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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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O referendo na Grécia: uma análise exaustiva

por Amato, em 29.06.15

Volvidos muitos meses desde o início das negociações e a escassos dias do país entrar em incumprimento com os “credores”, foi apresentada à Grécia uma proposta com a adjetivação de definitiva mas que, entretanto, diversas vozes oficiais e oficiosas vieram já garantir assim não o ser, que ainda há “margem de manobra”, dizem. Estas declarações muito nervosas surgem após o anúncio de um referendo a esta proposta por parte do governo grego. Aliás o nervosismo parece ser característica endémica por parte das instituições internacionais que se comportam claramente como representantes aflitos dos interesses dos “credores”, essa massa intangível de coisa desconhecida e vil.

 

A proposta, muito melhor do que a apresentada a qualquer outro país intervencionado, incluindo Portugal, o que, por si só, demonstra, para lá de qualquer argumentação, a vantagem da negociação relativamente à aceitação obediente dos ditames externos, não deixa de estar carregada de austeridade e de amarrar o povo grego a uma espiral de dívida e de recessão. Bem entendido, outra coisa diversa não seria de esperar. Não está na sua natureza. Perante tal proposta o governo grego decidiu colocar a sua decisão de aceitação ou não nas mãos do seu povo.

 

O referendo é democraticamente inatacável. A democracia tem isto mesmo: ouvir a voz do povo resolve qualquer contenda, legitima qualquer decisão, para além de qualquer dúvida. Posto isto, devo dizer que a decisão de referendar este acordo é uma das atitudes moralmente e politicamente mais covardes de que há memória. O povo grego vê-se confrontado com uma decisão após meses de impasse e de incerteza, após anos de insegurança relativamente ao seu presente e ao seu futuro. Onde está a sua liberdade de escolha? É lamentável e, repito, covarde que o governo grego não assuma claramente a sua posição e procure, assim, um bode-expiatório para retomar nas suas próprias mãos a política de austeridade, numa procura permanente e imatura de popularidade e aceitação das massas.

 

Parece que apela ao não neste referendo, como não poderia deixar de ser pois caso contrário cairia definitivamente a máscara que o conduziu ao poder, mas deixo aqui algumas interrogações. O que acontecerá se o sim ganhar? Demitir-se-á o governo? Prosseguirá a austeridade ou entregará essa tarefa aos outros que o antecederam? Com que premissas é que afinal foi eleito?

 

Não existe aqui, nesta crítica, qualquer incongruência da minha parte. Louvo a atitude deste governo em fazer o que mais nenhum país europeu fez e o que poucos mundialmente fizeram: negociar perante as instituições internacionais de abutres. Louvo e continuarei a louvar. Trata-se de uma atitude patriota que qualquer governo patriota tomaria independentemente do seu posicionamento político. Entendo, porém, que este governo, suportado numa coligação entre partidos antípodas, revela-se ideologicamente esvaziado. Mediaticamente opõe-se à austeridade alemã mas perdurou, meses a fio, na procura de um acordo de financiamento. Por que acordo esperava afinal? Não se percebe muito bem qual o fim que este governo grego procurava. Ao mesmo tempo diz não querer sair deste euro que asfixia a Grécia e que é o principal responsável pela dimensão da sua dívida. Com efeito, em nenhum momento rasgou nem com esta moeda, nem com os parceiros europeus que, ao invés de apoiarem a Grécia, ofendem-na, achincalham-na e humilham-na em pleno processo negocial numa base diária. Não se percebe qual é o plano.

 

O Syriza é o representante desta “nova” esquerda, que noutros países tem nomes diferentes, que é lesta e assertiva no diagnóstico aos problemas do capitalismo, e com o qual todos nós, os de esquerda, concordamos, mas depois, quando lhe é concedida a oportunidade de tomar o destino dos seus povos em mãos, não sabe bem o que fazer. Tem medo das experiências do comunismo e do seu legado e rejeita-as dogmaticamente porque receia o que o povo pensará deles se não o fizer mas, nesse processo, cola-se às estruturas do capitalismo, às estruturas de consolidação do poder burguês que governa as sociedades. Esta esquerda não sabe o que fazer, nem sabe bem o que quer, não sabe por onde caminhar e, por isso mesmo, dá um mau nome à esquerda, isto é, concorre para a sua difamação e para o alimentar dos chavões cuspidos desde o outro lado.

 

Falta bagagem a esta esquerda. Falta-lhe passado. Falta-lhe compreensão histórica e entendimento. Falta-lhe fazer as pazes com a história para poder corrigir os erros cometidos e poder trilhar um caminho desconhecido mas a passos sólidos. Falta-lhe futuro.

O “projeto europeu”

por Amato, em 26.06.15

Assinatura do chamado Plano de Schuman, em 1951, que viria a dar origem ao estabelecimento da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço

 

É muito fácil detetar quando alguém fala do que não sabe ou do que desconhece: começa a empregar bordões ou estribilhos, os quais faz questão de repetir com uma insistência enjoativa como refrão de uma musiquinha que se canta a capella. É o caso do chavão “projeto europeu” ou “solidariedade” quando a conversa é Europa ou União Europeia. «Mas o que é isso de “projeto europeu”», perguntamos. «Ah, é um projeto solidário e tal...». E é exatamente aí que percebemos, sem margem para dúvidas, que o interlocutor nada sabe sobre o que discursa e limita-se a repetir o que ouviu em algum lado.

 

Vamos diretos ao assunto. A ideia subjacente à criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, que posteriormente originou a Comunidade Económica Europeia e, finalmente, a União Europeia, era uma ideia de cooperação económica. No penoso período após a segunda grande guerra aqueles seis países fundadores, Alemanha, França, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, procuraram deste modo revitalizar e reconstruir o seu poderio económico, primeiramente através de uma política comum no que concerne à produção e exploração das matérias primas necessárias à siderurgia. Neste projeto havia também a ideia de que, sendo a produção siderúrgica não mais independente entre estes seis países, o perigo de uma nova guerra seria evitado. Neste ponto, note-se que cooperação não é sinónimo de solidariedade. Estes seis países estabeleceram um protocolo de cooperação para recuperarem mais rapidamente dos efeitos devastadores que a segunda grande guerra plasmou no seu solo com a esperança de que esse projeto cooperativo estabelecesse um clima de paz, por intermédio de um controlo das produções siderúrgicas de cada país participante. Ninguém partilhava nada com ninguém. Apenas havia uma facilitação do intercâmbio de materiais entre estes países.

 

Quando esta pequena comunidade começou a dar frutos, rapidamente se percebeu que esta plataforma poderia ser alargada a todas as outras áreas de exploração económica e, mais, que constituía uma eficaz ferramenta de controlo político dos estados. Tudo isto é e foi perfeitamente natural. O alargamento a outros estados fez-se rapidamente e, em pouco mais de cinquenta anos, a união atinge já vinte e oito estados membros. Acontece que, num contexto de tão díspares diferenças de força, toda e qualquer cooperação se torna numa subordinação.

 

Os estados eram cativados e subornados, porque não dizê-lo, num processo de sedução envolvendo grandes somas de dinheiro a troco de uma total subordinação da sua política aos diktats daquilo a que se convencionou chamar o eixo franco-alemão e que, nos dias de hoje, é apenas alemão. É, com efeito, interessante verificar a evolução da coisa e ver a orgulhosa França tornada, também ela, num estado-lacaio da Alemanha. Por diktats entendemos uma política de exploração de recursos, de importação/exportação e, também, social, canalizada para o favorecimento da economia alemã, isto é, que permita à Alemanha produzir ao máximo, exportar ao máximo e alocar toda a sua indústria com os custos de produção mais baixos nas economias marginais. Neste sentido, falar em “convergência” entre estados é apenas mais um mito facilmente desmascarado. Se países como Portugal não conseguem produzir ou exportar devido, sobretudo, a estes condicionalismos, isso não é um problema da União: o problema da União é tudo fazer pelo bem-estar da Alemanha, por tornar na Alemanha neste super-estado que só é super e alto por se erguer sobre as costas dos pequenos países. Falar em solidariedade neste contexto roça, portanto, o obsceno.

 

Quando se fala em solidariedade apontando rapidamente à evidência dos subsídios dados aos estados, muitas vezes enunciados em nome da “convergência”, devia-se falar antes em armadilha, armadilha essa de que o Euro foi a última componente. Cada subsídio teve o objetivo de retirar um direito, uma estrutura, um princípio autonómico, uma ferramenta económica a cada estado e, visto sob esta perspetiva, foram comprados a preço de saldo. E com o Euro o verdadeiro “projeto europeu” foi completado: uma europa totalmente dominada económica e politicamente à mercê de um país, a Alemanha, num plano de dominação global que faz parecer que os planos do terceiro reich de Hitler, ou os planos de Napoleão Bonaparte, para citar apenas estes dois, não foram mais do que criações de verdadeiros mentecaptos selvagens.

Negociação entre uma parte e o todo

por Amato, em 23.06.15

Quando alguém negoceia o que quer que seja não há um lado bom ou um lado mau. Não há um lado justo e outro injusto. Mais: não há moral e imoral. Quando duas partes negoceiam sobre algo há apenas isso: duas partes com interesses necessariamente distintos, embora podendo ser mais ou menos convergentes aqui e ali, que procuram assegurar o melhor acordo possível. Mas este melhor acordo não é algo vago, não permanece etéreo numa espécie de dimensão da justiça e da moralidade. Não: este melhor acordo é aquele que melhor serve as partes. Em geral, quanto melhor se revelar para uma, pior será para a outra.

 

Neste sentido, torna-se numa experiência plena de surrealidade a de assistir às continuadas declarações do Primeiro-ministro português sobre as negociações com a troika. Chega a ser absurdo, mesmo. Como pode um líder de um país dizer que o que os credores querem é o melhor para nós? Como pode? O desenvencilho deste aparente absurdo apenas se faz se percebermos que, afinal, não existem duas partes a negociar, mas apenas uma. Trata-se de uma negociação de uma só pessoa consigo próprio ou com uma parte de si, entre uma parte e o todo.

 

No momento em que a Grécia, bem ou mal, procura um melhor acordo para o seu financiamento, estando totalmente no seu direito, vem o Primeiro-ministro português tecer rasgados elogios aos credores e veladas críticas a esta política natural dos gregos, tão natural quão surreal tem sido a ação do governo português. Tudo isto é surreal ou, talvez, elucidativo.

 

No filme Django Libertado há uma ideia que permaneceu no meu espírito. O principal obstáculo à liberdade dos escravos não eram os seus donos. Os grandes inimigos dos escravos eram os próprios escravos, seguidistas, delatores, invejosos dos que ousavam levantar a cabeça, não obstante partilharem o mesmo destino. Pensavam eles, iludidos, cair nas boas graças dos senhores esclavagistas para daí retirar algum proveito. Lamentavelmente, no plano da política internacional, o Primeiro-ministro português age exatamente do mesmo modo.

 

 

Clusters para o embuste

por Amato, em 22.06.15

Gostava de escrever em algum lugar deste blog umas palavras que pudessem servir de marca definitiva do meu total e absoluto respeito por todas as diferentes opiniões políticas e filosóficas desde que suficientemente fundamentadas. A um chorrilho aleatório de palavras não se poderá chamar, em contexto algum, uma opinião. Mas todas as opiniões, por muito distantes que se possam situar das minhas, merecem a minha consideração, por mais que não fosse, por concorrerem para a substanciação e estruturação do meu pensamento.

 

Neste sentido, não tenho nenhum respeito pela opinião que se apresenta infundada, quase como uma armadilha do pensar. Não respeito as correntes opinativas que recolhem os argumentos à medida da conveniência momentânea. Não respeito, de todo, este oportunismo saloio que vive da dialética e de uma forçada sedução de massas. E, acima de tudo, não respeito, do ponto de vista político, todos aqueles que se reveem nesta forma de fazer política.

 

A esquerda política mundial sempre teve o condão, qual luz solar, de se dispersar em inúmeras forças e vertentes. Este processo tem, no meu entendimento, muito mais de artificial do que de natural. “Dividir para conquistar” é um daqueles ensinamentos que vêm plasmados na Arte da Guerra, aquele tratado militar que já tem barbas compridas como milénios. E a direita política tem prosperado a nível mundial fazendo um bom uso deste princípio. O revirar das areias do tempo funciona, neste particular, como uma peneira sábia, a qual separa o substantivo do adjetivo, o verbo do advérbio. Muitos partidos, movimentos, forças, vertentes, manifestos e tendências existiram com pujança no passado e, invariavelmente, desapareceram com a espuma dos dias. O tempo favorece sempre aqueles que permanecem fieis aos seus princípios e que o demonstram na sua prática e organização. O tempo não costuma favorecer o que é inconsistente e insubstancial.

 

É admirável, todavia, a forma como estes movimentos desaparecem tão depressa quanto nascem e renascem novamente, com novos nomes e novas palavras de ordem reinventadas, reinventados por inteiro. Não se percebe muito bem, de início, o que pretendem. Não se percebe o que representam, qual é o seu património ideológico e o que defendem, a não ser uma preocupação histérica com verdadeiras minudências quando vistas no panorama geral das coisas. Fazem bandeiras dessas minudências. Mas para lá disso é difícil de dizer. São pequenos movimentos com movimentos por dentro, com tendências dentro de tendências. Não falam a uma só voz. Pelo contrário, cantam como um conjunto coral contemporâneo em forma de clusters sonoros. Cada um tem uma opinião diferente da do colega de partido ao lado. Mas depois do espetáculo inicial que nos surpreende e entretém, passado algum tempo (novamente a importância do tempo aqui) a poeira assenta e começamos a discernir ao que vêm. Ah: afinal querem ser muleta de governação para os que nos têm desgovernado. Querem ser o CDS do PS. Afinal querem concorrer para esta bipolaridade artificial, esta sujidade política de pensamento único. Afinal tudo fica bem se eles entrarem na cena, no ambicionado arco de governação, se partilharem do poleiro.

 

Isto, o que descrevi acima, não respeito. E, repito, não respeito todos os que suportam este engodo, quer por serem incapazes ou preguiçosos de entendimento, quer por serem, eles próprios, ferramentas ao serviço do embuste.

O princípio

por Amato, em 19.06.15

De omnius dubitandum est (“duvide de tudo”), porque a perceção da realidade e a realidade são frequentemente diversas uma da outra.

 

Este princípio, por si só, fez de René Descartes o pai da chamada Filosofia Moderna e do racionalismo. Na Matemática, Descartes também deixou o seu dedo revolucionário com a criação da Geometria Analítica. Isto aconteceu porque se começou por questionar a si próprio, aos seus sentidos, e não aceitar nenhum axioma por tradição.

O desafio das convenções estabelecidas foi sempre, e sempre será, o maior dinamizador das mais importantes conquistas humanas. A aceitação dos diktats externos sem um questionamento, sem uma racionalização, constitui, contrariamente, o fermento putrefato dos tempos mais negros da humanidade.

A regra

por Amato, em 18.06.15

 

Vale tudo para vender, sobretudo para os “grandes”. Essa é a regra. Passei agora por uma padaria que dizia “Fabrico próprio. Forno a lenha.” quando, na verdade, apenas o processo de cozedura do pão é, eventualmente, ali feito. A massa de pão é produzida, na maioria dos casos, em processo de série de fábrica para, depois, ser distribuída pelas padarias do país. Algumas fazem questão de acrescentar um ou outro ingrediente mas, essencialmente, o pão que comemos vem da mesma fonte, feito com os mesmos ingredientes e na mesma proporção. A frase “Fabrico próprio” é, portanto, publicidade descaradamente enganosa.

 

Isto fez-me pensar que o adjetivo “enganosa” faz parte do substantivo “publicidade” tanto quanto o “branco” faz parte do “cisne”, porquanto da dificuldade manifesta em encontrar espécimes de outras cores. Então, lembrei-me da nomenclatura light tão em voga nos dias de hoje. Para que um produto possa ostentar a nomenclatura light, basta que reduza nuns meros e insignificantes pontos percentuais a quantidade de calorias em algum seu componente, mesmo que resquicial no panorama geral de ingredientes do produto. Algo do mesmo género, imagino, se passará com outras nomenclaturas como bio, agricultura biológica, ou carne do campo, pescado em alto mar, etc. Desconfio de todas elas porque, em última instância, a lei coloca-se do lado do lucro e permite as interpretações mais obscuras dos conceitos por mais estapafúrdias que possam ser. Não interessa, portanto, a interpretação lógica que fazemos dos adjetivos em causa. Estes cumprem primeiramente a missão de nos impingir os produtos que se pretende vender.

 

Mas existe um outro objetivo subliminar nestes rótulos, um objetivo mais geral e profundo. Esse objetivo é fazer crer às massas que este imperfeito sistema, governado pelo lucro e pela premissa do “vale tudo”, poderá ser corrigido com a ideia de que existe supervisão e controlo sobre cada tentáculo emergente. Esse controlo apresenta-se aos nossos olhos sob a forma destes rótulos, destas etiquetas e fazem-nos crer... A realidade, contudo, é menos sofisticada, é mais pragmática. O polvo consome os recursos materiais e humanos até à exaustão e sem precaver a sua sustentabilidade. Do que necessitamos, verdadeiramente, é de uma alteração filosófica de paradigma que governe uma transformação prática da sociedade desde as suas fundações. Apenas então será sensato proceder às afinações do sistema que a evolução da humanidade sugira.

Bilhar chinês

por Amato, em 16.06.15

Tal como já havia aqui mesmo vaticinado, algures neste blog, a TAP acabou por ser despachada como se de uma bagatela se tratasse. Observe-se que a palavra “bagatela” é aqui empregue na sua mais justa aceção. Com efeito e para que conste, no dicionário online da priberam vem: objeto de pouco valor; coisa sem importância; frivolidade, ninharia; o mesmo que bilhar chinês.

 

Há quem diga que os dez milhões não chegam para comprar um avião comercial. Pela minha parte, até podiam chegar para comprar dois ou três. Não percebo de compra e venda de aviões. O meu entendimento fica-se pelas questões da verticalidade, do caráter e, até mesmo e porque não dizê-lo, da moralidade da coisa. No dia seis de novembro de dois mil e seis esta mesma TAP adquiriu a Portugalia, uma companhia bastante mais pequena, pela módica quantia de cento e quarenta milhões de euros, catorze vezes mais do que o preço por que hoje é vendida. Por isso, para mim tudo isto é bastante claro: ou os administradores da TAP em dois mil e seis, bem como todos os responsáveis políticos de então, vão para a cadeia por uma exorbitante e injustificada compra e consequente gestão danosa, ou vão os de dois mil e quinze por uma venda a preço vergonhosamente simbólico, escandalosamente baixo e, portanto, gestão criminosa da coisa pública. Das duas uma. Ou somos um país decente e alguém vai para a cadeia, ou não somos.

 

O que se pensaria se uma empresa têxtil fosse vendida pelo preço de uma máquina de costura? Ou uma empresa de transportes rodoviários pelo preço de uma camioneta? Mas raciocinar segundo esta lógica significa que já caímos na armadilha do capitalismo: significa que para nós tudo tem um preço e que apenas subsiste a elementar tarefa de procurar um justo valor de venda. Não é verdade. Tudo isto é surreal. No mundo do Homem evoluído, do Homem solidário, do Homem da fraternidade e dos afetos que sabe que apenas pode evoluir com o seu vizinho e não contra ele, nesse mundo poucas são as coisas com uma etiqueta de preço agarrada. Não há um preço, há um valor. E o valor da TAP é imenso para o português ainda que este possa não o saber. Seguramente, porém, aprenderá o seu valor algum dia quando as companhias aéreas, todas privatizadas, conjugarem os seus interesses à frente dos nossos.

 

Das tristes declarações do nosso presidente da república, que se diz muito aliviado com esta dádiva que foi a privatização da TAP, nem uma palavra. Não constituem sequer objeto de admiração. Apenas sugerem pena. Ou o contraponto adequado a este bilhar chinês em que se tornou o desgoverno de Portugal.

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