Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Notas sobre os últimos desenvolvimentos na Síria

por Amato, em 07.04.17

A comunicação social continua na sua demanda de fabricação de factos sobre a guerra na Síria. Não interessa que já se tenha descoberto dezenas de fotografias manipuladas no Photoshop, normalmente de meninos em estado de choque com a guerra. Não, não interessa. Há sempre um facto novo a imputar sempre ao mesmo lado, ao lado que convém denegrir, que é o lado do governo Sírio.

 

Desta feita, foi o suposto ataque com armas químicas. De imediato, o rumor foi suportado por uma enxurrada de fotografias e de relatos totalmente parciais e sem qualquer tipo de fiabilidade ou credibilidade. Novamente, se isso não interessou no passado, também não interessa agora que não haja qualquer tipo de credibilidade. As pessoas acreditam-se e pronto.

 

Desta vez, o facto criado foi suficiente para o governo americano ordenar um ataque sobre uma base aérea da Síria onde supostamente terá sido ordenado o suposto ataque químico. Parece mais uma daquelas histórias idiotas dos mesmos que nos trouxeram o famoso arsenal de armas de destruição maciça do Iraque? É verdade, parece mesmo. Falo em governo americano porque só um analfabeto poderá dizer que isto saiu da cabecinha pensadora de Trump. A própria Killary Clinton já veio a público dizer que este ataque só peca por tardio. Quem pensa que com Clinton seria diferente devia dedicar-se a outra coisa qualquer, como trabalhos manuais, e estar calado. O governo americano tem vida própria e move-se independentemente do débil mental que ocupa a Casa Branca e a questão Síria nada tem a ver com direitos humanos ou com outras razões igualmente inocentes. A questão Síria é uma questão económica estratégica. É uma questão política. É uma questão de defender os interesses da burguesia americana e o seu domínio sobre os recursos na região.

 

Este ataque americano, todavia, poderá originar repercussões muito graves para o governo dos Estados Unidos. Descontando a Austrália e o Reino Unido — e Israel, eventualmente —, ou seja, dos apêndices imbecis da América, o mundo em geral está a ver com muito maus olhos esta intervenção. É que é mais do que uma evidente agressão a um país soberano, de governo democraticamente eleito — sublinhe-se, porque nunca é demais sublinhar —, que está a lutar praticamente sozinho contra um grupo de radicais islâmicos que aterroriza o mundo. É também uma certa transformação da correlação de poderes no mundo. Rússia e China, juntos, poderão fazer os Estados Unidos começar a pagar pelos crimes que têm vindo a cometer mundo fora. Os Estados Unidos criaram e armaram Bin Laden e a sua Al-qaeda. Agora fizeram o mesmo com o Estado Islâmico. Não é de estranhar que, ao mesmo tempo, no preciso momento em que a América lançava os cinquenta e nove mísseis sobre a base aérea Síria, o Estado Islâmico lançava um ataque sobre posições do exército sírio na estrada Homs-Palmira. O Estado Islâmico é uma criação dos Estados Unidos e cumprem por ora um papel bem definido naquela zona.

 

Por cá, também não faltam os idiotas úteis do costume, sempre céleres na sua apologia ao politicamente correto, a tomar posição sobre o que lhes é soprado precisamente pelos órgãos de comunicação social fieis ao regime americano. Neste particular, ouvia esta tarde o Bruno Nogueira, um comediante que gosta de tomar posição sempre que diz umas piadas, a dizer uns disparates disfarçados de insultos sobre o Assad a quem atribuía a culpa definitiva sobre os supostos ataques químicos, dos quais, evidentemente, não tem qualquer dúvida sobre a sua ocorrência ou responsabilidade. Este é precisamente o tipo de idiota útil ao sistema capitalista. Fala sem saber, acredita-se em informação enviesada, e emite opinião rápida, sensacionalista, baseada em falsas evidências e numa estrutura de princípios tão pueril quão manipulável. O problema é que este tipo de idiota útil tem a capacidade de formar uma grande falange de pessoas distraídas que se ficam pela espuma do sensacionalismo mediático e se escudam nos seus altos conceitos ocidentalizados de direitos humanos, democracia e liberdade. Não têm contexto, nem cultura, nem história. Opinam sem sabedoria. Não têm paciência para mais. Só querem é jogos de computador, séries e filmes, sexo e sentimentalismo barato, tudo o que seja gratificação instantânea. Mas são muito boa gente, lá isso são.

http://images.huffingtonpost.com/2016-05-14-1463254278-5592062-spiritualpollutiontv.gif

O partido desta boa gente, lamento dizê-lo, é o Bloco de Esquerda, sempre tão rápido a votar ao lado da direita votos de condenação e outros que tais sobre os supostos ataques químicos do governo Sírio e legitimando os bombardeamentos americanos sobre a Síria. Em termos de política internacional, o Bloco de Esquerda é de uma ignorância que não cessa nunca de me espantar. Quando penso que já estou a contar com tudo o que de lá possa vir, lá aparece algo de novo. É assustador, deveras, se pensarmos que tanto do que é política e estratégia nacional deve ser entendido como parte de um processo global, que nos devemos saber posicionar internacionalmente e que, para o fazermos com inteligência, temos que saber interpretar com sabedoria os caminhos da história política do planeta. O Bloco de Esquerda assume um discurso que é muitas vezes de rutura com o sistema mas, ao mesmo tempo, aceita cegamente tudo o que é dito nos livros de história desse mesmo sistema. De duas uma: ou é um partido de imbecis do ponto de vista intelectual, ou as suas verdadeiras intenções não coincidem com aquilo ao que realmente vêm.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Amato

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Mensagens