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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Como coelhos

por Amato, em 26.01.15

Quão revolucionário foi o Papa ao dizer o óbvio? Que para amar a Deus, para quem nele crê, não é necessário imitar os coelhos? Falou até em “paternidade responsável”! Quão revolucionário é pronunciar estas palavras, por mais óbvias que se revelem a um qualquer cidadão educado e responsável?

 

O nível de revolução pesado em cada sílaba de cada palavra tem que ser entendido como diretamente proporcional à medida do retrocesso corrente da teoria e da prática da igreja. Não há outra forma de entender a coisa. Aí estão as vozes que contra ele vociferam e escrevem, até.

 

O extremismo, o seu princípio e génese, está aqui. Não é necessário procurar mais. E quando um católico aponta o dedo a uma outra religião devia lembrar-se que tem três dedos a apontar à retaguarda na direção do seu próprio umbigo.

A vida dos outros

por Amato, em 20.01.15
“What do we live for, if it is not to make life less difficult for each other?”

— Mary Ann Evans, mais conhecida pelo pseudónimo literário George Eliot

Um estudo sobre o sound bite

por Amato, em 13.01.15

“Give me a dozen healthy infants, well-formed, and my own specified world to bring them up in and I'll guarantee to take any one at random and train him to become any type of specialist I might select – doctor, lawyer, artist, merchant-chief and, yes, even beggar-man and thief, regardless of his talents, penchants, tendencies, abilities, vocations, and race of his ancestors. I am going beyond my facts and I admit it, but so have the advocates of the contrary and they have been doing it for many thousands of years.”

— John Broadus Watson, in Behaviorism

 

Quando em 1913 John Watson publicou o manifesto comportamentalista, ou behaviorista, com o título “Psychology as the Behaviorist Views It”, estabeleceu as bases para muito mais do que um ramo teórico de uma ciência. E as consequências eram mais do que esperadas e conscientes, acredito.

 

Com efeito, rapidamente as aplicações revolucionárias e ambiciosas que o Comportamentalismo prometia foram tomadas pelo estado natal de Watson com tremendo interesse, de tal forma que rapidamente o ramo substituiu a ciência-mãe em termos de projeção. O que era a Psicologia se não o Comportamentalismo?

 

As aplicações do Comportamentalismo inserem-se num grande saco chamado de propaganda. Propaganda através do condicionamento: frases subliminares, criação orientada de ficção, criação de falsos modelos sociais, cinema, banda desenhada, heróis, séries policiais, anúncios, ... Tudo isto podemos observar todos os dias: basta ligar a televisão, ler o jornal, ver os cartazes na autoestrada ou ouvir um anúncio entre músicas da rádio. E a mensagem passa, ainda que rejeitada inicialmente. Permanece nalguma camada do subconsciente a marinar e a condicionar de alguma forma as nossas opções e as nossas opiniões quando realmente precisarmos de as tomar nas nossas mãos. Nesse momento, as opções que tomarmos já não serão apenas nossas, mas antes um produto de todo este processo.

 

O sound bite é isto mesmo. É algo que inunda os meios de comunicação e abafa tudo o resto. Obriga-nos a concentrar no que os autores pretendem e não necessariamente no que realmente é o mais importante. Como um som, uma mensagem, que fica ali, a martelar continuamente na mente. Faz com que um telemóvel novo seja mais relevante do que um livro, ou com que um jogo de futebol seja mais importante do que um hospital sem médicos, enfermeiros, técnicos e macas.

Charlie ou hypocrite?

por Amato, em 12.01.15

Acabo de ver na televisão um personagem muito indignado com este “ataque violento à liberdade de expressão” quando, há um par de anos atrás, colocou em tribunal um humorista que fez uma inócua piadola sobre o género dele, feminino ou masculino.

 

Se se trata de liberdade de expressão, então são iguais os ataques à bala e os ataques com a ponta da caneta. Se se trata de liberdade de expressão é indiferente se se coloca uma bomba ou um processo em tribunal.

 

A questão é que não se trata de liberdade de expressão. Essa, aliás, anda pelas ruas da amargura independentemente de mais ataque menos ataque. Veja-se o estado do humor em Portugal, a projeção e a cultura que tem. Trata-se, sim, de um ataque à segurança dos povos e, é precisamente por isso, pelo pânico gerado pela insegurança, que o povo se move.

 

“Je suis charlie” é apenas mais um sound bite, daqueles que abafam tudo o resto. No final, quando a poeira pousar, ficará tudo igual, se não pior, no que à liberdade de expressão diz respeito. Com efeito, aproximam-se reuniões de ministros e de líderes europeus e mundiais que preparam mais restrições às liberdades individuais e à privacidade dos povos europeus, em decalque daquilo que foi feito nos estados unidos.

A gravidade relativa das notícias

por Amato, em 09.01.15

“(...) Ela lia as catástrofes lentamente, com a serenidade que tão bem convinha ao seu sereno e puro perfil latino. «Na ilha de Java um terramoto destruíra vinte aldeias, matara duas mil pessoas...» As agulhas atentas picavam os estofos ligeiros; o fumo dos cigarros rolava docemente na aragem mansa – e ninguém comentou, sequer se interessou pela imensa desventura de Java. Java é tão remota, tão vaga no mapa! Depois, mais perto, na Hungria, «um rio trasbordara, destruindo vilas, searas, os homens e os gados...». Alguém murmurou, através de um lânguido bocejo: «Que desgraça!» A delicada senhora continuava, sem curiosidade, muito calma, aureolada de ouro pela luz. Na Bélgica, numa greve desesperada de operários que as tropas tinham atacado, houvera entre os mortos quatro mulheres, duas criancinhas... Então, aqui e além, na aconchegada sala, vozes já mais interessadas exclamaram brandamente: «Que horror!... Estas greves!... Pobre gente!...» De novo o bafo suave, vindo de entre as rosas, nos envolveu, enquanto a nossa loura amiga percorria o jornal atulhado de males. E ela mesma então teve um «oh!» de dolorida surpresa. No Sul da França, «junto à fronteira, um trem descarrilando causara três mortes, onze ferimentos...» Uma curta emoção, já sincera, passou através de nós com aquela desgraça quase próxima, na fronteira da nossa península, num comboio que desce a Portugal, onde viajam portugueses... Todos lamentaríamos, com expressões já vivas, estendidos nas poltronas, gozando a nossa segurança.

 

A leitora, tão cheia de graça, virou a página do jornal doloroso, e procurava noutra coluna, com um sorriso que lhe voltara, claro e sereno.... E, de repente, solta um grito, leva as mãos à cabeça:

 

– Santo Deus!...

 

Todos nos erguemos num sobressalto. E ela, no seu espanto e terror, balbuciando:

 

– Foi a Luísa Carneiro, da Bela Vista... Esta manhã! Desmanchou um pé!

 

Então a sala inteira se alvorotou num tumulto de surpresa e desgosto.

 

As senhoras arremessaram a costura; os homens esqueceram charutos e poltrona; e todos se debruçaram, reliam a notícia no jornal amargo, se repastavam da dor que ela exalava!... A Luisinha Carneiro! Desmanchara um pé! Já um criado correra, furiosamente, para a Bela Vista, buscar notícias por que ansiávamos. Sobre a mesa, aberto, batido da larga luz, o jornal parecia todo negro, com aquela notícia que o enchia todo, o enegrecia.

 

Dois mil javaneses sepultados no terramoto, a Hungria inundada, soldados matando crianças, um comboio esmigalhado numa ponte, fomes, pestes e guerras, tudo desaparecera – era sombra ligeira e remota. Mas o pé desmanchado da Luísa Carneiro esmagava os nossos corações... Pudera! Todos nós conhecíamos a Luisinha – e ela morava adiante, no começo da Bela Vista, naquela casa onde a grande mimosa se debruçava do muro, dando à rua sombra e perfume.”

 

in As Catástrofes e as Leis de Emoção, Bilhetes de Paris, de Eça de Queirós

 

 

A propósito dos incidentes em Paris, lembrei-me deste pedaço de genialidade de Eça, chamado de As Catástrofes e as Leis de Emoção que, muito coincidentemente, faz parte de um conjunto mais alargado de textos intitulado Bilhetes de Paris.

 

Seria importante que nós, enquanto povo, nos sensibilizássemos ativamente não apenas (e muito justamente!) com o que nos acontece próximo do nosso quintal mas também com o resto, nomeadamente com os bombardeamentos permanentes que acontecem na Faixa de Gaza e na Cisjordânia e que, todavia, passam incólumes nas notícias.

“We are in the zone where normal things don't happen very often”

por Amato, em 08.01.15

Possuo uma mente ávida de conspiração. É um facto. E é muito fácil para mim identificar estratégias conspirativas no seio das mais banais cenas quotidianas. É bom que o afirme desde já.

 

Todavia, os acontecimentos recentes que ocorreram tão perto do coração da França arrebataram-me a imaginação. Não consigo conceber a coisa do ponto de vista lógico. Simplesmente não consigo.

 

Recentemente passeei pela Avenida dos Campos Elísios, Notre Dame, Montparnasse e senti, na pele, as rusgas impiedosas pelas camionetas que faziam o acesso à cidade. Sublinho a adjetivação. Impiedosas. Militares armados até aos dentes e de má cara, como é seu apanágio, revistaram todas as malas e passaram a pente fino todas as identificações. Lembro-me de murmurar: “qual união europeia, qual espaço schengen, qual quê...”.

 

E passadas umas escassas semanas acontece isto...

 

É difícil de acreditar que uma operação destas possa ser montada por debaixo dos narizes daqueles que têm o poder de saber a que horas cada um de nós se levanta, quando vamos ao quarto de banho, o que tomamos ao pequeno almoço, as compras que fazemos, o que pesquisamos na internet, etc, fruto da rede de satélites que passam o dia a orbitar em torno das nossas cabeças e do controlo absoluto dos meios de comunicação. É difícil de acreditar que uma operação de tamanha envergadura, que envolve armas e armas de grande porte, combinações e planeamento apurado, possa passar despercebida e surpreender as nossas sociedades que, desde o onze de setembro, tanto desconsideram a privacidade dos seus cidadãos em favor de um suposto combate ao terrorismo.

 

Mas ainda que dê de barato que, por improvável que seja, a coisa possa acontecer e surpreender o mundo em plena luz do dia, como aliás aconteceu, ainda que possa acreditar nisso, o mesmo não poderei fazer relativamente às cenas subsequentes: em plena luz do dia e à vista de todos, os criminosos fugiram às autoridades que, de momento, lhes perderam o rasto. É simplesmente inconcebível.

 

Parece que entrámos numa twilight zone repleta de situações surreais que não fazem sentido algum.

 

Não obstante, tudo isto me parece muito perigoso. A extrema direita francesa está a um pequeno passo do poder e toda esta situação encaixa na perfeição numa linha de argumentação xenófoba e intolerante, fornecendo ilustração conveniente. Esperemos que tudo isto não sirva de empurrão decisivo e oportuno para um retrocesso generalizado nos valores da igualdade e da solidariedade entre os povos do mundo.

 

Termino com uma nota breve. Como fica demonstrado ao longo dos eventos que marcam este novo milénio, a segurança das sociedades não se faz com um excesso de forças de segurança, nem com ações repressivas das liberdades individuais. A segurança é uma consequência mais complexa de uma sociedade saudável, formada por cidadãos com emprego e qualidade de vida. Pensar que se resolvem os problemas despejando militares munidos de metralhadoras nas sociedades, revistando aleatoriamente os seus cidadãos, é armar um espetáculo que não resolve coisa nenhuma, a não ser limitar a liberdade da esmagadora maioria de cidadãos cumpridores. Nestes momentos, é importante que se pense no tipo de sociedade que estamos a construir, das sementes que estamos a plantar e, mais do que nunca, não sucumbir ao medo.

Até às próximas férias...

por Amato, em 07.01.15

 

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