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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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O clã Bach e a perceção do sucesso

por Amato, em 20.01.19

Pensem no universo de todos os melómanos deste mundo, daqueles com, pelo menos, médios conhecimentos ou razoáveis noções em música clássica. Imaginem que escolhem um elemento deste conjunto, ao acaso, e lhe pedem que enumere os três compositores que considera serem os mais marcantes na história da música, aqueles que, independentemente das suas preferências particulares, considera ser os mais revolucionários, os percursores da técnica, os definidores de um paradigma musical. Se tudo isto fizermos, é muito provável que, entre os três nomes da lista, conste o nome de Johann Sebastian Bach, o mestre dos mestres do Barroco.

 

É natural que assim aconteça. O contrário implicaria que o nosso melómano escolhido não entendesse muito do assunto ou estivesse investido de uma postura sobre o tema intelectualmente pouco séria. Com efeito, Johann é hoje em dia um dos compositores mais tocados, mais estudados e mais reconhecidos globalmente. Sobre a sua obra inúmeros outros grandes compositores nasceram e sobre o seu legado ergueram-se novas linguagens musicais. Não existe um aprendiz de música, seja qual for o seu instrumento de eleição, que não dedique uma considerável parte do seu tempo de estudo às obras originais de Bach ou a adaptações, nos casos em que Bach não tenha composto particularmente para esses instrumentos.

 

É curioso perceber que esta notoriedade contemporânea de Johann, que é extraordinária, não tem qualquer relação com a fama que o compositor (não) gozou em vida. Johann Sebastian Bach foi um dos compositores mais profícuos de toda a história da música. Do acervo da sua obra constam mais de mil composições conhecidas de índole sobretudo sacra, ele que foi mestre de capela das principais catedrais alemãs do seu tempo. Sublinho aqui a palavra 'conhecidas'. Efetivamente, o tempo de Johann era o tempo da improvisação por excelência e não o tempo da escrita e reprodução rigorosas das obras em papel de pauta. Esse tempo é posterior ao de Johann e, por isso, é natural que às tais mais de mil composições que se conhecem, possam ser adicionadas outras tantas, pelo menos, ao número de obras que o compositor terá, de facto, composto ao longo da sua carreira.

 

Como dizia, não perdendo o fio à meada, é curioso perceber que Johann foi, em vida, um compositor de popularidade residual. O povo, o mais ilustrado e o nem tanto, considerava-o um compositor austero, rígido, demasiado ortodoxo, agarrado a um contraponto antigo que já estava a sair de moda e que já ninguém estava interessado em ouvir. Johann, bem entendido, era um reputado professor da arte da improvisação e do contraponto e, enquanto compositor, era bastante considerado nas esferas religiosas onde essencialmente se movia. O que Johann não era, e nunca foi, era um compositor popular. Nenhum nobre encomendava as suas obras para seu entretenimento privado. Nenhum mecenas mostrou interesse na sua música. A isto Johann referia-se com desprezo, não se sabe se genuíno ou se por despeito, dizia qualquer coisa como que a sua música servia para agradar a Deus e a Deus apenas e se acontecesse ser apreciada pelo público, sendo absolutamente indiferente, seria tanto melhor.

 

Johann, fervoroso devoto como era, cumpriu a sua “obrigação” conjugal bíblica a preceito e produziu abundante prole. De entre os seus vinte filhos provindos dos seus dois casamentos, alguns seguiram as pisadas musicais do pai prolongando, aliás, uma tradição que já começara no trisavô de Johann, Veit Bach. Os dois que obtiveram maior sucesso foram Carl Philipp Emanuel Bach e Johann Christian Bach. Ao contrário do pai, Carl Philipp e Johann Christian abraçaram as novas tendências musicais e o novo estilo ao qual se chamaria de Classicismo e que viria a substituir de vez o velho Barroco que já se prolongava por quase dois séculos no panorama musical europeu. Os dois, mas sobretudo Carl Philipp, granjearam incomensurável fama, sendo constantemente solicitados e patrocinados para animar as festas dos nobres e dos abastados da sociedade alemã setecentista. Carl Philipp e Johann Christian eram, assim, as estrelas pop do seu tempo, contrariamente ao pai, Johann, que era, quanto muito, um artista menor conhecido apenas no austero contexto religioso luterano.

 

Passados mais de duzentos anos, falar em Bach é falar de Johann Sebastian Bach. A História dedicou a Carl Philipp e a Johann Christian honrosas notas de rodapé nas páginas que abordam a música na segunda metade do século XVIII. Dedicou-lhes isso e nada mais do que isso, ao passo que ao pai, Johann Sebastian, entregou a imortalidade dentro de uma taça dourada. Carl Philipp e Johann Christian também são estudados e tocados, é certo, mas apenas circunstancialmente e, sobretudo, em certos círculos pelos amantes exaustivos da época. Carl Philipp, inclusivamente, é hoje mais conhecido por um tratado que escreveu sobre como tocar instrumentos de tecla, cravo, clavicórdio e piano forte, leitura obrigatória para todos os pianistas ainda hoje, do que propriamente pelas suas composições musicais.

 

O exemplo do clã Bach não é original e, aliás, vai-se repetindo ao longo da história da música, da pintura, da literatura, da arte em geral, mas também em outros domínios muito diversos da atividade humana, como a ciência. Não raras vezes, o valor das coisas, isto é, a sua relevância, a sua influência na vida, nas sociedades, para as gerações vindouras, parece ser inversamente proporcional ao sucesso que têm e à notoriedade com que são recebidas. As massas parecem atribuir um maior valor àquilo que as entretém, àquilo que é novo, que soa a novo ou que, simplesmente, parece novo, talvez porque o que parece novo melhor entretém. O sucesso é medido na efémera escala do entretenimento. Cada vez mais, os artistas atingem níveis cada vez maiores de sucesso para serem completamente esquecidos no final de uma década.

 

A história do clã Bach faz-me refletir sobre o que me rodeia. Nesta sociedade cada vez mais dedicada ao entretenimento vazio, cada vez mais fugaz, sem memória e sem compromisso coletivo, sem solidariedade, enfim, se acaso nos fosse dado a escolher, creio que a maioria de nós escolheria ser Carl Philipp ou Johann Christian, em vez de Johann Sebastian Bach. O nosso propósito individual e de vida é mesmo esse. Nascemos e morremos para este sucesso sem significado e mais nada. Nascemos e morremos para ter sucesso e ter sucesso, para nós, é ser um contemporâneo bobo de corte, é entreter, é ser ator, cantor, modelo ou jogador da bola. É aparecer. Porquê? Não interessa. O que fazemos com esse sucesso? Não interessa. O sucesso parece ser coisa que é fim em si mesma. E nós sentimo-nos bem sucedidos, orgulhosos de nós próprios.

O primeiro dia do Messias brasileiro

por Amato, em 01.01.19

O ano de 2019 começa, no seu primeiro dia, com a tomada de posse do novo presidente do Brasil, um indivíduo chamado de Jair Messias Bolsonaro. O discurso de tomada de posse do Messias foi a mais horrenda oratória que já ouvi em toda a minha vida. O maior país da América Latina elegeu, de facto, um ignorante, um boçal que não sabe falar, nem tem uma ideia madura no cérebro. O que tem é apenas uma mistura de infantilidade e de egoísmo sobre uma base de baixeza de caráter e de ignorância do espírito. E por isso repete, repete, titubeia, titubeia, os mesmos chavões, os mesmos preconceitos e, claro, invoca o nome de Deus em vão uma, duas, três dezenas de vezes no mesmo parágrafo. O que diz não é nada, mas é tudo.

 

Acho importante sublinhar que este indivíduo não chegou ao poder sozinho. O processo foi dúbio, pejado de ilegalidades e de artimanhas tecidas em conjunto pelo poder judicial e pelo poder político e cantado pelos media, tudo isto é certo e claro. Mas no fim de contas, foi o povo brasileiro, a maior massa popular de entre todas da América latina, que elegeu e legitimou este novo presidente do Brasil. A democracia tem isto. O povo é chamado a votar, vota, escolhe e elege. É limpinho. Uma parte desse povo lá estava, hoje, a bater palmas, sem um pingo de embaraço com aquela boçalidade que jorrava sem controlo da boca de Bolsonaro. Palavra que não sei como é possível não sentir vergonha por se ter elegido um presidente deste calibre. Eu sinto, muita, e não é nada comigo.

 

Isto ainda é o princípio. Foi apenas o primeiro dia do Messias brasileiro. Messias... que nome tão tristemente providencial. O que vem aí será horrível, sobretudo para os brasileiros. Não acreditam? Basta esperar para ver. Lembrem-se do dia de hoje.

O ano-epifania

por Amato, em 29.12.18

Politicamente, o ano de 2018 marcou-me dramaticamente. Foi um ano de revelações, de inequívocas constatações que abalaram definitivamente o chão onde me tenho vindo a suportar desde que me conheço. Foi um ano dramático, repleto de choques com uma realidade intelectualmente e emocionalmente inaceitável, mas também iluminador dessa mesma realidade. A realidade é a realidade. Não é o universo imaginativo que vamos construindo ao longo do tempo, uma mistura de desejos, conceitos e conceções. Não. A realidade é coisa que nos é perfeitamente exterior sendo que, todavia, fazemos parte dela. Quando não percebemos bem isto acabamos por cair como que num encantamento que nós próprios tecemos, o real não é bem o que se apresenta diante de nós, mas é antes aquilo que conseguimos ver com os olhos do coração.

 

Acredito que, para algumas pessoas, o seu mundo conceptual ilusório seja suficientemente robusto para subsistir a uma vida inteira de pouca examinação e introspeção. Para outras, há um momento de revelação que pode ser singular, motivado por um conjunto circunspecto de experiências, ou pode ser um ponto de exaustão de uma acumulação sucessiva de experiências que vão abalando os alicerces desse seu mundo.

 

Para mim, foi um pouco o segundo caso. Politicamente, o ano de 2018 foi o ano de exaustão de muitos anos de acumulação de desilusões e desapontamentos. Transformou-se, assim, num ano-epifania que me permitiu entender porque razão as coisas acontecem e se repetem neste mundo sem que a humanidade consiga encontrar alternativas a esta existência cíclica sem sentido.

 

Em Portugal, a esquerda revelou a sua face de uma forma que nunca tinha tido oportunidade de mostrar, com a transparência de quem efetivamente teve na mão o poder de influenciar políticas e de fazer cair o governo. O que mostrou nestes quatro anos foi exatamente quem são os seus alvos políticos e quais são as suas prioridades e isso foi absolutamente desolador. A esquerda trocou o seu apoio ao governo PS por uma quantidade de medidas vãs, pequenos aumentos, pequenas reposições de direitos, para pequenos grupos de pessoas, pequenas medidas que serão facilmente apagadas por um outro executivo ou por um mero contexto de inflação. A esquerda não conseguiu alterar nada de estrutural numa política de direita, de dramática precariedade no emprego, de permanente insegurança no trabalho, na habitação, na saúde e na educação da mais importante fatia da população neste país, os trabalhadores que vivem somente do seu trabalho, os contemporâneos proletários.

 

A esquerda mostrou indelevelmente que não existe para os trabalhadores deste país. A esquerda confunde as coisas e não entende que os trabalhadores deste país, que são os mais explorados, que são aqueles que tudo têm que pagar, que não têm subsídios para nada e que, com os seus impostos, sustentam as finanças portuguesas, não são necessariamente os mais pobres aos olhos do estado. E como a esquerda não olha para esta falange de homens e mulheres, porque não lhes dedica a sua atenção, estes homens e mulheres orgulhosos, porque vivem do seu trabalho e não de ajudas externas, também não olham para a esquerda. Este grupo de pessoas chama-se a classe média e ninguém quer saber dela. Com efeito, a classe média vive hoje igual ou mesmo pior do que no tempo do ajustamento pois é ela que está a pagar toda a panóplia de impostos indiretos inventada por este governo para cobrir e substituir permanentemente todas as medidas de austeridade passadas.

 

Neste sentido, não é de estranhar o movimento dos coletes amarelos em França. É a classe média trabalhadora que, não se identificando politicamente com nenhuma força política, particularmente com a esquerda, resolve dizer basta e revoltar-se pelos seus próprios meios. Vejam bem a força que o povo trabalhador tem! E vejam bem o perigo que corremos! A esquerda esqueceu-se do proletariado e o proletariado voltou as costas à esquerda. Na falta da esquerda, outras forças tratarão de liderar as massas proletárias. A extrema direita aí está, à espera da sua oportunidade, e a história já começa a repetir-se em muitos países da Europa e do mundo.

 

Em Portugal não há coletes amarelos, mas isso não quer dizer que a insatisfação não exista, não medre e não se manifeste de outros modos. Em Portugal, mais e mais mulheres perdem os seus empregos por ficarem grávidas; mais e mais trabalhadores veem-se expulsos das suas casas e das suas cidades para os subúrbios e para os subúrbios dos subúrbios por não conseguirem fazer face aos aumentos indiscriminados das rendas de casa, ao mesmo tempo que os seus salários ou valores-hora permanecem cristalizados ad aeternum; mais e mais cidadãos abandonam os seus percursos universitários por não terem acesso ao sistema ou não poderem pagar propinas; mais e mais cidadãos veem-se privados de cuidados de saúde pelo facto do sistema não lhes dar resposta razoável e por não se poderem dar ao luxo de faltar ao trabalho uma hora que seja para consultarem um médico.

 

Esta é a realidade e um dia esta realidade vai rebentar.

O que é a felicidade?

por Amato, em 04.12.18

Um dia o menino ergueu a cabeça em direção ao pai e perguntou-lhe: o que é a felicidade, pai?

 

Que pergunta parva... Toda a gente sabe o que é a felicidade! ­— terá pensado o pai. A felicidade é o que nos faz viver. É a procura pelo prazer, pela satisfação do existir. E, por isso, é diferente para todas as pessoas. Para o menino, por exemplo, é um desenho animado, uma banda desenhada, um chocolate, um gelado de morango, um mimo da mãe, um aconchego do pai numa noite fria de janeiro. Para o pai, será coisa diversa. Será comida na mesa, um bom carro e uma boa casa, um sorriso nos lábios da mulher e nos do filho, algum dinheiro no banco, claro, satisfação sexual, claro, mas também satisfação pessoal, sentir-se importante para a família que sente a sua falta, para a comunidade onde vive, no trabalho ao qual dedica a vida e não sentir-se como um trapo qualquer que se usa para alguma conveniência e se deita fora findada a sua utilidade.

 

Não é assim tão simples, claro: a felicidade de uns é a infelicidade de outros. Basta o vizinho comprar um carro novo para que o carro do homem, que era tão bom no dia de ontem, de repente, não parecer tão apropriado e esta dinâmica tem-se desenvolvido e alastrado como uma doença contagiosa com o passar dos anos. A vida do homem ­— olhemos bem para a vida do homem ­— foi tomada por esta espiral sem fim. O que faz o homem correr, nestes dias que passam? O que faz o homem correr hoje? Examinemos a vida do homem que cada vez trabalha mais, mais horas por dia, que quando sai do trabalho mandam-no chamar para terminar hoje um trabalho que surgiu de urgência e que tem que ficar pronto antes que o dia acabe, que quando consegue chegar, finalmente, a casa, já a mulher e o filho dormem há horas, recebe uma chamada para iniciar reunião em videoconferência para acertar uns pontos que ficaram por acertar no trabalho e, depois disso, tem ainda que mandar e-mails para pedir umas coisas e confirmar outras, e deixar uma nota à mulher, não a quer acordar, que amanhã partirá para Lisboa e de lá para Londres e, na volta, passará por Madrid, não interessa especificar, quedar-se-á fora até ao próximo fim-de-semana, faltará, por isso, ao aniversário da sogra e não poderá ajudar o filho com os deveres de Matemática, ele já está habituado a fazê-los sozinho, a última vez que o ajudou foi... não se lembra, mas a vida é mesmo assim, é um parafuso sem fim, quando chegar o Natal haverá muitas prendas para toda a gente, muitos smartphones, muitos tablets, muitos jogos e consolas para o miúdo, televisões novas, carro novo, talvez, não faltará nada, poderá faltar o homem, nessa semana estará algures no norte de Itália e os aviões atrasam-se, às vezes, e as reuniões atrasam-se, tudo isto deixou o homem escrito no post it amarelo que colou ao frigorífico para a mulher ler quando acordar de manhã.

 

Hoje em dia, a felicidade é isto. É por esta vida que o homem corre. Os homens correm por isto. Vidas vazias dedicadas apenas a um consumismo crescente e insaciável mas gratificante no imediato. Estupidamente gratificante. Na vida que o homem leva é perfeitamente indiferente ter aquela companheira ou aquele filho. Podiam ser outros. Ele não os conhece, nem a uma, nem a outro.

 

Não disse isto tudo o homem ao filho, ficou-se pela primeira parte e já foi bom ter tido tempo para dizer isso. Um dia a Madre Teresa de Calcutá, feita santa pela Igreja Católica, disse: É fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem ao nosso lado. Difícil será amar o próximo. Será, por ventura, por esta razão que escolhemos viver as nossas vidas deste modo. Vidas de gratificação imediata. Vidas destituídas de amor.

A época dos animais de estimação

por Amato, em 17.11.18

À hora a que escrevo este texto, testemunhamos o final do ano de 2018. Há duas centenas de anos, talvez menos, as ruas das cidades deste país eram partilhadas entre pessoas e animais. Os animais eram parte fundamental do sistema de transporte que permitia às pessoas deslocarem-se  e transportarem bens e mercadorias. Como resultado desta proveitosa simbiose, as vias de comunicação eram compostas de uma mistura de terra batida e excremento animal, uma combinação não muito favorável à salubridade pública.

 

A gradual substituição do animal pelos veículos motorizados teve esta vantagem indelével: as ruas passaram a ser mais limpas e o ambiente envolvente mais higiénico e saudável. Sendo certo que outras medidas, como a generalização do saneamento básico e a canalização de água potável, tiveram uma preponderância maior neste domínio, é absolutamente insofismável que a drástica redução de animais na via pública teve uma contribuição assinalável. Aliás, indo mais além, analisando o que constituía prática comum nas aldeias deste país onde a interação diária entre pessoas e animais era ainda mais promiscua, os ganhos em termos de saúde pública, de propagação de doenças, de longevidade da vida humana, foram determinantes.

 

Hoje, na passagem para o ano de 2019, assistimos a uma experiência diferente. Faltam sensivelmente dez minutos para as sete da manhã deste sábado e eu sei — tenho a certeza — que, quando sair para ir comprar o pão para o pequeno almoço na padaria ali da esquina, vou ter que suster a respiração numa boa parte do caminho e tomar muita atenção ao pavimento para manter as solas dos sapatos limpas. O passeio desta rua onde vivo, em pleno centro da cidade, encontra-se banhado a urina matinal de cão e são mais os metros quadrados contendo fezes de animal do que os que se encontram limpos.

 

Não é objetivo deste texto apresentar uma queixa. Longe disso. Trata-se apenas de uma constatação: tal como nos séculos anteriores ao décimo quarto se gritava “Água vai!” e se despejava “águas lixosas” pela janela diretamente na via pública, tal como até praticamente ao século XX cavalos, burros, parelhas de bois e outros animais partilhavam a via pública com o ser humano e nela deixavam os seus naturais dejetos incontidos, hoje, no século XXI, praticamente no ano de 2019, achamos normal fazer dos passeios públicos, dos jardins e espaços verdes, as retretes dos nossos animais.

 

Entretanto, criou-se a regra de etiqueta facultativa de se recolher os dejetos com um saco de plástico. Pouca gente o faz e, para não o fazer, levam os cães de noite ou madrugada para evitar testemunhas. Mas mesmo fazendo-o, isto é, mesmo recolhendo o dejeto do passeio com um saco de plástico, não deixa a coisa de ter sido feita, não é? O passeio não deixou de ter sido conspurcado com dejetos de animais e não deixou de estar sujo. Apenas está menos sujo. Agora suponham que uma criança que circula ali, naquele mesmo espaço, tropeça e cai, apoiando as mãos no pavimento meticulosamente emporcalhado por dejetos de animais. Não há problema, deve haver, afinal, algum antibiótico para estas coisas! A liberdade de um cão e do seu dono é mais importante do que a saúde e bem estar de uma criança. Dito desta forma, até custa a interiorizar.

 

Vivemos a era dos animais domésticos que, tendo as suas virtudes que não menosprezo, acarreta consequências muito sérias, pois vem associada a uma sociedade cada vez mais isolada, sozinha e antissocial. O animal parece adquirir mais direitos do que a pessoa humana, embora vivam frequentemente confinados em apartamentos minúsculos. Trata-se de uma ilusão, todavia: o animal continua a servir unicamente os interesses dos seres humanos. Hoje em dia, esses interesses já não são o puxar uma carroça ou outra coisa qualquer. São a simples necessidade de afeto que os seus donos não conseguem adquirir de outra forma, socializando, porque não podem, porque não querem ou porque já desistiram de o fazer.

Diz-me com que andas e dir-te-ei quem és

por Amato, em 11.11.18

Desculpem-me os meus amigos de esquerda. Desculpem-me particularmente aqueles, que muito prezo, que ainda se desmultiplicam em desculpas para este governo, em ensaios de defesa desta “geringonça” que logrou estabelecer neste país o que a direita que a precedeu tanto tentou, que continuam a desenrolar putativas boas intenções que só subsistem, ainda, nas suas próprias cabeças. Desculpem-me.

 

Este governo é um engodo tão grande que daria uma boa anedota se todos estivéssemos mais atentos. É que não há uma coisa que o executivo se proponha a fazer que efetivamente leve a cabo, assim, de forma limpa e transparente. Pelo contrário, depois de anunciar pomposamente as medidas, tudo faz para não as cumprir.

 

Não me canso de evocar, aqui, em todas as oportunidades que tenho, a baixeza das cativações orçamentais. Em todas as áreas, indiscriminadamente, o governo acorda com os seus interlocutores parlamentares determinados gastos orçamentais associados a objetivos negociados e bem definidos, para depois reter verbas e não autorizar os gastos acordados, faltando com a palavra dada. Foi assim em diversas áreas, ano após ano, orçamento após orçamento — na educação, na saúde, na justiça, nos serviços públicos em geral —, mas talvez a mais simbólica que tenha vindo ao espaço mediático tenha sido a questão da ala pediátrica do Hospital de S. João no Porto. A situação é tão inenarravelmente miserável que continua a ser discutida no orçamento de estado deste ano depois de já ter sido incluída no do ano passado. Continua a ser discutida, bem entendido, porque o governo não cumpriu com o que se comprometeu.

 

O azar dos utentes da ala pediátrica do S. João, bem o sabemos, é não se constituírem como banco ou fundo de investimentos. Se assim fosse, ninguém tenha dúvidas, quebrar-se-iam nesse mesmo momento todas as barreiras orçamentais, todos os limites do défice e investimentos extraordinários seriam autorizados com urgência. Também aqui se vê bem para quem é que este governo governa.

 

Mas as coisas não ficam por aqui. Parece não haver término para a vilania orçamental deste executivo. Viemos a saber no final desta semana que até mesmo aquela medida dos manuais escolares gratuitos — aquela singela medida de natureza frívola, de alcance pueril, que não aquece nem arrefece no contexto dos graves problemas estruturais que afetam a nossa débil sociedade, com vestigial impacto orçamental —, tem sido cumprida de forma impostora, com a generalidade das livrarias credoras de altos valores referentes aos livros trocados pelos vouchers. Muitas ameaçam não alinhar mais neste embuste já a partir do próximo ano letivo.

 

Não há nada que seja implementado por este governo de forma limpa e transparente. Ao longo desta legislatura, o governo tem-se comportado como uma pessoa falsa, de mau caráter e sem escrúpulos. Diz que faz uma coisa e não faz. Promete uma coisa e esquece-se, diz que não foi bem assim. Chegámos ao ponto de discutir posições de vírgulas no texto orçamental como reflexo inequívoco da má fé que está em jogo.

 

Palavra que não consigo entender como, à esquerda, tanto se defende uma pessoa (coletiva) desta baixeza moral, deste calibre humano. Não consigo entender como se continua a negociar, sequer a falar, com este governo. O maior problema é que, cada dia de vida a mais desta “geringonça”, cada dia mais que se passa a lidar com este governo, a esquerda vai-se conspurcando de um bafio, de um bolor, que não sairá com um simples banho. Já dizia Goethe, e o povo antes dele, Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és.

Como a História é uma coisa curiosa, hem?

por Amato, em 04.11.18

Como a História é uma coisa curiosa, hem? Via hoje as cerimónias dos cem anos do armistício da Primeira Grande Guerra, ouvia as palavras comprometidas do nosso Presidente, incomodado que anda nestes dias com a questão de Tancos e com a omnipresente ideia de nós sabermos que ele já sabia — acho que já não oferece beijinhos, nem se disponibiliza para selfies —, ao mesmo tempo que se assistia a uma parada militar mais ou menos caricata. Onde é que já se viu celebrar a paz com uma parada militar? Não sei. Já se deve ter visto, com certeza. A mim, não se me afigura com muito sentido.

 

Mas, como a História é uma coisa curiosa, hem? Vejam bem: celebramos um armistício de uma guerra como se fosse uma guerra qualquer, como se fossemos uns como os franceses ou os ingleses, como se nos pudéssemos chamar de “aliados”, assim, com propriedade! Celebramos com um sentimento de orgulho que até parece autêntico! Não lhe denoto, com efeito, vestígio algum de fingimento! Pergunto-me: de onde vem tal sentimento?!

 

Acaso não saberemos dos contornos desastrosos, trágicos mesmo, da nossa participação na Primeira Grande Guerra? Não ensinam isto às gerações mais jovens? Ou estas já não se lembram porque nunca lhe dedicaram especial atenção? O que somos nós, afinal, no meio disto tudo, desta sociedade feita feira de entretenimento? Verbos de encher? Carne para canhão?

 

Não exageremos, pois. Carne para canhão não seremos nós na justa interpretação da idiomática expressão. Esse papel foi dedicado aos nossos antepassados que participaram na Primeira Grande Guerra, homens de trabalho, pais de família, maridos, destacados e alinhavados às pressas, para serem enviados para França, para servirem como moeda de troca para favores de política internacional. Esse batalhão mal amanhado seria, esse sim, usado literalmente como carne para canhão em batalhas na região da Flandres, com destaque morbidamente particular para a Batalha de La Lys, em abril de 1918, com a perda desnecessária, evitável, dizem os entendidos, de milhares de vidas portuguesas, joguetes nas aprumadas mãos dos generais ingleses e franceses.

 

O Presidente da República faria bem em evocar esta desgraça, esta humilhação que nos foi infligida pelos nossos “eternos aliados” que nos usaram como carne para canhão, em vez de jogar conversa fora, em vez de recitar adjetivos sobre conceitos vagos e indeterminados como é tão seu apanágio. Podia aproveitar para o fazer quando visitar Paris, na próxima semana, para participar das celebrações que lá ocorrerão. Daria ao mundo, estou certo, uma imagem bem diferente do nosso país.

 

Adicionalmente, a participação portuguesa nesta guerra cujo fim se evocou hoje terá sido o princípio do fim da Primeira República que viria a ter o seu desenlace na ditadura militar. A guerra empurrou o país para a penúria, para a miséria e para as mãos do fascismo. É claro que o Presidente da República não falará nada sobre este assunto. Não é por desconhecer. Afinal, Marcelo é o afilhado do último ditador deste país. Ele sabe.

 

Como a História é uma coisa curiosa, hem? Desculpem a repetição. Cem anos parecem ser o suficiente para lavarmos completamente as memórias de um povo e para transformar o branco em preto e o preto em branco. Estou a exagerar: hoje em dia, as redes sociais e os smartphones fazem o mesmo numa questão de horas.

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