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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Um oásis jornalístico

por Amato, em 31.10.15

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Adoro a “Prova dos Factos” do Público. É um oásis no meio de tanta demagogia e propaganda jornalística.

 

No presente como no passado

por Amato, em 30.10.15

O povo, tanto o letrado como o ignorante, que viu os seus bens e os seus rendimentos serem taxados pelos chamados “liberais” durante todo este tempo e, em particular e marcadamente, nos últimos anos, taxados de uma forma jamais vista, sublinhe-se, está agora com medo que os comunistas venham tirar-lhe o que é seu. Os mesmos argumentos idiotas do passado continuam a colar no presente, ainda que desmentidos violentamente pela realidade das coisas, pela realidade da vida. É engraçado.

O circo de Natal chegou mais cedo

por Amato, em 30.10.15

A esta hora assiste-se a um dos espetáculos mais deprimentes da democracia portuguesa. O grotesco espetáculo, patrocinado por sua excelência o Presidente da República, trata de dar posse à pressa tanto a ministros como a secretários de estado num governo sem suporte parlamentar, leia-se sem suporte democrático. Não sei se se trata simplesmente de conferir chorudas indeminizações a amigalhaços ou se, simplesmente, o circo de Natal chegou este ano mais cedo a Portugal.

Luaty Beirão para além do óbvio

por Amato, em 28.10.15

Demorei tempo demais a decidir-me em escrever algumas linhas sobre o caso Luaty Beirão que, nas últimas semanas, inundou a comunicação social. A minha demora deve-se, não o escondo, a sentimentos ambivalentes que este caso me sugere e, como é normal com sentimentos de natureza dupla, é mais difícil organizá-los no papel.

 

A primeira ideia que me vem à cabeça aponta para o grotesco, para o inadmissível, deste caso: em nenhum país do mundo deveria alguém ser encarcerado por aquilo que pensa ou acredita. Esta primeira ideia mantem-se forte e inabalável e, por isso mesmo, considero-a a mais digna para poder iniciar o meu discurso.

 

Todavia, há na natureza das ideias pioneiras, daqueles pensamentos que nos assaltam antes mesmo de nos debruçarmos pensativamente sobre os problemas, algo de ilusório e de perigosamente inocente. Com efeito, quando penso sobre este problema, deteto facilmente objetivos ocultos, não necessariamente por parte de Luaty Beirão, sobre o qual possuo aquele desconhecimento completo (que com quase todos os portugueses partilho) que é ideal para idolatrar e eternizar, mas claramente na parte maior que o envolve, na propaganda que rapidamente inundou os canais de um certo pensamento único de apoio ao jovem e de condenação do governo angolano. É que, bem vistas as coisas, o jovem foi preso, acusado e aguarda julgamento no contexto da lei angolana. Ao invés, pelo nosso Portugal temos visto inúmeros casos de cidadãos presos preventivamente sem formalização de acusação e sem julgamento marcado. É evidente que a greve de fome tem peso, tem um peso emotivo influenciador do nosso julgamento. Contudo, como nos podemos indignar com o formalismo de um caso e não nos indignarmos com o formalismo de outros casos que se passam mais perto de nós?

 

Por outro lado, parece-me claro que o caso Luaty Beirão foi um escape para aquela facção de portugueses que se posicionava do lado anti-MPLA no tempo da guerra civil e que, findada a mesma, deixou de ter uma justificação à mão de semear para dizer mal do que chamam “o regime angolano”. Por que razão não existe o mesmo alarido relativamente ao estado da democracia de Moçambique ou da Guiné, São Tomé ou Cabo Verde, para referir apenas nas nossas colónias? Em alguns casos, o paralelo político é muito semelhante. Existe apenas uma diferença: Angola é muito rica do ponto de vista dos seus recursos naturais e mexe com muitos interesses lusos. Talvez esteja aí a verdadeira razão de tanta indignação.

 

Com isto não estou a fazer a apologia do governo angolano nem tão pouco me colo às suas opções políticas, económicas ou sociais. Noto simplesmente a opção hipócrita patente em avaliar Angola por padrões europeus ao mesmo tempo que se ignora que Angola é o país africano que atualmente ocupa o topo de todos os rankings, de todos os indicadores de crescimento económico, de qualidade de vida, de crescimento social e, também, de índices democráticos... Ignorar isto e empregar o chavão de “democracia de papel” sobre Angola é, no mínimo, pouco sério.

Nostalgia do regresso ao futuro

por Amato, em 27.10.15

 

Neste fim-de-semana que passou revi todos os filmes da trilogia Regresso ao Futuro. No final da maratona, não pude deixar de sentir uma nostalgia à flor da pele.

 

Na década de oitenta havia um certo espírito de audácia, de desafio, de sonho, que pairava no ar, que se respirava a plenos pulmões. Estou seguro disto que escrevo porque me lembro bem da doçura desse ar, do sorriso com o qual olhava em frente. A nostalgia sentida vem daí, dessas memórias de trinta anos ou mais.

 

Nos anos oitenta parecia que tudo era novo e parecia que podíamos imaginar o futuro como quiséssemos. Parecia que, independentemente da loucura dos nossos sonhos, tudo seria concretizável no futuro.

 

Hoje, quinze anos volvidos no novo milénio, o sentimento dominante é precisamente inverso ao dos anos oitenta. Hoje o tempo é de resignação. Resignação é a palavra de ordem. Resignação é o lema. A vida é como é, nunca foi melhor e nunca poderá ser melhor. Esta é a verdadeira justificação das nossas escolhas políticas. Esta é a razão de ser de tudo e do mundo que se apresenta hoje aos nossos olhos.

 

Nada faria prever que após um século XX de tantas transformações, de tanto sonho e utopia, de tanta emancipação de povos, de homens e de mulheres, que o século XXI fosse o ano da domesticação dos povos. O futuro é hoje. O futuro é resignação. A nostalgia nasce daqui.

Voltámos em força ao tempo dos papões anticomunistas

por Amato, em 25.10.15

Quando hoje, domingo de manhã, acedi ao Diário de Notícias, havia um comentador que procurava justificar com “factos históricos” aquela difamação gratuita, aquela anormalidade de se dizer que os comunistas comiam criancinhas ao pequeno-almoço, ressuscitada dos tempos idos do pós-vinte-e-cinco-de-abril. A justificação conseguia ser ainda mais anormal do que a tese difamatória e só conseguia demonstrar cabalmente a anormalidade congénita do autor. Depois, havia ainda outro comentador que escrevia qualquer coisa como “os comunistas são apenas os da universidade e os do manicómio”, entre outras barbaridades e baixos insultos. O DN devia ter vergonha em reproduzir nas suas páginas tanta imbecilidade, tanta boçalidade, junta. E isto sucede a cada dia, não apenas no DN, mas em quase todos os jornais.

 

Parece que voltámos em força ao tempo dos papões anticomunistas. É interessante verificar que tal acontece perante a mera possibilidade de o Partido Comunista suportar parlamentarmente um governo socialista! Com efeito, a possibilidade de o Partido Comunista integrar o governo nunca esteve, segundo o que se sabe, em cima da mesa.

 

A televisão é algo do mesmo género. A RTP 3, canal informativo recém renomeado e diretivamente remodelado, assume de forma mais ou menos clara a orientação de apenas dar voz a comentadores de direita nos seus painéis de comentário. Temo-lo visto. E é para este tipo de informação “plural” que os nossos impostos são canalizados.

A dissonância que resolve

por Amato, em 25.10.15

Os jornais portugueses estão pejados de tanta mediocridade, de tanta baixeza, de natureza intelectual e humana, que o seu folhear é revoltante, remói as entranhas, incita a regurgitação convulsa. Em regra geral é assim. Até que, após dezenas de páginas, do retorcer a face a dezenas de comentadores de estatura inferior, aparece um que, não necessariamente por ser particularmente brilhante mas por escrever duas ou três orações acertadas em bom senso, faz-nos libertar a respiração sustida desde o princípio. O diafragma relaxa, as costas distendem, a face desenruga, num alívio que é quase orgásmico. É por esse opinante que vale a pena ler esse jornal, por esse e apenas por esse. Os outros, que o antecedem em ordem de publicação, só servem para criar essa sensação de desconforto e de repulsa, para que o prazer de ler o que vale a pena seja amplificado ao máximo, como uma dissonância agressiva que resolve na muito ansiada consonância harmónica, mel para os ouvidos e para a cultura musical tonal. Quando, por um acaso, esse opinante não opina, então nesse dia tudo é negro e visco e dissonante. Nesse dia, nesse jornal, tudo é medíocre, baixo e triste.

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