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Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

Porto de Amato

Porto de Amato, porto de abrigo do filho de Héracles

O acervo da realidade

por Amato, em 01.12.17

Fechado mais um orçamento de estado deste governo, resulta transparente a ideia central que tem vindo a ser veiculada neste blog: a esquerda, PCP e BE, troca o seu apoio parlamentar por um punhado de pequenos ganhos centrados, sobretudo, no setor público do estado, funcionários públicos e pensionistas, bem entendido. Código de Trabalho, condições de vida e de trabalho dos trabalhadores não públicos, rendas e benesses aos grandes grupos monopolistas da economia e dos recursos nacionais, são dossiês que, com efeito, não sofrem uma alteração que seja ideológica, e é melhor não nos debruçarmos muito sobre o tema ou arriscamo-nos a descobrir alguma surpresa desagradável da qual não nos tenhamos dado conta, ainda. Sejamos muito claros: a influência da esquerda nesta governação não toca, tão pouco superficialmente, em absolutamente nada que seja estrutural. PCP e BE comportam-se como pedintes de mão estendida, agradecendo ao seu senhor a migalha de pão que este lhes dedica e parecem não ter a consciência do poder substancial que detêm e que lhes permite, qualquer um deles individualmente, fazer o governo cair.

 

Neste ponto, deixo um aviso à navegação. Leiam as palavras que escrevo com atenção para que delas não sejam extraídas conclusões erradas. Quem acompanha este blog sabe bem que eu nunca fui um opositor desta solução governativa e não deixo de lhe reconhecer méritos importantes. Entre outros, foi importante para travar o ímpeto legislativo neo-liberal que avassalava o país e para mostrar à sociedade que, quer PCP, quer BE, se podiam assumir ativamente como partidos de solução governativa, quebrando o preconceito político instalado em sentido contrário. Não obstante, a gestão que tem sido feita da “coisa” deixa muito a desejar e é contra isso mesmo que me revolto.

 

Em primeiro e em último lugar, vamos à realidade. Neste mundo completamente dominado pelo virtual, pela contaminação da mentira e pelo culto da propaganda elevados a níveis estratosféricos, nunca antes experimentados pelas sociedades humanas, diga-se, o apuramento do acervo da realidade revela-se um exercício de vital importância, nem que seja tão somente pelo resgatar da nossa própria sanidade mental dos grilhões de tão demente sociedade.

 

Se enveredarmos por este exercício honesto, a verdade é que, em abono deste governo não resta muito mais do que os fantasmas do governo anterior, o receio pelo que poderia ter existido, o medo, em estado puro, do desconhecido. Porque assim é, temos permitido que este governo, tendo parado a aceleração neo-liberal no país, prosseguisse a velocidade constante e firme esse mesmo caminho neo-liberal traçado anteriormente e não ousamos dizer nada, nem apontar qualquer dedo na sua direção, com medo do retorno de alguma imitação mais ou menos grosseira de Passos e de Portas.

 

Como disse anteriormente, nada de substancial ou estrutural foi beliscado no país; impostos de natureza extraordinária foram efetivamente substituídos por impostos de caráter permanente; orçamentos de estado conservadores, recessivos e anti-constitucionais foram substituídos por orçamentos de estado mentirosos alicerçados na cobardia e na baixeza política das cativações orçamentais. Não há ninguém que seja intelectualmente honesto, e que não seja um pensionista ou um funcionário público, que possa defender que o Portugal de hoje é melhor que o de ontem. Não há ninguém que consiga afirmar que a escola pública está melhor, ou que os centros de saúde ou os hospitais funcionam hoje melhor do que ontem. Não há ninguém que possa dizer que no seu trabalho dispõe de melhores condições ou de mais estabilidade, nem que, ao fim do mês, lhe sobre mais dinheiro do que sobrava no passado. É verdade que já não paga sobretaxa de IRS, mas está a pagar o litro da gasolina a quase 1,60 euros, entre outras taxas encapotadas de que nem dá conta, ao mesmo tempo que se vê empurrado para fora da sua cidade por causa do arrendamento turístico.

 

O país está melhor, afirmam os cartazes de propaganda governamental, e é verdade que está, porque há mais emprego e mais dinâmica económica, mais dinheiro a circular. Mas quanto disso é responsabilidade deste governo?

 

Quanto?!

 

Um crescimento suportado por um contexto de crescimento de todos os países da zona euro, dinamizado sobretudo pelo turismo e secundado pelo consumo e endividamento interno crescentes no país, denota que a influência governativa neste ciclo positivo é relativamente diminuta. Sejamos sérios: todos estes sinais já vinham a ser dados com o anterior governo e o mais certo é que, quando o ciclo económico fizer o pino, a nossa cada vez mais frágil economia, tão dependente do exterior — dos credores e dos agiotas, dependente do turismo e completamente terciarizada —, será afundada, uma vez mais, como a pobre embarcação que é, à deriva no imenso oceano da dívida, sem rumo e sem nenhuma ideia do que quer para si própria.

A política portuguesa está estranha

por Amato, em 19.11.17

Confesso que me sinto confuso com o Portugal político contemporâneo. No passado, a esquerda não tinha força política parlamentar. O poder esteve, desde as primeiras eleições livres após a revolução de 74, entregue aos partidos do chamado arco da governação, PS, PSD e CDS, que, com diferenças pontuais de estilo, muito subordinadas, aliás, às lideranças que neles pontificavam, guiaram o país por um mesmo caminho. Esse caminho que se faz longo na poeira dos nossos passos coletivos é o caminho da liberalização da sociedade.

 

Os teóricos de direita vociferarão contra a factualidade deste ponto e, em parte, terão razão. O objetivo não é a liberalização total, ampla, generalizada. O objetivo não é um capitalismo puro e selvagem, mas antes um capitalismo de estado, um capitalismo em que o estado se constitui como simultaneamente o advogado e o juiz de um corpo só dos interesses da classe burguesa. O problema é que a razão destes teóricos de direita só encontra sustentação na sua própria teoria económica que é assim uma miscelânea de conceções ilusórias, axiomas débeis e enviesados e matemática medíocre. Não há, com efeito, um único exemplo de capitalismo que não possa ser qualificado como capitalismo de estado. E quando temos dúvidas sobre estas questões, devemos olhar diretamente para os Estados Unidos da América, que é o melhor exemplo de um país estruturalmente cristalizado para proteger os interesses das suas multinacionais burguesas. O presidente dos Estados Unidos da América consegue mais facilmente lançar um míssil sobre um outro país para garantir uma reserva de óleo do que passar uma lei sobre a educação ou sobre a saúde dos americanos.

 

Mas afastei-me da minha linha de raciocínio. No passado, a política em Portugal era simples: o rebanho governamental estava entregue aos lobos da direita, tivessem eles melhores ou piores vestes de cordeiro. À esquerda restava a rua. Melhor: ao Partido Comunista Português restava a rua.

 

É bom lembrar que o Bloco de Esquerda é um fenómeno recente que, ainda hoje, volvidos dezoito anos após a sua formação, mantém uma ligação ao povo pouco mais que vestigial. Neste ponto, atacam-me os bloquistas apontando para a maior expressão parlamentar do seu partido face ao PCP e têm razão. A política portuguesa está a mudar, está estranha. Como pode um partido que não tem uma freguesia, quanto mais uma autarquia, em todo o território nacional ter a expressão que o Bloco tem a nível parlamentar? É estranho. Como digo, a política está a mudar e o Bloco tem lucrado com isso. Será essa mudança sustentável? O passado sugere que o eleitorado do Bloco é pouco sólido, flutuante, que se baseia num protesto pouco refletido e muito condicionado à situação atual e, portanto, de natureza egoísta. Com Francisco Louçã, por exemplo, um político e parlamentar muitíssimo mais capaz do que Catarina Martins, o Bloco passou do oitenta para o oito de uma eleição para a outra, que é como quem diz, da noite para o dia. Podia ensaiar duas ou três explicações para o fenómeno, sendo que a minha preferida é a inconsistência ideológica aberrante do Bloco de Esquerda de cuja origem trotskista atinge, no mundo contemporâneo, a mais refinada versão. Tenho consciência, porém, de que qualquer ensaio de explicação esbarraria na realidade que é a absolutamente insondável vontade das massas. Não há lógica que resista a essa parede que é a realidade e que nos surpreende a cada esquina.

 

Perdi-me novamente, peço desculpas. É que esta problemática é complexa e é difícil expor o que penso com clareza sem dispersar-me. Servia isto para dizer que, incluir o Bloco de Esquerda nos movimentos das massas, na dinamização da rua não é muito relevante. O Bloco não tem rua, só tem parlamento. Como dizia, ao Partido Comunista restava a rua, as organizações de trabalhadores, o movimento sindical. A rua era a forma de o Partido se fazer ouvir, de dar voz aos trabalhadores, ainda que estes, em maioria, não a quisessem ter. A rua foi a forma de contrariar a hegemonia da direita sobre a sociedade, de se garantir que alguns direitos permanecessem e que outros fossem conquistados ao ímpeto liberalizador dos sucessivos governos.

 

Mas hoje... Hoje o Partido Comunista tem voz no parlamento. Hoje o Partido Comunista é fundamental para que haja governo. Hoje o Partido Comunista pode estabelecer as regras do jogo, dizer por que é que troca o seu apoio parlamentar a este governo. E na verdade, fê-lo. Trocou-o pela defesa dos funcionários públicos e pensionistas e por um punhado de outras minudências. Para mim é muito estranho assistir à manifestação de ontem, àquelas palavras de ordem que conheço de cor. Aquilo que para mim era real, aquilo que era vivo, aquilo que era a força e luta legítimas e honradas de uma minoria política sem expressão parlamentar, porque era disso que se tratava e ainda se trata, resultou numa espécie de encenação que se faz porque se faz e porque se tem que fazer. O Partido Comunista Português assumiu definitivamente, neste quarto ano de mandato governamental, uma dupla face, um jogo duplo: no parlamento protege o governo e defende-o — o que ainda é o mais penoso de se observar — a troco de ganhos de classe minimais; na rua exulta os demais trabalhadores a lutarem pelos seus direitos, os mesmos que não são atendidos no parlamento nem considerados pela ação governativa.

 

Bem sei que há condicionantes importantes na ação do PCP e tenho plena consciência de que, acaso o PCP exigisse mais do governo, a coligação cairia no mesmo dia. Tudo isto é uma questão de estimar o peso relativo dos pratos de uma balança, de fazer a diferença entre os ganhos e os proveitos de uma solução de compromisso. Mas isso é uma outra história, a qual seria importante aprofundar, porque quando se parte para uma solução deste tipo — e foi o PCP que a criou — é preciso ter consciência plena no que é que se está a meter. Do que este texto trata é de outra coisa, é de uma questão de caráter e de identidade. Um partido que pede aos seus seguidores para lutar na rua por aquilo que os seus dirigentes não lutam com todas as suas forças e armas no parlamento é de todo em todo indecente. Não há outro qualificativo. E sim, não basta apresentar propostas de lei que se sabe que serão chumbadas pelo PS, pelo PSD e pelo CDS. E mais: assistir a isto tudo — já lá vão três anos! — e continuar a apoiar o governo é revelador de uma grande falta de respeito e de dignidade pelo partido e pelos seus militantes.

Duas razões para não escrever

por Amato, em 12.11.17

De vez em quando, recebo mensagens que perguntam porque não escrevo mais frequentemente. Em resposta a essas mensagens apresento, de seguida, duas razões essenciais.

 

A primeira é a ausência de tempo e energia para escrever tão frequentemente quão desejaria e porque, ao contrário do que os leitores possam imaginar, este blog não é o centro da minha vida, nem de perto, nem de longe. Existe uma grande quantidade de outras coisas que me despertam o interesse e eu acho que isso é também enriquecedor dos textos e opiniões que constam deste espaço.

 

Kasper Gutman, o famoso personagem do clássico de cinema noirA Relíquia Macabra (título original: The Maltese Falcon), dizia a Sam Spade, o detetive protagonizado por Humphrey Bogart, que desconfiava do homem calado, porque este geralmente escolhia a hora errada para dizer as palavras erradas. Para ele, falar não podia ser praticado de forma judiciosa, a menos que se falasse o bastante.

 

Escrever, como falar, tem que ser praticado de forma abundante para poder ser feito judiciosamente. Tendo a divergir, contudo, de Gutman num ponto: quem fala e escreve demais, a toda a hora e a todo o momento, tem propensão para produzir comunicações de pouco valor e para dizer o que não quer e o que é irrefletido. Não dando um passo atrás antes de falar, não dedicando uma boa dose de reflexão sobre os temas, nem empregando um olhar vasto, como um abraço à realidade em redor, é impossível emitir opinião em qualidade, em amplitude de contexto e de bom-senso.

 

Este é um problema bem visível, por exemplo, no nosso Presidente da República: um comunicador voraz, experimentado, constante e absorvente do espaço mediático, mas uma a uma, as suas intervenções são de um vazio retumbante. Não é por acaso que o Presidente fala, fala, fala muito, fala disto e daquilo, do atual e do passado, pronuncia-se sobre tudo mas, no fim de contas, ninguém sabe bem o que ele disse, nem sabe quais as consequências do que disse para a sua situação, ou seja, o que ele diz não interessa muito. O que fica para lá de todo o infindável jorro de palavras do Presidente é uma, e somente uma, única palavra, a palavra “afeto”, como um leitmotiv ensurdecedor de toda a controvérsia, de toda a discussão, de todo o debate, e, claro, os fonéticos e teatrais abraços e beijos que distribui pela população.

 

A segunda razão porque não escrevo tanto quanto desejaria é a falta de paciência para lidar com a repetição. Por exemplo, há um ano escrevi este texto sobre a Lisbon Web Summit que hoje poderia repetir aqui na íntegra. Passou um ano e a febre em torno desta tonteira, deste disparate megalómano de gente preguiçosa, incapaz e intelectualmente infértil ainda se tornou maior, mais demente, mais pestilente.

 

Isto é bem compreensível, na verdade. É a febre do empreendedorismo, daquela ideia falsa que o capitalismo tão bem sugere de que é possível fazer dinheiro a partir do nada, de necessidades artificiais, vendidas através de um website apelativo ou de uma app qualquer. No fundo, bem lá no fundo, é aquela ideia tão atrativa de que é possível triunfar fazendo de burros o resto da malta, impingindo-lhes necessidades que nunca tiveram antes, extorquindo-lhes rendas por esses serviços de que nunca antes precisaram, frequentemente com criação minimal de emprego e com domicílio fiscal no exterior. Para o estado, para o país, o retorno é próximo de zero, se excetuarmos, claro, as bebedeiras na hotelaria lisboeta por altura da conferência.

 

O reconhecimento da recorrência deste tipo de fenómenos afasta-me da sociedade. Sentir que, ano após ano, nada se transforma, observar o drama desta inércia faz-me não comentar e não escrever. E, por isso, não comento, nem escrevo.

 

Meio mundo virtual está agora em polvorosa com o facto de um jantar final inserido nesta Web Summit ter tido lugar no panteão nacional, a Igreja de Santa Engrácia. Não percebo esta febre de indignação. Simbolicamente, parece-me perfeitamente adequado. A Web Summit janta e defeca lado a lado com os restos mortais de alguns dos mais ilustres cidadãos portugueses de sempre, dando corpo literal à proverbial metáfora: somos um país de papalvos provincianos, sem vestígio de identidade nem noção de história.

Marcelismo da era moderna: a transformação silenciosa do sistema

por Amato, em 10.11.17

A cada aparição despropositada do Presidente da República, seja nos hospitais por causa da legionella, seja nas barragens a propósito da seca, seja nas localidades vítimas dos incêndios, Marcelo parece que diz: “Estes tipos — os do governo, os das instituições públicas, os médicos e os bombeiros — não são de fiar para fazer o que é preciso, mas não se preocupem, o Presidente está aqui para tomar conta do acontecimento. Se houver problema, a culpa é deles, mas estarei aqui para apontar o dedo.”

 

Bem vistas as coisas, o papel a que o Presidente se presta é de todo em todo indecente. Ao mesmo tempo que apoia o governo, tudo faz para o relegar para um plano secundário a roçar o desprezível. Faz tudo parte do plano de Marcelo: uma transformação silenciosa do sistema, que visa instituir um regime presidencialista, ainda que informal — até ver! —, no país. Depois dos ignóbeis cavaquismo, socratismo e passismo, quem diria que viria um marcelismo da era moderna tomar conta de Portugal, a reavivar o fantasma do padrinho do Presidente, o último ditador fascista assumido deste país?

Marcelo, o vaidoso sagaz

por Amato, em 05.11.17

Desde o anúncio da candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à presidência da República, foram feitas análises e previsões, traçaram-se cenários sobre cenários, baralharam-se hipóteses mais ou menos remotas e, cada uma delas, acabou por sair frustrada, derrotada pela história dos factos, caída na valeta do descrédito. Primeiro, espantaram-se com o incondicional apoio de Marcelo ao frágil governo que mal parecia equilibrar-se numa corda bamba de improváveis alianças. Depois, incrédulos, petrificados perante os raspanetes merecidos — mas que ninguém ousara dirigir — àquela criança mimada e mal educada, de mau perder e que se recusava emprestar o seu brinquedo, que então liderava o principal partido da oposição. Passos Coelho, com efeito, havia de sucumbir a um isolamento político construído pela hábil e paciente mão de Marcelo. Mais recentemente, Marcelo surpreendeu a opinião pública com um discurso duro e mais que justificado contra o governo e, do qual, se retirou uma demissão de uma ministra.

 

Porque é que todos os comentadores, todos os cenários, todas as previsões, ou quase todas, têm falhado ao longo desta primeira parte do reinado de Marcelo? A razão é o facto de ignorarem, ou pelo menos subestimarem, aquela que é a característica chave do personagem Marcelo Rebelo de Sousa: a sua vaidade.

 

Marcelo é um homem vaidoso. Quer ficar na história do país, quer ser reconhecido, quer ser grande aos olhos do povo por muito incapaz que seja ou por muito que nada faça de substantivo. Mas é este o seu desígnio que coloca acima de qualquer outra coisa, incluindo putativas lealdades partidárias. É isto que o define como homem, a sua vaidade poderosa, alicerçada numa experiência e sagacidade que não devem ser menosprezadas. Por isso, desde a primeira hora, Marcelo desmultiplica-se em viagens de estado e em ações mais ou menos estéreis, não rejeita uma aparição pública, reage a tudo o que mexe no país e não nega nenhuma entrevista, pelo contrário, promove-as. Com a sua ação, Marcelo sobrepõe-se ao governo, secundariza o primeiro-ministro, criando, sozinho, uma espécie de regime presidencialista informal. E é por isto mesmo que, para Marcelo e para a sua estratégia, não há nada melhor que um governo frágil.

 

Tivéssemos um governo forte de maioria absoluta e estas mesmas ações de Marcelo teriam um impacto reduzido à insignificância objetiva do seu cargo. Tivéssemos um governo forte e Marcelo seria um mero animador de telejornais, uma irrelevante extensão do comentador que foi durante os anos passados. Mas o governo que temos não é forte. Ao dar-lhe a mão, Marcelo capturou o governo na sua teia. Porque o governo precisava de todo o apoio que pudesse ter, deixou-se cair na armadilha. Paulatinamente, como dizia, a figura do Presidente foi-se sobrepondo à figura do primeiro-ministro e do seu governo. Hoje a palavra do Presidente vale muito. Mas amanhã fará tremer a sociedade.

 

Ao contrário do que se propala, não foi o duro discurso de Marcelo que fez com que a ministra se demitisse. Aliás, também aqui, neste ponto, se atesta a profunda sagacidade do Presidente. Marcelo sabia de antemão que a ministra se iria demitir e, precisamente por estar consciente disso mesmo, produziu aquele discurso duro e crítico relativamente ao governo. Se Marcelo tivesse falado e nada tivesse acontecido, a sua autoridade teria saído enfraquecida, a sua palavra cairia na insignificância. Assim, falou sabendo o que iria acontecer para induzir no povo uma ideia de causalidade entre discurso e demissão. Porque não falou Marcelo após Pedrógão? Porque não falou semanas antes? Não falou nesse nem noutros momentos, porque esperava o momento certo para produzir o efeito que pretendia.

 

Com isto, a palavra de Marcelo valerá muito mais no futuro. Desengane-se quem se apressa a adivinhar a queda do governo num futuro próximo. Marcelo aguentará este governo o máximo de tempo que conseguir. Marcelo precisa deste governo por ventura mais ainda do que este governo precisa do apoio de Marcelo. Não há governo que dê a este Presidente tanto em protagonismo, em relevância política e em poder quanto este. E quando vier um novo governo, Marcelo não será já a frágil figura que era quando assumiu o cargo. Atente-se nas palavras temerosas de Santana Lopes e Rui Rio para com o Presidente. Eles também estão conscientes de que o próximo governo nascerá dos restos mortais deste, amordaçado na teia habilmente tecida por Marcelo Rebelo de Sousa ao longo destes tempos.

 

Não se esqueçam: Marcelo não se move por nenhum interesse vulgar e comum a tantos outros presidentes e chefes de estado. Neste sentido, Marcelo é absolutamente incorruptível. Tudo o que fará terá que ser compreendido tendo em consideração o seu objetivo fundamental: o máximo reconhecimento por parte das massas. É a isto que Marcelo é profundamente devoto. Presidente dos afetos? Não, isso é música para embalar o povo.

 

https://www.tribunaalentejo.pt/sites/default/files/styles/article_teaser/public/field/image/ased.jpg?itok=fTjOi07X

 

Os incompetentes não chegam ao poder sozinhos

por Amato, em 27.10.17

Nesta semana o CDS apresentou uma moção de censura ao governo com base nos lamentáveis e dramáticos resultados dos incêndios deste ano. A moção é totalmente justificada e o governo — a sua incapacidade, a sua incompetência — merece toda a censura que é possível tecer. Que esta moção de censura seja esgrimida pelo CDS e pela sua líder Assunção Cristas, isso já é outra história.

 

Enquanto ministra da agricultura e das pescas, Assunção Cristas encarnou o papel da lobista ativa do setor da pasta de papel e da plantação do eucalipto, tendo tido outras responsabilidades diretas na organização da floresta e do território. São absolutamente inequívocas as responsabilidades de Assunção Cristas, enquanto imediatamente anterior ministra, nos fogos deste ano que este governo teve que enfrentar.

 

Pergunto-me como é que a sociedade dá tanto crédito a este CDS e a Assunção Cristas. Não percebo qual a razão que leva as televisões e os jornais a estarem constantemente a dar tempo de antena a um partido com estas inconsistências. Quando era ministra da agricultura, em 2012, Assunção Cristas dizia que ia rezar para que chovesse. Era esta a sua proposta para solucionar o problema da seca que assolava então o país.

 

Se um dia Assunção Cristas chegar ao poder, que não haja histerismos, que ninguém se espante. A sociedade em peso está a contribuir para isso há já algum tempo, desprezando completamente os erros crassos que vão sendo cometidos pela pessoa e a sua incompetência gritante. Os incompetentes não chegam ao poder sozinhos. Levamo-los ao colo.

 

http://maisguimaraes.pt/wp-content/uploads/2017/03/24115015_20461812-1060x594-1038x582.jpg

 

Duas perguntas, uma constatação e uma premonição

por Amato, em 17.10.17

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O que é preciso acontecer para a ministra da administração interna demitir-se?

 

Será que também vai comover-se desta vez?

 

É nestes momentos que vemos como somos um país de faz-de-conta.

 

Tanta falta de responsabilização vai acabar mal, um dia...

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