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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

As “pequenas” coisas e a base dos entendimentos

por Amato, em 31.12.15

Num destes dias de dois mil e dezasseis é possível que o PS se veja sozinho, isolado, débil. Então, assistiremos a um golpe de misericórdia que se materializará na decapitação deste executivo governamental. Esse golpe virá pelas costas e será dirimido pelas mãos juntas dos partidos da grotesca PaF, por ora defunta fingida. Nesse momento, a sociedade em peso apontará os seus dedos hipócritas aos partidos da esquerda, acusando-os de tudo e de mais qualquer coisa e responsabilizando-os, com a sua voz de escárnio costumeira, pela queda do governo.

 

O cenário hipotético mas plausível deve ser desmontado desde já. Deve-se dizer o que está mal, o que se está a plantar, como se está a fazer a cama onde nos deitaremos. Há coisas que se fazem e que ninguém presta atenção, mas que se colocam na base dos entendimentos como argamassa que une ou desune boas vontades e esforços.

 

Neste particular, sublinho uma situação pertinente ocorrida no final deste ano civil. Perante uma ameaça de greve pelos trabalhadores da Petrogal, este governo, tal como o anterior o havia feito, emitiu um despacho “fora-da-lei” que deliberava serviços mínimos (leia-se: máximos) afrontando a Constituição no que o direito à greve diz respeito e desmobizando a ação de luta dos trabalhadores da empresa. Podia não o ter feito. Mas fê-lo. Decidiu sair célere em defesa do patronato, buscando, deste modo, o seu patrocínio. Não pesou mais os interesses dos trabalhadores: pesou mais os interesses do patronato. Não quis o patrocínio dos trabalhadores: quis o patrocínio do patronato. É uma opção legítima, descontando o “pormenor” Constituição.

 

São estas “pequenas” atitudes que minam um relacionamento. É este tipo de postura perante a vida real, perante os problemas concretos, que influem em decisões mais amplas e mais substantivas e que estão na base dos acordos parlamentares. Quando o PS cair não será por acaso. Quando o PS se vir sozinho, isolado e débil muitos não o compreenderão. Muitos não serão capazes de entender por que razão a esquerda não lhe estende uma mão. Não será pelas “grandes” coisas. Não será pelas estrelas do céu ou por aquela outra que pontifica, brilhante, no topo do pinheiro de Natal. Será antes pelas “pequenas” coisas, pelo que se encontra na base e que sustenta, todos os dias, o tronco desse pinheiro.

A filosofia não vem primeiro, vem depois

por Amato, em 30.12.15

Não sou contra a existência de exames em qualquer nível de ensino. Os exames a nível nacional são os instrumentos de avaliação mais imparciais e equitativos de que podemos dispor para aferir objetivamente a capacidade dos alunos na execução de um determinado tipo selecionado de atividades.

 

Dito isto, algumas relevantes questões se impõem. E tais questões impõem-se apesar de para muitas pessoas o parágrafo pretérito, por ser verdadeiro, secar em seu redor todo o debate sobre educação e pedagogia, qual eucalipto dogmático.

 

Será que é importante a aplicação de tais instrumentos em geral ou num certo nível de ensino em particular? Por outras palavras, será que a informação, objetiva e equitativa, que estes instrumentos permitem recolher é importante ou até mesmo relevante para retirar conclusões sobre a capacidades efetivas de cada aluno no contexto da disciplina? Será que o modelo de avaliação sugerido pela aplicação de exames é essencial ou único ou indispensável?

 

A questão que se coloca é, na minha opinião, muito mais abrangente do que a utilização ou não de meros instrumentos avaliativos. Com efeito, trata-se antes da adoção de uma visão global para a educação e para a formação. Trata-se de uma questão filosófica.

 

Com exames temos uma educação focada em objetivos palpáveis e medíveis. Com exames temos uma educação automatizada e mecanizada. Mas com essa procura de objetivos medíveis perde-se algo por ventura mais essencial: qualidade nas aprendizagens. A maioria dos professores com que nos possamos cruzar dir-nos-á isso mesmo. Uma aprendizagem governada em torno da existência de exames, isto é, conduzida para atingir o sucesso em exames, é uma aprendizagem forçosamente mais pobre porque forma máquinas de resolução de questões através da aplicação de receitas.

 

Por outro lado, um ensino livre de exames tende a ser mais lascivo, é verdade, mas há que separar o que é endémico do que é casuístico, ou melhor, do que é oportunista. Porque a inexistência de exames abre, isso sim, um mundo de aprendizagens completamente diferente na perspetiva do professor e, sobretudo, do aluno. O professor poderá submeter os seus alunos a métodos de avaliação diferenciados, poderá mesmo lecionar matérias diferentes de formas diferentes que permitam a diferentes alunos aprender diferenciadamente mas, ainda assim, aprender.

 

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A chave aqui está na figura do Professor. O esvaziamento do seu poder e autoridade não é uma boa solução. Pelo contrário, o Professor deve ser superiormente formado e socialmente reconhecido para poder, aí, dispor da autoridade e da responsabilidade inerente para desenvolver o seu trabalho autonomamente. Se assim for, a ocorrência do ensino lascivo é dramaticamente reduzida. Se apostarmos na qualidade da formação do Professor, qualidade científica e humana, então só teremos que confiar nele e ele saberá, melhor do que ninguém, formar e educar os nossos alunos.

 

O percurso, todavia, tem sido contrário e, diga-se, não é exclusivo da profissão de Professor: desleixo na formação de Professores, sobretudo no que diz respeito à formação privada, esvaziamento de competências e responsabilidades, desautorização e humilhação do ponto de vista laboral e salarial. Neste contexto, vemos o Professor como um mero boneco numa sala de aula sem qualquer laivo de livre arbítrio, que faz estritamente o que lhe mandam e que tenta, de todo e qualquer jeito, preparar os seus alunos para as questões-tipo de exames. A figura do Professor, ao invés de ser respeitável e socialmente admirável, é uma figura sinistra e incapaz que toda a comunidade educativa vê com olhos de desconfiança e que, por isso mesmo, o sistema trata de sobrecarregar com burocracia protocolar.

 

A classe dos Professores devia ser uma classe de excelência, devia ser uma classe que se constituísse como sustentáculo científico e cultural da sociedade. O que estamos a construir, todavia, parece ser o contrário.

 

O entendimento deste fenómeno, da situação laboral dos Professores, é indissociável da questão dos exames com que abri o post. Uma coisa surge no seguimento da outra. Nisto, como no resto e na maioria dos casos, a filosofia do sistema não é mais que uma justificação para se atingirem objetivos sociais muito concretos. Ao contrário do que se julga e do que nos fazem crer, a filosofia não vem primeiro, vem depois.

“Bom Natal” e “bom ano”

por Amato, em 25.12.15

Nesta quadra vemos a generalidade das pessoas a trocar votos de boas festas, um “feliz Natal”, um “bom ano”, e isto é feito com um certo grau de automatismo. Não quero dizer que não seja sentido, embora não o seja, estou certo disso, na maioria dos casos. As palavras são ditas em contexto protocolar e os desejos, todavia sinceros, são fruto de uma sinceridade desprovida de consciência.

 

A primeira vez em que realmente pensei sobre o assunto foi quando fui despedido em vésperas de Natal. “Despedido” é impreciso: quando prescindiram dos meus serviços. A segunda vez ocorreu quando um patrão (“patrão” aqui também é impreciso, mas vou evitar usar a designação “entidade adquirente do serviço”) não me pagou os vencimentos dos meses anteriores.

 

Quando coisas deste género acontecem há algo que muda em cada “feliz Natal” e em cada “bom ano”. Do que estamos a falar afinal? De chocolates e perfumes ou outras prendinhas banais? É o que parece. Parece que o Natal é só este conjuntinho de banalidades, de natureza sacra ou pagã, para entreter o povo e todos aqueles valores que se usam à boca cheia neste período são apenas símbolos para encadear a visão. Porque no dia seguinte, o desempregado continua desempregado, o descamisado continua sem camisa e o sistema continua podre e a alimentar os mesmos de sempre.

 

“Bom Natal” e “bom ano” deviam ser mais que palavras mas não são mais do que um conjunto de palavras vazias. “Bom Natal” e “bom ano” deviam vir junto com ações diferentes e essas ações diferentes não deviam estar circunscritas a esta quadra. Mas tudo isto é cultural e a nossa é a cultura do “bode expiatório”. Gostamos destes momentos para podermos sentir a alma lavada e, então, retomarmos a nossa rotina de pecado. É neste sentido que a quadra deve ser interpretada e cada “bom Natal” e cada “bom ano” devem ser entendidos.

Uma nota sobre a discussão parlamentar do orçamento retificativo

por Amato, em 24.12.15

Ouvir as intervenções parlamentares dos membros da PaF a propósito da solução adotada no caso Banif foi um dos momentos mais surreais a que já assisti. Mais: ver o CDS e o indivíduo a quem chamam de Paulo Portas levantar-se do seu assento parlamentar para votar contra o orçamento retificativo foi nojento. Sublinho a adjetivação empregada: nojento.

 

Concorde-se ou não, e eu não concordo, com a solução adotada para o Banif, a verdade é que esta é a mesma solução de sempre, privatizar a parte boa do banco e nacionalizar os prejuízos, os buracos financeiros, do mesmo. Esta solução é, aliás, obtida por decalque daquela utilizada pelo anterior governo no caso BES. Para além disso, resulta absolutamente evidente que este caso foi prorrogado no tempo, com a conivência das instituições de supervisão, de modo a passar por entre os pingos da chuva do tempo conturbado de eleições e de formação do novo governo, de tal forma a vir rebentar nas suas mãos uma vez que este estivesse formado.

 

O adjetivo nojento justifica-se deste modo, pela falta de vergonha na cara, pela falta de caráter, pela falta de espinha dorsal, pela falta de ética, pela falta de responsabilidade. É pena que tais ações não sejam justamente escrutinadas na comunicação social e é pena que tais perpetrantes não sejam expostos na praça pública como aquilo que realmente são. Pelo contrário, há uma fatia generosa da sociedade que lhes bate palmas.

O segundo erro ou a fábula do sapo e do escorpião

por Amato, em 22.12.15

Há dois pares de artigos atrás dava conta do primeiro erro de Costa enquanto Primeiro-ministro. O erro apontado era de natureza puramente estratégica a médio ou longo prazo no contexto da legislatura. Se alguma coisa deixava claro era da inabilidade do nosso “Primeiro” para o xadrez.

 

Pois não muito tempo volvido e António Costa começa a revelar uma prática governativa que não promete um mandato seguro que possa ser levado até ao fim. É que, como se não bastassem todas as condicionantes externas que se preparam com preceito para retirar o tapete a este governo no momento oportuno, também António Costa tinha que começar a governar ora com uns, ora com outros, ziguezagueando a gosto. Em particular, o caso Banif pode tornar-se marcante para o futuro, pela solução adotada, pela natureza da mesma e pela ausência de diálogo disfarçada de uma urgência conveniente... a urgência do costume.

 

Assim, este governo cai no engodo da direita que, por ora e enquanto convém, faz-lhe as vontades, ao mesmo tempo que desagrada a esquerda, mais sólida e mais confiável, por ser seu suporte parlamentar efetivo e por aparentemente não possuir nenhuma exacerbada fome de poder.

 

Este segundo erro é mais grave do que o primeiro porque tem o condão de minar as relações que, no final de contas, poderão valer a este governo a sua sobrevivência política. Faz-me lembrar da fábula do sapo e do escorpião: é esta a natureza do PS, não é outra, é esta! Trata-se, portanto e se dúvidas subsistissem ainda, de um governo do PS, não de um governo de esquerda.

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Evidência da semana

por Amato, em 20.12.15

Há um aspecto do comportamento dos portugueses que muito me desagrada. (...) Trata-se da tendência para ser subserviente face ao poder, ter muito respeitinho face aos poderosos, nalguns casos ter medo, e, depois de estes caírem do seu pedestal, ir lá a correr atirar a enésima pedra.

— José Pacheco Pereira, in Público, 19/12/2015

 

Todas as generalizações são injustas. Todas as generalizações são incorretas. Não olhemos para a citação acima como uma generalização, portanto. Salvaguardemos sempre o caso particular do caso geral. Antes, olhemos para a citação apresentada como um padrão comportamental obtido através de um processo de abstração, porque é exatamente isso mesmo que é: um padrão comportamental. E se existe alguma coisa de errado ou de impreciso no que foi escrito, é apenas a palavra “portugueses”. Não devia estar escrito “portugueses”, mas sim, “pessoas” ou, quanto muito, “pessoas do mundo ocidental”. E esta correção devia ser feita em razão da natureza superlativa deste padrão extraído especificamente da sociedade portuguesa, já que se estende por decalque a sensivelmente todas as pessoas das sociedades que se regem pela lei da selva a que chamamos de capitalismo. Podíamos ir, com efeito, mais longe ainda, já que relatos de comportamentos similares surgem plasmados em textos mais antigos, nomeadamente na Bíblia. Podíamos, mas não é preciso. José Pacheco Pereira escreveu-o a propósito do tratamento social dado a José Sócrates e tem toda a razão. Fez bem em destacar esta evidência comportamental que apenas nos desclassifica no plano intelectual e, mais importante, humano. Agora, para um domingo de manhã, creio que já chega de discorrer sobre o que é evidente.

Em Espanha, como em Portugal

por Amato, em 19.12.15

Hoje cumpre-se o obrigatório dia de reflexão em Espanha cujo propósito se deve ao importante dia de amanhã que abraçará as eleições legislativas nacionais. Fruto da globalização dos meios e vias de comunicação sobretudo no mundo ocidental, também se verifica uma espécie de globalização de estados de alma e de correntes políticas.

 

Em Espanha, como em Portugal, vive-se o tempo dos “movimentos de cidadãos”. Como detesto a expressão! Como abomino o conceito! Porque é falso, porque é oco. E é tão detestável verificar que nenhum destes movimentos apresenta algo de novo ou algo que force uma rotura com o sistema. Pelo contrário, o que nos é apresentado é um punhado de boas intenções, de boas práticas e de muita “seriedade”. Ora, isso é o mesmo que dizer nada. Isso é entender que os problemas dos países, os problemas sistémicos, são afinal problemas de forma e não de conteúdo.

 

Infelizmente, em Espanha, como em Portugal, esta mensagem falsa e oca passa e cola porque vai precisamente de encontro ao que as populações entendem. O problema, todavia, não está na falta de “homens sérios”. O problema está no sistema que, ativamente, os corrompe. Olhemos, portanto, para nós mesmos antes de apontarmos o dedo aos outros.

 

Façamo-lo hoje e sempre.

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