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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Não percebo estas homenagens de palmas

por Amato, em 19.08.17

Não percebo estas homenagens de palmas. Não percebo, de verdade. Não é por mal.

 

Os outrora “minutos de silêncio”, minutos de pesar, de introspeção, de consternação e de respeito, têm vindo a ser substituídos gradualmente por minutos de palmas. Se no caso de um artista do teatro ou do desporto consigo entender a ideia como uma última salva de palmas terrena depois de tantas outras dadas em vida — vidas de palco, vidas de espetáculo —, no caso de atentados terroristas, de catástrofes naturais ou acidentes, de verdadeiras tragédias, não consigo perceber qual é o alcance de se brindar as vítimas com uma salva de palmas.

 

Um terrorista atropela treze pessoas nas ramblas em Barcelona; homenageia-se as vítimas com uma salva de palmas. Desculpem mas não entendo nem me parece apropriado. São os novos tempos e os seus novos conceitos.

Consequências lógicas do sistema

por Amato, em 16.08.17

As pessoas não entendem que isto não é por mais esta ou aquela lei, não é por mais polícia na rua, por mais guichets de serviços, pessoal a atender ou papéis para preencher. O que está mal é o sistema. O que está errado é esta filosofia que preside às sociedades humanas e que nos está tão entranhada desde o momento em que vemos a luz do dia e que somos formatados para sermos peões sobre este tabuleiro de xadrez.

 

As pessoas não percebem isto. Porque a lei não existe para sermos tratados por igual. Porque a polícia não existe para nos proteger por igual. Porque os serviços não existem para sermos servidos por igual. Porque os papéis não servem uma organização social que nos trata por igual. A lei, a polícia, os serviços e os papéis servem para proteger o dinheiro e quem o tem. Este é o seu singular propósito.

 

O problema está no sistema, na filosofia, no capitalismo. Nunca nos poderemos tornar melhores sob um sistema que nos trata como cães em disputa constante por uma mesma côdea de pão. Tudo o que vamos assistindo — crime, corrupção, injustiça, iniquidade — são meras consequências lógicas, expectáveis, do sistema.

 

As pessoas não entendem isto. É difícil de entender.

 

Mude-se o sistema, destrua-se o capitalismo e, então, poderemos ambicionar atingir um outro nível mais equilibrado, mais justo, mais democrático, moralmente mais elevado, mais avançado.

Retratos da democracia moderna

por Amato, em 15.08.17

Será que sou só eu que considera os pontos de situação diários sobre os fogos um espetáculo deprimente, algo ultrajante e, também, vexatório?

 

A política portuguesa, em linha com a internacional, terá ingressado em definitivo num género de espetáculo mediático com tanto de entretenimento, quanto de putrescência.

 

O importante não é a ação governativa. Não. O importante é o espetáculo que se monta. Ninguém assume responsabilidade de nada desde que o plano televisivo seja favorável e os comentários — por muito imbecis que sejam — abonatórios.

 

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Porque aquela senhora da proteção civil vem todos os dias pelas nove horas matinais à televisão descrever-nos como é que o país ardeu no dia anterior, como vai arder nesse dia e como se perspetiva que arda nos dias seguintes, porque se presta todos os dias a esse desonroso papel de nos informar de algo — o trabalho do governo, dos bombeiros e da proteção civil — sobre o qual não teremos qualquer responsabilidade, parece que o seu dever — prevenir e solucionar o problema dos fogos — fica cumprido e que larga um fardo sobre os nossos ombros, aliviando os seus próprios ombros do peso do seu dever. É como se o dever primordial das autoridades fosse aquele briefing e não o que está a montante do briefing. Com o passar do tempo, acreditamos que sim.

 

Neste país até as coisas mais rudimentares parecem estar a funcionar ao contrário. O exercício da responsabilidade assume hoje uma sinuosa natureza. Hoje em dia é mais importante um briefing sobre o dever do que o dever propriamente dito. Será isto parte do conceito de democracia moderna? Lamentavelmente, esta democracia moderna tem muito pouco de avançada.

Silly season — a façanha

por Amato, em 14.08.17

Em 1998 Donald Trump terá dito, a propósito de uma possível candidatura à Casa Branca, que se se candidatasse, fá-lo-ia pelos republicanos. É que, segundo ele, constituíam o grupo mais estúpido de votantes, que se acreditavam em tudo o que a cadeia de notícias Fox News dizia, mentiras incluídas.

 

If I were to run, I'd run as a Republican. They're the dumbest group of voters in the country. They believe anything on Fox News. I could lie and they'd still eat it up. I bet my numbers would be terrific.

— Donald Trump, 1998, People Magazine

 

Quando sou literalmente assaltado pelas sempre extensivas e pormenorizadas coberturas mediáticas da Festa do Pontal, pergunto-me se Pedro Passos Coelho e o PSD não estarão em proporção para Donald Trump e para o Partido Republicano. É como se não existisse memória. É como se fossemos todos peixinhos de aquário para os quais quase tudo é novo a cada instante.

 

Entretanto mudei rapidamente de canal e perdi o paralelismo sem interesse.

 

Todavia, gostava de ver as televisões, os jornais, os comentadores, tentarem a inédita façanha de colocar um burro, um asno mesmo, uma besta sobre quatro patas, na posição de primeiro-ministro deste país. É que eu acho que conseguiam! E o povo aplaudia! A sucessão histórica no cargo também concorre para o meu otimismo. É só mais um pequeno passo! Coragem e perseverança!

 

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Matam a Caixa nos Paços do Governo! Acorrei à Caixa que a Matam!

por Amato, em 07.08.17

Tomei de empréstimo uma citação da Crónica d'el-rei D. João I, o Mestre de Avis, Matam o Mestre nos Paços da Rainha! Acorrei ao Mestre que o Matam!, para começar este relato que me enche de tristeza e de preocupação pelo meu país.

 

O processo que está em curso, a todo o vapor, na Caixa Geral de Depósitos é de uma gravidade tremenda. Todavia, o país não parece perceber bem o que se está a passar.

 

Até ao final deste ano civil uma substancial parte dos clientes do banco público de Portugal mudar-se-ão para outros bancos. A razão é simples: as absurdas comissões que a Caixa vai começar a cobrar a partir de setembro a todos os clientes, mesmo àqueles que têm o seu salário domiciliado na Caixa.

 

Muitas pessoas já começaram a fechar as suas contas no banco público e este mês de agosto promete ser muito movimentado. As transferências para outros bancos onde tais comissões não são cobradas multiplicam-se. Contudo, é de esperar que uma maior percentagem, menos informada, tome essa decisão uma vez que comecem a ser cobradas as comissões mensais a partir de setembro.

 

Nos próximos tempos a Caixa Geral de Depósitos, outrora um banco forte e de confiança, converter-se-á num banco minimal, servindo apenas uma parte dos reformados, pronto a ser absorvido por um Santander qualquer e a desaparecer do mapa, cumprindo-se assim o ansiado desígnio da direita.

 

Não é irónico que o PS tenha sido o elegante carrasco da Caixa. Não é nada irónico. O PS está, como sempre esteve, ao serviço do grande capital e dos seus objetivos. O que é irónico é que o tenha feito com o apoio de Bloco de Esquerda e de Partido Comunista Português. Nem adianta invocar as diferenças que existem entre estes partidos. Se o PS — que até foi resgatar o cacique do outro governo, Paulo Macedo, para levar a cabo a empreitada — logrou cumprir o desmantelamento da Caixa Geral de Depósitos, fê-lo porque BE e PCP assim o permitiram. E acrescento ainda o seguinte: de pouco valerão as expectáveis manifestações populares organizadas por estes partidos para que a Caixa não feche. As roldanas já foram postas em movimento. O processo de raquitização do banco público é virtualmente irreversível.

 

Mas se algumas pessoas já começam a ver com clareza o que parece ser inevitável, a verdade é que poucos percebem a gravidade da situação. O estado português vai perder o seu banco público. O estado português vais perder a sua única ferramenta de intervenção na banca e uma das poucas que ainda tem para agir sobre a economia do país. Tal situação é impensável em qualquer país soberano. Absolutamente impensável! Mas é para aí mesmo que caminhamos, para um estado sem gota de soberania, um não-país, um lacaio declarado da Alemanha e do diretório de potências imperialistas mundiais onde o dinheiro e o poder se conserva e se multiplica.

Não seja um verbo-de-encher

por Amato, em 07.08.17

A vida tem coisas curiosíssimas. Ainda há três dias comentava com um amigo o quão repulsivo considerava o Jornal i pela sua vocação profundamente reacionária, pela ausência permanente de um mínimo de contraditório, pelos conteúdos absolutamente enviesados do ponto de vista político, embebidos de uma ignorância crónica.

 

Parece que quanto mais cedo tivesse eu tido esta conversa, mais depressa teria surgido este brilhante artigo de opinião. Eu, “antidemocrata” me confesso é um texto de Nuno Ramos de Almeida que aborda concretamente a situação da Venezuela mas fá-lo com uma clarividência e com um bom senso notáveis. Coloca as coisas em contexto: compara o que por lá se passa e o que se diz sobre o que por lá se passa com o que se passou também aqui em Portugal no período revolucionário e o que a imprensa também dizia sobre isso; mas também compara o presente com o passado recente da Venezuela. Baseia-se em factos tão claros que os de boa memória abdicarão do seu direito de confirmação. Do início ao fim, trata-se de um texto belíssimo.

 

De seguida, destaco algumas partes que considero importantes.

 

Adorei a bofetada intelectual dada na insciente face de Francisco Assis (de cada vez que abre a boca, sinto que uma destas é necessária):

Embora o termo democracia esteja enevoado pelas meninges dos Assizes desta vida, democracia quer dizer “poder do povo”. E este só consegue ter poder quando oitenta por cento dele não está na miséria.

 

Sobre a Venezuela antes de Chávez:

Pouco anos depois na Venezuela, em 1989, a população pobre de Caracas revolta-se contra as medidas ditadas pelo FMI e impostas pelo governo de Carlos Andrés Pérez, político da Internacional Socialista. As medidas seguem o chamado “Consenso de Washington”, com redução dos gastos sociais, privatização de empresas públicas e desregulamentação do mercado laboral, aumento dos produtos de primeira necessidade.

 

(...)

 

O país vivia numa imensa miséria com 80% da população abaixo do limiar da pobreza. Nesse dia 27 de fevereiro de 1989, o presidente suspendeu os artigos das Constituição que garantia as liberdades democráticas e mandou a tropa disparar. Segundo os números oficiais morreram 277 pessoas. Segundo observadores independentes e organizações de direitos humanos, mais de 2000 pessoas foram assassinadas, muitas delas depois de terem sido presas e torturadas pelas forças da ordem.

 

O país (...) vivia supostamente em democracia há mais de 31 anos. Mas grande parte da população estava excluída de facto do processo democrático. Não tinha nem voto no que faziam os governos, nem tinha direito à vida. O país tinha uma espécie de rotativismo, entre partidos ditos de centro esquerda e centro direita, que garantiam o poder das elites do costume, e sobretudo os negócios das grandes companhias petrolíferas estrangeiras. Tudo estava bem para a Europa e os EUA.

 

Sobre a Venezuela de Chávez:

A subida ao poder de Hugo Chávez, eleito em 1998, e tomando posse em 1999, veio alterar os dados da situação. O novo poder colocou a companhia petrolífera nas mãos do Estado e usou os rendimentos desta para fazer um conjunto de programas sociais que permitiram às populações dos bairros pobres aceder à saúde, educação e saírem do limiar da pobreza. Esta política de redistribuição dos petrodólares, não alterou a estrutura de propriedade de poder económico do país, mas retirou dezenas de milhões de venezuelanos da pobreza e permitiu que muitos deles começassem a participar no processo político.

 

E a evidência que parece que não importa ou que não existe:

Em 20 eleições democráticas realizadas, os chavistas ganharam 18. Grande parte com enormes vantagens. Nas restantes duas, Chávez foi derrotado com margem mínima num referendo para um novo texto constitucional que pressupunha a possibilidade de voltar a candidatar-se, e, mais recentemente, Maduro, depois de ter ganho as presidenciais, num país em que o poder executivo é do presidente, perdeu as eleições legislativas em que o PSUV teve 41% e a oposição do MUD, 56%.

 

Sobre o papel da comunicação social no processo:

Este processo conta com uma autentica campanha mediática, que tem muito pouco a ver com jornalismo, cujo objetivo é multiplicar o número de mortos entre os manifestantes e esconder os atos de violência da oposição. Só assim se percebe que a maioria dos jornais espanhóis publiquem a fotografia de uma explosão, dizendo que é violência chavista, quando foi um atentado numa esquadra. As televisões afirmem que foram assassinados candidatos, “esquecendo-se”, que eram chavistas que se candidatavam à Constituinte. Que a comunicação social não divulgue notícias sobre chavistas queimados vivos por opositores. E que os média garantam que os números da consulta popular realizada pela oposição são verdadeiros, sem que os registos dos votos e cadernos eleitorais sejam públicos, enquanto contestem a legitimidade da eleição da Constituinte, dizendo-a ilegal, sem se darem ao trabalho de ler o artigo 348 da Constituição, que a regulamenta.

 

Destaco também o parágrafo final:

Aquilo que os EUA e as oligarquias locais e mundiais contestam na Venezuela não é serem dirigidas por um incapaz, ou até o crescente autoritarismo do governo de Caracas: os EUA e os seus aliados europeus dão-se muito bem com regimes, como o da Arábia Saudita, que condenou, recentemente, à morte 14 pessoas pelo crime de se manifestarem contra a monarquia, e onde não há nem oposição, nem órgãos de comunicação social contrários ao governo. O que esses poderes mundiais nunca perdoaram ao chavismo foi a tentativa de promover uma maior igualdade económica e colocar os pobres no centro da ação política. É isso que é imperdoável para quem manda neste mundo. Como disse Assange, se a Venezuela tivesse a constituição da Arábia Saudita, tudo estaria bem para Washington e o petróleo em “boas mãos”.

 

Termino este post com uma nota. As últimas publicações deste blog não têm como intenção que não se debata o que quer que seja. Antes pelo contrário. O objetivo destas publicações é informar o leitor e dizer-lhe, muito claramente, o seguinte:

 

É uma opção sua dizer o que diz e defender o que defende. Faça-o porque realmente acredita no que diz. Não o faça por ser um papagaio da burguesia que controla os países, os jornais, o poder económico e o poder político. Assuma-se. Não seja um verbo-de-encher.

Lavagem cerebral da melhor

por Amato, em 05.08.17

Deixo aqui uma pequena contribuição para colocar em evidência a campanha de lavagem cerebral levada a cabo pelos media burgueses na Venezuela e que têm eco em todo o mundo, Portugal incluído. Cortesia da página do facebook Café Central.

 

Chamo a atenção para a segunda fotografia. Chega a ser hilariante. Rocky Balboa!

 

Os olhos veem o que querem ver. Se o que veem corresponde à realidade, isso é pura coincidência. Lavagem cerebral da melhor.

 

#1:

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#2:

https://scontent.fopo1-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/20526036_1769200169774208_6775386463600321704_n.jpg?oh=4b60db8d2a7797f92c18f11f89f10ffb&oe=59FB7A68

 

#3:

https://scontent.fopo1-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/20620775_1769200139774211_1043245135521185806_n.jpg?oh=4f4d989a8d05282b67dac6d32854b6e6&oe=5A39172F

 

#4:

https://scontent.fopo1-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/20663657_1769200216440870_5691827875689946947_n.jpg?oh=05d12e8408f688c33555c5a5efeb6efc&oe=59FAF3FD

 

#5:

https://scontent.fopo1-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/20597095_1769200263107532_5964967163000482441_n.jpg?oh=bb19b3269d92b63c9fdfda0f0a0aeeb3&oe=59FFDEAC

 

#6:

https://scontent.fopo1-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/20604363_1769200269774198_7014139074058963769_n.jpg?oh=e5df0f9e809ddd7570f2e666c8060cb4&oe=59FE775D

 

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