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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Quando se chama stress ao relaxamento

por Amato, em 27.10.14

Para quê os testes de stress à banca? Para quê, se quando as coisas correm mal, o estado avança e paga? Porque é que a sociedade se entretém com estas encenações e nutre entusiasticamente esta verdadeira realidade virtual?

Sobre a expansão e o crescimento económico

por Amato, em 25.10.14

Tornou-se num hábito olharmos para qualquer dado estatístico sobre a expansão económica com os olhos de uma virgem inocente desencadeando uma enxurrada de elogios bacocos de natureza acéfala sobre o assunto. A sociedade da propaganda tem destas coisas.

 

Em abstrato, o crescimento económico é algo de louvável. O abstrato, contudo, de nada vale sem o concreto. Dediquemo-nos, portanto, ao concreto da coisa, sendo conveniente concentrarmo-nos sobre dois pontos: o sustentáculo e o consequente social. São dois pontos umbilicalmente interligados e que assumem uma importância vital em qualquer tipo de análise séria sobre o assunto. Olhemos, a título de exemplo, para as empresas associadas ao setor primário, amplamente elogiadas, nomeadamente ao mais alto nível. Com efeito, após nos debruçarmos durante uns minutos sobre os dois pontos referidos anteriormente verificamos o quão ocos são os elogios tecidos. Em que se sustenta esse crescimento afinal?

 

Em muitos casos, tratam-se de empresas que entre o deve e o haver entre benefícios fiscais, planos de apoio e fundos europeus, efetuam um investimento que apenas poderá ser caracterizado como minimal, a existir algum, e retribuem pouco mais do que nada em termos de imposto. Inicia-se logo aqui uma relação empresa-estado-sociedade pouco sã, pois não existe uma relação direta de retribuição em termos fiscais. Mas tudo isto perderia relevância num certo grau fosse essa retribuição fiscal efetuada noutros moldes, concretamente no volume de emprego criado. Mas até aqui, a realidade revela-se confrangedora. De facto, temos muitas vezes empresas sustentadas em postos de trabalho tão precários que tão pouco são ocupados pela população emigrante de leste, mas antes por tailandeses e filipinos, que sobrevivem em parcas condições até regressar ao país de origem. Esta é a realidade governada pela lei em que “os fins justificam os meios”. E, neste contexto, de que servem os lucros crescentes destas empresas? De que valem os números crescentes das exportações? Valem apenas na justa medida da profundidade dos bolsos dos donos destas empresas. Para o país, valem de muito pouco.

São apenas os detalhes, os importantes detalhes!

por Amato, em 23.10.14

“Every man's life ends the same way. It is only the details of how he lived and how he died that distinguish one man from another.”

— Ernest Hemingway

É melhor do que nada

por Amato, em 22.10.14

Quando não se tem nada mais a dizer. Quando se esgotaram os argumentos. Quando se tem preguiça de pensar. Quando não se considera ou quando não se respeita o interlocutor com quem se discute. Quando se é, enfim, nada mais do que um pobre ignorante. O “é melhor do que nada” faz a sua brilhante aparição. Não diz tudo. Em boa verdade, não diz nada. Satisfaz, contudo, o emissor e pode chegar mesmo a irritar o recetor quer pelo contraditório vazio quer na sua produção de raciocínio. Os mais experientes, porém, notam nestas palavras o pretexto bastante para abandonar com brevidade o debate e o interlocutor à sua santa ignorância. Até porque depois do “é melhor do que nada” costuma se seguir o “não vale a pena”, o “não há dinheiro”, o “não se pode fazer nada/melhor” e o brilhante “são todos iguais”.

Posse

por Amato, em 19.10.14

Existe um deus único que governa sobre todos os mortais. Um deus de muitos nomes, escritos em todas as línguas e dialetos falados no mundo. No ocidente chamam-lhe Deus, simplesmente. Dizem que é omnipresente, omnisciente e omnipotente. Tudo vê, a tudo assiste, tudo conhece, tudo sabe e tudo pode. As pessoas, por toda a parte, acorrem a templos para o venerar e para cair nas suas boas graças. Para pedir. Um favor para si e para os seus, a proteção do que é seu. Precisam da intervenção dele para isso. E se forem atendidas nas suas preces nada mais importa. Continuam a pedir. Ainda que ao lado, justamente ao lado, iguais pedidos não sejam igualmente atendidos, é irrelevante. O que releva é o próprio. É a noção de que nós sim! Nós é que somos especiais aos olhos dele. A relação que estabelecemos com deus diz muito sobre a relação que estabelecemos connosco mesmos, com os que nos rodeiam e nos são semelhantes enquanto membros da espécie. A semelhança termina, contudo, aí, aos nossos olhos. Pois cada um de nós se entende mais especial e mais digno do que qualquer outro que imediatamente se nos segue. Não fosse deus uma cínica construção à nossa imagem. E, portanto, o deus do Homem tem implicações diretas e concretas em muitas outras dimensões: a sociedade do Homem, a democracia do Homem, o caminho do Homem, a liberdade do Homem. Falta apenas dizer ao Homem que o seu deus tem um nome pelo qual deve ser conhecido. Posse.

Não ser amado

por Amato, em 17.10.14
“... it's awful not to be loved. It's the worst thing in the world... It makes you mean, and violent, and cruel.”
― John Steinbeck, A Leste do Paraíso

Inevitabilidade ignorante

por Amato, em 16.10.14

Existe uma ideia generalizada e persistente de inevitabilidade que paira sobre as sociedades como nevoeiro denso e espesso. Uma ideia angustiante que queda as populações amorfas e inertes. Uma ideia de impossibilidade, de predeterminação e de resignação. Essa ideia falsa, explicarei porquê, advém de uma de duas situações: comodidade de pensamento ou ignorância estrutural. Centremo-nos na segunda. Muitas pessoas ignoram a história do mundo, a sua própria história. Ignoram abusivamente pois caso contrário perceberiam que não existe tal coisa chamada de inevitabilidade no universo. Pensemos nos grandes impérios, maiores do que os maiores que hoje pontificam sobre a Terra, pensemos nas grandes dinastias, pensemos nas grande rotas comerciais, pensemos nos dogmas, em todos eles, religiosos ou políticos. Pensemos. Recordemos. Pensemos até no que sabemos sobre os dinossauros, seres que dominaram o mundo de forma absoluta durante milénios. Se pensarmos e se soubermos percebemos a nossa ignorância em falar em inevitabilidades.

 

Partindo desta análise geral centremo-nos agora num aspeto particular aglutinador dos tempos modernos: o dinheiro. O mundo gira em função dele como se do sol se tratasse parecendo caminhar para uma dependência absurda. E as qualidades humanas privilegiadas e apreciadas por esta cultura vigente, a cultura do dinheiro e da posse, são a ganância e a inveja. E perante a situação, nada se afigura como mais inevitável do que isto. E no entanto... existe memória. A memória de que as coisas nem sempre foram assim. A memória das primeiras sociedades humanas, por exemplo, os povos recoletores que viviam em comunidade e cooperação. Com efeito, a situação não é endémica ao ser humano e, ainda hoje, existem comunidades do mesmo tipo, micro-sociedades, projetos sociais e, sobretudo, culturas que observam a inveja e a ganância como moralmente inaceitáveis.

 

Assim, fica demonstrada a não existência de inevitabilidades. Cada ser humano que habita o planeta tem em si muitos mundos muito diferentes que traduzem caminhos também eles distintos.

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