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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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Questionando a noção de "esquerda" de George Orwell

por Amato, em 24.09.16

Esta semana terminei a leitura de um pequeno livro de George Orwell intitulado de Animal Farm, que é mais um conto do que um romance. Li a versão original inglesa de noventa e cinco páginas. Devo referir que fiquei muito dececionado.

 

Quando peguei pela primeira vez no livro fi-lo carregado de esperanças. Afinal, tratava-se do meu primeiro livro de Orwell, um escritor britânico “de esquerda” com maravilhosa crítica. O primeiro capítulo concorreu para esse estado de espírito: uma escrita de muito boa qualidade, envolvente, desvendando desde logo a fábula metafórica do movimento revolucionário do proletariado identificado na revolução dos animais. O problema veio depois, nos nove capítulos restantes.

 

A fábula revelou ser, na minha opinião, não mais que uma caricatura cruel do regime comunista soviético. Adjetivo de cruel porque conseguiu recolher nas suas páginas todas as críticas ao regime por parte do capitalismo ocidental, as justificadas e as injustificadas, as difamações puras ou as considerações enviesadas e descontextualizadas, e, no fim de contas, conclui algo de muito simples, todavia extraordinariamente triste: não vale a pena fazer o que quer que seja, não vale a pena sonhar com um mundo melhor, não vale a pena lutar, porque seremos sempre tramados por alguém que se corrompe e que trai os sonhos do coletivo.

 

Muitos poderão argumentar que o ponto do livro é precisamente alertar para o corrompimento do Homem pelo poder, mas escrever um livro inteiro com este singular propósito parece-me pouco, parece-me insuficiente. Deixo algumas questões.

 

  1. Não eram válidas as fundamentações para a revolta dos “animais” (operários)?

 

  1. Não eram as suas condições de vida miseráveis?

 

  1. Não deviam eles sonhar, ambicionar e lutar por algo de melhor?

 

  1. E, falhando — como aliás resultará inevitável —, não deverão tentar novamente?

 

  1. E a cada tentativa, não será que certos avanços são conquistados?

 

  1. Alternativamente, devem eles acomodar-se à sua condição já que esta nunca será melhor?

 

A visão que resulta da leitura do Animal Farm é uma que é extremamente pessimista, pesada e negativista. Não existe um raio de esperança naquelas páginas e, isso, considero que é indesculpável. Com efeito, com todos os erros que o regime soviético cometeu, com todas as suas imperfeições, as quais dou de barato, ignorar os avanços sociais que ele nos trouxe, que induziu na maioria dos países europeus, por exemplo, como sistemas universais de saúde, de educação ou de providência, um legado que perdura ainda hoje, é triste e surpreendente para um autor de quem dizem ser “de esquerda”. Com efeito, o Animal Farm adequar-se-ia na perfeição na autoria de um escritor conservador, de direita, um que considera-se que o aqui e o agora é já o melhor que a humanidade poderá algum dia almejar. Não é à toa que o livro foi tomado pela direita como um panfleto anticomunista.

 

Tenho agora o 1984 para ler e, sinceramente, não sei o que fazer. Acho que vai ter que esperar um pouco.

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Amato

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