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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Associação de ideias

por Amato, em 18.11.14

O facto de Miguel Macedo se ter demitido não faz dele um “grande” homem. Quanto muito, faz dele uma pessoa que terá tomado uma posição politicamente louvável perante o imbróglio em que estará envolvido. Uma coisa não tem que ver com a outra, por muito que este tipo de atitude não seja replicado tão frequentemente quanto devia. Mas há uma franja da sociedade que teima em fazer aquela primeira associação. Será apenas boçalidade? Ou será aquela típica reação de defesa, para camuflar e lavar parcamente a face de uma situação grave, inquinando também o debate público?

Vermes e homens

por Amato, em 17.11.14

Por vezes dou comigo num estado letárgico, depressivo. Parece que todas as pessoas com voz pública que conseguem conquistar um pouco da minha admiração estão irremediavelmente fadadas para me desiludir. Ou, por ventura, estarei eu destinado a me desiludir com elas. Parece que todos têm um preço à espera de ser batido, como se o património ideológico de cada um fosse objeto de um leilão fechado. Por outro lado, talvez a raiz do problema esteja no saco de onde retiram estas pessoas para preencher o espaço mediático.

 

Já me desiludi com tantas pessoas que dói: com jornalistas que criticavam ferozmente governantes corruptos para logo depois assumirem a defesa de idêntica corrupção corporizada nos que se seguiram; com comentadores e fazedores de opinião que escrutinavam com irrepreensível minúcia, sob uma capa da mais inabalável moralidade, os atos de determinados governos para, logo após o derrube dos mesmos, assumirem a defesa de quadros morais e opinativos escandalosamente antagónicos. Já me desiludi, enfim, com humoristas de vanguarda, que outrora se assumiram como os verdadeiros megafones de causas nobres e esquecidas, como vozes com a força e a pujança, a projeção e o destaque mediáticos, que os partidos que defendem tais causas inevitavelmente não têm, para que, navegando sobre as ondas do sucesso, venderem a sua voz, o seu património, por um anúncio qualquer ou uma promessa de algum poleiro.

 

Já me desiludi com muita gente ao longo dos anos e a inocência perdida revela-se no reconhecimento da natureza repetitiva e circular deste processo. Somos apenas humanos e encontramo-nos condenados aos limites da nossa humanidade. Mas isto é apenas a maneira simplista de encarar a coisa. Não me choca que estas pessoas professem as suas opiniões correntes. Enoja-me que tivessem defendido outras com o único propósito de se fazerem notar, subir na vida ou pagar um favor. Enoja-me o caráter flutuante das suas opiniões. Enoja-me a carência de uma espinha dorsal. Estas são as menores amostras de humanidade de que dispomos. Estas são as pessoas que devemos verdadeiramente temer na vida. Se amanhã o país cambiar de regime, estes serão os seus primeiros apóstolos. De igual modo, serão também os tumores responsáveis pelo eventual falhanço de todo e qualquer projeto social.

Consistência dos conceitos

por Amato, em 15.11.14

Falamos muitas coisas, falamos sobre muitas coisas, mas sobretudo falamos de forma leviana. Utilizamos os conceitos como se eles fossem entidades mais ou menos vagas ou com uma definição subentendida, mas que resulta em entendimento nenhum. Refiro-me a conceitos como “democracia” ou “liberdade”. Questiono-me muitas vezes sobre o entendimento que sobre eles temos. Porque o conceito é o conceito e não depende da conjuntura ou do contexto em que é usado.

 

Mas conceitos como “democracia” ou “liberdade” costumam ter uma interpretação na vida particular, outra na vida social, outra ainda na vida laboral e, enfim, uma outra na vida religiosa. Como se fossem palavras homónimas descrevendo conceitos muito diferentes, por vezes antagónicos, não obstante serem denominados pelo mesmo substantivo. Assumem ainda em diferentes momentos da linha temporal interpretações distintas.

 

Para concretizar vejamos o seguinte. Existe uma maioria de vozes que rejeita os dogmas, o autoritarismo, por exemplo, em diversos contextos, nomeadamente a nível político. Rejeitaram-se as monarquias absolutistas e as ditaduras, os reis-deus e os líderes supremos. Sublinho esta tomada de consciência como um dos mais importantes passos dados pela humanidade, sobretudo pelos povos europeus, no século XX. Contudo, uma parte considerável dessas mesmas vozes, importantes alicerces sociais, abraça esses mesmos dogmatismo e autoritarismo no preciso segmento onde, quem sabe, os valores da liberdade e da democracia serão mais relevantes: as suas vidas espirituais. Com efeito, aí, submetem-se frequentemente e de livre vontade, sem questionar, sem indagar o que quer que seja, à palavra de terceiros justificada por um qualquer texto dito “sagrado” em nome de uma qualquer entidade dita “deus”. Não critico o que quer que seja, bem entendido. Apenas observo a realidade. As pessoas rejeitam certos conceitos num contexto e aceitam-nos noutros, quando à primeira vista não há qualquer razão substantiva para essa dicotomia.

 

Tudo isto quando, em pleno século XXI, as celebrações religiosas poderiam ser já assembleias de diálogo e de debate, de troca de ideias, entreajuda e solidariedade, enfim, seguindo uma evolução semelhante à que os sistemas políticos sofreram, aproximando-se dos mesmos. Ao invés, mantêm-se as mesmas tradições milenares de injeção vertical de pensamentos, do pastor para o rebanho. Mantêm-se os hábitos, bem entendido, pela expressa vontade das comunidades que sustentam esses cultos. Assim elas quisessem e não haveria dogma qualquer que subsistisse.

 

Esta ambivalência de interpretações não deixa de ser desconcertante porque com ela adivinhamos a inconsistência do ponto de vista prático dos conceitos supramencionados. Adivinhamos que, por exemplo, fornecido o contexto apropriado, o que chamamos hoje de democracia e de liberdade poderá ter uma interpretação muito diferente no dia de amanhã, o que, aliás, não é inédito. Efetivamente, os anos da troika, que ainda prosseguem, vieram trazer interpretações distintas a outros conceitos e valores que uma parte do povo julgava por adquirido.

Ser grande

por Amato, em 14.11.14
Quem não for capaz de defender uma ideia com a sua própria vida, a força do seu braço, o correr do seu sangue, não está à altura dessa mesma ideia.”
— Thomas Mann, A Montanha Mágica

Contas certas

por Amato, em 13.11.14

É preciso uma dose de leão em termos de descaramento para, depois de toda a história ultrapassada destes anos de governação, falar-se em “contas certas”. Mais: é preciso uma comunicação social conivente e incapaz de contrapor com uma pergunta que reflita minimamente a realidade das coisas. A realidade, por exemplo, da dívida galopante no que aos seus encargos diz respeito, das medidas extraordinárias para mascarar défices praticamente esgotadas, pois pouco sobra para privatizar e vender, um país delapidado do seu património humano que todos os dias, basta visitar os aeroportos portugueses, deixa o país para procurar uma vida melhor.

 

Tudo isto para operar uma mera reciclagem da nossa dívida. Nada mais. Devíamos a uns agiotas quaisquer, com os quais aliás teríamos possibilidade de negociar de uma forma mais vantajosa o cumprimento das nossas obrigações, e passámos a dever (mais) às mais altas instituições mundiais, submetendo-nos às suas condições altamente lesivas para o nosso tecido económico e que comprometem seriamente o futuro do país.

 

E o primeiro-ministro fala em “contas certas”. Não estamos melhor nem em um mero ponto percentual do que aquilo que estávamos aquando do início da crise, bem pelo contrário. Nem em termos de despesa, nem em termos de receita, de forma estrutural. Não estamos melhor em nenhum domínio. Quanto muito, por termos caído tão baixo, tão fundo, pelo facto do produto interno bruto, da população ativa, por exemplo, terem sido reduzidos a mínimos históricos, qualquer dado que surge é interpretado com otimismo boçal.

A ironia do sistema

por Amato, em 11.11.14

“Men who have created new fruits in the world cannot create a system whereby those fruits may be eaten.”
― John Steinbeck, As Vinhas da Ira

A história é contada pelos vencedores das guerras

por Amato, em 10.11.14

Houve um tempo em que tive um professor genial. Uma vez, imediatamente antes de uma aula principiar, trocámos dois dedos de conversa sobre literatura. Eu falava-lhe de um romance histórico de cuja leitura havia considerado assaz interessante, ao que o professor retorquiu dizendo que não lidava bem com obras que misturavam ficção com realidade. A minha resposta, contrariamente ao que é comum, escapou-se célere pela boca fora, quase não passando pelo sítio onde é verdadeiramente importante que passe: o cérebro. Disse-lhe, então, que toda a “realidade” é, ela própria, uma ficção. Uma história contada pela boca daqueles que vencem os conflitos e as guerras.

 

Tem sido sempre assim. Olhando em retrospetiva pelo lençol de factos que conhecemos da humanidade comprovamos, facilmente, que sabemos muito pouco das nações vencidas, dos povos dominados e subjugados. E que mesmo esses povos que ainda subsistem, residuais, sabem muito pouco de si próprios. Uma vez vencidas as guerras, o lado que se sobrepõe trata de encetar um processo de afirmação sobre os derrotados que passa por uma propaganda de demonização dos mesmos, com vista à dominação total de consciências. Foi assim com os grandes impérios da antiguidade que, já naqueles tempos, procederam a massivos processos de aculturação das regiões dominadas. Foi assim com boa parte das religiões dominantes que se apropriaram de alguns elementos das anteriores, adaptando-os, e achincalharam outros. Quem não reconhece na figura do diabo do cristianismo vários elementos das divindades pagãs? Os cascos e os chifres de Baco, o tridente de Neptuno, as características de Vulcano ou Plutão? Foi sempre assim. E é assim com os impérios contemporâneos também.

 

Tornámo-nos mais sofisticados. A passagem dos tempos trouxe-nos isso. Criámos a psicologia e do seu ventre nasceu, quase de imediato, o comportamentalismo (behaviorismo). Este segmento da psicologia trouxe-nos uma compreensão mais fina do comportamento não apenas do indivíduo per si mas do indivíduo no contexto social. O comportamentalismo iluminou-nos o entendimento do comportamento das massas e as máquinas de propaganda contemporâneas bebem desse conhecimento como elixir mágico que lhes permite incutir subliminarmente os pensamentos precisos que pretendem e extrair as reações esperadas. Fazem uso também das ferramentas de comunicação que foram desenvolvidas e que tornam capaz uma disseminação rápida e eficaz da mensagem, como nunca havia sido possível. Os povos do mundo contemporâneo constituem-se como verdadeiros ratos de laboratório destas ciências.

 

Surgiu-me esta breve reflexão a propósito do aniversário da queda do muro de Berlim. Não é surpreendente verificar o tratamento jornalístico que é dado ao acontecimento, às suas repercussões e implicações, não somente em termos de geopolítica, mas sobretudo no que à evolução política e social, que tem existido em cada país desde então, diz respeito. Não pensem que me coloco a favor dos regimes de leste que se fecharam atrás daquela “cortina de ferro” simbolizada naquele muro. A sua queda foi, bem entendido, um momento marcante da história do Homem e deve ser recordada como tal. Não obstante, seria importante que a reflexão deixasse, de uma vez por todas, o seu tom marcadamente vexatório e se tornasse um pouco mais ponderada e inteligente. Porque aqueles regimes tinham também as suas virtudes para lá do autoritarismo que nos enubla a visão. Gostava que se falasse um pouco mais delas e não apenas dos pecados cometidos que já sabemos de cor. Gostava que se falasse um pouco da educação e da formação; da irradicação da fome, da pobreza e da mendicidade; da assistência médica e dos recordes muito positivos atingidos nos números da esperança média de vida e na mortalidade infantil; mas também que se referissem os períodos de efervescência na arte e na cultura, em geral, disseminadas por toda a população e não disponíveis somente para as elites. Gostava que se discutisse isso e muito mais com inteligência e bom senso. Porque repito: ninguém quer o pior daquele mundo. Mas acontece que o melhor daquele mundo ainda não foi sequer aproximado pelo melhor que este mundo em que vivemos nos oferece. E a falta desse contraponto, que foi destruído com a destruição do muro de Berlim, retirou-nos essa capacidade de olharmos para nós próprios de forma crítica, com a intenção de nos melhorarmos, de melhorarmos o sistema, de construirmos algo novo. Esse sonho, que animou os povos durante o vigésimo século, foi, em parte, destruído com o muro. Nos dias de hoje, a esmagadora maioria do povo olha para o estado capitalista como algo acabado, como um ponto de chegada, e isso é, realmente, uma tragédia.

 

A história é contada pelos vencedores das guerras. O meu professor parou e refletiu um pouco. Depois, soltou uma gargalhada: «Tens razão».

 

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