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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Dois meses mais até à eternidade

por Amato, em 28.12.14

Dois meses mais como se de uma unidade de distância e não de tempo se tratasse. São mais dois meses aqueles que um cidadão deve trabalhar para ter acesso à sua reforma, num incremento sem fim, sem que de antemão soubéssemos que a idade da reforma sofre de igual modo a influência da inflação assim como o preço da massa ou do arroz.

 

Dizem que vivemos muito mais tempo. Por aqui, confesso que os velhos vão morrendo na mesma. Morrem das mesmas doenças e maleitas. São as mesmas que existiam antes do dobrar do milénio, só que agora têm nomes próprios, só seus, quando anteriormente eram confortavelmente acomodadas naquela categoria que a todas abraça: as “doenças da velhice”. Agora têm nomes próprios, conhecemo-las pelos nomes e os médicos perderam a dúvida no olhar no momento do diagnóstico. Chamam-nas pelos nomes de forma categórica. Depois levam os velhos para os edifícios novos e gigantes que hoje existem e submetem-nos a uma série de experiências. São experiências que envolvem químicos luminosos e raios invisíveis mas que queimam a pele. Dizem que são tratamentos que atrasam o chegar da morte. Por vezes abrem-nos. Abrem-nos e fecham-nos. Aos velhos. Quando a coisa perde o interesse, libertam-nos. Deixam-nos vir morrer a suas casas. Chamam-lhe tempo de sobrevida.

 

Ao ouvir as notícias sobre a segurança social fico feliz. Por momentos sinto que sou eterno. Que superarei um século e não ficarei por aí. Depois, olho em volta. E vejo os velhos a morrer do mesmo modo e à mesma velocidade com que morriam pouco depois de a segurança social ter sido criada. Morrem na mesma, só que agora sabem o nome daquilo que os mata.

A mais bonita música de Natal

por Amato, em 26.12.14

 

A Ilha Desconhecida

por Amato, em 24.12.14

“(...) Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar a proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.”

— José Saramago, O Conto da Ilha Desconhecida

Quadra de moralidade

por Amato, em 22.12.14

Quando era mais novo, muito novo, quando não fazia ideia sequer das consequências dos atos, nem ponderava sobre as causas dos mesmos, quando pensava que todo o universo se movia em torno do meu ego, houve uma lista de valores, de princípios, que me foram impingidos, sem uma qualquer ordem natural. Eram valores que se considerava importantes e estruturantes daquilo que eu poderia ser e que, sob uma certa perspetiva de desenvolvimento, germinaram naquilo que hoje constitui o meu quadro moral.

 

Detesto a palavra moralidade. Detesto-a por estar tão umbilicalmente relacionada com as forças mais retrógradas das sociedades humanas e porque, ultimamente, serve sempre de pretexto para os poderosos enraizarem e perpetuarem o seu jugo sobre os mais fracos.

 

Por isso, esta moralidade de que falo nada tem que ver com aquela que se aprende nas catequeses. São os valores dos homens que existiam muito antes das religiões e dos deuses nascerem. São os princípios dos homens que trabalham e que juntos sobrevivem o dia-a-dia e que amam e se respeitam como irmãos e não como concorrentes. Em última análise, foi essa particularidade das sociedades primitivas humanas que permitiu ao Homem deixar os demais animais para trás na escada evolutiva.

 

Neste contexto e no contexto da presente quadra natalícia, independentemente do seu significado religioso, queria apontar o seguinte. Um dos valores que me foi transmitido foi que aquele que ajuda não se deve regozijar por isso. Ninguém deve saber. Não deve tomar crédito da ajuda que deu, nem tão pouco adquirir qualquer tipo de vantagem pelo que fez, pois não é por isso que o deve fazer. E contudo...

 

Hoje não há uma grande superfície, não há um tentáculo capitalista, que não tenha a sua pequena ação caridosa ou campanha solidária, às vezes até mais do que uma, ao sabor do bom espírito natalício. Não existe um que seja. Nunca vi tal igual. E anunciam-no aos sete ventos! Anunciam-no para que acorramos a comprar nos seus estabelecimentos transbordando de piedade ou do que quer que seja.

 

Ninguém impede que essas lojas e lojinhas façam os seus donativos que, aliás, devem fazer, mas usar a solidariedade como slogan publicitário é demasiado baixo. Tão baixo que me surpreende que aceitemos isto como natural. Surpreende-me que se permita isto. Estará o Homem do século XXI tão afastado assim do seu antepassado ancestral? Por ventura, tratar-se-á de um tipo contemporâneo de moralidade oportunamente disseminado nesta quadra.

Uma versão do equilíbrio económico de Nash

por Amato, em 18.12.14

“It was supposed that the pearl buyers were individuals acting alone, bidding against one another for the pearls the fishermen brought in. And once it had been so. But this was a wasteful method, for often, in the excitement of bidding for a fine pearl, too great a price had been paid to the fisherman. This was extravagant and not to be countenanced. Now there was only one pearl buyer with many hands, and the men who sat in their offices and waited for Kino knew what price they would offer, how high they would bid, and what method each one would use.”

— John Steinbeck, The Pearl

 

“A greve é um direito inalienável, mas...”

por Amato, em 17.12.14

Não procurem mais. Não é preciso. Frases como esta dizem tudo. Lembro-me de outras como: a democracia é muito bonita, mas “não sei se, a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha a democracia.”

 

O problema está justamente no “mas”. O “mas” muda tudo, põe tudo o que o precede em causa, inverte-o, por vezes, retira-lhe a substância. Ao mesmo tempo mostra a verdadeira natureza da substância de que são feitas as pessoas que dizem tais frases, daquilo que verdadeiramente acreditam. E não acreditam nem em greves, nem em direitos sindicais, nem em democracia.

 

Aproximem-se, senhoras e senhores! Aqui está plasmada a natureza de quem nos governa!

Tipos de escrita

por Amato, em 16.12.14

O universo da escrita pode ser dividido em três tipos essenciais.

 

Em primeiro lugar temos os escritores que escrevem sobre o que experimentam, o que sentem e o que vivem e relatam-no tão fielmente como quanto acreditam possível. Para estes o importante é isso mesmo: traçar um retrato da sociedade e da natureza tão fiel quanto a sua capacidade artística permite.

 

Em segundo lugar existem aqueles que se centram sobre o seu universo imaginário e escrevem, assim, não sobre a realidade em si, mas sobre uma realidade possível, sobre uma existência especulativa. A estes segundos se devem as ilusões e os impossíveis, as utopias, os ideais e os sonhos.

 

Em último lugar e, por mera intenção de exaustividade, temos os escritores que escrevem sobre o que ouvem dizer, sobre o que leem nos jornais, ouvem na rádio ou na televisão, não se podendo intersetar necessariamente nem com o primeiro grupo nem com o segundo, pois na verdade, nada do que dizem será inteiramente seu.

 

O terceiro grupo constitui-se objetivamente como um “verbo de encher”, um eco de outras vozes, destinado a perder-se como murmúrio inaudível, por vezes, não tão rapidamente quanto o desejável.

 

É minha convicção que é de uma conjugação harmoniosa do primeiro grupo com o segundo que surge a grande obra na presença da qual o público encontra genuína e autêntica identificação e, ainda, ter nela uma lanterna, um farol, para iluminar o futuro e aquecê-lo numa manta de retalhos que são sonhos de muitas e diferentes cores. Sonhos tão essenciais para quebrar paradigmas, construir novos e, enfim, fazer com que o Homem se erga e caminhe em frente.

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