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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Espiral de demência

por Amato, em 30.08.15

http://i.ytimg.com/vi/XIzScwydxOE/maxresdefault.jpg

Não é difícil explicar ou compreender, mas é difícil de aceitar: a sociedade portuguesa, particularmente, vive mergulhada num ciclo vicioso, não é bem um ciclo, é mais uma espiral que roda, demente, e parece que volta sempre ao mesmo ponto, mas na verdade, conduz-nos em cada volta um pouco mais perto do abismo.

 

Quando se liga a televisão, noventa por cento do tempo é ocupado com os partidos do governo e com o, dito, maior partido da oposição. Isto sucede não apenas pela razão óbvia das exigências de um público que, com efeito, confere, eleição após eleição, a importância que esses partidos depois exibem nos meios de comunicação, mas existe também uma ação premeditada e objetiva dos próprios meios de comunicação para construir essa bipolaridade, para reforçarem os alicerces dessa bipolaridade nas fundações da sociedade portuguesa.

 

O último exemplo disto mesmo é o facto de que, pela primeira vez na história da democracia portuguesa, apenas haverá um debate na televisão em canal aberto antes das legislativas entre líderes de partidos com assento parlamentar e esse debate será entre o Primeiro-ministro e o líder do maior partido da oposição.

 

Diversas questões se levantam acerca da qualidade da democracia ou do pluralismo democrático, mas a questão que me apetece perguntar é: para que servem as estações de televisão pública?

 

Para quê?!

 

Para quê, senão para isto mesmo, para estarem ao serviço da democracia e da república?

 

Estamos todos dementes, fazemos todos parte desta espiral doentia e, a cada volta completa percorrida, estamos mais próximos do fim de tudo isto, do fim da república, do fim da democracia, do fim da igualdade e, somadas todas as anteriores e outras tantas não mencionadas, do fim da liberdade. No meio de tudo isto, não sobram ideais, não sobram sonhos, o povo rejeita-os, o povo abraça apenas o que é palpável, abraça apenas o que os seus olhos míopes conseguem alcançar, contenta-se com o aqui e o agora. E o aqui e o agora não é mais que esta selva, esta lei do mais forte, este capitalismo podre e desumanizado.

Medida do sucesso

por Amato, em 26.08.15

https://c1.staticflickr.com/1/39/75538839_6fe290fb09_z.jpg?zz=1

 “I perdenti, come gli autodidatti, hanno sempre conoscenze più vaste dei vincenti, se vuoi vincere devi sapere una cosa sola e non perdere tempo a saperle tutte, il piacere dell’erudizione è riservato ai perdenti. Più cose uno sa, più le cose non gli sono andate per il verso giusto.”

 

“Os perdedores, assim como os autodidatas, sempre têm conhecimentos mais vastos que os vencedores, e quem quiser vencer deverá saber uma única coisa e não perder tempo sabendo todas, o prazer da erudição é reservado a perdedores. Quanto mais coisas uma pessoa sabe, menos coisas deram certo para ela.”

 

— Umberto Eco, Número Zero

Escrever “arte”

por Amato, em 22.08.15

https://remagez.files.wordpress.com/2014/02/img_3261.jpg

 

Escrever não é despejar quilos de informação para o papel. Escrever “arte” é outra coisa.

 

É, pelo contrário, saber escolher que detalhes revelar. Quando se conta uma história o principal objetivo é capturar literalmente a atenção do leitor. Isso não se faz, contudo, com a inundação do mesmo com detalhe.

 

O escritor deve, com efeito, deixar espaço branco, espaço em aberto, para que o leitor o preencha com a sua própria imaginação, com os seus próprios detalhes, com algo que seja seu. Deste modo a história, não deixando de ser transmitida rigorosamente, passa a ser pertença do leitor, pois uma certa quantidade de detalhes perfeitamente irrelevantes (e aqui é que entra em jogo a capacidade do escritor) serão daquele leitor e apenas dele.

 

É por isso que o grande desafio do escritor não é simplesmente colocar a história no papel. Isso, qualquer um, qualquer jornalista, o pode fazer. O grande desafio do escritor é, antes, escolher o que contar, escolher como contar e abrir um caminho transparente e aliciante que o leitor possa percorrer.

A gadanha dos sonhos traídos

por Amato, em 21.08.15

http://i.imgur.com/exCGk13.png

Tsipras e o Syrisa deram, por estes dias, a machadada final do seu grotesco plano para a Grécia. O que fizeram é vexante a todos os níveis para qualquer pessoa decente independentemente do quadrante político a que pertença. É mais do que vexante: é nojento. Não obstante, no processo, terem posto a nu o que realmente é isto da União Europeia e de terem reduzido palavras como solidariedade aos chavões que realmente são no palco europeu, independentemente disso, o que fizeram é nojento. Para o que fizeram teria sido preferível os fantoches do costume, os socialistas ou os sociais democratas. Esses, pelo menos, são mais autênticos naquilo a que se propõem. Usam de oratória oca, mentem, são demagógicos, claro que sim. É a sua natureza. Mas por ser uma natureza tão repetida, tão pegajosa nas traves políticas europeias, que qualquer um, qualquer cego, consegue ver por entre tudo isso. A sua natureza não engana verdadeiramente ninguém e quem diz o contrário mente. No fim de contas, os socialistas ou os sociais democratas teriam feito o mesmo que fez este Tsipras e este Syriza sem tanto foguetório.

 

Tsipras assinou o acordo e agora demite-se. Aqui reside a vergonha, a falta de caráter, da coisa. Tsipras e o Syriza traíram descaradamente o povo grego nas promessas que fizeram e na prática que seguiram deixando-o, agora, atado de mãos e pés a mais um resgate e a mais austeridade.

 

Não é invulgar, contudo, este género de acontecimento. As classes dominantes do capitalismo têm esta capacidade de minar a luta das classes sociais desfavorecidas desta ou de outra forma qualquer. O poder do capital nunca deve ser desconsiderado. Os seus tentáculos chegam a todo o lado. A sedução pelo poder ou pelo pequeno poder tem esta capacidade de criar Tsipras e Syrizas, como que agentes duplos que se apresentam como estando ao serviço do povo e dos trabalhadores mas que, em verdade, são assalariados do regime colocados em campo para dividir, confundir e para que os seus mestres continuem a reinar.

 

Seria importante, transportando diretamente por decalque para o caso português, ouvir a opinião do Bloco de Esquerda sobre estes acontecimentos, já que o Bloco de Esquerda sempre se colou ao Syriza e ainda se cola a todos os outros movimentos europeus similares como o Podemos espanhol. Seria interessante ouvir o que têm a dizer e se é expectável esperar algo de semelhante na sua ação política se acaso um dia tomem em mãos a vara do poder. É que o Bloco de Esquerda não apenas tem cavalgado a onda de populismo deste género de movimentos, que na verdade ninguém percebe bem o que são até que seja demasiado tarde, como se cola também a eles nas suas opções políticas. Por exemplo: o Bloco de Esquerda apresenta-se contra a austeridade alemã e é bastante verbal neste particular, todos os de esquerda concordamos, mas ao mesmo tempo revela-se a favor da União Europeia e do Euro. Como é, afinal? O Bloco de Esquerda propõe o mesmo que o Syriza ou tem ideias diferentes?

 

Pela minha parte, acho que já chega de brincar à política e às esquerdas. Se o povo português quiser mudar para uma sociedade diferente, mais justa, e sublinho aqui a palavra justiça, uma economia equilibrada e sustentável, desenvolvida com vista ao crescimento do país e à satisfação das necessidades das pessoas, se o povo português quiser uma democracia real e não fictícia, então sabe bem onde colocar o seu voto. Aliás, sempre soube. Talvez por isso fuja disso mesmo e prefira esta selva em que vivemos. Ao invés, se quiser prosseguir nestas brincadeiras e experimentalismos que constituem apenas divertimentos para a classe dominante, pois não a afetam nem procuram beliscar em absolutamente nada, então que continuem. Será sempre divertido.

 

O futuro do Syriza e de Tsipras, contudo, será algo de bastante diferente. Para eles não auguro mais brincadeiras, grandes planos ou palcos. O seu destino é a extinção e ser-lhes-á conferida a golpes furiosos de gadanha, da gadanha dos sonhos traídos, pelas mãos e pelos braços dos gregos que neles votaram. Que eles desaparecerão, mais cedo ou mais tarde, é garantido; o povo grego tratará de o fazer. Que eles surgirão com um outro nome, com um novo logótipo e com novas caras, anos mais tarde, também.

Vida de cão

por Amato, em 20.08.15

Há pessoas que gastam dinheiro para comprar canais de televisão cujo único objetivo é entreter os cães que deixam em casa, nos apartamentos.

 

Há pessoas que fazem outras coisas por ventura mais ridículas.

 

Isto diz muito sobre a forma como a riqueza é distribuída pelas pessoas do planeta.

 

Isto (também) é capitalismo.

 

https://wordsandtoons.files.wordpress.com/2009/09/fruit-bats-promo.jpg

 

A "panaceia" da reciclagem

por Amato, em 17.08.15

Os tempos correntes são febris no que ao tema da reciclagem diz respeito. Há metas envolvidas. Há médias europeias a superar. Há também uma moralidadezinha associada. Quem não recicla é como quem não se lava todos os dias ou então, outra coisa pior.

 

A reciclagem é um bom exemplo desta sociedade doente em que vivemos, desta demência permanente que nos envolve. Vivemos numa sociedade em que não pensamos sobre nada, não temos um juízo crítico sobre as coisas que se nos impõem e contentamo-nos em seguir procedimentos mais ou menos imediatistas ainda que absolutamente inócuos.

 

É difícil de imaginar alguma coisa que exista neste mundo capaz de exceder em hipocrisia o fenómeno da reciclagem. Enquanto todos berram aos ouvidos de quem não recicla usando a argumentação mais pobre e trivial que existe, o mundo continua a girar numa rotação de excesso de produção, de consumo desenfreado, de exploração incorreta e desequilibrada de recursos, o que inclui, naturalmente, o abuso de utilização de materiais não biodegradáveis. Esta lógica de governação dos povos é tida maioritariamente não só como legítima mas também como desejável, não obstante ter em vista apenas o enriquecimento de uma pequena parte da população. Então, o problema do excesso de resíduos não é colocado ao nível da quantidade completamente redundante e desnecessária de embalagens e de embalagenzinhas produzida, mas no cidadão médio que não transporta essas embalagens para o contentor amarelo. Não obstante, independentemente da ação adotada pelo cidadão médio, a mesma quantidade (senão maior) de embalagens continua a ser produzida e a acumular resíduos.

 

Mas há mais. Há um par de anos ouvi uma estatística reveladora que dizia que qualquer coisa como dois terços do lixo enviado para a reciclagem em Portugal não era reciclável por mais do que um motivo. O processo de reciclagem era, então e de facto, de todo em todo ineficaz.

 

Gostava de poder, com efeito, apresentar as estatísticas atuais sobre o fenómeno mas não consigo. Não existem tais estatísticas. Não são disponibilizados dados sobre a eficácia processual da reciclagem nem, tão pouco, sobre os custos associados. Por isso, reservo-me o direito de especular que a situação permanece mais ou menos idêntica. Ou seja, ainda que todas as embalagens fossem colocadas na reciclagem, apenas cerca de um terço seria recuperado. E a que custos?

 

Mas é isto a nossa sociedade no que respeita à reciclagem ou a outra coisa qualquer: os problemas não são enfrentados de frente, na sua origem, na fonte. Prefere-se, pelo contrário, não mexer com qualquer interesse instalado e inventar remedeios fáceis, panaceias ilusórias e mais ou menos descartáveis, fáceis de aplicar, e, se possível, capazes de espoliar os estados de grandes quantidades de dinheiro. Estas panaceias, transmitindo uma ideia contrária, nada curam de facto. Ao mesmo tempo que se faz um enorme esforço e se gastam enormes quantias para reciclar um pouco, poucochinho, o mundo continua a produzir e a multiplicar grandes quantidades desnecessárias de plástico, vidro e papel, quantidades essas tornadas resíduos insustentáveis para o planeta independentemente da micro-gota de água, a que se chama de reciclagem, que cai no oceano.

 

Para ser suficientemente claro: o problema ecológico reside também ele no modelo de desenvolvimento económico adotado. O problema ecológico reside na filosofia gananciosa que preside ao sistema capitalista e não, como nos pretendem fazer crer, na falibilidade do ser humano.

Uma ânsia

por Amato, em 15.08.15

Ontem vi um velhote trémulo, muito trémulo, que cedia com as mudanças de direção do vento. O velhote encontrava-se agarrado, débil mas resolutamente, a uma marreta comprida, mais comprida e rija do que ele próprio. Esteve uma hora ou mais a arremessá-la custosamente, a intervalos regulares, contra uma grande pedra que emergia no seu quintal em perfil com uma horta de couves verdes.

 

Ali esteve o velhote durante uma hora ou mais. A mim pareceu-me a tarde inteira. Fechei as cortinas da janela para afastar aquela visão do pensamento, mas continuava a ouvir as pancadas. Ouvia as pancadas regulares e elas ouviram-me a mim, também, já que vieram dormir comigo esta noite. Sonhei com o velhote. Arfava com dificuldade a cada pancada. No final, a grande pedra quase não se modificou. Terá adquirido, no processo, faces mais arredondadas. Parecia um elipsoide imperfeito ou, melhor, uma espécie de ovo de Colombo feito de pedra. De cada vez, em cada repetição, a marreta erguia-se um pouco mais devagar e esgares de dor desenhavam-se, um pouco mais marcados, na face do velhote.

 

Porquê?

 

Porque é que o velhote fazia aquilo? Porque escolhia gastar algumas das últimas batidas do seu fraco coração com aquelas inúteis marretadas? Uma insatisfação permanente? Um sentimento, uma ânsia, uma necessidade de utilidade? Ou para provar, a si mesmo e aos outros que, como eu, o observavam, a posse e o domínio físico sobre a sua propriedade?

 

A pedra por lá continua na margem daquele quintal de couves verdes. Está ali, repousa agora, como sempre esteve, como espantalho de um feno de pedra a guardar o quintal.

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