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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

No presente como no passado

O povo, tanto o letrado como o ignorante, que viu os seus bens e os seus rendimentos serem taxados pelos chamados “liberais” durante todo este tempo e, em particular e marcadamente, nos últimos anos, taxados de uma forma jamais vista, sublinhe-se, está agora com medo que os comunistas venham tirar-lhe o que é seu. Os mesmos argumentos idiotas do passado continuam a colar no presente, ainda que desmentidos violentamente pela realidade das coisas, pela realidade da vida. É engraçado.

publicado às 23:09

O circo de Natal chegou mais cedo

A esta hora assiste-se a um dos espetáculos mais deprimentes da democracia portuguesa. O grotesco espetáculo, patrocinado por sua excelência o Presidente da República, trata de dar posse à pressa tanto a ministros como a secretários de estado num governo sem suporte parlamentar, leia-se sem suporte democrático. Não sei se se trata simplesmente de conferir chorudas indeminizações a amigalhaços ou se, simplesmente, o circo de Natal chegou este ano mais cedo a Portugal.

publicado às 12:37

Luaty Beirão para além do óbvio

Demorei tempo demais a decidir-me em escrever algumas linhas sobre o caso Luaty Beirão que, nas últimas semanas, inundou a comunicação social. A minha demora deve-se, não o escondo, a sentimentos ambivalentes que este caso me sugere e, como é normal com sentimentos de natureza dupla, é mais difícil organizá-los no papel.

 

A primeira ideia que me vem à cabeça aponta para o grotesco, para o inadmissível, deste caso: em nenhum país do mundo deveria alguém ser encarcerado por aquilo que pensa ou acredita. Esta primeira ideia mantem-se forte e inabalável e, por isso mesmo, considero-a a mais digna para poder iniciar o meu discurso.

 

Todavia, há na natureza das ideias pioneiras, daqueles pensamentos que nos assaltam antes mesmo de nos debruçarmos pensativamente sobre os problemas, algo de ilusório e de perigosamente inocente. Com efeito, quando penso sobre este problema, deteto facilmente objetivos ocultos, não necessariamente por parte de Luaty Beirão, sobre o qual possuo aquele desconhecimento completo (que com quase todos os portugueses partilho) que é ideal para idolatrar e eternizar, mas claramente na parte maior que o envolve, na propaganda que rapidamente inundou os canais de um certo pensamento único de apoio ao jovem e de condenação do governo angolano. É que, bem vistas as coisas, o jovem foi preso, acusado e aguarda julgamento no contexto da lei angolana. Ao invés, pelo nosso Portugal temos visto inúmeros casos de cidadãos presos preventivamente sem formalização de acusação e sem julgamento marcado. É evidente que a greve de fome tem peso, tem um peso emotivo influenciador do nosso julgamento. Contudo, como nos podemos indignar com o formalismo de um caso e não nos indignarmos com o formalismo de outros casos que se passam mais perto de nós?

 

Por outro lado, parece-me claro que o caso Luaty Beirão foi um escape para aquela facção de portugueses que se posicionava do lado anti-MPLA no tempo da guerra civil e que, findada a mesma, deixou de ter uma justificação à mão de semear para dizer mal do que chamam “o regime angolano”. Por que razão não existe o mesmo alarido relativamente ao estado da democracia de Moçambique ou da Guiné, São Tomé ou Cabo Verde, para referir apenas nas nossas colónias? Em alguns casos, o paralelo político é muito semelhante. Existe apenas uma diferença: Angola é muito rica do ponto de vista dos seus recursos naturais e mexe com muitos interesses lusos. Talvez esteja aí a verdadeira razão de tanta indignação.

 

Com isto não estou a fazer a apologia do governo angolano nem tão pouco me colo às suas opções políticas, económicas ou sociais. Noto simplesmente a opção hipócrita patente em avaliar Angola por padrões europeus ao mesmo tempo que se ignora que Angola é o país africano que atualmente ocupa o topo de todos os rankings, de todos os indicadores de crescimento económico, de qualidade de vida, de crescimento social e, também, de índices democráticos... Ignorar isto e empregar o chavão de “democracia de papel” sobre Angola é, no mínimo, pouco sério.

publicado às 11:17

Nostalgia do regresso ao futuro

 

Neste fim-de-semana que passou revi todos os filmes da trilogia Regresso ao Futuro. No final da maratona, não pude deixar de sentir uma nostalgia à flor da pele.

 

Na década de oitenta havia um certo espírito de audácia, de desafio, de sonho, que pairava no ar, que se respirava a plenos pulmões. Estou seguro disto que escrevo porque me lembro bem da doçura desse ar, do sorriso com o qual olhava em frente. A nostalgia sentida vem daí, dessas memórias de trinta anos ou mais.

 

Nos anos oitenta parecia que tudo era novo e parecia que podíamos imaginar o futuro como quiséssemos. Parecia que, independentemente da loucura dos nossos sonhos, tudo seria concretizável no futuro.

 

Hoje, quinze anos volvidos no novo milénio, o sentimento dominante é precisamente inverso ao dos anos oitenta. Hoje o tempo é de resignação. Resignação é a palavra de ordem. Resignação é o lema. A vida é como é, nunca foi melhor e nunca poderá ser melhor. Esta é a verdadeira justificação das nossas escolhas políticas. Esta é a razão de ser de tudo e do mundo que se apresenta hoje aos nossos olhos.

 

Nada faria prever que após um século XX de tantas transformações, de tanto sonho e utopia, de tanta emancipação de povos, de homens e de mulheres, que o século XXI fosse o ano da domesticação dos povos. O futuro é hoje. O futuro é resignação. A nostalgia nasce daqui.

publicado às 10:49

Voltámos em força ao tempo dos papões anticomunistas

Quando hoje, domingo de manhã, acedi ao Diário de Notícias, havia um comentador que procurava justificar com “factos históricos” aquela difamação gratuita, aquela anormalidade de se dizer que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno-almoço, ressuscitada dos tempos idos do pós-vinte-e-cinco-de-abril. A justificação conseguia ser ainda mais anormal do que a tese difamatória e só conseguia demonstrar cabalmente a anormalidade congénita do autor. Depois, havia ainda outro comentador que escrevia qualquer coisa como “os comunistas são apenas os da universidade e os do manicómio”, entre outras barbaridades e baixos insultos. O DN devia ter vergonha em reproduzir nas suas páginas tanta imbecilidade, tanta boçalidade, junta. E isto sucede a cada dia, não apenas no DN, mas em quase todos os jornais.

 

Parece que voltámos em força ao tempo dos papões anticomunistas. É interessante verificar que tal acontece perante a mera possibilidade de o Partido Comunista suportar parlamentarmente um governo socialista! Com efeito, a possibilidade de o Partido Comunista integrar o governo nunca esteve, segundo o que se sabe, em cima da mesa.

 

A televisão é algo do mesmo género. A RTP 3, canal informativo recém renomeado e diretivamente remodelado, assume de forma mais ou menos clara a orientação de apenas dar voz a comentadores de direita nos seus painéis de comentário. Temo-lo visto. E é para este tipo de informação “plural” que os nossos impostos são canalizados.

publicado às 20:24

A dissonância que resolve

Os jornais portugueses estão pejados de tanta mediocridade, de tanta baixeza, de natureza intelectual e humana, que o seu folhear é revoltante, remói as entranhas, incita a regurgitação convulsa. Em regra geral é assim. Até que, após dezenas de páginas, do retorcer a face a dezenas de comentadores de estatura inferior, aparece um que, não necessariamente por ser particularmente brilhante mas por escrever duas ou três orações acertadas em bom senso, faz-nos libertar a respiração sustida desde o princípio. O diafragma relaxa, as costas distendem, a face desenruga, num alívio que é quase orgásmico. É por esse opinante que vale a pena ler esse jornal, por esse e apenas por esse. Os outros, que o antecedem em ordem de publicação, só servem para criar essa sensação de desconforto e de repulsa, para que o prazer de ler o que vale a pena seja amplificado ao máximo, como uma dissonância agressiva que resolve na muito ansiada consonância harmónica, mel para os ouvidos e para a cultura musical tonal. Quando, por um acaso, esse opinante não opina, então nesse dia tudo é negro e visco e dissonante. Nesse dia, nesse jornal, tudo é medíocre, baixo e triste.

http://www.toonpool.com/user/707/files/glasses_of_newspapers_674345.jpg

 

publicado às 10:48

Então a coligação não tinha vencido as eleições?

Estou confuso. Estou mesmo confuso. Então a coligação não tinha vencido as eleições? E não conseguiu eleger o seu candidato à presidência da Assembleia da República? Não percebo...

 

Se calhar a coligação só venceu as eleições nas páginas dos jornais, nas bocas de opinantes políticos e, claro está, na cabeça do presidente, onde essa ideia peregrina ecoa livremente. Se calhar é isso. No parlamento o conceito de vitória é outro e, felizmente, é esse que conta.

publicado às 09:12

Ou mentiroso ou ignorante

Espanta-me esta sociedade em que vivemos onde frequentemente personalidades várias, proferindo falsidades facilmente verificáveis como tal, permanecem incólumes ao crivo da credibilidade social ou mediática. Pelo contrário, nada lhes sucede. O doutor permanece doutor, o senhor engenheiro continua senhor engenheiro e o senhor arquiteto mantém-se como senhor arquiteto, e todos eles mantêm as suas posições de destaque no espaço de opinião e de comentário social. Espanta-me que tal suceda desta forma. Para mim, alguém que diz uma falsidade ou é mentiroso ou ignorante. Não consigo vislumbrar sequer um meio termo, quanto mais uma terceira alternativa.

 

Nos dias que correm têm saltado, desde debaixo das pedras de onde vivem para a ribalta mediática, inúmeras personalidades, todas anticomunistas pejadas de um horror pela mera suposição do PS poder governar com o apoio parlamentar do Partido Comunista. Saltam com os chavões anticomunistas do costume, com as falsidades e as generalizações negativas que se conhecem. Uma destas personalidades foi António Barreto, a sinistra figura que dizem ser sociólogo. Na RTP3 disse o seguinte:

 

Em 100 anos, nunca vi um partido comunista no poder que governasse com eleições livres, com partidos políticos, com liberdade de expressão, sem exilados, sem presos políticos.

 

O jornal Público, honra lhe seja feita, publicou a prova dos factos que pode ser consultada aqui e que desmente cabalmente a afirmação caluniosa produzida.

 

Como referi no princípio, daqui só pode resultar uma de duas coisas: ou António Barreto é mentiroso ou é ignorante. Se é mentiroso, fá-lo com a intenção de poluir e de influenciar a opinião pública. Se é ignorante, então... simplesmente é. Mas uma das duas, reforço, será seguramente. As duas opções não abonam nem a favor do próprio, nem a favor dos canais de comunicação social que lhe dão voz, a ele e a outros como ele. Porque há muitos outros como ele.

 

Podemos constatar que este anticomunismo primário leva longe quem o adota. Por exemplo a Paulo Rangel, que também tem sido muito verbal neste particular, valeu-lhe o cargo de vice-presidente do partido popular europeu com a benção exclusiva de Angela Merkel.

publicado às 11:02

A declaração mais esclarecedora

Cavaco Silva falou e disse tudo. Ao falar Cavaco revelou-se, as palavras simples e torpemente pronunciadas, como é seu apanágio, desnudaram-no, mostraram o género de alma que anima aquele corpo de movimentos rígidos e calcificados. Para Cavaco ainda que um partido como o Bloco de Esquerda ou como o Partido Comunista Português obtivesse maioria absoluta parlamentar, ainda assim não deveria ser indigitado para formar governo, porque quebraria “compromissos internacionais” aos quais, segundo a sua visão, o país, o povo, está amarrado quer queira, quer não queira.

 

Cavaco Silva não é o Presidente da República. Cavaco Silva é o presidente dos compromissos internacionais, é o presidente dos “credores”, dessa alcateia, desse bando de abutres, de necrófagos sem cara, que se alimentam da carcaça do país que somos, do país que ele, Cavaco Silva, ajudou a criar no final do século XX. Cavaco Silva é o presidente de todos esses e dos “mercados” também, mas não é o Presidente da República Portuguesa.

 

A figura do Presidente da República não existe nem foi criada para tomar partido ou para influenciar as escolhas políticas do país. O Presidente da República apenas existe para supervisionar o governo e o país no estrito contexto da Constituição da República. E lá está tudo dito, bem claro e transparente, assim ele a conhecesse. A indigitação do Primeiro-ministro não é uma questão de tradição, é uma questão parlamentar bem tratada no texto da Constituição.

 

Mas para o Presidente da República, Cavaco Silva, a Constituição é um pormenor, não é mais que uma nota de rodapé. Já o provou mantendo no poder um governo que violou cerca de vinte vezes essa mesma Constituição durante o seu mandato. O Presidente, voltamos ao princípio, está lá para defender os interesses dos outros, não necessariamente portugueses, daquela minoria que leva mais de metade do PIB português a cada ano. São esses: os mercados, os credores, salvaguardados pelos acordos e compromissos internacionais.

 

O Presidente da República pode indigitar quem quer que lhe apeteça. É essa a sua prerrogativa. O que não pode é tomar partido de forma descarada. O que não pode é justificar-se da forma como se justifica. Mas ainda bem: assim as coisas são mais claras.

 

A coligação e o Presidente jogam na deserção dos seguristas do PS para fazerem passar o programa de governo à socapa. Até pode ser que isso aconteça. Seria, contudo, extremamente interessante assistir ao que se seguiria se isso não acontecesse, isto é, se o parlamento chumbar este governo minoritário. Será que Cavaco teria a falta de pudor para promover um governo de gestão? Ou de promover novas eleições para forçar uma maioria de direita? Estaremos cá para ver, porque a indecência ameaça seriamente não ficar por aqui.

publicado às 09:39

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