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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

A perfeição da democracia

Noutro dia conversei com uma pessoa que me dizia: “a democracia é imperfeita” porque “as pessoas votam de acordo com os seus interesses e não de acordo com os seus ideais”.

 

Ouvi e concordei com a naturalidade do argumento. É verdade que uma boa parte da população vota de acordo com os seus interesses: basta atentar para o que se passa a nível local, onde as eleições autárquicas são as mais concorridas, e ver o que os candidatos vencedores oferecem e como o pagam, findadas as eleições. Sabemos disso.

 

Sabemos que os ideais ficaram fora de moda. Conhecemos a energúmena sentença “são todos iguais”, quando na verdade o “todos” significa “eu”. Conhecemos esta inércia e esta acomodação ao sistema, de como as coisas se processam. Acreditamos que isto é o melhor que podemos ter e que não vale a pena sequer imaginar outra organização que possa ser mais equilibrada. Para muitos atingimos o estádio final de evolução da humanidade.

 

Sabemos de tudo isto e tudo isto faz soar com verdade e assertividade a conclusão “a democracia é imperfeita”, porque foi através dela que aqui chegámos.

 

Mas alguma coisa me fez matutar sobre a frase e sobre o argumento durante a viagem de volta. Alguma coisa não batia certo. Como é que um sistema em que todos têm igual voz, em que todos os votos valem o mesmo e em que, à partida, por muita pressão que possa haver, cada um pode efetuar a sua escolha de forma anónima, como é que um sistema assim poderá ser algo menos que perfeito?!

 

Então pensei: é na imperfeição da democracia que, precisamente, radica a sua perfeição. Quem somos nós, afinal, para opinarmos sobre a tomada de decisão de cada um? E se os interesses particulares dessas pessoas coincidirem precisamente com os seus ideais? E se os seus ideais forem precisamente a salvaguarda do seu interesse particular? Quem somos nós para o julgar menos digno?!

 

Claro que, nesta breve análise, excluo a influência da educação e da cultura na tomada de decisão, instrumentos fundamentais para se poder ver um pouco mais além do que o próprio umbigo. Mas ainda assim a natureza perfeita da democracia é indiscutível: cada pessoa escolhe o que considera ser o melhor e não existe um outro sistema capaz de igual façanha. A democracia é, com toda a razão, o regime político em que o governo é escolhido à imagem e semelhança do povo que o elegeu.

publicado às 12:22

Nona Sinfonia

É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas    sagradas    impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.

— Ary dos Santos, O Sangue das Palavras

publicado às 12:05

A abjeção da imprensa

Nestes dias não se fala em mais nada a não ser da detenção do dito cujo. Ontem vimos todos os noticiários em suspenso por uma decisão esperada, como se de vida ou de morte tratasse, que era para ter surgido pelas dezanove mas eram vinte e uma e ainda as câmaras filmavam, em desespero, o palanque deserto.

 

Entretanto, as outras notícias que nos consumiram nos dias anteriores já morreram e foram enterradas. É possível que continuem a morrer pessoas infetadas com legionella, é possível que até estejam a surgir novos casos em Vila Franca de Xira ou noutra paragem qualquer, mas não sabemos. Nada disso é notícia agora. A outrora notícia de vida ou de morte deixou de o ser para dar lugar a outra também de vida ou de morte.

 

Antes, houve também o BES, o Banif, o BPN e o BPP. Houve a Casa Pia que foi uma eternidade já tão distante. Houve tanta coisa, há sempre tanta coisa. Houve tanta coisa que prometia tanto... Mas depois a poeira assenta e reparamos que nada mudou. Ficou tudo como antes, pronto para se repetir a qualquer altura.

 

É a isto que a imprensa está reduzida. Não vou adjetivar. Não me vou dar a esse trabalho. O relato dos factos é suficiente.

 

A atualidade é outra coisa. A atualidade da discussão de um orçamento de estado que insiste na austeridade, da corrupção associada aos vistos dourados, dos dados sobre a contração das exportações, isso... é outra coisa.

publicado às 11:37

Corrupções

A propósito da avalanche de notícias, que ultimamente pintam o nosso país como uma espécie de novo Chicago de Al Capone e seus comparsas, apetece-me discorrer sobre o tema corrupção. Ou melhor: corrupções.

 

É que existe mais do que um tipo de corrupção cada uma das quais com características muito particulares que as distinguem umas das outras e sobre as quais vale a pena pensar.

 

Consideremos os seguintes tipos:

  1. O trabalhador que, pressionado pela entidade patronal e/ou em situação laboral precária, é ativo em processo de corrupção envolvendo o produto do seu trabalho;
  2. O trabalhador que, sem pressão interna, é ativo em processo de corrupção envolvendo o produto do seu trabalho;
  3. O patrão que é ativo em processo de corrupção.
  4. O agente de autoridade que é ativo em processo de corrupção.
  5. O governante que é ativo em processo de corrupção.

 

Não sei se são apenas estes cinco tipos de corrupção que existem. Talvez esteja a desprezar mais alguns. Mas parecem-me, neste momento, os cinco tipos realmente importantes, dispostos em ordem de crescente gravidade.

 

A corrupção não é toda igual. Sendo toda ela moralmente reprovável e condenável depende das partes envolvidas, do seu poder efetivo e responsabilidade social. Por vezes parece que é tudo a mesma coisa. Parece que aquele precário que é pressionado para ser conivente com uma qualquer transação efetuada por debaixo da mesa é igual a um inspetor de exames de condução que apenas passa os examinados mediante gratificação apropriada. Não é a mesma coisa.

 

A ausência de pressão interna é fundamental para avaliar o nível de moralidade da coisa. Mas existem outros fatores.

 

Numa sociedade o nível de corrupção varia de forma inversamente proporcional com o nível de vidas das populações. Quanto maior for a necessidade maior é a propensão para a corrupção e os países onde o nível de corrupção é mais elevado são, de longe, aqueles cujas assimetrias económico-sociais são mais acentuadas.

 

Para além do fator nível de vida devemos considerar também os fatores ambição e competitividade. São estes os responsáveis por aqueles atos de corrupção à partida inexplicáveis, por abrangerem pessoas sem necessidade aparente de os cometerem. Com efeito, a ambição cria necessidades onde elas não existiam.

 

Se concordarmos sobre as raízes do problema, a questão que se coloca é: como poderemos erradicar ou, pelo menos, diminuir significativamente o problema, no contexto de um sistema social e económico que promove a desigualdade social, o desequilíbrio na distribuição da riqueza e, a nível individual, promove precisamente os valores da competitividade e da ambição materialista desmedida? A este nível, no sistema capitalista encontraremos todas as respostas para os nossos problemas.

 

E é precisamente segundo este contexto que devemos também entender os eventuais atos de corrupção dos nossos governantes e ex-governantes. Temos que perceber que fizemos uma escolha consciente: entregámos a economia nas mãos de interesses privados. É certo que quando olhamos para a orgânica da coisa vemos ainda muita responsabilidade estatal, mas na verdade não podemos olhar para o estado como responsável por nada. O estado tornou-se desde há muito tempo num interposto de interesses e numa plataforma de gestão e de legislação de defesa dos interesses privados. Não temos um país completamente liberal, é verdade. Na perspetiva das forças conservadoras temos melhor do que isso: temos um capitalismo de estado.

 

E neste sentido, os eventuais atos de corrupção deste ou daquele ministro, daquele ou daqueloutro ex-governante, não só é esperado como natural. É profundamente natural porque tratam-se de pessoas escolhidas para a função precisamente pelas suas ligações douradas ao mundo empresarial, mundo esse que trata de patrocinar largamente as campanhas eleitorais e as eleições dos seus protegidos. É um investimento, como outro qualquer, no jogo económico livre.

 

Tudo isto, com a benção consciente de uma maioria popular que sufraga democraticamente estas escolhas, muitas vezes também ela votando com segundas intenções e interesses diretos e egoístas na escolha deste ou daquele candidato. Falemos das autarquias?

 

Agora, a propósito da primeira detenção na história de Portugal de um ex-primeiro ministro, apraz-me dizer o seguinte, sem qualquer prejuízo pela sua provável culpabilidade eventual.

 

Primeiro, é incrível como parece que está o país todo contra este homem quando, há não tanto tempo quanto isso, lhe proporcionaram ganhar duas eleições consecutivas, a primeira com maioria absoluta! É simplesmente extraordinário: esta ausência de mea-culpa, esta desresponsabilização permanente de um povo é nojenta. Tudo com o único objetivo de, já nas próximas eleições, colocarem de consciência imaculadamente tranquila, um clone laranja ou rosa deste que agora tratam de enforcar em praça pública, sendo certo que o que ocupa agora o lugar teve também, sobre a sua cabeça, suspeitas da mesma natureza.

 

Em segundo lugar, sublinhar a digladiação épica que se está a travar agora mesmo a nível mediático, entre os maiores partidos do país. As notícias plantadas, as respostas bombásticas que se sucedem, formam um espetáculo de fogo de artifício mediático sem precedentes, estando a comunicação social, como é sua natureza, feita em grande gaiola de papagaios e de pombos correio. Todas estas notícias, atacando uma ou outra parte, podiam, em rigor, ter surgido muito mais cedo mas, não obstante, escolheram este calendário por ser este o calendário mais conveniente.

 

Em último lugar, dizer que a democracia é algo de extraordinário. Digo isto sem ponta de ironia. É extraordinário, porque a indignação do povo poderá ser facilmente exprimida em sede de eleições, penalizando os partidos mais embebidos nesta teia de corrupção a que chamamos de estado. E não venham dizer que se outros tomarem o poder sucumbirão de igual modo à corrupção. Os interesses privados patrocinam muitas campanhas eleitorais, mas há algumas que não. Eles sabem que há alguns partidos que é mais difícil corromper. Basta estar atento aos que não se vendem.

publicado às 12:24

Entre as estrelas da propaganda

Sou um apaixonado pela ficção científica. Adoro o género. Nos últimos tempos vi no “grande ecrã” o Interstellar. Acorri o mais depressa que pude, ávido pela viagem ao futuro que me prometia e carregado de esperanças pelo que ia ouvindo dizer sobre o filme. Inclusivamente, ouvi elogios diretamente do programa A Última Fronteira da RTP 1. Elogios sobre a qualidade científica da película ou sobre os muitos aspetos inovadores. Foi grande a minha desilusão.

 

Nota prévia: seguem-se pequenos spoilers.

 

O filme tem um e um só ponto positivo: a qualidade e a beleza das imagens e não apenas relativamente aos dois grandes protagonistas. Refiro-me, obviamente, aos dois buracos, o worm e o negro. Todo o filme é visualmente impecável. E ficamos por aqui em termos de aspetos positivos (a banda sonora não é má de todo, embora não esteja à altura da imagem).

 

Antes de passar a enumerar os muitos aspetos negativos do filme, convém, em jeito de declaração de interesses, atestar aqui o que para mim é um bom filme de ficção científica. Este género cinemático deve cumprir dois objetivos básicos: preencher o vazio existente nos paradigmas científicos e fornecer combustível à imaginação do ser humano, no que ao futuro diz respeito. Claro que esta minha opinião não é consensual. Há quem pense, por exemplo, que o género deve-se limitar a retratar fielmente o estado da arte da ciência e da tecnologia.

 

Posto isto, impõe-se dizer que o filme Interstellar não faz nada disto. No que à ciência se refere, é um desastre, porque em nada inova. Todos os conceitos utilizados no filme são completamente batidos no género e não há absolutamente nenhuma explicação mais profunda sobre os temas: como se processam as viagens espaciais em termos de energia e velocidade; como funciona o processo de hibernação criogénica; como o ser humano consegue controlar o buraco worm e usá-lo para viajar no espaço-tempo. Nada disto é aprofundado em termos de ciência. Pelo contrário, aparecem como dados adquiridos.

 

Depois de atravessar o buraco worm há outras coisas mais ou menos difíceis de engolir. Os aventureiros deparam-se com um sistema de três planetas potencialmente habitáveis orbitando em torno de um buraco negro. Aqui começa o problema: de onde surgiria o calor e a luz para potenciar a existência de vida nesses planetas? O buraco negro possuía um disco iluminado que, contudo, não poderia cumprir a função de uma estrela. Esse disco é retratado como estático, mas na verdade é giratório. Mais tarde, uma nave é sugada para o buraco negro e trespassa o disco o que devia resultar na sua inceneração instantânea, o que não acontece. Por outro lado, a existência de planetas com potencialidade para a espécie humana é altamente improvável, pois aqueles planetas deveriam ser constantemente abalroados por objetos sendo sugados pelo buraco negro à velocidade da luz.

 

A existência do primeiro planeta é também altamente questionável, dado a sua proximidade relativamente ao buraco negro e às forças massivas exercidas. O que também é extraordinário é imaginar como aquela nave que necessitou de tanta energia para ser lançada da superfície da terra, fez o mesmo com tanta facilidade, sem o auxílio de módulos, num planeta com 130% da gravidade terrestre. Antes disso, podemos apenas imaginar aquela nave como construída com um material extraordinariamente resistente, pois aquelas ondas gigantes teriam, obrigatoriamente, que a danificar seriamente.

 

Estes são apenas alguns dos aspetos que mais me chocaram, sobretudo num filme tão caracterizado como cientificamente revolucionário. Podia dizer mais e ainda especular outros, mas fico-me por aqui.

 

Fico-me por aqui, neste domínio, porque para mim o que é realmente triste é a mediocridade da história, da qual apenas achei interessante a menção à encenação dos programas Apolo do século passado. É que tudo é dado como adquirido e não há o mínimo de reflexão filosófica sobre as coisas. A Terra está condenada. Porquê? Que erros foram cometidos? O que se fez para que não se voltem a repetir? É que, segundo o filme, a espécie humana está condenada a ser uma espécie de praga do universo, porque uma vez descoberto o segredo para se poder transportar de um lado para o outro, replicarão os mesmos processos que conduziram ao esgotamento dos recursos da Terra. Mas nada é dito em concreto. A história é tão oca e tão fútil...

 

Depois, há aquele melodramatismo nojento que está tão profundamente espalhado ao longo do filme como um perfume barato de senhora. Concedo que tenha que existir algum, mas ele é tanto, tanto, tanto... Depois de visto o filme compreende-se bem a sua existência. É um velho truque de ilusionismo: quando se quer desviar a atenção de uma coisa, chama-se atenção para outra. Assim, o público não percebe tão bem a falta de substância da película, porque fica muito sensibilizado com aqueles dramas humanos tristíssimos, evidenciados na choradeira copiosa, do primeiro ao último minuto daquelas penosas três horas de filme, de cada um dos personagens. É horrível.

 

Pelo meio, há momentos vários que procuram fazer uma ligação com outros filmes de ficção científica. A referência ao relógio é uma procura descarada em colar este filme ao Contacto, até mesmo pelos personagens representados pelo mesmo ator. E os absolutamente ridículos robôs devem ser referências ao tempo onde não havia capacidade tecnológica para bons adereços em filmes deste género. A mim fez-me lembrar os episódios da série Star Trek.

 

Para terminar em beleza, o filme tenta fazer uma ligação absolutamente arrepiante ao mundo exotérico. O personagem principal é, de forma completamente inexplicável, sugado através do buraco negro para um mundo a cinco dimensões onde se converte numa espécie de Fantasminha Gaspar e envia mensagens para a sua filha na Terra em diversos segmentos temporais do passado e do presente. Nessas mensagens é transmitida uma informação que ninguém percebe o que possa ser mas que permite, ao que é subentendido, subverter os princípios da gravidade na Terra. Depois, incrivelmente, o fantasma deixa de ser fantasma e retorna a um corpo de carne e osso teletransportado de volta para os anéis de Saturno, em pleno sistema solar. Numa palavra: incrível!

 

O filme tinha um evidente potencial mas, no fim de contas, resulta em (mais) um exercício de propaganda da NASA com pouco realismo, muito exibicionismo visual e sem qualquer ponta de profundidade e isto é o mais grave. Fez-me lembrar o Armageddon para pior. É triste que este filme seja incapaz de produzir uma centelha que seja de esperança no futuro da humanidade.

publicado às 19:11

Vistos dourados: o que é importante que se discuta

A questão dos vistos dourados levanta importantes interrogações e assegura alarmantes certezas. O estado entende dar carta branca, no que ao nosso país diz respeito, a indivíduos com uma dúzia de tostões no bolso.

 

Porquê? Qual é o objetivo do estado? Investimento estrangeiro?

 

Ao que sei, de entre todo o universo de vistos dourados distribuídos, sobram dedos de uma mão, apenas uma, para contar o número de empresas que criaram postos de trabalho em Portugal por intermédio destes visados pintados de ouro.

 

O que é isto? De que se trata afinal?

 

À margem do escândalo que vai lavrando sobre o processo de atribuição de vistos, e que inevitavelmente se quedará em nada, parece que o objetivo do nosso governo é tornar o País na melhor e mais profícua máquina de lavar do mundo. Uma máquina que não lava roupa nem tão pouco louça, mas papel.

publicado às 11:52

Fugir dos nossos obstáculos

“Don't you ever get the feeling that all your life is going by and you're not taking advantage of it? Do you realize you've lived nearly half the time you have to live already?”
“Yes, every once in a while.”
“Do you know that in about thirty-five more years we'll be dead?”
“What the hell, Robert," I said. "What the hell.”
“I'm serious.”
“It's one thing I don't worry about,” I said.
“You ought to.”
“I've had plenty to worry about one time or other. I'm through worrying.”
“Well, I want to go to South America.”
“Listen, Robert, going to another country doesn't make any difference. I've tried all that. You can't get away from yourself by moving from one place to another. There's nothing to that.”
“But you've never been to South America.”
“South America hell! If you went there the way you feel now it would be exactly the same. This is a good town. Why don't you start living your life in Paris?”
― Ernest Hemingway, O Sol Também se Levanta

publicado às 14:12

Associação de ideias

O facto de Miguel Macedo se ter demitido não faz dele um “grande” homem. Quanto muito, faz dele uma pessoa que terá tomado uma posição politicamente louvável perante o imbróglio em que estará envolvido. Uma coisa não tem que ver com a outra, por muito que este tipo de atitude não seja replicado tão frequentemente quanto devia. Mas há uma franja da sociedade que teima em fazer aquela primeira associação. Será apenas boçalidade? Ou será aquela típica reação de defesa, para camuflar e lavar parcamente a face de uma situação grave, inquinando também o debate público?

publicado às 14:47

Vermes e homens

Por vezes dou comigo num estado letárgico, depressivo. Parece que todas as pessoas com voz pública que conseguem conquistar um pouco da minha admiração estão irremediavelmente fadadas para me desiludir. Ou, por ventura, estarei eu destinado a me desiludir com elas. Parece que todos têm um preço à espera de ser batido, como se o património ideológico de cada um fosse objeto de um leilão fechado. Por outro lado, talvez a raiz do problema esteja no saco de onde retiram estas pessoas para preencher o espaço mediático.

 

Já me desiludi com tantas pessoas que dói: com jornalistas que criticavam ferozmente governantes corruptos para logo depois assumirem a defesa de idêntica corrupção corporizada nos que se seguiram; com comentadores e fazedores de opinião que escrutinavam com irrepreensível minúcia, sob uma capa da mais inabalável moralidade, os atos de determinados governos para, logo após o derrube dos mesmos, assumirem a defesa de quadros morais e opinativos escandalosamente antagónicos. Já me desiludi, enfim, com humoristas de vanguarda, que outrora se assumiram como os verdadeiros megafones de causas nobres e esquecidas, como vozes com a força e a pujança, a projeção e o destaque mediáticos, que os partidos que defendem tais causas inevitavelmente não têm, para que, navegando sobre as ondas do sucesso, venderem a sua voz, o seu património, por um anúncio qualquer ou uma promessa de algum poleiro.

 

Já me desiludi com muita gente ao longo dos anos e a inocência perdida revela-se no reconhecimento da natureza repetitiva e circular deste processo. Somos apenas humanos e encontramo-nos condenados aos limites da nossa humanidade. Mas isto é apenas a maneira simplista de encarar a coisa. Não me choca que estas pessoas professem as suas opiniões correntes. Enoja-me que tivessem defendido outras com o único propósito de se fazerem notar, subir na vida ou pagar um favor. Enoja-me o caráter flutuante das suas opiniões. Enoja-me a carência de uma espinha dorsal. Estas são as menores amostras de humanidade de que dispomos. Estas são as pessoas que devemos verdadeiramente temer na vida. Se amanhã o país cambiar de regime, estes serão os seus primeiros apóstolos. De igual modo, serão também os tumores responsáveis pelo eventual falhanço de todo e qualquer projeto social.

publicado às 14:43

Consistência dos conceitos

Falamos muitas coisas, falamos sobre muitas coisas, mas sobretudo falamos de forma leviana. Utilizamos os conceitos como se eles fossem entidades mais ou menos vagas ou com uma definição subentendida, mas que resulta em entendimento nenhum. Refiro-me a conceitos como “democracia” ou “liberdade”. Questiono-me muitas vezes sobre o entendimento que sobre eles temos. Porque o conceito é o conceito e não depende da conjuntura ou do contexto em que é usado.

 

Mas conceitos como “democracia” ou “liberdade” costumam ter uma interpretação na vida particular, outra na vida social, outra ainda na vida laboral e, enfim, uma outra na vida religiosa. Como se fossem palavras homónimas descrevendo conceitos muito diferentes, por vezes antagónicos, não obstante serem denominados pelo mesmo substantivo. Assumem ainda em diferentes momentos da linha temporal interpretações distintas.

 

Para concretizar vejamos o seguinte. Existe uma maioria de vozes que rejeita os dogmas, o autoritarismo, por exemplo, em diversos contextos, nomeadamente a nível político. Rejeitaram-se as monarquias absolutistas e as ditaduras, os reis-deus e os líderes supremos. Sublinho esta tomada de consciência como um dos mais importantes passos dados pela humanidade, sobretudo pelos povos europeus, no século XX. Contudo, uma parte considerável dessas mesmas vozes, importantes alicerces sociais, abraça esses mesmos dogmatismo e autoritarismo no preciso segmento onde, quem sabe, os valores da liberdade e da democracia serão mais relevantes: as suas vidas espirituais. Com efeito, aí, submetem-se frequentemente e de livre vontade, sem questionar, sem indagar o que quer que seja, à palavra de terceiros justificada por um qualquer texto dito “sagrado” em nome de uma qualquer entidade dita “deus”. Não critico o que quer que seja, bem entendido. Apenas observo a realidade. As pessoas rejeitam certos conceitos num contexto e aceitam-nos noutros, quando à primeira vista não há qualquer razão substantiva para essa dicotomia.

 

Tudo isto quando, em pleno século XXI, as celebrações religiosas poderiam ser já assembleias de diálogo e de debate, de troca de ideias, entreajuda e solidariedade, enfim, seguindo uma evolução semelhante à que os sistemas políticos sofreram, aproximando-se dos mesmos. Ao invés, mantêm-se as mesmas tradições milenares de injeção vertical de pensamentos, do pastor para o rebanho. Mantêm-se os hábitos, bem entendido, pela expressa vontade das comunidades que sustentam esses cultos. Assim elas quisessem e não haveria dogma qualquer que subsistisse.

 

Esta ambivalência de interpretações não deixa de ser desconcertante porque com ela adivinhamos a inconsistência do ponto de vista prático dos conceitos supramencionados. Adivinhamos que, por exemplo, fornecido o contexto apropriado, o que chamamos hoje de democracia e de liberdade poderá ter uma interpretação muito diferente no dia de amanhã, o que, aliás, não é inédito. Efetivamente, os anos da troika, que ainda prosseguem, vieram trazer interpretações distintas a outros conceitos e valores que uma parte do povo julgava por adquirido.

publicado às 20:31

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