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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Subconcessionando

por Amato, em 01.10.16

“Hoje, eu e a esposa tomámos uma decisão. Isto de criar um filho, de lhe dar sustento e educação, é muito dispendioso. É mesmo o que se poderá chamar um investimento a fundo perdido. Retorno, nem vê-lo! Quando o magano tiver idade suficiente nunca mais lhe pomos a vista em cima e, ainda bem, porque a alternativa seria pior e eu não nasci para sustentar mandriões. Bem vistas as coisas, gasta-se uma pipa de massa durante dezoito anos, pelo menos, da qual não vemos um tostão de volta.

 

Dizia eu que tomámos uma decisão. Esta brincadeira já dura há tempo demais. A decisão é de, em face do exposto, subconcessionar a criação do nosso filho a uma empresa privada que se nos apareceu com bom preço de oferta.

 

Não o fizemos, todavia, de modo a despachar o problema de qualquer jeito. Não. Primeiro fizemos o nosso trabalho de casa, a prospeção do mercado. Solicitámos vários orçamentos, enviámos diversos e-mails, e o que mais barato resultou foi esta empresa que acabámos por escolher. Em boa verdade, a empresa oferece ainda alguns extras bem interessantes, como atividades de lazer e extracurriculares e outras coisas que tais para o catraio se entreter.

 

Adoro o sistema capitalista. Faz do inimaginável realidade. Quem é que poderia pensar que isto poderia ser possível? Delegar as nossas responsabilidades num terceiro é mais eficaz e sai mais barato na carteira. Afinal, a empresa é profissional e está melhor preparada do que nós para a criação do nosso filho. Agora, substituem-nos nas aborrecidíssimas reuniões de encarregados de educação na escola, são eles que ouvem o que nos custava tanto dantes ouvir, tomam nota das asneiras que o miúdo faz ao longo do ano e disciplinam-no da melhor maneira. Funciona melhor assim: como não há uma relação de proximidade, o miúdo ouve e aceita as reprimendas melhor do que se fossemos nós a ter que o fazer. Todos ficam a ganhar.

 

E não se pense, por um minuto que seja, que as vantagens não se ficam por aqui. Se o miúdo não comer e passar fome, a culpa não é nossa. Se o miúdo andar sujo, a culpa não é nossa. Se o miúdo fizer alguma asneira, a culpa não é nossa. Essencialmente, a culpa nunca é nossa. A subconcessão a uma empresa reputada e que presta todas as garantias prévias salvaguarda-nos de qualquer problema. Se a empresa presta o serviço em condições, isso é outro problema que não é, seguramente, nosso.

 

Que ideia brilhante! Amanhã à noite, vamos jantar à conta do que já poupámos com esta ideia. Quem nos dera ter-nos lembrado de fazer isto mais cedo. Devíamos ter prestado mais atenção quando as empresas começaram a fazê-lo mundo fora, ainda na década de noventa, desmantelando os seus serviços e subconcessionando-os a outras empresas satélite. Hoje, não há quem assuma responsabilidade seja pelo que for e o serviço que custava dez, agora custa cinco. Não interessa se tem ou não tem qualidade. No subconcessionar é que está o ganho!”

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Amato

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