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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Um olhar em redor

por Amato, em 15.08.15

Já viram no que nos estamos a tornar? A sério: já repararam? Já pararam para olhar à vossa volta? Já repararam nas vossas cidades e vilas, nos vossos vizinhos, nos desconhecidos com que se cruzam no metro no caminho para o trabalho? E na vossa cultura? Os livros que se escrevem, as transformações na língua, as músicas que passam na rádio, as novelas da televisão, as peças de teatro, o cinema?

 

Repito: já repararam no mundo que se estende em vosso redor?

 

Comparem com que existe aí dentro, com o que subsiste no vosso íntimo, com as imagens que guardam de anos passados. Comparem. É fácil: basta fechar os olhos e pensar um pouco, recordar. Por vezes basta apenas um som, uma melodia, um vislumbre de uma coisa qualquer, para se desenrolar um novelo de memórias, das memórias do que é “ser português”. Abram os olhos, então, escrevam as primeiras palavras que vêm à cabeça e comparem com o que os olhos veem.

 

É assustador. Ainda vivos assistimos ao enterro resoluto e inexorável da nossa identidade coletiva. Vemo-lo claramente. As nossas cidades enchem-se de legiões e legiões de imigrantes, centuriões sem escudo mas com a espada afiada de uma necessidade superlativa que vem de assalto aos trabalhos dos mais miseráveis salários. De um modo de todo em todo semelhante, as gerações nativas mais jovens emigram também, como que impelidas a pás cheias, procurando as condições de vida dignas que não encontram no seu país. Reforço a similitude entre os que chegam e os que partem. São iguais, procuram o mesmo tendo, todavia, referenciais de conforto e de qualidade de vida diversos. Uns escrevem-se com “e”, os outros com “i” e a diferença esgota-se aqui.

 

Os nativos que permanecem mal sobrevivem e já nem sonham tão pouco com a vida dos pais e dos avós. Não têm filhos. Não podem. Não têm dinheiro. Não aceitam trazer para este seu mundo nem uma só criança. Os seus padrões de bem-estar, de cultura, não poderão ser alcançados. Pelo contrário, os imigrantes que chegam, os imigrantes dos salários baixos, das sociedades menos desenvolvidas, do chamado terceiro mundo, conhecem vivências e culturas muito distintas. Para eles, muitas vezes, o número de filhos é diretamente proporcional a um certo entendimento de riqueza e, por isso, reproduzem-se abundantemente sem as considerações prévias que os primeiros tecem antes de ter filhos.

 

Numa geração uns suplantam os outros e o país chamado Portugal já quer dizer outra coisa distinta, uma coisa que se escreve da mesma forma, com as mesmas letras, mas sem o mesmo significado. Numa geração, a palavra Portugal transforma-se noutra diferente, homógrafa.

 

Escrevo sobre Portugal como poderia escrever sobre Espanha, Itália, França ou outros tantos países. Escrevo sem nenhum conteúdo xenófobo. Nenhum! Antes pelo contrário. Escrevo porque vejo esta realidade forçada sobre nós. Não é uma realidade natural. Não se trata de um fenómeno do domínio do inevitável. Não! Nada disto é natural. Nada disto é inevitável. Nada disto é desejado nem por uns, nem por outros, tivessem ambos a opção de escolher. Tudo isto é o resultado de políticas muito concretas, políticas de exploração de uns, dos que chegam, e de outros, dos que partem. E nada disto, sublinho, se desenvolve no sentido do bem estar dos cidadãos. Pelo contrário: tudo isto é uma estratégia de empobrecimento das sociedades e de concentração da riqueza e do poder.

 

Com efeito, estas transformações devem ser percebidas como sintoma ou consequência das políticas redistributivas da riqueza das economias destes países.

 

Os imigrantes que acorrem aos países ocupando os trabalhos de salários baixos, insuficientes para garantir uma vida decente nesses mesmos países, fazem-no porque alguém os chama. Existe um punhado de gente, gente que no fim do ano ilustra as páginas da revista Forbes na lista dos mais ricos do planeta, que esfrega as mãos de contentamento com a chegada dos vagões destes imigrantes, legiões de gente que se digladia pela mais singela migalha ao mais baixo preço. Os governos locais, por seu turno, permitem que este ciclo se perpetue, sendo agentes ativos no processo, permitem-se assistir à exploração declarada de uns e à evasão massiva de outros. Assistem numa poltrona privilegiada ao processo.

 

É essencialmente isto, não obstante tudo o resto, de toda a guerra que se vai semeando mundo fora com naturais consequências nos movimentos demográficos dos povos. É essencialmente isto em Portugal, como em Espanha, Itália, França e noutros países. Muitos outros. É essencialmente isto a que assistimos impávidos, serenos, ao nosso redor, nas nossas cidades e vilas, nos nossos vizinhos e desconhecidos com que nos cruzamos no metro a caminho do trabalho. Se olharmos não reconhecemos. Não reconhecemos a nossa cultura, os livros que se escrevem, as transformações na língua, as músicas que passam na rádio, as novelas da televisão, as peças de teatro, o cinema. Não reconhecemos. Não sei se não vemos ou se fingimos não ver.

O professor de história incapaz

por Amato, em 12.08.15

Existe um indivíduo a quem chamam de Rui Tavares. Este indivíduo diz-se um historiador e diz-se de esquerda. Aqui seria importante acertarmos agulhas e chegarmos a um consenso sobre o que quer dizer “ser historiador” e o que quer dizer “ser de esquerda”. Sem tempo para tal relevante exercício, diz o historiador de esquerda Rui Tavares no seu novo livro, à semelhança do que já havia escrito em outros textos publicados num blog pessoal, que “não há superioridade moral [da esquerda sobre a direita] nem razões históricas” que justifiquem tal superioridade mítica ou mitificada da esquerda sobre a direita. No fundo, o historiador de esquerda Rui Tavares defende uma tese em que faz equivaler os movimentos de esquerda e de direita tanto em pecados como em virtudes.

 

Antes de prosseguir noto, sem qualquer fibra de surpresa, o facto de que Rui Tavares esteja a recolher uma intensa e flamejante admiração por parte dos comentadores de costume, da oratória de direita, dos peões do sistema vigente. Nada disso é motivo para estranhar.

 

Passando à análise do conteúdo da tese supra apresentada, impõe-se, por imperativo de memória e de história, que se refira o seguinte. A direita, e por direita entendemos as forças políticas conservadoras, nunca, em nenhum momento da história da humanidade, esteve do lado do progresso, do lado das evoluções sociais, do lado da redução do horário de trabalho, do salário mínimo, do direito a férias remuneradas, do direito à cultura, à liberdade religiosa, política, sexual, da igualdade de género, de raça, e a lista continua, interminável. Escolha-se o tema que se quiser. Desafio, aliás, Rui Tavares a apresentar um (apenas um) ponto onde a ação da direita tenha contribuído, por livre e espontânea manifestação ideológica, para o progresso do Homem, para o seu bem estar, no seio de alguma sociedade humana. Pelo contrário, do lado do progresso estiveram sempre os movimentos de esquerda: foi aí mesmo que nasceram, da luta de classes, pelo equilíbrio social e por uma melhor distribuição da riqueza.

 

Estranho que um historiador de esquerda desconheça o que acabei de referir. Estranho que desconheça o conceito de luta de classes já que nunca o profere. Esta estranheza ajuda a explicar, contudo, muita coisa que não se percebia. Ajuda a perceber um pouco o que está na base daquela plataforma/partido político/movimento de cidadãos a que chamam de livre/tempo de avançar, criação do próprio Rui Tavares.

 

Existe, portanto, uma superioridade moral da esquerda relativamente à direita. Claro que existe! Não se confundam erros pontuais ou de percurso com erros de genoma, com erros de valores e de ideologia. Não se coloquem farinhas muito distintas no mesmo saco só porque o pasteleiro é, eventualmente ou por consideração arbitrária, incapaz de fazer um bolo com uma ou com outra. Não é a mesma coisa.

 

Com isto percebemos que Rui Tavares não é duas coisas. Não é historiador ou não é um razoável historiador porque desconhece a história, porque ignora nomeadamente uma parte importante, a mais significativa, do século XX. Se, pelo contrário, não ignora a história e escolhe fazer tamanha interpretação parcial da mesma, então é um medíocre historiador. Mas, se das duas anteriores apenas uma poderá estar correta, uma coisa é garantida: Rui Tavares não é de esquerda.

 

Fica bem dizer este tipo de coisas. Fica bem procurar o politicamente correto por mais absurdo, por mais grotesco, que possa ser. Rui Tavares procura pescar apoios em todo o lado. Não quer muito compromisso com o que quer que seja. Quer ser um simpático para o cidadão médio português que não quer saber, em boa verdade, nem de esquerda nem de direita. As muletas do PS não costumam ter, todavia, muita sorte. Na verdade, costumam ter o ciclo de vida do tamanho do de uma libelinha. Nascem do meio da lama, esvoaçam e fazem uma dança nos céus e depois morrem, aterram tão depressa quanto levantaram voo. No entanto, temos que compreender: os incapazes não têm muita imaginação; só sabem repetir o que já viram feito em algum lado, em algum sítio. É uma mímica triste e enxovalhante.

A face da realidade

por Amato, em 08.08.15

São mais de vinte pontos percentuais de desemprego do outro lado da fronteira. A quantidade de pedintes nos comboios, nos metros, nas ruas, de mãos estendidas e cabeça baixa é assustadora. E não, não são apenas os emigrantes, os desgraçados, do costume. Madrid, a capital espanhola, está assim. É impossível ficar indiferente.

Uma ideia sobre o fenómeno desportivo

por Amato, em 06.08.15

Para que serve o desporto? Para que serve o desporto num país assim como o nosso ou como outro qualquer? E, mais importante, para que deveria servir o desporto?

 

Vivemos tão imergidos neste sistema capitalista, qual líquido escuro e viscoso, que perdemos totalmente a perceção das coisas, mesmo das mais básicas. Vivemos porque sim. Corremos porque os outros que nos rodeiam também correm. Mas por que vivemos, por que corremos, afinal?

 

Hoje em dia olhamos para o fenómeno desportivo e vemo-lo despido de todo e qualquer significado primário de que possamos pensar ser seu íntimo em essência. Refiro-me ao poder de mobilização dos cidadãos, com particular enfâse na juventude, ao seu desenvolvimento sobretudo físico mas também intelectual e social, à transmissão de valores como a solidariedade e o trabalho coletivo. O desporto é tudo isto, em génese, mas nada disto é na atualidade.

 

O mundo capitalista pegou em tudo isto e transformou numa ferramenta de extração de lucro. Esta ferramenta, extraordinariamente eficaz do ponto de vista do entretenimento das massas, abusa de uma noção vil de competitividade alicerçada em sentimentos de violência e rivalidade. Hoje em dia o desporto não se encontra ao serviço das sociedades em que é praticado. Com efeito, as equipas nacionais são repletas por praticantes vindos de outros países e sem qualquer ligação às sociedades onde são inseridos. Adicionalmente, o poder do dinheiro subverte a equidade competitiva a todos os níveis influindo nas leis e promovendo as mais grotescas disputas. No fim de contas, vemos sociedades inteiras entretidas em competições desiguais, injustas e sem uma correspondência social direta.

 

Tudo isto é evidente se, por um momento, pensarmos com clarividência na coisa. Todavia, se acaso colocássemos a questão em debate nestes precisos moldes não me surpreenderia que uma maioria popular optasse por legitimar o atual estado do fenómeno desportivo. O desporto justo e fiel aos seus princípios originais seria demasiadamente aborrecido.

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