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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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O Natal como um reflexo

por Amato, em 12.12.14

O Natal diz tanto sobre o que somos, tanto sobre o que pensamos, tanto sobre a nossa natureza... O Natal é uma quadra em que queremos acreditar que somos melhores do que o que somos; em que queremos acreditar que nos importamos com os que nos rodeiam, a família e os outros. Queremos mostrar que valorizamos aquilo que realmente parece nobre e importante.

 

Em muitos casos juntam-se à mesa pessoas que se ignoram durante o resto do ano. Dizem-se, ouvem-se, cantam-se versos que são frases que nos parecem ridículas se desenquadradas noutra estação do ano. E multiplicam-se as campanhas de caridade disfarçada de solidariedade por toda a parte, por toda a razão sensibilizante até às lágrimas do maior cínico. Quando, ao longo do ano, essas razões perdem toda a relevância que pareciam ter subjugando-se, com naturalidade, às leis de competição que presidem à sobrevivência do Homem.

 

Assim é. Aliás, assim tem sido.

 

O Natal apresenta-se, assim, como um par de semanas que funcionam como um oportuno escape a uma rotina cristalizada como normal e óbvia no resto do ano. As pessoas precisam disto. Lavam o caráter, esfregam os calos e as cicatrizes acumuladas ao longo do ano e preparam-se, de alma esfoliada, para outro ano de hábitos iguais.

 

O Natal é o reflexo óbvio da sociedade em que vivemos, das nossas convicções, das nossas opções. Se a sociedade fosse outra, o Natal poderia ser um dia qualquer, um dia como outro qualquer. Ou então, um valorado símbolo, e não oco, de um conjunto de valores que se considerassem importantes e estruturantes.

O artista e a sociedade

por Amato, em 09.12.14

A era moderna trouxe na algibeira uma explosão cultural. Essa explosão teve uma forte carga revolucionária: nunca se escreveu tanto, nunca se produziu tanta música, nunca se fizeram tantos filmes, nunca como agora. Contudo, existe uma parte, com precisamente igual peso, que é puro fogo de artifício: fogo para iluminar a vista e distrair o olhar.

 

No sentido de contrariar o potencial transformador desta realidade os órgãos de poder que presidem aos destinos do Homem encontraram uma forma simples e genial: a propaganda e a mediatização de preferências. Estes instrumentos permitem orientar os “gostos” das massas de forma tão eficaz como se de um pastor e seu rebanho se tratasse.

 

Este processo conduziu a uma mutação da forma como se encara hoje o artista. O artista do vigésimo século, aquele que havia chamado a si o papel reflexivo e transformador da realidade que então o rodeava, não existe mais. Nos dias que correm a perceção dominante é a de um homem comum, não necessariamente particularmente dotado, que, abençoado pelo acaso, produz uma obra capaz de entreter.

 

Entreter. O entretenimento é, aqui, a palavra-chave. O artista deve produzir histórias que entretenham, imagens ou sons que regalem os sentidos. Não são bem vistos aqueles que tomam partido por algo que não seja tão trivial como matar a fome ou a sede.

 

Assim, nos dias de hoje, a obra de arte deve ser algo tão inerte como um gás nobre. Deve-nos entreter com algum assunto pseudo-fraturante, tão tenuemente aprofundado quanto possível, que nos permita a emissão de opinião fácil e, em simultâneo, que assim perdure na memória enquanto cliché mas que, enquanto substância, seja objeto de esquecimento imediato.

 

No final de contas, a era moderna produzirá menos grandes artistas do que aquela explosão cultural de que falava faria supor, não porque eles não existam, os verdadeiros, aqueles que colocam em causa os axiomas e os paradigmas desta sociedade, mas porque se encontram tão abafados e escondidos, sob quilos de camadas dos outros artistas que hoje se produzem, que a sua descoberta, daqui por duzentos anos, constituirá uma tarefa de acrescida dificuldade.

Humanidade

por Amato, em 06.12.14

“A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e parece como um tributo indiferenciado do planeta. Parece como uma coisa qualquer.”

— Valter Hugo Mãe, A Desumanização

Coligações

por Amato, em 01.12.14

Neste fim-de-semana de congresso, cujo principal objetivo foi escolher caras e clarificar posições relativamente a poleiros internos, muito se falou em coligações. Disse-se que à direita, nunca!

 

Nunca?!

 

Estaremos assim tão privados das nossas faculdades para aceitar esta retórica? Às vezes, penso que falta-nos muito conhecimento de história contemporânea. O PS já demonstrou ad nauseam quem são os seus aliados políticos, seja em coligação efetiva, seja em acordos parlamentares, para que aceitemos este género de hipocrisia.

 

Depois disse-se: “alianças só à nossa esquerda mas...”

 

Mas isso é o que realmente fica bem dizer-se neste momento. Fica bem dizer-se que se é diferente, enquanto oposição, do que se foi no governo, governo após governo. Regressa sempre aquele comportamento bipolar que normalmente serve de trampolim para os assaltos ao poder.

 

O que seria realmente importante dizer era outro género de coisas. Era dizer com que linhas é que nos devemos coser. Dizer que os cortes na economia vão ser eliminados. Dizer que se vai restruturar a dívida, cada vez mais asfixiante. E dizer mais: dizer que se vão rever os acordos com a UE que nos estrangulam economicamente; dizer que se vai reverter este plano de nos tornar um país improdutivo e um satélite descartável de países como a Alemanha.

 

Nada disto foi dito e, na verdade, nenhuma coligação pode ser construída com base em ilusões. E ainda que se dissesse o que se devia, ainda assim, o PS teria muito crédito a conquistar junto dos outros partidos, daqueles que não ajoelharam perante a troika, devido ao passado que carrega, que também é o seu presente de sempre, e que não se limpa com meras palavras.

 

Claro que ganhar esse crédito nunca esteve no horizonte do PS. O partido sabe que se não obtiver maioria absoluta arranja o apoio de algum dos suspeitos do costume. Pode ser da muleta autodeclarada, pode ser do bloco central, pode até ser de um ou outro deputado dos queijos, como foi no passado. Dêmos asas à nossa imaginação: pode ser de um destes partidos que surgiram cheios de boas intenções, haja inocentes suficientes para votarem neles e contribuírem para a política liberal que está, desde a fundação, no genoma do PS.

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