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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

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O que a palavra escrita denuncia

por Amato, em 23.08.16

Já sei que as palavras que se seguem serão, para muitos, de difícil leitura, mas este não é um espaço semelhante a muitos dos que se destacam no universo da blogosfera. Bem entendido, o Porto de Amato não busca, em nenhum momento, aprovação das massas ou popularidade. O Porto de Amato é um espaço de opinião o mais honesta e transparente que consegue ser dentro dos próprios limites do ser humano que nele escreve. O Porto de Amato não faz fretes, critica o que entende criticar e o que considera ajustado e equilibrado que se critique no estrito contexto das fronteiras do bom senso e mesmo quando os alvos da crítica possam ser considerados pelo público como de algum modo inimputáveis por estarem do lado do politicamente correto.

 

Ontem li a entrevista de Catarina Martins, a líder do Bloco de Esquerda, ao Público. Ao contrário do que se possa imaginar, pondero sempre dez vezes — por todas as razões — antes de publicar alguma coisa potencialmente negativa sobre o Bloco de Esquerda.

 

Identificando-me genericamente com aquilo que o Bloco defende — genericamente, porque a indefinição ideológica congénita deste partido não permite uma adjetivação mais concreta —, a verdade é que o Bloco apresenta uma série de vícios de estilo que muito me desagradam. O discurso dos seus dirigentes é, em geral, redondo, pouco concreto, misturando um idealismo inocente — que por ser programado perde a genuinidade — com uma série de afirmações fortes, pouco ponderadas. O Bloco de Esquerda é o partido do diagnóstico da situação, mas quando se pergunta a legítima pergunta do “O que fazer?” ou “Que alternativa propõem?”, a coisa começa a andar em círculos e volta ao diagnóstico que, realmente, é perfeito e com o qual todo o universo da esquerda política concorda.

 

Catarina Martins é o exemplo máximo disto que escrevi. A resposta que dá quando questionada sobre o Syriza é paradigmática. O Syriza não é algo que possa ser chutado para canto ou facilmente descartável. Pelo contrário, o Syriza é uma constante e soberana oportunidade de clarificação ideológica do Bloco, porque é o pretexto ideal para se responder às perguntas anteriores “O que fazer?”, “Qual é a alternativa?”, mas Catarina volta ao diagnóstico, renega o até agora partido-irmão e aponta os pecados da sua ação. Mas isso é fácil. Repito: o que faria o Bloco se acaso estivesse no lugar do Syriza? A essa pergunta Catarina não responde. Nem pode. Não sabe. O Bloco de Esquerda apenas sabe o que não quer. O que quer, não sabe. O que quer será improviso. E se o improviso não resultar, então, tal como o Syriza na Grécia, quererá o que hoje não quer.

 

Acresce a pertinente questão de personalidade que concorre com o que já foi dito a respeito do que é ideológico. Sempre que ouço Catarina Martins soa-me a ensaiado, soa-me a forçado. Catarina Martins não fala, declama, e não há nenhuma palavra que diga que não tenha sido previamente pensada ou preparada teatralmente ao pormenor.

 

“Arrependo-me todos os dias [da coligação parlamentar]” é, talvez, o apogeu do seu discurso teatral último. É que não é autêntico, é que não é genuíno! Faz lembrar o “I regret every day” dito por Joe Biden a propósito da sua decisão de não ter entrado na corrida à Casa Branca, mas que também pode ser encontrado em alguma página de cada romance de cordel americanizado. A intenção é humanizar quem o diz mas soa a forçado e a falso, sobretudo quando se lê as linhas que se seguem na entrevista. Dá vontade de perguntar: mas então porque é que se arrepende? Porquê? Todos os dias? Porquê?!

 

Claro que isto, admito-o, tem muito de subjetivo e de pessoal. Todavia, parece-me tão evidente que considero espantoso que mais gente não se sinta do mesmo modo. E é surpreendente perceber nas palavras escritas da entrevista de Catarina Martins ao Público precisamente o mesmo grau de teatralidade. Catarina não é genuína nem fala do coração e isso ouve-se, mas mais do que sob a oralidade, denuncia-se sobremaneira pela palavra escrita. Não sendo, porém, valorizado por quem vota, é um traço que, por ventura, adequa-a mais ao meio onde se movimenta.

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Amato

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