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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Um guião para privatizar uma empresa

por Amato, em 27.09.15

1. Desvalorizar a empresa.

     a) Proceder a investimentos ruinosos.

     b) Falhar compromissos com clientes existentes.

     c) Rejeitar novos clientes e novas oportunidades de negócio.

     d) Implementar uma política contracionista que rejeite qualquer forma de modernização da empresa.

 

2. Gerar propaganda pública e massificada sobre a inviabilidade da empresa através dos canais habituais que sempre se prestam a tal papel.

 

3. Despedir ou acordar rescisão com uma boa parte dos trabalhadores da empresa.

 

4. Construir um caderno de encargos para a privatização que inclua tudo e mais alguma coisa para acalmar vozes preocupadas.

 

5. Face aos pontos anteriores, vender a empresa a preço de saldo e, se possível, pagar ao privado que a compre.

 

6. Pegar no caderno de encargos e depositá-lo no caixote de lixo mais próximo.

 

http://www.struggle.com.pk/wp-content/uploads/2013/07/privatization-cartoon-1024x727-Small.jpg

 

Este tem sido o guião implementado pelos sucessivos governos, PS, PSD, PSD-CDS, para privatizar as mais diversas empresas públicas. É curioso que a maioria dessas empresas, antes da implementação do guião, eram lucrativas (ou dispunham de todas as condições para tal) e após a sua privatização rapidamente voltaram a sê-lo. Após a privatização dos Estaleiros Navais de Viana, por exemplo, choveram copiosas novas encomendas de diversos clientes quando, antes, incrivelmente, não existiam. Com a TAP, com a PT, qualquer coisa do mesmo género se passará.

 

O mais grave, contudo, é o facto deste mesmo guião estar neste preciso momento em pleno cumprimento nas empresas públicas ou com participação pública que sobram. Os próximos tempos serão reveladores, sobretudo se voltarem os mesmos a vencerem as eleições. Estejamos atentos. O meu palpite: o preço da gasolina vai disparar ainda mais, tal como já aconteceu com o da eletricidade, o do gás e o da água.

Insanidade — um leitmotiv para as eleições em Portugal

por Amato, em 25.09.15

http://i.ytimg.com/vi/gTlpJ9ue04w/maxresdefault.jpg

 

Insanidade é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes.

— Albert Einstein

Pontos-chave da poupança

por Amato, em 24.09.15

 

 

Acabo de assistir a um debate sobre a poupança em Portugal que se viu reduzida a uma percentagem residual no último ano. Durante o debate nem sequer se afloraram os dois pontos-chave na matéria e que para mim resultam evidentes. São eles os seguintes.

 

  1. Rácio rendimento disponível e custo de vida.

 

Falar em rendimento por si só é profundamente estéril. Um cidadão pode, em tese, ter um salário líquido de cem euros e poupar setenta, por exemplo, se com os outros trinta conseguir pagar todas as suas necessidades básicas. O problema de Portugal está nos salários praticados, sem dúvida, mas não apenas, também está no custo de vida. Ao contrário do salário médio que se reduz ano após ano e se aproxima do salário mínimo, o custo de vida em Portugal alcança a cada ano que passa a média europeia, a média dos países mais ricos, com salários médios que se multiplicam muitas vezes quando comparados com o nosso. O problema de Portugal é a pergunta: com um salário líquido de quinhentos euros mensais quanto se consegue colocar de lado ao fim do mês?

 

https://thefamilychapters.files.wordpress.com/2010/05/skinny-piggy-bank.jpeg

 

  1. Banca.

 

Quem tem um pouco de dinheiro e que eventualmente poderia ser seduzido a poupá-lo não o faz. Não o faz porque não é burro. É tão simples quanto isso. A banca nacional, a principal e mais apta instância a promover a poupança, oferece juros que são mais do que uma vergonha para quem nos governa e deveria estar atento a estas coisas. Os juros praticados são um insulto. Vale mais pegar no dinheiro e gastá-lo. E convém dizer que a responsabilidade do Estado, neste particular, não é apenas indireta. Também o estado deveria incentivar a poupança dos seus cidadãos e desse modo obter financiamento mais vantajoso. Pelo contrário, o Estado tem vindo a desvalorizar os seus instrumentos de poupança, nomeadamente os certificados de aforro. Veja-se a diminuição abrupta do número de aforradores descontentes com os juros miseráveis sobre o seu dinheiro.

 

Falar em poupança é inexoravelmente falar do exposto.

O que o povo quer

por Amato, em 23.09.15

O resultado das eleições gregas do último fim-de-semana conduz-nos a uma reflexão aguda no domínio da antropologia. Como compreender tal resultado?

 

Objetivamente o povo grego decidiu renovar a confiança depositada no Syriza depois de este partido ter feito o que fez neste período último de governação. O Syriza chegou ao governo através de um discurso agressivo anti-austeridade e, passado um prelúdio de oposição verbal veemente junto das mais altas instâncias europeias, sucumbiu dramaticamente a essas mesmas políticas de austeridade. Fê-lo, sem um plano B autónomo, sem uma ideia própria para a Grécia. O Syriza, conclui-se do exposto, abraçou a governação da Grécia com o propósito tresloucado de modificar os resultados do sistema a seu favor sem o transformar, sem beliscar os seus alicerces. Tudo isto é factual e objetivo e, ainda assim, o povo grego renovou a confiança no Syriza. O povo grego, que acreditávamos ter votado no Syriza com base no que o Syriza prometeu, não se sentiu traído, não se sentiu enganado.

 

Por ventura, nós é que estamos todos enganados quando achamos que o povo vota ao engano, que se engana com o discurso político, com a dialética argumentativa. Sim, nós é que estamos totalmente equivocados quando acreditamos que o povo é ignorante e incapaz de ver para além das entrelinhas das promessas.

 

Analisemos, portanto.

 

O povo grego não votou (felizmente, diga-se) nos partidos gregos com tradição de poder, ou seja, não votou nos responsáveis pela situação do país e naqueles que por ventura seriam os mais hábeis e preparados para seguir à risca a moratória europeia da austeridade.

 

Do mesmo modo, o povo grego não votou nos partidos que assumiam a alternativa, isto é, o tratamento duro mas inevitável para a doença económica: a saída do Euro e, ultimamente, da União Europeia. Sejamos, portanto, claros: o povo grego não preferiu nenhuma das alternativas claras que se perfilavam diante de si. Rejeitou um regresso ao passado assumido, ou seja, uma manutenção da Grécia numa eterna política de subalternidade e de austeridade e disse que não, também, à procura de uma solução, naturalmente drástica mas eficaz, para o seu problema económico. O povo grego decidiu-se, então, por uma via diferente. Optou por um governo que mantivesse a Grécia numa situação de protetorado, de submissão, mas com capacidade oratória para reivindicar, negociar, fazer espetáculo, ainda que desse processo pouco possa resultar de substantivo, porque fazer as duas coisas em simultâneo é como que tentar cantar e assobiar ao mesmo tempo.

 

Vejo esta decisão do povo grego com tristeza. Esta decisão puxa-os do Olimpo para a Terra, liberta-os daquela aura divina que parecia existir nos primeiros tempos de Syriza: o povo grego lutava contra a Europa, lutava sozinho e a Europa toda junta tremia. Agora o povo grego parece-se com os outros povos e com o português também. Afinal não lutam pelo que consideram certo ou justo, mas pelo quinhão mais fácil, pela migalha mais rápida e indolor. E, neste momento, o mais fácil, rápido e indolor é a austeridade. E nem como Homens a irão engolir. Não: têm lá uns tipos no governo que vão chorar o tempo todo, a cada pontapé no traseiro. Vão chorar e não vão fazer nada sobre isso.

Armadilha? Já caímos nela!

por Amato, em 17.09.15

É preciso que se saiba com clareza o que é a armadilha, não para evitarmos cair nela, porque já o fizemos, mas para saber do que se trata, para um dia dela podermos sair e para nela não voltarmos a cair.

http://www.jennysmith.net/wp-content/uploads/2014/08/cg_trap-and-rabbit1.jpg

Hoje, dezassete de setembro de dois mil e quinze, a escola e a saúde públicas estão reduzidas a metade do que já foram. Ao longo dos últimos anos, os sucessivos governos PS, PSD, PSD-CDS, fecharam no setor público valências várias para as subconcessionar ao setor privado. Centenas de escolas privadas floresceram com novos cursos subsidiados pelo dinheiro estatal, transferido diretamente das unidades públicas encerradas, e o mesmo se passou com os hospitais privados que proliferaram como cogumelos ao abrigo de idênticas promiscuidades de dinheiros públicos, de utentes do serviço público incentivados a utilizar os serviços privados.

 

Hoje, dezassete de setembro de dois mil e quinze, começa-se a ver o efeito da armadilha supra descrita. Muitas instituições de ensino privadas veem os seus subsídios reduzidos, limitados, retardados ou negados e muitos alunos que foram empurrados para essas escolas veem o seu futuro imediato em risco. Por outro lado, a saúde privada intensifica a procura por lucros à custa dos utentes desviados do serviço nacional de saúde, serviço esse que se vai desqualificando e desertificando a cada ano que passa, mostrando-se incapaz e impotente para receber de volta, eventualmente, os utentes perdidos. O povo caminha para a lógica do “utilizador pagador” e, sendo uma opção tão válida como outra qualquer, é necessário que se assuma o lema com clarividência e transparência, para se assumir, então, todas as responsabilidades do que daí resultar.

 

A armadilha foi lançada com sucesso e o povo português nela caiu como uma ovelha. Cada ano que passar assistirá a um agravar natural do problema quer no setor educativo, quer no setor da saúde. O precipitar da situação do país e o desequilibrar violento da balança social ameaça cruzar uma linha de não retorno, se acaso essa linha não tenha sido já pisada, que fará com que o inverter da situação, o resolver do problema, não possa mais ser operado no domínio da diplomacia.

Testemunho

por Amato, em 16.09.15

http://www.mymanlyblog.com/wp-content/uploads/2015/03/pen-and-paper.jpg

“Eu e a minha companheira somos professores. Todos os dias levantamo-nos às seis horas da manhã para começarmos a trabalhar às oito e um quarto. E todos os dias, antes das oito e um quarto, temos que colocar a impressão digital naquele aparelho cinzento-escuro, quase preto, com um díodo que emite uma luz vermelha como um laser. É o “picar o ponto” dos tempos modernos. Ela vai para a escola dela e eu vou para a minha. Só nos voltamos a ver depois das oito da noite.

 

Trabalhamos a recibos-verdes, ao minuto. Não é à hora. É ao minuto. Eles contam os minutos de aulas ou formação, porque aquilo que eu dou agora chama-se de formação. E quando vou ao quarto de banho não é formação nem direito. Não recebo quando vou ao quarto de banho, nem quando me desloco de uma escola para a outra. Sim, porque também não dou aulas apenas numa escola.

 

O que ganhamos não é mau. Não é mau quando comparamos com o salário mínimo. Mas depois há que colocar algum de lado para a segurança social, todos os meses. Ah: e também para o IRS. É melhor colocar algum de lado para o IRS se não para o ano a pancada será forte demais. Este ano que passou tive que pedir dinheiro aos meus pais. Para o ano quero ver se não peço. Mas o mês ainda não acabou e eu já ando de bolsos vazios... O que a gente ganha é muito mau. O que a gente ganha é uma merda.

 

Mas não é por isto que escrevo. Escrevo pelo que referi no início. Todos os dias eu e a minha companheira levantamo-nos às seis e meia da manhã, despedimo-nos às oito da manhã e só nos voltamos a ver depois das oito da noite. Tentamos ir para a cama às onze, tentamos dormir. Durante o fim-de-semana trabalhamos um pouco mais, pelo menos uma manhã ou uma tarde, para ganhar uns euros mais. No restante vamos fazer as compras da semana e tentamos limpar a casa que mal nos vê, que mal vemos. Tenho saudades de a abraçar e de lhe dizer que a amo. Digo-o todos os dias, mas não o digo com cabeça. Digo-o de cor porque ando cansado e ela ouve-me e sorri de cor porque também ela anda cansada. Tenho saudades de sentir os beijos que lhe dou.

 

Dá-me vontade de rir quando se fala em falta de natalidade em Portugal. Eu e a minha companheira trabalhamos os dois das oito da manhã até às oito da noite e não somos ricos o suficiente para o luxo de termos um filho que seja. Mas mais do que isso, mais do que o dinheiro que custa ter um filho, não temos tempo. Não temos tempo para nos amarmos, não temos energia. E se assim é, como poderemos ter tempo para amar um filho? Como poderemos ter tempo para o criar, para o educar?

 

Quando se fala em falta de natalidade em Portugal dá-me vontade de chorar. Porque nós não somos um caso isolado. Não somos a exceção à regra. Nós somos a regra neste país. E todos nós, a minha geração, a nossa geração, aceitamos estas políticas, esta distribuição de riqueza e de tempo, porque o tempo também é riqueza.

 

Até quando?

 

Quando esse dia chegar espero não me ter esquecido do sentido das palavras e voltar a sentir “meu amor” cada vez que lhe digo “meu amor”. Espero poder envolvê-la no meu abraço e senti-la comigo e não noutro lado qualquer. Espero que esse dia chegue a tempo de termos um filho como um homem e uma mulher devem ter um filho e não como dois animais que procriam apenas porque lhes dá a vontade. Espero que chegue a tempo esse dia, antes de ser velho demais e ela velha demais, antes de sermos cadáveres. Se não chegar a tempo, ficará para a próxima vida, ficará para a eternidade o beijo e o abraço que deixei de lhe dar, o sorriso e o olhar que deixei de receber. Ficará para sempre o “meu amor” que tão poucas vezes lhe disse ao ouvido.”

Em terra de cegos...

por Amato, em 13.09.15

Em Portugal dizer-se que não se gosta de Matemática e, mais grave, justificar-se desse inaceitável modo o insucesso na área, tornou-se algo de natural, tão natural como se nascer a gostar de fado, de futebol e de Fátima.

 

Ao longo dos anos, a sociedade portuguesa estimulou e acarinhou este género de comportamentos quer através de uma simples inação, quer através dos modelos sociais que ativamente promoveu e continua a promover. Com efeito, não existe uma mudança de paradigma no que a este particular, a forma como vemos a ciência, diz respeito. Os símbolos sociais mais estimados são inexoravelmente os modelos com que moldamos os adultos de amanhã e esses símbolos, esses modelos, são os jogadores da bola, os cantores populares e os atores de novela. Atenção que não existe aqui nada contra a existência de tais símbolos. Simplesmente e sem sombra de dúvida, a sociedade colhe as gerações que semeia.

 

Neste sentido, o amanhã tem a vocação de nos surpreender no dia de hoje. A falta de formação matemática, como simples cultura geral, surge gritante no folhear de um jornal qualquer. Neste fim-de-semana os exemplos são vários. Os mais frequentes estão presentes nas conclusões que se retiram das sondagens. Falta estudo de Estatística, falta saber o conceito de “amostra representativa”, de “erro máximo”, de “nível de confiança” e outros, falta tanta coisa... E, contudo, referem-se ao resultado das sondagens como “factos”. Utilizam mesmo a palavra “facto”. Por vezes fico na dúvida se será mesmo ignorância pura ou se também eles farão parte do processo de manipulação da opinião pública.

 

Também houve aquela referência engraçada à sequência de Fibonacci. Só que a sequência estava errada... Faltava um crucial número. Foi uma pena, o texto estava a dar a ideia de que o autor percebia imenso da matéria mas houve qualquer coisa que falhou entre o ditado ou a célebre técnica do copy-paste.

 

É claro que tudo isto é significativo. É claro que tudo isto exibe com nitidez onde estamos metidos, por um lado, e, por outro, de que massa é feita quem tem voz neste país. Também é evidente que o fomento deste estado de espírito face à Matemática e à Ciência em geral, mas também à História e à língua, por que não dizê-lo, é útil para a manutenção dos públicos que ouvem e aceitam, acriticamente por ignorância, este tipo de opinião. É a promoção dos cegos, geração após geração, para que os reis do costume mantenham o seu poder.

 

http://www.brandeis.edu/ethics/images/blindfolded.jpg

 

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