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Porto de Amato

Porto de abrigo, porto de inquietação, porto de resistência.

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O país falhado

por Amato, em 10.09.20

O país falhado tem o melhor sistema de saúde do mundo, virtualmente gratuito e universal. O problema é que funciona apenas para velhos e doentes. Os jovens do país falhado não se queixam muito. A saúde, que têm para dar e vender, não é coisa que lhes preocupe e, pelo contrário, preferem entreter-se com seguros e planos de saúde que descobrem, apenas quando já é demasiado tarde, serem de pouco valor em face da doença. No sistema de saúde do país falhado não existem consultas de especialidade porque ter que esperar mais de um ano pela dita é, de facto, equivalente à sua não existência. Já uma consulta de medicina geral é capaz de demorar só meio ano o que dota de uma certa ambiguidade a sua existência. Mas quando ela chega mesmo então ficamos na dúvida se a arte que se pratica será mesmo medicina ocidental ou antes uma espécie de terapia energética alternativa que se preocupa apenas com os nossos níveis de colesterol presentes no sangue. Em literalmente tudo o resto, a palavra de ordem é poupar todo o tipo de exames preventivos e confiar a sorte a uma qualquer divindade que nos seja agradável. A saúde do país falhado é, assim, uma espécie de entretenimento para aqueles que já estão doentes; um negócio obscuro de operações a cataratas e a rótulas para os mais idosos; um patrocinador ativo dos lucros dos hospitais privados para os quais empurra os cidadãos a toda a força.

 

O país falhado tem a melhor educação do mundo, com lindas taxas de aprovação e de não retenção cada vez mais virtuosas, apenas acompanhadas pelas crescentes percentagens de alunos graduados apesar da sua assustadora pobreza cultural. No país falhado os alunos são excelentes a passarem nos exames, mas medíocres numa simples conversa sobre literatura, filosofia, ciência ou outra coisa diversa que não seja, claro, nem sobre redes sociais, youtube ou outra pós modernidade qualquer dinamizada por indivíduos intelectualmente ainda mais medíocres do que eles. E, nas universidades, o país falhado orgulha-se de produzir excelentes engenheiros, arquitetos, professores, médicos e enfermeiros, orgulha-se muito, só que apenas uma parte destes ficam no país falhado. Por não ter emprego para eles e por achar que salários mínimos pagos à hora são a melhor recompensa, o país falhado faz questão em ver os seus quadros partir para outras paisagens e orgulha-se, novamente muito, em vê-los a reforçar o tecido laboral, produtivo e social dos seus países vizinhos.

 

O país falhado é o país com todos os direitos e todas as garantias. O problema é que para se poder exercer literalmente qualquer um desses direitos e qualquer uma dessas garantias, o cidadão deve navegar por um oceano de burocracias, envolvendo o preenchimento de formulários em papel, formulários online, e-mails aos diretores de duas ou três instituições oficiais, apresentação de documentos, fotocópias de documentos, de um rol de recibos e comprovativos e, mais importante, ter a sorte de não ter tido alguma herança inadequada, ou de algum dos elementos do seus agregado familiar não estar a auferir um salário que se considere imoral. No país falhado toda a gente tem os melhores direitos, mas poucos, e apenas aqueles que se sabem orientar, conseguem usufruir deles. Os direitos são para todos no papel e para poucos na prática. O país falhado proclama, com orgulho, que não tem classes sociais e que todos os seus cidadãos são iguais, mas a realidade é como o negativo da fotografia tirada à coisa.

 

O país falhado tem os melhores serviços do mundo que sabem tudo a respeito dos seus cidadãos na hora de cobrar impostos, taxas e multas, mas que se volvem subitamente amnésicos e incapazes, desconhecendo-se completamente uns aos outros, na hora de se mostrarem efetivamente úteis na satisfação de um pedido ou de um direito desses mesmos cidadãos. No país falhado são necessários seis meses para se agendar o levantamento de um cartão de cidadão. Anos passam para se obter uma reforma de uma vida de trabalho, de descontos e de contribuição para o sistema falhado do país falhado.

 

Mas o pior do país falhado não é nem a saúde, nem a educação, nem os serviços. O país falhado tem também a melhor das democracias, a todos dando voz, a todos dando possibilidade de se pronunciarem sobre as decisões e a política. No país falhado todos têm voz, mas não existe ninguém para ouvir. Há uma histeria permanente, uma comoção muito grande, uma cacofonia ensurdecedora que berra por liberdade, igualdade e democracia. Há uma ilusão de que o indivíduo conta, de que pode optar e dispõe de diferentes caminhos. Essa ilusão converte o país falhado na gaiola perfeita da qual ninguém quer sair, não obstante a porta estar escancarada. E a lavagem cerebral, o convencimento permanente que exerce sobre as massas de que o falhanço rotundo do seu país é, afinal, o maior dos sucessos, de que se estes não são mais expressivos a elas se devem e de que as mesmas devem agradecer diariamente as suas pobres condições de vida e aceitar o seu constante deterioramento. O pior de tudo é a ilusão.

 

Este é o país falhado. Sejam bem-vindos.

Seis meses para levantar um cartão de cidadão

por Amato, em 08.09.20

Um país em que são necessários seis meses para levantar — leu bem, levantar, não é fazer! — um cartão de identidade, a que se chama de cidadão, que se renova por mais de dezasseis euros, não é um país: é uma abjeção, é uma anedota, é uma vergonha. E não, não venham com a desculpa do covid, porque o covid agora serve para justificar tudo, mas não é para aqui chamado: as coisas já estavam péssimas muito antes do vírus aqui chegar.

 

O país foi ficando assim, governação após governação, foi-se destruindo a pouco e pouco, desmantelando peça por peça, e hoje, funcionando sempre nos mínimos do admissível, é algo de resolutamente inviável, perfeitamente incapaz de lidar com qualquer situação inesperada. Os serviços públicos chegaram ao fundo do poço. Seis meses para se levantar um cartão de cidadão já feito é algo de surreal, de distópico. Eu sei que com a saúde é pior e mais grave. Eu sei que também se podia falar na educação e que há coisas mais importantes que um cartão de cidadão. Mas é simbólico. Se isto não funciona, o que é que pode funcionar? Aguardar seis meses para se levantar um cartão de cidadão é assustador, tenebroso. São cinco minutos: mostrar o papel, confirmar os dados, assinar. Mas são cinco minutos que, tragicamente, os serviços do nosso país não têm.

 

Contas certas? Défices zero? Excedentes orçamentais? Isto, demorar seis meses para levantar um cartão de cidadão, devia ser o maior embaraço para qualquer governante, a prova maior da sua total inépcia, da sua insofismável incompetência para liderar um país.

Uma vez mais, a Alemanha

por Amato, em 03.09.20

Nos últimos anos têm-se vindo a multiplicar os protestos populares na Roménia, sobretudo nas suas cidades mais cosmopolitas com expoente máximo na capital Bucareste. A razão de ser de tais manifestações é uma corrupção governamental crescente tão vergonhosa, que o primeiro-ministro local chegou ao descaramento de influenciar o processo legislativo para evitar ser preso ou julgado pelos seus crimes de lesa-pátria. O povo saiu à rua em força, gritou com toda a força que guardava nos pulmões, mas à parte da Roménia, ninguém aqui, na Europa civilizada, ouviu o que quer que fosse, escassas notícias foram impressas sobre o assunto, nenhum comentário foi emitido no noticiário sobre a situação, nenhum vestígio de indignação. Absolutamente nada.

 

Um pouco mais a norte, no enfiamento do mesmo meridiano, a pouco mais de quinhentos quilómetros, a Bielorrússia tem vindo a ser tema de conversa desses mesmos jornais e noticiários de televisão. Aparentemente, as eleições locais geraram suspeita. Aparentemente, tem havido manifestações diárias de dezenas, não, centenas!, não, milhares!, não, dezenas de milhares!, não não, centenas de milhares! — assim é que é! —, reprimidas pelo estado. Há opositores políticos encarcerados e outros no exílio. Há isso e há muito mais. O pacote que os media nos oferecem nestes contextos é já bem conhecido e aplica-se de modo notável neste caso particular. A Bielorrússia, provavelmente o país mais ordenado e organizado da Europa, com uma taxa de crime praticamente nula, está convertida no inferno na Terra, pelo menos, a confiar no que nos dizem os nossos canais informativos.

 

O meu problema não é eu ter um certo afeto pela Bielorrússia e não ter assim tanta afinidade pela Roménia. Afinidades, como os amores, não se discutem, nem se escolhem. Ademais, não ponho as mãos no fogo pela liderança atual da Bielorrússia, nem tomo esse país como um modelo a seguir. Mas isso também não é para aqui chamado, não será assim? Se calhar o nosso problema é precisamente este: permitimos sermos guiados pela emoção em vez da razão e essa será a chave para quem nos governa conseguir perpetuar os seus poderes, manipulando-nos constantemente e, assim, sobrevivendo a cada eleição e a cada escândalo.

 

O meu problema é a diferença de critério, são os dois pesos e as duas medidas, porque não é só a Ucrânia que está entre a Roménia e a Bielorrússia, há algo de mais substantivo que separa estes dois países e que justifica as evidentes diferenças de tratamento aplicadas a um e a outro.

 

Qualquer observador atento da realidade política internacional que não conheça as lengalengas contadas usualmente a propósito da criação das comunidades várias que deram origem à União Europeia, dirá que o objetivo principal desta última terá sido coser na perfeição um manto protetor feito à medida da Alemanha. Com esse manto chamado União Europeia, a Alemanha foi capaz de camuflar os seus interesses expansionistas fazendo uma espécie de reset àquilo que foi a memória coletiva mundial pós duas guerras mundiais. Tudo na União Europeia, as suas regras, as suas políticas produtivas comuns, as suas distribuições de renda, a moeda única, a admissão de novos membros, etc, tudo foi feito na justa medida dos melhores interesses germânicos. Até mesmo em termos de política externa, a Alemanha encontrou um intermediário ideal que, falando em nome do grupo, defende, de facto, os seus interesses.

 

A diferença é esta. A Roménia já se libertou da influência russa desde o início dos anos noventa e, com isso, entregou, paulatinamente, todos os seus recursos naturais, todo o seu património empresarial nas capazes mãos alemãs. A Roménia está, portanto, do lado certo. Já a Bielorrússia é talvez o derradeiro aliado europeu da Rússia e mantém em seu poder a exploração dos seus recursos e a organização do seu país. A Bielorrússia está, como é evidente, do lado errado da História. Daí, as gritantes diferenças de tratamento.

 

A Roménia não é, bem entendido, o único exemplo que podemos fornecer. Aliás, o retrato traçado sobre a Roménia poderia ser reproduzido com muitas semelhanças relativamente a muitos outros países vizinhos. Desde o final da guerra fria, cada país do leste europeu que descobriu e se converteu às maravilhas do capitalismo do ocidente foi um país que engrossou o protetorado alemão. E sentem-se bem desse modo. Não se importam de já não terem fábricas suas, nem companhias aéreas, nem matérias primas. Adoram imaginar-se alemães. A Alemanha está efetivamente a conseguir pela via económica o que nunca conseguiu pela via militar.

 

Nos últimos dias, tivemos conhecimento do envenenamento de mais um opositor de Putin, desta feita em solo germânico. Pela forma como a notícia nos é apresentada, não restam quaisquer dúvidas para ninguém de que a Rússia será a culpada. Se assim é, será possível reconhecer também a total incompetência dos russos nestes envenenamentos que nunca cumprem plenamente os seus intentos, deixando sempre as vítimas vivas e um rasto de provas irrefutáveis. É estranho. E neste mar de estranhezas sucessivas, alimentadas ora por americanos, ora por britânicos, ora por franceses, ora por alemães, prosseguem estes últimos um rumo fixo e determinado de dominação ideológica e económica do leste europeu.

Nós-outros

por Amato, em 21.08.20

O castelhano é uma língua com uma verdadeira preciosidade que pouca gente nota, assim, como um tesouro escondido. Enquanto que na maioria das línguas o pronome pessoal da primeira pessoa no plural refere-se a uma espécie de grupo do qual fazemos parte, em português, por exemplo, o pronome é nós, nós o nosso grupo, nós a nossa equipa, nós a nossa família, nós o nosso partido, nós o nosso país, em castelhano o pronome é nosotros, ou seja, nós-outros.

 

Não faço a menor ideia se esta diferença foi intencional ou fruto de um feliz acaso, mas o pronome nosotros, assim modificado em comparação com os seus irmãos das outras línguas, é carregado de um forte sentido de comunidade. Nós-outros não diz respeito unicamente ao nós. Pelo contrário, nós-outros inclui os outros, juntando o eles também na equação do nós. Numa sociedade tão vocacionada para o apontar dos próprios defeitos aos outros, para o divisionismo, o elitismo e divisões artificiais por castas ou classes, a ideia do nós-outros podia assumir aqui um papel terapêutico simbólico. A eficácia desse papel nos países hispânicos carece, todavia, de avaliação, mas há coisas que não têm que ser científicas para serem boas, justas e belas.

 

Lembrei-me do nós-outros ao ouvir algumas reações àquela barbaridade que está a ocorrer no Brasil de Bolsonaro. Uma menina de dez anos apenas, violada, decidiu abortar e está, ela e a sua família, a ser violentamente atacada e ameaçada, com multidões de extremistas religiosos pró-vida perseguindo-os ao ponto da menina e família terem sido forçadas a mudar de identidade e de cidade para poderem continuar a viver. Os comentários não deixam de revelar a tal separação que existe entre o nós e o eles. Mas o nós é o nós-outros, lembram-se? O que vemos nos outros também existe entre nós e a intolerância, o extremismo, o pensamento atrasado, a falta de humanidade são características presentes, por vezes à espera de um qualquer rastilho para poderem arder livremente entre nós.

 

A quem tiver boa memória, basta lembrar o que foi a dificuldade em fazer aprovar a lei da interrupção voluntária da gravidez neste país chamado Portugal, como foram os debates e a argumentação usada então. Esses movimentos pró-vida não desapareceram, continuam por aí, identicamente inspirados, identicamente iluminados e voltarão agora em força com a legislação sobre a eutanásia. E, agora, têm mais força e representação no nosso parlamento.

 

Nós-outros: nós somos os outros e os outros somos nós.

Avante 2020

por Amato, em 17.08.20

Gosto muito da Festa do Avante!. Gosto mesmo. Considero a Festa como o evento cultural e político mais significativo do panorama nacional. Já o escrevi aqui, não mudo de opinião. A Festa é uma realização que deve orgulhar todos os comunistas que, durante três dias, mostram ao mundo, pela prática, que uma outra sociedade é possível, que o sonho comanda a vida e que a chama da utopia tem que ser mantida bem viva para não deixarmos de caminhar no sentido do progresso e da fraternidade. Adoro viver aqueles três dias da Festa do Avante!.

 

A edição deste ano, um ano que continua fortemente marcado pela pandemia, tem estado envolta em polémica motivada por motivos óbvios relacionados com a saúde pública e alimentada por outros, também óbvios e permanentes, relacionados com a guerrilha política habitual de cariz anticomunista primário.

 

É de sublinhar que, este ano, a realização da Festa do Avante! tem tido mais cobertura e atenção mediáticas do que todas as outras quarenta e tal edições já realizadas desde 1976 e tal facto promete aprofundar-se ainda mais com a realização propriamente dita da Festa, antevendo-se uma minuciosa observação dos espaços da mesma em busca de possíveis más práticas no contexto da saúde pública.

 

Não obstante tudo o que foi escrito acima, a minha posição é de não concordância com a realização da Festa do Avante! neste ano de 2020. Não concordo por dois motivos fundamentais.

 

Primeiro, por uma razão de saúde pública. A Festa representa uma concentração de muitas pessoas, não interessa se são cem mil, trinta e três mil, se são mais ou se são menos. São muitas pessoas. É verdade que o espaço é amplo, e ainda foi mais aumentado este ano, mas o simples bom senso, para além de qualquer diretiva da Direção Geral de Saúde, devia inibir a promoção de uma festa com tanta gente, estando o país, particularmente, na antecâmara da segunda vaga do vírus, como já está a acontecer no resto da Europa.

 

Acresce, em segundo lugar, que o lema da Festa é a fraternidade, o convívio intergeracional, a conversa, o debate, a troca de experiências, a manifestação dos sentires e das emoções. Ainda que, por absurdo, fosse possível cumprir um religioso distanciamento social e todas as normas e mais algumas, em que é que resultaria a Festa do Avante!? Será que vale a pena a Festa ser realizada, assim, a qualquer custo, sem o poder partilhar de um abraço ou de um beijo, de sorrisos escondidos atrás de máscaras, despida dos seus mais íntimos valores, da sua razão de ser?

 

A impressão que transparece é que sim, que a Festa tem que ser realizada a qualquer custo e tal não será alheio ao facto da Festa se ter tornado, com o passar dos anos, no porquinho mealheiro do Partido Comunista Português e de essa valência, natural numa realização como esta, ter vindo a assumir preponderância no orçamento do partido, mais a mais com os fiascos eleitorais sucessivos e os buracos financeiros correspondentes.

 

Claro que se pode sempre argumentar com a incoerência que impera em todo o país, particularmente desde a retoma pós-confinamento, no que diz respeito ao combate à pandemia, desde as praias aos concertos, passando pelos transportes públicos. No fim de contas, porém, qualquer partido político deveria assumir a responsabilidade de fazer o mais correto e dar um exemplo de prudência aos seus militantes, simpatizantes e a todos os cidadãos em geral. Não se justifica um erro com outro. É tão básico quanto isto.

 

Pedia-se, pois, mais a um partido com a história e as responsabilidades do PCP. Mas o PCP não só decidiu enveredar por outro caminho como ainda decidiu fazer uma gestão da coisa absolutamente lamentável, mandando números aleatórios para o ar, omitindo informação e, sobretudo, contribuindo para a politização do assunto. Defender, por exemplo, que a realização da Festa é imperativa para a defesa dos trabalhadores é, no mínimo, pouco sério. Ao PCP exigia-se uma posição organizada, transparente, coordenada com a lei e com a DGS, sem arrogância no discurso, sem vitimizações, sem politização. O PCP fez tudo ao contrário.

 

Nota final para uma realidade que parece ter vindo para ficar mas que não deixa nunca de me causar espanto. Não obstante a frente de críticas esperadas à posição do PCP vinda da direita, é surpreendente observar certos comentadores de direita, de repente, a fazer a defesa do PCP. Já ouvi dois, daqueles mesmo à direita, a dizer que o PCP é muito responsável e desfazendo-se em outros elogios ao partido. Para mim isso é sempre mau sinal. Estarão eles incumbidos de tentar salvar a muleta de governação do PS? Ao que nós chegámos...

As três formas de se combater o fascismo

por Amato, em 14.08.20

Primeira: a educação e a formação da população com a ideologia da igualdade e da fraternidade. Não é possível destruir o fascismo se os nossos jovens são educados numa sociedade do «cada um por si», apologética da competitividade e com o lema Os fins justificam os meios. Não é possível combater o racismo quando a nossa sociedade desde a escola nos convida a ver no outro um adversário, um inimigo à nossa felicidade, em vez de um irmão com precisamente os mesmos direitos a ter uma vida digna e feliz.

 

Segunda: a informação e a propaganda especificamente direcionada para combater o racismo, a xenofobia e o totalitarismo. No seio de uma sociedade que construiu as máquinas de propaganda mais sofisticadas, seria suposto que este segundo ponto fosse um dado adquirido. Mas não é. A propaganda é aplicada extensiva e intensivamente com vista à defesa dos interesses económicos sejam eles quais forem e, deste modo, opera na sociedade sem uma qualquer bússola moral. Assim, a propaganda perde força e alcance enquanto arma de intervenção. Mais: tem tendência a reduzir-se ao desprezo e ao insulto gratuito o que, em vez de prevenir, produz acantonamento e ódio ideológico.

 

Terceira: a destruição do que quer que constitua o alimento circunstancial do fascismo. O fascismo suporta o seu crescimento e a sua propaganda em mensagens simples, diretas e eficazes por se basearem em problemas sociais concretos. Esses problemas podem ser simplificações mais ou menos grosseiras, podem carecer de inspeção e discussão, é certo, mas são fortemente baseados na realidade e, deste modo, promovem uma fácil identificação com uma parte da população, sobretudo aquela que é diretamente afetada. É, pois, fundamental enfrentar cada um destes problemas, as desigualdades, a corrupção nas instituições, as dificuldades de sobrevivência, a ausência de segurança e de perspetivas ao mesmo tempo que se patrocinam massivas migrações populacionais que, naturalmente, transformam os espaços, a cultura e as tradições, sempre no sentido da promoção de uma maior dificuldade em assegurar um posto de trabalho ou uma côdea de pão.

 

Não é possível erradicar a ideologia fascista sem articular em conjunto cada uma destas perspetivas. Apenas a educação e a propaganda não resolvem o problema. Apenas teoria no contexto de uma prática social antagónica, e mesmo pró-fascista, a que chamamos de capitalismo, não é suficiente. Mas, como em tudo o resto, a sociedade ocidental não enfrenta os seus próprios problemas e prefere adormecê-los com uma certa propaganda oca a que se pode chamar de politicamente correto juntamente com o despejar de dinheiro fácil o que, a médio prazo, quer um, quer outro, mais contribuem para o agravar do problema.

 

Brecht dizia, no segundo quartel do século XX, que o fascismo era a verdadeira face do capitalismo. Mais de dois mil anos antes, Platão postulava que a tirania seria o resultado natural da degeneração da democracia. Hoje, é preciso cuidado e não empurrar o problema para o cesto dos clichés e dos lugares comuns. A coisa é séria.

Fernanda Lapa (1943-2020)

por Amato, em 07.08.20

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image: www.tv7dias.pt

 

Não deixa nunca de me espantar a forma como tratamos e como esquecemos, ao ponto da nota de rodapé, do quadradinho minúsculo ao canto do periódico, as grandes figuras deste país. Que sociedade somos, o que podemos ser, se não conhecemos quem tanto nos deu, se cultivamos o esquecimento permanente, sempre com os olhos postos num amanhã ilusoriamente renovado? Que sociedade é esta que projetamos deste modo?

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