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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Conceitos no ar não valem nada

Dizer que o mundo devia ser melhor, que a sociedade devia ser diferente, que devia caminhar para a paz e para o amor, é fácil. Escrever palavras não custa. Dizê-las ainda custa menos. O difícil é fazer alguma coisa para construir esse futuro. O difícil é precisamente contribuir para essa construção. Defender conceitos no ar é cómodo. Esculpi-los na pedra, levá-los à prática, é o que é relevante.

publicado às 10:31

Andorinhas de julho, agosto e meio de setembro

Em julho inicia-se uma fase peculiar na vida de muitos milhares de pessoas que vivem no nosso país e que se prolonga até meio de setembro. São pessoas que convivem connosco, que estão mesmo aqui ao lado, que partilham a boleia do autocarro ou do metro, que se cruzam numa rua ou num café, que estão mais à frente ou mais atrás numa fila de supermercado ou que connosco esperam sentadas nos bancos gastos de uma repartição de finanças.

 

São pessoas que chegam a este trimestre e ficam sem trabalho. Ou melhor, ficam sem salário. São trabalhadores como os outros mas que auferem menos de dez meses ao ano. Parecem reproduzir-se a uma velocidade exponencial: são cada vez mais e pululam pelos postos de trabalho, substituindo outros, diferentes, daqueles que ganham catorze meses ao ano.

 

Chegam a esta altura e é como se parte da sua vida ficasse interrompida, parada no tempo, enquanto a outra parte, a que resta, continua. É que nestes meses, nos meses em que não há dinheiro, não deixam estes muitos milhares de pessoas de ter a casa para pagar e a luz e a água e o resto.

 

Uma parte refugia-se na casa dos pais: faz lá as refeições todas, pede emprestado, faz o choradinho, por si e pelos filhos. A outra parte parte para o sul, como as andorinhas no inverno, à procura do trabalho sazonal num hotel qualquer ou num bar qualquer à face da praia. Estas andorinhas de verão sustentam-se assim.

 

E quer umas quer outras, as andorinhas da casinha dos pais e as andorinhas de verão, observam a sua condição com a naturalidade do “é assim que tem que ser”. Quanto muito revoltam-se com a injustiça da sua condição particular, da crueldade do destino sobre a sua própria e especial cabeça.

 

Contentemo-nos em vê-las, bonitas, no céu esvoaçante, enquanto viajam para o seu destino de julho, agosto, até meio de setembro. Apreciemos o anual espetáculo, que por hora, parece estar para durar.

publicado às 19:29

Nas entrelinhas da vitória

Felizmente o “não” venceu o referendo. Caso assim não tivesse sido, todo o movimento anti-imperialista teria sofrido uma derrota dramática. Por isso repito: felizmente o “não” venceu. A jogada política ousada e, diga-se, completamente demente do Syriza acabou por dar resultado. Mas não vale a pena insistir no que já passou. Vale a pena olhar para o caminho que falta calcorrear. Esse caminho, contudo, apresenta-se árduo e incerto.

 

Após a vitória no referendo, foi anunciada, qual murro no estômago, a demissão do ministro das finanças grego Yanis Varoufakis. A incredulidade pela decisão apenas se vê suplantada pela ainda mais espantosa justificação para o ato: Varoufakis tomou a decisão com base numa pressão exercida pelos parceiros negociais europeus.

 

Visto pelo prisma que se quiser, esta decisão é de todo em todo repugnante. Ingerência direta inter-nações soberanas, covardia política do próprio, cedência vergonhosa do Syriza aos interesses do capital, e mais, mais, muito mais. Escolha-se o que se quiser: qualquer opção terá tanto de repulsivo quanto de desilusão.

 

O Syriza parece ter uma prontidão desconcertante para fugir às responsabilidades que o seu povo lhe coloca. Da primeira vez que venceu as eleições, saiu de cena tão depressa quanto ascendeu ao poder. Agora parece estar à procura de um pretexto para saltar fora do barco, um pretexto que lhe permita sair de cena de mãos lavadas, mas de consciência suja. Para mal dos seus pecados, o povo grego mostra ser dono de uma coragem de ferro, de uma vontade de aço, e obriga o Syriza a continuar a lutar. O povo grego é, com efeito, a única e derradeira esperança da Grécia.

 

publicado às 11:20

A questão da confiança

Antonio Fernandez - Restauração de Portugal e Morte de Miguel Vasconcelos

Ouvimos esta frase dita de forma desgarrada: “conquistámos a confiança dos mercados”. Ouvimos e aceitamo-la como se de uma conclusão óbvia se tratasse. Ouvimo-la sem que na nossa mente burile qualquer princípio de interrogação, sem que germine o que quer que seja que não seja uma aceitação dogmática que surge não se percebe bem de onde.

 

Há mais frases como esta, “conquistámos a confiança dos mercados”. São frases que aparecem e se repetem à exaustão, qual sound bite, e de tanto repetidas conquistam uma credibilidade que é de plástico, que é não é orgânica, que, em verdade, não é nada. Nada.

 

A montante da questão é importante perceber o que é isso de “mercados”. É importante que se conheçam os rostos que agem confortavelmente a coberto da palavra. A existência sem rosto torna-se mais fácil. É uma existência que transcende o mundo dos homens, daqueles que todos os dias saem de casa à procura de trabalho e de sustento para si e para os seus. E, por isso, parece que não é de pessoas como nós, iguais a nós, de que falamos. Parece que estamos a falar de semideuses. Muitos desses vivem mais perto de nós do que pensamos. Estão mesmo aqui ao lado. Todavia, escondendo-se atrás da palavra “mercados”, que mais não é que uma palavra que representa o corporativismo burguês contemporâneo, parece que podem e que mandam mais do que realmente podem e mandam. Parece que são mais importantes do que o resto, mais importantes do que o sol, o vento e a chuva. Parece que são mais importantes do que os homens que todos os dias se levantam à procura de trabalho e de sustento. E, então, resulta natural a existência de governos totalmente colaboracionistas com os interesses e o proveito destes tais de “mercados”.

 

A jusante da questão vem o conceito de “confiança”. De que confiança estamos a falar? E o que fizemos nós para conquistar tal confiança? Ninguém pergunta? Ninguém questiona a moralidade da coisa? Que confiança é esta de “Só te empresto dinheiro se cortares o teu braço esquerdo”? O que é isto? Destruímos a nossa economia de uma forma dramática, sem precedentes, numa política de terra queimada declarada. Remetemos uma boa parte da nossa mão de obra a um destino de emigração. Desbaratámos de forma irremediável cada instrumento de influenciação económica de que dispúnhamos. Desequilibrámos descaradamente o mercado laboral e a balança distributiva de rendimentos no seio da nossa economia de tal forma que diminuímos dramaticamente as condições de vida de um português médio e condenámos assustadoramente as retribuições para o estado de qualquer eventual laivo de crescimento económico. Neste processo multiplicou-se a dívida, prolongando-se um estatuto a todos os níveis de estado-escravo ou estado-servo ao nosso país. A isto se chama ganhar a confiança dos mercados. A isto eu chamo de mediocridade moral, baixeza política.

 

A questão da confiança é crucial. É crucial para percebermos quantos como Miguel de Vasconcelos temos no meio de nós, quantos é necessário não arremessar da janela do paço real onde nos desgovernam a mando de alemães e afins, mas arremessar para uma cela escura ou, melhor, para fora das nossas fronteiras, com o correspondente pontapé no traseiro, para irem morrer longe, bem longe, das nossas praias.

publicado às 18:13

Contraditório irónico

A argumentação da direita em torno dos assuntos da atualidade é tão anedótica que dá para uma boa mas trágica barrigada de riso. Atentemos nos seguintes excertos das declarações de Paulo Portas (PP).

 

“Há um radicalismo que não se importa de dar cabo de tudo, por razões ideológicas”.

 

“Portugal é completamente diferente: fizemos um grande esforço e já terminamos o programa com a troika; não pedimos mais dinheiro nem mais tempo; evitamos um programa cautelar na saída; vamos ter um défice inferior a três por cento e ficamos livres de sanções; antecipamos o pagamento total do empréstimo do FMI, porque conseguimos juros mais em conta nos mercados; a economia está a crescer mais do que a média da zona euro e há confiança.”

 

Analisemo-las. Para cada declaração relevante, produzirei uma reflexão em jeito de conversa improvável, daquelas que nunca têm lugar, por mais que não seja por não existir jornalismo decente em Portugal.

 

PP: “Há um radicalismo que não se importa de dar cabo de tudo, por razões ideológicas”.

Amato: Fica bem ao senhor doutor esta autocrítica. Efetivamente, em Portugal, o seu governo não se importou de dar cabo de tudo para levar a cabo o seu plano ideológico para o país.

 

PP: “Portugal é completamente diferente (...)”

Amato: Ai é?

 

PP: “(...) fizemos um grande esforço (...)”

Amato: Ah, claro! Os gregos não fizeram esse esforço... são preguiçosos, não é, senhor doutor?

 

PP: “(...) já terminamos o programa com a troika (...)”

Amato: Ai já? Que engraçado: não tinha dado por isso... Também folgo em notar que o senhor doutor já se deixou dessa sua nomenclatura pseudointelectual de triunvirato.

 

PP: “(...) não pedimos mais dinheiro nem mais tempo (...)”

Amato: Pois foi. Nem pediram mais dinheiro nem a mim próprio nem aos vizinhos aqui da zona. Ah, espere... enganei-me neste ponto. Já agora, seria bom se pudesse parar de nos pedir mais dinheiro, senhor doutor. É que andar a vangloriar-se com os euros dos outros... fica-lhe mal.

 

PP: “(...) evitamos um programa cautelar na saída (...)”

Amato: Esqueceu-se também do bicho-papão. Também evitámos o bicho-papão. Só não entendo é porque todas as nossas decisões, inclusivamente a da privatização da TAP, têm que passar pelo beija-mão à senhora Merkel...

 

PP: “(...) vamos ter um défice inferior a três por cento (...)”

Amato: Ah, pois vamos! Mas e no próximo ano? É que já não há nem TAP, nem EDP, nem CTT, nem... nada mais para vender... Como vai ser, senhor doutor?

 

PP: “(...) antecipamos o pagamento total do empréstimo do FMI, porque conseguimos juros mais em conta nos mercados (...)”

Amato: Ai, os mercados... o que acontecerá da próxima vez que mudarem de humor? E a classificação de “lixo” nas agências de rating? Isso já não interessa, pois não?

 

PP: “(...) a economia está a crescer mais do que a média da zona euro e há confiança.”

Amato: Pois está, pudera! Quanto regrediu nos anos anteriores relativamente a essa mesma média? E como é essa curva de crescimento? Acho que alguém entrou para ministro sem fazer as provas de avaliação de conhecimentos e capacidades... Vá falar com o seu colega Crato: saber analisar gráficos e dados estatísticos é vital, senhor doutor...

publicado às 14:06

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