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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

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Televisão pública

por Amato, em 13.10.15

A televisão pública é um daqueles temas em que se torna fundamental a separação entre “o que deve ser” e “o que é”, entre a teoria e a aplicação, entre o potencial e o mecânico, entre o virtual e o real.

 

A televisão pública tem a potencialidade de constituir um veículo de transmissão de informação, de cultura e de entretenimento para todos, tem a possibilidade de ser uma referência de qualidade de conteúdos. Não quer dizer que haja uma obrigatoriedade de ser a melhor, mas podia constituir-se como o referencial segundo o qual essa qualidade fosse medida.

 

A prática, contudo, é outra. A televisão pública é um disparate de uma ponta à outra.

 

Em termos de informação o que nos oferece é parcial e opinativo estando repleta de profissionais que tão pouco se dão ao trabalho de esconder a sua parcialidade e posicionamento. Os debates promovidos refletem essa falta de pluralidade envolvendo em redor da mesma mesa indivíduos que fazem a apologia do pensamento dominante, frequentemente vindos dos mesmos partidos políticos.

 

Em termos culturais a televisão pública é um zero. Findo o “Acontece” que poucos já se recordarão não existe um programa cultural nem decente nem indecente. Não existe nenhum! Mas também não existem programas musicais, entrevistas, programas sobre ciência, não existe nada. Existem arraiais ordinários, programas brejeiros e concursos completamente desinteressantes cujo único interesse é saber quem leva o dinheiro. É este tipo de escória que a televisão pública serve a pás cheias ao povo. É isto mais futebol de manhã à noite.

 

Todavia, como disse no início, há que distinguir a teoria da prática. Por esta prática a televisão pública deveria acabar já hoje: nada do que nos oferece é importante e tudo o que nos oferece é-nos já oferecido pelos canais privados, especialistas no pensamento único parcial, no culturalmente menor e no brejeiro. Pela teoria, contudo, por aquilo que a televisão pública poderia ser... vale a pena aguentar com este literal peso sobre as nossas costas na esperança de que um dia quem de direito que nos governa faça da televisão pública aquilo que a televisão pública deveria de ser.

Tempos politicamente interessantes

por Amato, em 10.10.15

Vivem-se tempos politicamente interessantes. O PCP e o Bloco de Esquerda fizeram um xeque-mate ao PS. O xeque-mate político foi consubstanciado naquela frase de Jerónimo Sousa que poderá quedar-se célebre quando vistas as coisas desde um tempo mais avançado na história: “O PS só não forma governo se não quiser”.

 

Com isto o PS vê-se mediaticamente encurralado sendo que a sua estratégia pós-eleitoral mais natural cai por terra. O PS pretendia, tudo o indicava, dar aval ao governo da coligação mantendo-a sempre debaixo do seu pé para, no momento oportuno, poder esborrachá-la como se faz a um inseto e, então aí, assumir o poder. Agora, vê-se obrigado a fazer alguma coisa para ser governo.

 

Mas o que é mais relevante e interessante é que, com isto, o PS poderá ter que virar um pouco à esquerda. Com isto, se assim acontecer e não é líquido que assim seja, PCP e Bloco poderão influenciar realmente algumas políticas essenciais para libertar o povo do jugo do capital, ainda que não formando diretamente governo. Isto é que é realmente entusiasmante. Refiro-me a uma inversão de políticas que incluem uma “desliberalização” do código de trabalho e a uma proteção dos sistemas de saúde, de educação e de segurança-social.

 

Se PCP e Bloco conseguirem estes pequenos feitos será a maior vitória política da esquerda e do povo desde os tempos do vinte e cinco de abril.

São violações? Não: são amendoins!

por Amato, em 09.10.15

Está confirmado: as incorreções e atropelos às regras subjacentes ao cargo de Presidente da República vão ter lugar até ao último dia, não sendo objeto de exceção a ausência do Presidente nas comemorações do cinco de outubro ou o processo de formação do novo governo.

 

Não obstante, a esponja da democracia tudo consegue apagar. Com efeito, como podemos criticar um Presidente da República quando o povo acabou de conferir uma nova maioria a um governo que violou cerca de vinte vezes a Constituição da República portuguesa?

 

É melhor estarmos calados, pois se acaso o senhor se pudesse candidatar novamente ganharia “limpinho, limpinho”, porque ele é sério e não se ri, e tal.

 

No fundo, as eleições tudo legitimam à luz do nosso sistema e fazem qualquer aberração parecer “amendoins”.

A forja de coligações

por Amato, em 08.10.15

É preciso um elevado grau de descaramento e de indecência ideológica para se falar na existência de uma maioria de esquerda parlamentar. Mas qual maioria? Mas qual esquerda?

 

Persistimos, inclusivamente todos os intervenientes diretos, em falar de esquerda como se de uma cor clubística se tratasse, como se esquerda ou direita fosse uma convenção sobre quem se senta de um lado ou de outro do presidente da assembleia. Acho que já chega desta hipocrisia.

 

Não há nenhuma maioria de esquerda no parlamento. Dos três partidos de que falamos apenas se vislumbra uma aliança Bloco com CDU, visto que o PS apenas por taticismo político alimenta essa ideia. Pela sua natureza histórica, o PS alia-se mais depressa ao CDS e ao PSD do que a qualquer outro. Alia-se desse modo porque ideologicamente estão todos muito próximos e é aí que se vê o significado de esquerda ou de direita. Mas, neste momento, equacionam-se cenários e estratégias para se ascender ao poder.

 

Do mesmo modo, a CDU e o Bloco parecem querer “entalar” o PS contra a parede com a ideia deste projeto governativo de “esquerda”, encurralando-o politicamente e quebrando, com isso, a máscara de cordeiro que o PS exibe na face.

Ensaio de uma compreensão

por Amato, em 07.10.15

Sem menosprezo por nada do que foi escrito anteriormente neste blog, bem pelo contrário, abraçando cada declaração, compreendendo cada facto e cada estado de alma, cada um dos quais plenamente justificado, importa tentar perceber a raiz deste estado de coisas. Importa tentar encontrar uma resposta para a pergunta/exclamação produzida há dois posts atrás:

 

“O desfasamento entre as perceções que se tem da realidade é tremendo. É horrível. Volvidas mais umas eleições tão importantes, tão determinantes, para o futuro do país, apetece perguntar onde estão todos os que perderam os seus empregos, todos os que viram os seus salários cortados, todos os da geração dos call center, os dos quinhentos euros, mais todos os que viram os seus filhos e netos partir para a emigração? Onde estão?! Existem?!”

 

Para extrair tal resposta, tal ensaio de compreensão, diminuímos o zoom, observamos o país desde mais atrás através da lente da História.

 

Devemos ser justos: o país está pior, mas não está assim tão pior. E o que é isso de pior? Pior em quê? Digamos que uma secção da sociedade, que se situa algures na classe média, viu os seus rendimentos diminuídos. O mundo do trabalho por conta de outrem pagou a crise com o aumento dos seus impostos ordinários e com outros impostos extraordinários em vias de normalização. Houve, todavia, uma grande aceitação desta austeridade. A propaganda germinou nestas vítimas uma ideia de culpabilidade que é superlativa e poucas foram as vozes que se levantaram. Mesmo o levantar de algumas vozes é operado com base num sentimento de pertença e de propriedade e não com base no sentimento mais sublime de justiça. O resto da sociedade vive sensivelmente do mesmo modo. A geração dos quinhentos euros e dos call center não nasceu, em rigor, com este governo e, novamente, mobiliza-se num sentimento de indignação direcionado não ao sistema mas aos que ainda detêm alguma segurança no trabalho. Esta situação é, em boa verdade, um resultado natural de se ter promovido uma luta social de inveja entre as diferentes classes trabalhadoras. E esta promoção, este estado mental, não é de agora. A classe mais elevada nunca enriqueceu tanto como nestes anos, mas também aqui, existe uma aceitação pelo facto. No fundo, bem lá no fundo, os princípios do capitalismo nunca estiveram tão fortes, tão enraizados, no seio da população portuguesa. O povo indigna-se contra si próprio, o braço indigna-se contra a perna e a perna contra a orelha e a orelha contra a boca. Os olhos, esses, permanecem cegos.

 

Portugal está pior? Está. Mas quem que por cá continua vai-se safando. Os centros comerciais continuam cheios, as estradas continuam apinhadas, os bancos continuam a fazer muito dinheiro à nossa conta. E, no fundo, todos adoram este sentimento, esta ilusão, de liberdade que o sistema capitalista produz. Caminhemos, portanto, alegremente em direção à próxima crise.

Os que marcham...

por Amato, em 06.10.15

He who joyfully marches in rank and file has already earned my contempt. He has been given a large brain by mistake, since for him the spinal cord would suffice.

 

Aquele que alegremente marcha nas suas fileiras e graduação já ganhou o meu contentamento. Foi-lhe dado um grande cérebro por engano, visto que para ele uma espinal medula seria suficiente.

 

— Albert Einstein

O desmascarar do íntimo ser

por Amato, em 05.10.15

O povo falou do alto da sua infinita sapiência. O que disse está dito e será gravado em pedra. A democracia é o mais perfeito sistema jamais equacionado para a organização política dos povos. Agora, depois de contados os votos, não há mais lugar para argumentos ou debates. O seu lugar foi o de anteontem. O seu tempo já passou e só voltará quando as próximas eleições assim o exigirem.

 

Tão pouco vale a pena tentar compreender os motivos subjacentes a tal resultado final. Já o tentei, mas reconheço a futilidade de tal experiência.

 

O desfasamento entre as perceções que se tem da realidade é tremendo. É horrível. Volvidas mais umas eleições tão importantes, tão determinantes, para o futuro do país, apetece perguntar onde estão todos os que perderam os seus empregos, todos os que viram os seus salários cortados, todos os da geração dos call center, os dos quinhentos euros, mais todos os que viram os seus filhos e netos partir para a emigração? Onde estão?! Existem?!

 

Não sei. Fico sem saber. Não há nada de inteligível nisto. Ou então há que reconhecer que o escravo ama o seu senhor por mais chibatadas que apanhe no lombo. Não sei, repito, mas será qualquer coisa deste género. A face do ser humano torna-se clara, assim como a sua mais íntima natureza subserviente. Sem qualquer tipo de ironia, gritem-se vivas por tal façanha.

 

Viva a democracia! Viva a liberdade!

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