que ensinasse aos nossos jovens a letra da Constituição para que este tipo de situação não passasse em claro e para que houvesse um outro tipo de exigência social. Mas para tudo isto já estávamos bem avisados.

 

Para o que não estávamos avisados era para a falta de educação e de respeito que agora existe. Sem querer generalizar, porque seria incorreto da minha parte, mas apontando o dedo a toda a bancada que se situa à direita do Presidente da Assembleia, por pelo menos cumplicidade para com os atos, deve-se classificar como inadmissíveis os comportamentos adotados por uma boa franja de deputados de psd e de cds. Refiro-me aos insultos descarados, aos zurros, às sonoras gargalhadas, ao gozo permanente que irrompe daqueles lados do hemiciclo, qual aldeia dos macacos do jardim zoológico, sempre que algum deputado do outro lado usa da palavra. Para quem, como eu, acompanha as atividades parlamentares, estas atitudes, não sendo genuinamente novas, atingiram o patamar mais baixo, mais escandaloso, de sempre e prometem não ficar por aqui. Os deputados em causa tão pouco se importam com o facto de estarem a passar em direto na televisão.

 

Uma vez mais noto a incapacidade ou inação, talvez por impossibilidade, do Presidente da Assembleia da República em impor a ordem, o respeito e o decoro durante os trabalhos. Seja por incapacidade ou por impossibilidade, a situação é uma vergonha e ameaça seriamente a estabilidade do sistema democrático.

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