Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

A era do politicamente correto

por Amato, em 21.07.17

No período medieval e pré-medieval o pensamento público era controlado pela igreja em articulação com a aristocracia. No Vaticano fizeram-se mesmo emendas ao longo dos tempos, alterações e acrescentos ao texto dos evangelhos — e esta prática prolongou-se por muitas centenas de anos — para que a palavra de Deus se adequasse na perfeição aos comportamentos e pensamentos que se pretendiam incutir nas massas de população a dominar.

 

Em eras anteriores sabemos que práticas semelhantes eram adotadas, fosse por intermédio de sacerdotes e textos sagrados de outras religiões, fosse por intermédio de figuras endeusadas e mistificadas como os faraós, fosse pelo método que fosse. O objetivo foi sempre o mesmo: controlar os pensamentos e as ações das populações. Controlar cada elemento do povo como se de uma marioneta se tratasse.

 

Com o desenvolvimento da imprensa escrita e, sobretudo, dos meios de comunicação globalizados, que se foram sofisticando constantemente — rádio, televisão, internet, redes sociais — também o modo como se procede à lavagem cerebral das massas se sofisticou. Não descartando o papel que a igreja ainda hoje tem, por ser importante sobretudo nos meios mais pequenos, hoje em dia o grosso do processo é operado através da televisão e da internet.

 

https://1.bp.blogspot.com/_ZUjeXTEVzU4/RkAt89EnZpI/AAAAAAAAACc/TIH_IpDrkfY/s400/media%2520conglomerate.gif

 

E não há como negar a elegância da sofisticação da coisa. Hoje em dia ninguém é forçado a frequentar a missa nem a ouvir a homilia do padre, nem uma outra qualquer similar encenação. O processo não se desenvolve mais de cima para baixo, antes pelo contrário. Hoje o povo busca, ele próprio, os conteúdos e busca os comentadores, escolhe o canal ou a página de internet com uma falsa sensação de liberdade de escolha porque todos dizem essencialmente o mesmo, ouve-os e lê-os com atenção, por opção própria, e, no fim, este procedimento de auto-lavagem-cerebral conduz a uma identificação com a mensagem que é muito robusta e eficaz.

 

A mensagem, repetida à exaustão por diferentes intérpretes, de modos diferentes e em diferentes canais de comunicação, inclusivamente discutida em debates artificiais, para esconder a sua natureza não contraditória, é incorporada com sucesso. Corpo acabado de pensamento único, a derradeira e superior forma de controlo das massas, apresento-vos: o politicamente correto.

 

O politicamente correto está em todo o lado, como entidade omnipresente na sociedade. Há alguns temas onde é perfeitamente evidente, nomeadamente no que diz respeito a grupos religiosos, étnicos ou sexuais. Se a conversa meter um negro, um cigano ou um gay reduz-se a meia dúzia de chavões e acaba rapidamente. Caso contrário, termina de forma deselegante. Porquê? Porque não se pode discutir. O que há para discutir sobre o tema já foi discutido (por alguém?) e encontra-se sistematizado no politicamente correto.

 

Com efeito, o politicamente correto é a censura dos tempos modernos, esvazia qualquer conversação e, nos temas que mais lhe importam, vem sempre acoplado de um rótulo insultuoso, ou com esse intuito, pronto a ser utilizado: “homofóbico”, “racista”, “ateu”, “comunista” ou “fascista” são bons exemplos. Cola-se o rótulo mais apropriado na testa do parceiro de conversa e, ato contínuo, termina-se o debate com vitória por KO. Não interessa a validade do argumento. Não interessa para nada. Isto é o politicamente correto.

 

Mas em tudo o resto também existe um politicamente correto. Existe um politicamente correto na política, por exemplo, que conduz o povo a votar sempre em partidos análogos. Existe um politicamente correto na educação das crianças, que nos está a brindar com a geração mais mal educada e irresponsável que este país jamais viu. Agora, até existe um politicamente correto face às tragédias que se traduz em inundar as vítimas de donativos, que é como se fossem esmolas, independentemente de serem necessários, desproporcionadamente, assim, por descargo de consciência, para no dia seguinte se deixar de pensar no problema e ficar tudo na mesma.

 

O problema é que, depois, há coisas que o politicamente correto diz que não batem muito certo com a realidade. Há coisas que o cidadão comum vê, estão ali, diante de si, e o politicamente correto não lhe diz nada sobre isso ou o que diz é desadequado. E depois há um tipo que mete o dedo na ferida e diz as coisas como elas são. Não interessa que não tenha bom senso, nem cultura, que seja grosseiro, que se esteja perfeitamente a marimbar para tudo isto e que apenas queira seduzir o eleitorado para chegar ao poder. Não importa nada. Como esse indivíduo quebra o politicamente correto e tem a capacidade de dizer que o rei vai nu, é o suficiente para se destacar do status quo hipócrita veiculado pelo politicamente correto e granjear reconhecimento popular.

 

Nós, sociedade, não discutimos os temas, não falamos abertamente dos assuntos, sem tabus, sem preconceitos, sem falsas vitimizações. E porque não discutimos, porque não refletimos, este processo vai transformando sucessivamente o politicamente correto para formulações piores, mais conservadoras, mais reacionárias e mais castradoras das liberdades.

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Amato

foto do autor

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D

Mensagens